ela

Querida,

A verdade é que ando meio tristonha, meio cabisbaixa, e você odiaria essa fase. Você não aguentava sofrimento auto-infligido, achava que a gente tinha que se preocupar com coisas mais práticas da vida, possíveis de se resolver. Quando você terminou o namoro, fiquei preocupada, mas fui te encontrar pra conversar e você me avisou que estava tudo bem, porque não estaria bem se tivesse continuado como estava. Seu jeito prático de ver a vida assustava muita gente. Tinha quem te achasse fria, tinha quem te achasse grossa, às vezes eu também achava. Mas achava fantástico ver você conseguir resolver alguns dos problemas que eu tinha como um quebra-cabeça de criança: pronto, tá vendo como é fácil? O bonito, mesmo, era ver que quando alguma coisa não se resolvia, você tinha toda a paciência que eu não tinha e me dizia pra esperar, porque uma hora as coisas mudam.

Você deve estar em algum lugar reclamando de que a gente seguiu a vida sem você, como quando você foi pra Assis. Mas sabe que não é verdade, porque eu te ligava sempre lá e penso em você sempre aqui. Nessa minha fase difícil, o que tem me acompanhado é um vidrinho de floral de bach, que você pediu pra sua mãe recomendar em períodos de extrema ansiedade e angústia. Desde janeiro encomendei um vidrinho aqui na farmácia ao lado de casa. Me perguntaram quem havia recomendado e eu disse que foi você. Juro. Tá lá o nome no vidrinho, flor. Cada gotinha é um “pára de história e viva”. Cada gotinha diária lembro de você.

Como você gostaria, tenho certeza, hoje é dia de te celebrar. Por isso, apesar do banzo todo que a gente sente, vou vestir um sorriso enquanto caminhar pela cidade. Hoje é seu dia e vai ser pra sempre. Porque amor, Fer, amor é coisa eterna.

Um beijo e saudades.

comprando dignidade

Dei sinal, subi no ônibus e consegui lugar para sentar. Na cadeira ao lado, dividida pelo corredor, um aparição. Só me lembro de ter visto alguém tão sujo assim na época do corte de cana na cidade da minha avó. A fuligem da queima entra por todos os lados, não sobra espaço no corpo intocado pelo carvão. O senhor, que parecia saído de uma mina de carvão ou da colheita da cana, também deu sinal, pagou e sentou. E ele sorria. Estava muito feliz de ter tomado a condução por seus próprios meios, sem ter que pedir carona, sem ter que entrar pelos fundos. Perguntou à cobradora se ela conhecia onde ficava o ponto que ele gostaria de descer. Ela disse que sim, que lhe avisaria, ele podia ficar tranquilo. “Poxa, vocês são todos muito gentis! Muito, muito gentis”, disse, olhando para a cobradora e para o rapaz sentado ao seu lado, que não se levantou como ato contínuo quando ele se sentou.

Uma lágrima desceu em seu rosto, enquanto sorria e repetia essas palavras. Como usava uma bengala, perguntou se o motorista poderia esperar ele descer quando o ônibus parasse. “Claro que sim”, respondeu a cobradora. “Nunca ninguém me tratou assim. Nunca, nunca”, repetia, entre sorrisos e lágrimas. O ônibus parou e ele foi andando lentamente para a porta dos fundos. Parecia não querer ir embora daquele sonho. Fiquei olhando pela janela, acompanhando seus primeiros passos fora de todo o conforto e gentileza que havia recebido em toda a sua vida de mendingo. Ao colocar os dois pés pra fora, a multidão que aguardava na plataforma de embarque se afastou, ele foi pedir orientação para alguns transeuntes, mas ninguém sequer o ouvia. Seu sorriso foi embora. Custou R$3,20 e algumas quadras.

árvores

De onde estou agora só vejo sombras, mas o sol coroa minha cabeça vez em quando e me aqueço, e paro e sento e suspiro. e agora que a retina acostumou com a pouca luz, aprecio, finalmente, a beleza da floresta.

refazenda

tanta gente sonha em PÁ ter uma oportunidade para se refazer, quando tudo o que eu queria era uma trajetória linear. não vista de fora, mas vista de dentro. não vista do futuro, do longo termo, mas do presente, do curto prazo. porque eu estou vivendo agora, né? talvez linear nem seja a melhor palavra. ininterrupta. aí sim. ininterrupta. porque por mais encantadores que sejam os pontos de respiro que a vida nos oferece pra gente recomeçar, eu não acho muito fácil viver de ponto e vírgula. talvez depois eu aprecie. agora não.

erosão

ela tinha um jeito simples de resolver suas dores. um quarto escuro e indierock. sofria porque podia tanto ser tudo, mas faltava tanto tempo…

agora já tinha passado tanto tempo e ela nem saberia dizer se havia conseguido ser alguma parte daquele tudo. aquela outra da vida lá atrás sorriria orgulhosa daquele seu futuro? como posso dizer que sim se, aos 15, nossos ídolos são planícies sem deformações?

ela, jovem, estava certa de ansiar ser mais. mas ingênua, não poderia saber o vazio que se cria quando se chega aqui e se constata ter vivido tantos sonhos quantos eram possíveis de serem sonhados. e ter tido tantos outros bloqueados por razões que nem sempre nos cabe controlar. e foi tudo tão fácil. ou pareceu tudo tão fácil. ou foi tudo tão natural… ingênua, não sabia o quanto machucaria ter que inventar novos traçados para continuar o desafio de ser tudo o que se pode querer ser. porque agora a vida não se resolve com quarto escuro e indierock. e o que se quer, se agora não nos falta tempo para conseguir?

e ainda há mais: melancolicamente, já descobrimos que os ídolos, como nós mesmos, são pura vossoroca.

de primaveras

Há mais de dois anos, enquanto fazia meu intercâmbio doutoral, aguardava o ônibus que me levava do campus da The Open University para a estação de trem de Milton Keynes. Eram os primeiros dias de primavera e no caminho de ida todos os canteiros da cidade mais simpática do interior da Inglaterra já estavam carregados de tulipas coloridas. Ainda fazia muito frio, mas as flores me trouxeram uma esperança inexplicável: era possível superar a frieza do cinza.

O espetáculo mais bonito ainda me aguardava. E ele aconteceu nesse fim de tarde em que eu esperava o ônibus que me levaria de volta ao trem que partiria para London Euston. De repente, o vento frio e suave ficou mais forte e me vi envolta em uma tempestade de sementes de dente de leão. Desmunida de câmera, sentei e apreciei cada segundo daquela beleza. Minha alma sorriu. Dentro do ônibus, vi que os campos da cidade – que é cheia de zonas rurais e parques enormes – elevavam aquela chuva de dente de leão a uma potência ainda maior. Era uma nevasca de pólen, que fertilizava mais vida em territórios vizinhos.

Porque a vida é feita dessas pequenas descobertas, dessas pequenas revelações. E porque a beleza está onde a gente menos espera, como no ponto de ônibus. Só pra gente não se esquecer de nada disso, porque sem encantamentos, a vida não se motiva a seguir adiante…

eu digo que sou agnóstica. mas não acredito muito nisso. não acredito porque não é uma convicção, dessas que faz o coração bater mais forte quando contestam. também não é nada que eu tenha passado anos estudando para chegar a alguma conclusão. na verdade não é algo que me preocupa. eu não penso nisso e isso não me consome.

a verdade é que eu devo ser um pouco mística – meio boho, eu sei, mas eu já frequentei muita feira hippie. eu tenho certeza de que eu fico pra baixo, doente e triste quando tem alguém me desejando algum mal – ou simplesmente zombando de mim. e eu sinto que quanto mais penso em coisas ruins, mais elas acontecem. é um lance de energia, gente. mas não que eu lave cristais na lua cheia ou faça meditação pra entrar em alfa – já estive lá, já voltei.

o fato é que em alguns momentos da vida eu sinto vontade de rezar. talvez porque tenham me ensinado que esse é o jeito de agradecer ao universo, quando entro em contato com alguma história triste, solto um “obrigada pela vida que eu tenho” assim, desendereçado. porque apesar do salário que não chega ao fim do mês, eu tenho tudo o que eu sempre quis, mas só entendo isso quando saio do mercado e deixo as minhas compras quase todas com uma família de moradores de rua. “deus te abençoe”, eles me disseram. “deus abençoe vocês”. e pensei cá comigo que seja lá quem for o mestre do universo, seja lá qual for essa fonte de energia, eles já gastaram um bom tempo de trabalho comigo. podem redistribuir minha parte por aí…

fervai

querida,

eu não me esqueço, apesar de já não me lembrar tão bem de muitas coisas. hoje será sempre hoje e santo antônio sempre me fará chorar um pouquinho – e de saudade. acho que você ia gostar de saber que o nome que você escolheu para a sua filha, Phillipa, agora está na moda por conta da irmã da princesa. você diria que sempre foi phyna e que, por isso mesmo, sempre soube aquilo que pertencia ou não à realeza. você também gostaria de saber que aquele colar que você ganhou no beco de Salvador ainda está comigo e que guardo ele como um amuleto porque apesar de horroroso – no melhor estilo “de quem é esse reggae” – me trouxe sempre muita sorte. e sempre que eu sinto sua falta, olho pra ele e penso no tanto de carinho que ele carrega. você tirou da bolsa como um départ gift porque queria que eu levasse alguma coisa que me fizesse lembrar de você. como se eu pudesse te esquecer…

hoje é a segunda festa de aniversário sua que eu perco e ainda sinto culpa de ter estado tão longe quando o que você mais precisou foi de uma companhia para ver qualquer bobagem na TV e rir um pouquinho. mas gosto de pensar que você me esperou pra vivermos uma última aventura – ainda que no sem parar do shopping -, e gosto mais ainda de pensar que você me espera para vivermos muitas outras.

um beijo com trilha sonora dos “the cranberries”, pra lembrar aquele seu aniversário em que te dei 3 cds deles em cima da carroceria da pickup do seu irmão, voltando de carona de uma festa junina da nossa escola de infância – apesar de já estarmos bem grandinhas. e com sabor de cosmopolitan, como brindamos naquele ano em que, bem lembrou momô, você levou seu próprio bolo e suas próprias velinhas… hoje eu apago elas aqui, porque vou sempre ter motivos pra comemorar a vida que vivi com você, querida…

som

Talvez seja a reforma que já fez aniversário e que tenha na força do ruído da sua broca meu despertador diário – segunda à sábado, das 7h às 17h. E digo talvez porque, à parte no meu ninho de trabalho, o silêncio sempre me perturbou.

Hoje, enquanto caminhava em uma rua paralela à uma das mais movimentadas avenidas da cidade, me deparei com o mais absoluto e completo silêncio. O semáforo fechou, os carros pararam, os passarinhos não cantaram, ninguém gritou. Parei. Contemplei. Sorri. E me lembro de ter me sentido grata por ter vivido esses segundos de vazio, o mais absoluto vazio.

Não há beleza maior do que aquela contida na raridade. Porque São Paulo, tão cheia de tudo, me fez aprender a amar o nada.

Reticências

“Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre…
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir…
Produtos românticos, nós todos…
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura…
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida…
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema…
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra…”

Álvaro de Campos,

 Página 1 de 26  1  2  3  4  5 » ...  Última »