kerouac

they danced down the streets like dingledodies, and i shambled after as i’ve been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes “awww!”

on the road. sal, ch.1

thriller noir.

we planned that crime together. i sedated the victim, you shot her to death. i did rounds to see if no one was watching, you hid the body in my trunk. you said you had to get something done before we go. i said it was ok. “don’t take too long, right?” you kissed me in the forehead “i won’t. it will be just fine”. i closed my eyes. you left.

and so i waited
and waited
and waited
and waited.
for restless unending hours.

so i started driving nowhere, looking for your remains, desperately praying for you to be fine and fighting against the image of you being somehow hurt, unable to go back and help me get rid of that crap so that things would be ok.

but you weren’t hurt.
you weren’t harmed.
you just weren’t there.

you’d left me with the heavy burden and the proofs of the crime we committed together. i got lost and i cried and i could not grasp that situation and i walked in circles and i cried more. and after a while, i was somehow fine, enlightened by the divine amnesia that time provides. and loads of chocolate. and distractions. and alibis.

but still, there are some days just like today (the kind of day it is supposed to rain but it doesn’t) that i feel the fruity scent of something sweet and sour. and it smells like fresh starts. or strawberry jelly being baked inside corn bread. or cotton sheets after sex. or youth.

but it’s none of that.
as the scent becomes more intense, i realize: i’ve kept that corpse inside my trunk.
and sometimes it stinks really bad.

e eventualmente

eu vou te contar onde eu estive por todo esse tempo em que não estive aqui. e vou te contar como cada pequena escolha do dia fez sentido no momento em que você sorriu se afastando de mim naquela noite. e como o ‘tudo-está-na-natureza-encadeado-e-em-movimento’ me veio à mente bem naquela hora, levado rapidamente por algum fluxo de álcool e euforia de modo que só lembrei que pensei nisso uns 3 dias depois. e vou contar que foi esse verso repetindo em primeiro plano que tapou minha atenção da pergunta que você fez. e então eu ri. não porque a pergunta foi absurda, como vc encabulou depois. mas porque eu estivesse planando numa corrente de pensamentos involuntários na joana e no caldeirão de veneno e em como é engraçado o coentro combinar tanto com a tristeza e em como todas as cores dessa cena são lavadas em tons de marrom e oliva e em como o ‘pote-até-aqui-de-lágrima’ era cla-ra-mente o caldeirão de fermento da joana e em como eu não tinha percebido isso antes porque tudo parecia tão claro naquela hora. e eu vou te contar talvez de todos os caminhos que me levaram até debaixo daquela luz laranja aquele dia. desde uns 20 anos antes. e vou contar das férias na praia, uma de tantas, na qual meu ombro esquerdo ganhou uma sarda pela primeira vez. e como eu fiquei feliz por ter ido à praia todas aquelas férias, só de ver você achando graça de um jeito tão bonito de como as sardas do meu ombro formavam um desenho que pra vc era parecido com a estampa da tua camiseta. e vou contar como eu odiava andar de bicicleta e vou te educar no vocabulário das minhas gírias e na sintaxe das minhas escolhas. e vou contar como um trem pode descarrilar pra dois lados da estrada, ao mesmo tempo. e vou mostrar o caminho das cicatrizes que se podem ver a olho nu e devagar você vai entender que existem tantas outras cicatrizes que no fundo são iguais às tuas e de todo mundo, mas que eu tratei com vinagre e veneno e por isso a carne granulada da regeneração me impede de realizar certas manobras e algumas coisas tão fáceis de se ver por aí, pra mim são seis meses de recuperação porque na maioria das vezes sempre tem uns pontos que arrebentam e uma parte do corte que abre e sangra de novo e todos esses tormentos que passam os que cultivaram os ferimentos das guerras.

e se tudo sair como está escrito nos livros que têm um final feliz, talvez um dia eu te conte que há muito eu não via nada mais bonito que essas tuas maneiras desajeitadas, que na verdade eu odeio os autores russos e que pela primeira vez eu lamentei ter dentro de mim o peso de tanto passado. não pelo passado em si (porque já foi suficientemente velado) mas por ele não me permitir no hoje outra escolha senão ir embora.

e no meio de alguns risos e fios de cabelo, você vai dizer que eu sou tão boba e sem ter prestado atenção em absolutamente nada do que eu disse, vai continuar brincando de constelação nas sardas de sol de todas as memórias estampadas no meu ombro.

wishful thinking

i like to think that ours will be more than just another story
of failed love and penumbras of desire. i like to think
that the moon that day was in whatever house the astrologists
would have it in for a kind of quiet, a trellis lust could climb
easily and then subside, resting against the sills and ledges,
giving way like shore to an occasional tenderness, coddling
the cold idiosyncrasies of impulse and weather that pound it
as it holds to its shape against the winds and duststorms of
temptation and longing. i like to think that some small canister
of hope and tranquility washed ashore that day and we, in
the right place, found it. these are the things i imagine
all lovers wish for amid the hot commencements of love
and promises, their histories and failures washing ashore
like flotsam, their innards girthed against those architects
of misery, desire and restlessness, their hopes rising
against the air as it fondles the waves and frolics them skywards.
i like to think that, if the heart pauses awhile in a single place,
it finds a home somewhere, like a vagabond lured by fatigue
to an unlikely town and, with sudden peacefulness, deciding
to stay there. i like to think these things because, whether
or not they reach fruition, they provide the heart with a kind
of solace, the way poetry does, or all forms of tenderness
that issue out amid the deserts of failed love and petulant desire.
i like to think them because, meditated on amid this pattern
of off-white and darkness, they lend themselves to a kind of
music, not unlike the music a dove makes as it circles the trees,
not unlike the sun and the earth and their orbital brothers,
the planets, as they chant to the heavens their longing for hope
and repetition amid orderly movement, not unlike the music
these humble wishes make with their cantata of willfulness
and good intentions, looking for some pleasant abstractions
amid our concretized lives, something tender and lovely to
defy the times with, quiet and palpable amid the flickers of flux

and the flames of longing: a bird rising over the ashes, a dream.

michael blumenthal. o ‘cara da ácaro’.

amém. (tododiatododia)

because the world is round it turns me on

já devíamos ter nos acostumado com essa coisa de mundos acabando todos os dias.
só aqui, nessas minhas ideías, se vão uns 12 por semana.
a maioria vai de morte morrida. os mundos que são tantos e tão altos morrem porque a gente é meio covarde pra coisas assim, que fazem girar a cabeça. aí a atmosfera deles fica meio deserta e eles adoecem e morrem.
outros mundos acabam por esquecimentos muitos – ou por esquecimentos poucos. (porque pra esquecer direito é preciso sempre lembrar duas vezes). aí eles se consomem num loop contínuo de lembrar-esquecer e vão perdendo pedaços e pedaços até sumir.
e tem também aqueles mundos que a gente não quer que acabe de jeito nenhum. e aí a gente cuida. e aí eles ficam grandes. e aí a gente fica giro-orbitando por eles e colhendo flores do céu e plantando histórias e arquitetando mapas. e aí vem alguém e acha esse mundo com cara de nuvem e quando a gente vê, já tem até habitante com jeito de criança correndo pelos paralelepípedos de doce e se bronzeando nas gramas tão tão verdinhas com a luz das estrelas que a gente acende.

mas acontece que mundos acabam todos os dias e ninguém se acostuma com isso nunca.

só que aí, um tempo depois, passa aquele buraco negro de fim de mundo. e se sente no espirro a poeirinha cósmica juntando-amontoada e se ouve por aí o canto de acasalamento das moléculas, que vão encaixando seus bracinhos atômicos aleatoriamente de novo e de novo.
e embora nenhum mundo nasça de novo – porque aleatoriamente nunca é igual – a gente sorri de certeza.

a de que aquele mundo, tendo existido, foi a coisa mais linda.
de todos os outros mundos.

que as nossas enfermidades sejam breves.

eis o castigo, é isso? depois do amor, a punição. a invasão na forma mais abrupta, o cerco se fechando em paredes de carnes vivas. esponjosas. para deixar rastros e seqüelas. por dentro. e os putos – sempre esses putos -, com passos jocosos pelos corredores, dizem que nada tenho. mas eu sei, eu sinto, eu creio: estou de fato doente. agora esse frio que não cessa nunca, como faca fria a encostar a parte mais larga na espinha dorsal e a fina ponta a cutucar os tubos de alimento. sim, porque se trata de um parasita que não se deixa pegar facilmente. nem pelos tais exames. ele nem sequer pode ouvir a tua voz. só a minha. (…) aqui já desponta um broto desse teu presente em forma de ausência. a me tirar o sono, a me estancar o sangue, correndo feito menino num pique-esconde por entre os órgãos, a brincar de corda entre as veias, a bater os pés fazendo birra, querendo água, desejando gostos, a me enjoar com tanto gira-gira. (…) já virei piada. aqui eles cochicham o tempo todo. dizem: “olha lá a coitada!”. eles são todos uns cretinos, uns putos mesmo, que mal conseguem achar o parasita. acreditas em mim, não acreditas? que eu não minto. e nem ando vendo coisas. está aqui na urina que não pára de sair, nesse vômito todo, nessa melodia que habita noite e dia o meu corpo inteiro. é choro de cria, um nãnãnãnã nãnãnãnã nãnãnãnãnãnã que embala os nervos; eu estou com medo, com medo, com medo. e eu sei, eu sinto, eu creio: tem um parasita vivo aqui dentro.

gabriela kimura. dona estultícia. pág 37 – sétimas palavras. aqui.

obrigada pelo presente, claudinha.

lacuna inc.

pra pequenininha maricota. não desista.

(e pra jana, pelos milagres)

as dores são criaturas que nunca se vão por si só. você pode tentar entreter as dores, alimentá-las, dormir com elas ou ignorá-las. não adianta.

lhes é preciso abrir a porta e mostrar o caminho da rua. ‘por aqui, senhora dor, por aqui, por favor por favor, isso, vá vá.’.

só que algumas dessas dores, elas são muito saudadeiras e ante qualquer espaçozinho, elas voltam. entram pela porta dos fundos e tiram tudo do lugar de novo, principalmente se tiverem sido mandadas embora de forma gentil.

e com essas dores teimosas há de se agir bem firme e esquecer as sutilezas. há de mandá-las embora sem explicação e sem muito hesitar (as dores também gostam muito das casas das pessoas que hesitam). há de se vedar-hermética qualquer fresta pela qual ela poderia se esgueirar e entrar de mansinho. há de recolher tudo, deixar tudo que pertence à dor do lado de fora numa caixa de papelão – de preferência bem longe, do outro lado da rua, só no caso de ela querer voltar com a desculpa de buscar alguma coisa que é dela. e as dores são bem dessas coisas.

e aí, um belo dia, se você se manter forte, a dor vai simplesmente desistir da sua casa e ir andando pra longe.

e nesse dia você vai poder abrir as portas e as janelas sem medo, só pra vida entrar colorindo as tuas coisas.

.resolução pra todos os dias:

.fazer da lâmina que fere a mesma que cauteriza.

apagada sofía – como a nota que o pedal deixa suspensa no ar depois que o dedo já soltou a tecla -, permanecia sua ação, seu efeito, a estranha ressonância que prolongava a vida de suas palavras quando, emancipadas da situação na qual foram ditas, tornavam-se nefastas como oráculos. sim, rímini estava a salvo, mas a ameaça, como um virus, só mudara de forma – abandonara sofía como quem abandona um meio de transporte que nao lhe serve mais -, e multiplicava-se numa infinidade de partículas aéreas, rapidíssimas, que o seguiam de perto, zumbian em seus ouvidos e agora começavam a lacerá-lo com suas diminutas goelas dentadas. sobrevivera, mas ficara sem defesas. a influência de sofía corroía a membrana que o separava do mundo; tornara-o transparente, poroso, a tal ponto que rímini, enquanto caminhava, já nao sentia os redemoinhos de vento lá fora, ao redor de seu corpo, mas sim dentro do estômago, nos pulmões, congelando seu coração.

alan pauls, o passado pág.260

.e vai.

e eu vou julgar os livros pela capa que têm e as pessoas pelos livros que lêem. mas eu vou amar por motivo algum, por simpatia ou por esperança. e eu amando, eu vou perdoar e abraçar forte e beijar estalado e defender a qualquer custo e quem eu amo vai saber disso e não vai importar (muito) os livros que quem eu amo leu. e eu vou não simpatizar com um monte de gente, que são burras e chatas e só-casca até me provarem o contrário. e a maioria não vai provar e eu vou ficar impávida diante das tentativas de agrado e de conquista, será mais forte do que eu e eu vou condená-las pelos livros que leram e pelos que deixaram de ler. e eu vou não conseguir falar um monte de coisa que eu consigo so escrever aqui e um monte de outras coisas que eu so consigo sentir e nunca vai ter nome que o diga. e vou querer que as pessoas entendam o que eu digo quando eu nao digo. e eu vou falar ironias e piadas e até palavrão e coisas safadas quando na verdade eu queria dizer pra casarem comigo e me abraçarem e me falarem que fica tudo bem, calma que fica tudo bem. e eu às vezes vou sorrir amarelo quando eu quiser que alguém exploda mas quem souber ver vai ver no fogo dos olhos e na veia do pescoço que eu tenho pensamentos violentos e subversivos. e eu vou ficar com os olhos cheios quando eu estiver na antena e quiser cair nove andares e só quem estiver perto o suficiente vai ver. e perto o suficiente nunca vai ser perto suficiente. e eu vou sentir saudade e vou querer ficar sozinha e vou me sentir bem. e eu vou chorar quando eu me sentir sozinha demais de dar medo medo e vou ligar pra quem nao se deve ligar, porque tem coisas que a gente nao deve fazer e ponto. mas eu vou fazer porque eu sou assim. e não vou arrepender, porque eu tenho essa mania de me perdoar pelos erros porque eles ensinam e eu sou uma pessoa melhor depois deles, e eu vou ter que aprender que nem todo mundo é digno de perdão porque tem gente que não melhora, só faz errar e machucar os outros. eu vou precisar aprender a nao perdoar, mesmo que eu ame, e aí vou ter que nao amar, mas é difícil e aprender demora e dói. eu vou chorar e vai ser dificil parar, porque eu sempre choro assim, torrencialmente. e eu vou odiar esse blog quando eu sentir que me expus demais e que por isso perdi o charme. e eu vou chorar de rir e ser feliz com as pessoas que os bárbaros condenam por terem cabelos rebeldes ou não seguirem o guia de etiqueta que escreveram as mulheres de óculos escuros. e eu vou me sentir miserável por esse corporativismo e esses sapatos altos e vou sentir falta da arte e de andar descalça. e a arte vai me procurar e eu vou poder respirar e será bonito. eu vou ter a tristeza do mundo todo alguns dias, e qualquer coisa vai me defenestrar nove andares: o aquecimento global, a fome na áfrica, a secura do sertão, 27 reais, o metrô que nao parou, o moço que foi deixado pela namorada, o filme bonito e qualquer beleza. mas vai passar e eu vou colorir as coisas de novo. e eu vou usar a palavra defenestrar e a palavra soerguer-se sempre que couber. e eu vou usar metáforas pra tudo ser mais bonito e charmoso, porque é com esforço que a gente colore as coisas. e eu vou não fazer parte da reação em cadeia dos quebradores de coração. eu vou interromper os processos e vou ter calma e respirar fundo, e muito. eu vou não ter pudores nem frescuras até que eu perca a motivação, que é quando eu vou ficar chata e vou ficar calada. e eu também vou ficar calada quando eu estiver feliz, porque eu não tenho medo de silêncio. só quem se esvazia tem medo de silêncio, porque aí qualquer rangidinho do mundo faz eco dentro das pessoas. e eu vou ver o amor quando houver silêncio e não precisar preencher o vazio com palavra, que não vai ser vazio mais, vai ser amor e amor não precisa de nada pra ser matéria. amor se tange, se toca e se canta. e é assim que vai ser, só porque eu disse que sim.

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