Reticências

“Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre…
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir…
Produtos românticos, nós todos…
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura…
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida…
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema…
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra…”

Álvaro de Campos,

Julian, o russo

“Você poderia, por favor, passar esse leite e esse chocolate para mim?”

O pedido veio de um homem grisalho, barbudo, com a pele bastante judiada do sol. Ele usava roupas bastante surradas e falava com um sotaque carregado, que eu mal percebi pela surpresa da intromissão.

Estava na fila do caixa de um mercado aqui pertinho de casa e já era noite. Pelo menos, fazia-se noite. Em São Paulo, como os paulistanos sabem, as ruas são porcamente iluminadas. Mesmo em um bairro de classe média, como o meu. Passei as compras dele com prazer, porque comida e água, ensinou mamãe, não se nega a ninguém. Na saída do caixa, enquanto começava a passar as minha compras – passei as dele primeiro -, ele me agradeceu com um “Thanks”. Ao que minha imaginação chegou à estratosfera e voltou em cinco segundos. “Be welcome”.

Sorri e suspendi o contato facial, para mostrar que nossa história terminava ali. Por mais que ele me pusesse curiosa, eu sou menina e tenho medo, muito medo da misoginia traduzida em atos que anda à solta em noites escuras de verão. Ele sumiu, eu suspirei aliviada e segui a vida.

Uma quadra depois, me senti perseguida. O fudeu mental foi seguido de uma astúcia nunca antes produzida em tal velocidade: parei bem em frente a um bar e o encarei. “Pois não?”. O que se seguiu, crianças, é um mistério de aguinaldo silva que jamais vou conseguir resolver.

Em inglês, ele disse que era um imigrante russo em busca do seu filho, que havia sido sequestrado por um policial civil brasileiro em viagem à Rússia. Hein? Ele estava há cinco anos no Brasil, entre Brasília e São Paulo, tentando retomar contato com o menino, mas esse cara era muito perigoso e estava, agora, tentando acabar com a vida dele. Não riam, mas a riqueza de detalhes oferecida era tamanha que me comovi, ainda que descrente. “Mas você não procurou a Justiça? A imprensa? Você tem provas disso?”. Ele disse ter, mas disse que elas estavam nos autos do processo ao qual ele não conseguia mais ter acesso porque o tal policial tinha muitos contatos e conseguiu parar com o andamento do processo. “They are a gang. A dangerous one”.

Seguimos por pelo menos meia hora nessa contação de histórias. Ele, um ex-imigrante russo nos EUA que havia deixado seu filho com uma prima que havia vendido a criança a um policial brasileiro. E eu, uma menina de coração puro que não duvidava da dor de um pai que só queria ver o filho pela última vez e contar a ele toda a verdade.

“Você tem algum contato? Posso pensar em alguém que possa te ajudar. Tenho amigos no MRE e na imprensa e se você tiver provas, eles poderiam investigar sua história”. Ele sacou o celular, procurou o número e me passou. Seu nome? Posso anotar seu nome? “Julian. Julian F&¨*&%&”. Rrrrú-lhiãm. Assim, cantado.

Esperei ele se afastar enquanto fiquei imóvel pensando em seu único pedido de ajuda, a mim dirigido (afora o leite e o chocolate, claro): um par de lentes de contato.

A gente nunca mais se falou.

ideiafixa

do sempre genial, phD Comics

back to 11

Desde quando me tornei ‘mocinha’ passei a me preocupar com minha aparência. Que roupinha vestir, que sapato usar, qual tiara com o frufru da Pakalolo combinar com o uniforme verde-musgo da escola. E daí pra quase anorexia. Cinco fucking years de dieta, de contagem de calorias, de sacrifícios extremos como “nada de coca-cola” e “nada de chocolate” por sei lá quantos meses e anos a troco de promessas – que deveriam ser pra emagrecer ou pro mocinho loirinho de olho claro metido a galã da escola se apaixonar por mim.
Até que um dia, depois de me flagrar cheirando um papel de chocolate, um ‘tio’ querido-mais-que-querido, que estava sofrendo os efeitos da última quimioterapia, me convenceu de que aquilo tudo era uma grande bobagem. Ele vivia seus últimos dias sem poder desfrutar dos sabores que mais apreciava e me senti envergonhada de forjar um sacrifício alimentar perante a ausência de doença que me impusesse restrições severas. E passei a me fartar, de maneira saudável, de todos os sabores possíveis.
Hoje, depois de todo esse aprendizado, fui parar em uma clínica estética. Depois de uma crise de imagem glútea, comprei um pacote de drenagem linfática, desses sites de compras coletivas, e resolvi testar a tecnologia exterminadora de celulites. Entrei, recebi a massagem relaxante e, ao fim da sessão, quando me sentia completamente bela e leve, recebi o severo diagnóstico de que o grau dos buracos das minhas pernas era alto demais pra ser tratado com a força das mãos. “Cellutec! 10 sessões na promoção, em 5X”. E eu voltei a ser a menina da crazy diet e quase me endividei pra voltar a ter a auto-estima roubada pelo julgamento estético. Back to 17. Em eterno looping…

água

sempre que travo, em um texto, corro pro chuveiro. não há nada que me acalme mais do que água [quente] corrente. ultimamente, tenho recorrido muito a esse expediente. mas esse blog permaneceu em branco.

acho que agora, em um desses banhos, entendi porque. eu não me comprometi a falar de política, economia, moda, culinária, fotografia ou qualquer outra coisa. as letras escorreram por aqui como as amorinhas que brotam das árvores, depois da florada. era tudo e sempre uma tradução da vida. da minha vida, claro, e da maneira que eu a experimentava – com todos os sete [SETE] sentidos. daí eu falar de política, economia, moda, culinária, fotografia. daí o silêncio.

o silêncio. nesses anos de amora, me apaixonei, defendi um mestrado, entrei num doutorado, casei, mudei pra londres, ganhei uma bolsa sanduíche, voltei pro brasil, vim morar em são paulo, fiz mil frilas, perdi uma grande amiga e… e agora é trabalho. e nas minhas angústias com a tese, com a vida depois da tese, com o dia da defesa da tese, não me sobra nada. só a água corrente e a saudade desse cantinho, tão quentinho, que eu inventei pras coisas bonitas, tristes ou felizes, da minha vida. tô regando pra nascer a florada. daqui a pouco, muito pouco, espero, já vai dar pra esparramar as frutas.

=*

insensibilidade

polemizo, logo existo. porque é preciso ter uma opinião formada sobre tudo e defendê-la a ferro e fogo.

eu não aguento mais, mesmo. a agressividade das palavras, a virulência dos argumentos, a irrazoabilidade das medidas. acalmem-se. aquietem-se. pensem mais, falem menos. escrevam menos, bem menos. não comprem as metáforas. não é preciso seguir a velocidade dos bites. eles são o instrumento, não a forma. acalmem-se. aquietem-se. que o que a gente mais precisa é de compreensão [das coisas, dos fatos, dos sentimentos].

eu não debato mais em facebook. não discuto mais em mailing list. não bato boca no twitter. quero mais razão. mais tempo pra somar. mais sensibilidade…

torpor na boca do estômago. não é gastrite. nem ressaca. é um enjôo de tudo o que intuí errado. não porque queira estar certa sempre. só não gosto de me arrepender, especialmente quando é me arrepender de não dar mais carinho. por preguiça. por pura preguiça e avareza. não demora a me dar o click de que a vida cobra quando te joga na cara tudo o que você não viveu. o tempo é cruel. não perdoa mais de uma vez e eu tenho medo de ter subestimado essa máxima – que eu mesma inventei por culpa, muita culpa…

A Usp, os legalismos e o medo

Eu já estava no ponto de ônibus que ia me levar ao 91º DP quando minha família me ligou me pedindo pra não ir. “Não vá. Está perigoso”. Eu, que sempre desobedeço, resolvi respeitar o medo e compartilhar isso com vocês, porque achei que era uma história que deveria ser contada. E já.

Eu ia à porta da delegacia juntar minha voz ao coro dos protestos que pedem a libertação dos estudantes da USP que foram presos hoje cedo por ocuparem a Reitoria. Eu ia pro-tes-tar. E me pediram para não ir. Não porque não concordassem com a minha causa, com o meu sentimento. Mas porque têm medo da reação que a polícia pode ter aos protestos.

Compreendem a perversidade da ação da Polícia Militar agora?

Os homens e mulheres que foram presos hoje ocupavam a Reitoria como um protesto político, concordemos ou não com essa estratégia de luta. Concordermos ou não com a sua causa. Pois mesmo que a miopia de muitos (incluindo a deles próprios, que levaram sua causa à ação direta no pior timing da história do movimento estudantil) leve a acreditar que eles ocuparam a Reitoria porque queriam defender o uso da maconha na USP, eles não estariam necessariamente errados. Estariam protestando contra a política anti-drogas que vigora no país. Um protesto político, pois, como a Marcha da Maconha, queridinha dos modernos progressistas que agora querem ver esses jovens linchados.

Por isso, não me venham com legalismos. Movimentos sociais não ocupariam prédios vazios do centro da cidade de São Paulo se fossem obedecer às leis. Não ocupariam terras improdutivas se fossem obedecer às leis. Eu, você, sua mãe, sua família, seus vizinhos sequer votariam se pessoas não tivessem saído às ruas, seqüestrado embaixadores, se organizado em guerrilhas e desobedecido às leis em vigor.

Crime, meu caro, é não compreender que a desocupação da Reitoria com a prisão dos estudantes é uma repressão política. Uma repressão que agora ecoa no medo dos meus familiares e amigos, que temem que minha voz na porta da delegacia termine num habeas corpus ou em um leito de hospital.

É triste demais…

.amor é comida.

eu acho que carinho é uma mesa cheia de sabores. ou só dos sabores que você aprecia e que só sua vó, sua mãe e sua tia sabem. eu me sinto amada com rosca doce feita em casa ou biscoito de polvilho e linguiça do bar. eu sei que ela pensou em mim quando tem nhoque feito em casa, torta de frango ou palmito, lasanha sem presunto e pudim de leite. eu fico feliz quando tem sorvetão, bolacha de nata com canela e sopa de legumes com queijo branco feito no sítio. e eu só fico mesmo em paz depois de provar uma dúzia de bolinhos de chuva durinhos e crocantes, sem massa crua dentro.

.comida é amor.

loneliness

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