chupa IPEA
No começo deste mês, o jornal gratuito daqui, o Evening Standard, publicou uma série de reportagens sobre a pobreza nos UK. A primeira capa, que pretendia cativar a compaixão do público para o assunto, relatava o enterro de crianças. Óbvio que é sempre muito triste ler sobre o enterro de crianças, e ainda mais óbvio para um cérebro latino-americano que a equação “pobreza” + “enterro de crianças” = elevada mortalidade infantil. Não era. A matéria que abria a série sobre a pobreza queria chamar a atenção para o fato de que ainda existem valas comuns coletivas no país. E cobrava o fim delas.
Vocês podem imaginar qual foi o tamanho do meu estranhamento ao ler essas páginas. E ele não parou por aí. Os pobres que o jornal descrevia não eram os pobres que a gente conhece. Aqui, eles vivem em habitação social (que, obviamente, estão longe de ser lugares decentes para morar, mas não são favelas nem ocupações ilegais) e contam com um auxílio do governo para pagar o gás (aquecimento), e as contas de água e luz. Rola ainda um subsídio para comer – e ele varia conforme a família.
Eu não conheço esses programas nem sei se eles funcionam tão bem assim. Mas o fato é que o jornal não estava fazendo denúncia do mal funcionamento dessa política social. Estava pedindo mais. Estava dizendo que era um absurdo os jovens não poderem ingressar nas universidades porque não têm 19 pounds para pagar a inscrição. Estava dizendo que era um absurdo não se ter qualquer trocado para ir ao cinema, ao teatro, comer fora de casa etc. Fiquei chocada. Chocada porque esperava que fosse encontrar um estado de bem-estar social destruído, como eles descrevem, e o que eu vejo é um estado do tamanho de meu deus ajudando as pessoas a terem uma vida digna. Chocada porque esperava que na terra da doutrina liberal, as pessoas fossem cobrar do governo crescimento do PIB, controle da moeda e mercado livre como medidas de política social. Mas não. Me enganei. Essa cobrança é brasileira. Essa cobrança é a cobrança que pede a cabeça do Bolsa Família. Eles não cobram casa, comida e escola. Cobram mais.
Me lembrei, de imediato, das aulas que tive com o professor Waldir Quadros, do Instituto de Economia da Unicamp. Ele foi um dos únicos economistas a se posicionar contra as tão largamente divulgadas pesquisas do IPEA de que a pobreza havia diminuído e a classe ‘c’, aumentado. Com umas contas danadas, ele mostrou como, na verdade, nada mudou. E um dos cambalachos da equipe do Pochmann (que, junto com o Waldir, foi um dos melhores professores que tive na vida) para fechar a conta foi manter a linha da pobreza em meio salário mínimo (hoje, R$ 255). Por unidade doméstica. Assim, se você ganhar mais de meio salário mínimo numa casa com 4 pessoas, você é classe ‘c’ e pode comprar um celular 3G em até 48X num crediário das Casas Bahia. E virou o rei do consumo.
Só sei que enquanto o IPEA ajeita a conta pra colorir os ganhos sociais do governo Lula, fecho este post com um dado. E vocês tirem a conclusão que quiserem disso – a minha está mais do que clara. A linha de pobreza na Inglaterra – que varia conforme o tamanho da família – é de 115 libras (345 reais) por semana para um adulto que vive sozinho, e de 279 (840) para um casal com dois filhos. O salário mínimo do Brasil é de 510 reais.
Chop chop chop

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