it was too soon when we realized there are holes on the moon.

why does it always rain on us?

hemos amado juntos tantas cosas
que es difícil amarlas separados.
parece que se hubieran alejado de pronto
o que el amor fuera una hormiga
escalando los declives del cielo.

hemos vivido juntos tanto abismo
que sin ti todo parece superficie,
órbita de simulacros que resbalan,
tensión sin extensiones,
vigilancia de cuerpos sin presencia.

hemos perdido juntos tanta nada
que el hábito persiste y se da vuelta
y ahora todo es ganancia de la nada.
el tiempo se convierte en antitiempo
porque ya no lo piensas.

hemos callado y hablado tanto juntos
que hasta callar y hablar son dos traiciones,
dos sustancias sin justificación,
dos sustitutos.

lo hemos buscado todo,
lo hemos hallado todo,
lo hemos dejado todo.

roberto juarroz, poeta argentino.

(sim, tá tudo bem.)

11ºc

vai. doer.
vai. mas vai passar. vai passar quase tudo. quase. porque tem aquelas dores que o tempo não cura. aquelas fraturas que, sempre que faz muito frio, se fazem doer um pouquinho. e dóem. mas só um pouquinho. e só quando faz muito muito frio.

.

para o menino girando na roda gigante.

e ao colocar, pela terceira vez, um ponto final no manuscrito da nossa história
eu vi que o que tinha ficado depois da grafia torta do teu nome
era o et cetera incerto da nossa eterna reticência.

sábado.

se fosse pra escolher um dia da semana pra se lembrar dela, escolheria o sábado. se fosse pra escolher um horário, seriam as manhãs. se fosse pra escolher uma condição do céu, aquele de azul tão-azul com algumas poucas nuvens bem desenhadas de parecer algodão doce.
e em todas as manhãs de sábado que o surpreendesem com aquele céu tão delicado, ele ia parar a vida inteira e respirar fundo abrindo caminho por entre tempos e espaços, como quem adora um deus que não tem nome. ele ia puxar dos emaranhados da memória o fio de cada perfume, de cada som e de cada movimento de cada músculo do corpo dela, e ia tecer com fios dourados a imagem de cada lembrança, com o cuidado de quem tece uma veste pra uma rainha.
e ele ia lembrar que nas manhãs como aquela, ela acordava natural e pontualmente às nove-e-vinte-e-poucos (porque segundo ela, dormir mais era um desperdício de vida e dormir menos era um desperdício do caráter-feriado que possuem os sábados). e ia lembrar que ela se demorava na cama ainda alguns instantes, como quem traz com algum custo a sanidade de volta de um sonho que ela não se atreveria a contar. e ela pedia pra que ele abrisse a janela e descrevesse pra ela a condição do céu.
se nublado, ela pedia com aquele jeito gateado que ela só tinha pelas manhãs, pra que ele voltasse à cama, mas que antes preparasse torradas com mel enquanto ela escovava os dentes e se livrava do hálito amanhecido. e assim que eles se reencontravam, ela o enlaçava com a pernas semi-despertas e à partir daí, as torradas com mel duravam para sempre, intactas na mesa de cabeceira. quando eles abriam a janela de novo, o céu já tinha mudado, não era mais manhã e o sábado já quase se acabava.
se solarado, ela contraía cada parte do corpo de que tinha conhecimento e espreguiçosamente se levantava para dar-lhe um abraço hermético, no qual a quase total superfície do corpo dela pressionava o corpo dele, com a urgência e gratidão da criança perdida em supermercado quando reencontra a mãe. e ela o arrastava para o banho e lavava o seu cabelo, sem nem adiantar qualquer investida da parte dele. então ela o arastava saltitanto pra algum dos cantos da cidade que eram dela. e ele sempre se surpreendia com a forma que ela sempre tinha um truque novo, para cada manhã de cada sábado de sol.
e ele ia lembrar de tudo como quem conta uma história. e ia se agarrar-menino àquelas lembranças que se tornavam tão fortes à medida em que ele se dedicava em puxá-las. então ia fechar os olhos e se maldizer um tanto. depois, ia sacudir a cabeça pra que as sensações evocadas se soltassem do corpo dele e o deixassem seguir o dia. e ia desviar o olhar como quem não quer ver a pior cena do filme de horror. nisso, voltaria o olhar pra cima e veria que o céu já tinha mudado.

quase não era mais manhã e ele estava atrasado.

cutuco.

às vezes eu preciso tirar a casquinha daquela ferida outrora purulenta. eu preciso abrir e ver o sangue jorrar. preciso sentir a pontada aguda da dor bem na base da minha espinha irradiar por cada célula do meu sistema nervoso até a ponta dos meus dedos endurecerem e os olhos se apertarem, encavalando as pálpebras e os dentes rangerem, tensionando toda a atmosfera que envolve o domínio do meu corpo.

porque se já essa ferida esteve aqui por tanto tempo, o hábito se acostumou com o dever do dreno, o tato se acostumou com a irregularidade do toque, o humor se acostumou com a constante da dor, o amor se acostumou com a presença do medo.

um dia será preciso deixar que se feche. um dia será preciso parar. parar de uma vez de alimentar os monstros que nos devoram. aceitar a pele que vem cerco-fechando a carne-viva e abraçar a calmaria da cura.

as flores não brotam da noite pro dia, ele uma vez me disse com aquele ar de deboche que lhe garantia uma sabedoria que talvez ele não tivesse. isso foi antes da vida ser professora e me ensinar com quantas angústias se faz uma espera.
e essa minha espera me parece agora tão grande, tão longa e de tantas primaveras que flores poderiam ter brotado e morrido e brotado de novo e neste exato momento, eu teria uma margarida branquinha, geladinha de orvalho, se espreguiçando devagar pra se livrar das manhã que são tão difíceis e tão frias.
e então eu pergunto pra quem viveu sempre no meio e pra quem foi educado na escola das escolhas que são somente agradáveis. eu pergunto se é só de espera que brotam as flores. e se a espera fará desse solo amarelado de bílis e salgado de choro um terreno fértil no qual sobreviva alguma coisa que não as folhas ásperas do boldo.

14 de março de 1985.

eu sempre me recusei a acreditar em horóscopo e eu não gostava dela porque ela fazia aniversário no mesmo dia que eu. a gente se trombava pelos corredores, uma olhando pra outra com o mesmo olhar de ‘não-vou-com-a-tua-cara’. aquele olhar que tem todo mundo que não consegue esconder o que sente. e assim foi por quase um ano, até a gente dividir a ansiedade da primeira viagem de trabalho pro exterior e comemorar com um abraço e vários ‘aaai, que legaaal, agentevai prabuenosaires quatrodiasdepois donossoaniversário!’. mas aí a gente lembrou que não ia com a cara uma da outra e se desfez do abraço, com aquele ar meio constrangido de quem é cabeça dura e não gosta de dar o braço a torcer.
o que a gente não sabia é que cada uma carregava dentro de si a mesma explosão iminente. o mesmo frio na barriga e a mesma cegueira de tudo que apresentam aqueles que estão no precipício, já se jogando pra se espatifar nas rochas dos amores que são impossíveis.
e foi num domingo de manhã que eu cheguei no aeroporto ainda embriagada de tequila e euforia e ela saiu pegando todos os saquinhos de vômito que ela viu nas poltronas vizinhas do avião e jogou tudo no meu colo. daí pra frente eu não saberia dizer exatamente o que aconteceu naquela viagem. sei que compramos as botas das nossas vidas. sei que choramos e rimos em medidas iguais, com a força de quem se entrega ao riso ou ao choro e eles se tornam eternos. sei que nos apaixonamos de mentirinha pelo mocinho do hotel (como era mesmo o nome dele?). sei que aprendemos que a gente sentia a mesma coisa e pensava a mesma coisa, ao mesmo tempo. e que a gente comunicava tudo isso com uma virada de olho. sei que os acontecimentos daquela semana (e daquele ano) ecoariam por muito e muito tempo.
talvez ela tenha sido mais forte do que eu. talvez eu tenha sido mais forte do que ela. o fato é que desde que pisamos de volta em sp, a gente soube que nunca mais seria a mesma pessoa de antes, que aquela semana tinha sido desenhada antes do dia em que a gente nasceu e que isso tinha alinhavado um afeto muito delicado e secreto entre a gente. e esse afeto acabou sendo cosido com linha grossa e nó cego pelo teor absurdo de todas as coincidências, por uma viagem cultural feita por impulso e pela proximidade intensa que só a convivência diária entre duas pessoas de sangue tão quente pode dar.
até que um dia, um mesmo dia duas ou três semanas atrás, um telegrama sacudiu a vida dela e um email sacudiu a minha, deixando nós duas no automático esperando as respostas que mudariam nossa vida tudodenovo. como não podia deixar de ser, as respostas vieram no mesmo dia – pra ela e pra mim, na última quinta. uma mudança pra ela, um desculpe e uma promessa pra mim.
e agora ela vai embora, levada por uma escolha também feita antes da gente chegar nesse mundo, aquelas escolhas que são feitas num circuito que os nossos sentidos não captam e tudo que a gente tem a fazer é comprar essa briga porque simplesmente não tem explicação.

vai ser como perder um pedaço, mas eu estou feliz. feliz por saber que essa tua escolha meio que representa tudo que a gente é e que talvez ninguém mais saiba. feliz por ter a certeza de que naquele 14 de março de 1985, a massa usada pra fazer pessoas veio com uns ingredientes errados (umas coisas a mais, muita coisa a menos) e ainda mais feliz de saber que essa solidão nunca mais será tão cruel – porque eu sei que tem alguém nesse mundo que é feita da mesma matéria que eu. e que esse alguém compreende o que eu faço antes mesmo de eu fazer e que pra esse alguém eu não preciso nunca me explicar.

gi, que grande encontro foi o nosso. seja insuportavelmente feliz e não desista nunca.
(eu, sempre aqui e… enfim, vc sabe.)

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p.s.: eu liguei o computador pra, escrevendo, tentar compreender um desamor e não desistir.
mas eu acabei falando dela. acho que porque a existência dela me enche de esperança.

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