2 de dezembro de 2009 – 13:31
era como se fosse a primeira vez que entrava naquela casa.
tudo, absolutamente tudo ali lhe parecia alheio. nem aquela varanda, aquela varanda branca, que sempre fora seu lugar preferido no mundo-todo lhe parecia sua. era como se aquele passado tivesse acontecido em uma outra vida, tivesse sido encenado em um palco muito antigo. por alguns [...]
9 de novembro de 2009 – 14:35
um passo dado na direção errada. um passo. uma curva e lá estava ele. exibia aquela mesma postura ao mesmo tempo tão frágil e tão digna de quem perdeu faz tempo a única certeza que teve na vida. lá estava ele. esperando um sinal verde para cruzar a avenida. contando os ponteiros daquele relógio que [...]
26 de outubro de 2009 – 10:46
sinto saudade das brevidades recém-saídas do forno e das mentirinhas incrementadas com glacê e formigas.
sinto falta dos cafés-da-manhã às sextas feiras e de ser obrigada a comer all bran.
sinto saudade das tantas histórias que ela contava e sinto um rombo no peito quando lembro das outras tantas que ela só insinuou.
sinto falta do vocabulário dela [...]
20 de outubro de 2009 – 17:21
e amanhã o tempo era elástico e as distâncias se mediam em passos. as armaduras eram feitas de lã lapis-lazuli e as pessoas só sorriam com olhos fechados. amanhã a verdade não tinha esse caráter problemático e os consensos não estavam nem perto de ser provisórios. amanhã as recompensas eram diretamente proporcionais às esperas e [...]
17 de setembro de 2009 – 12:15
você não soube ouvir, por todo o barulho que sempre saiu dessa tua existência tão ruidosa. você nunca notou, por serem tantas as vezes que você olhava pros lados e por ter nesses olhos um estrabismo tão raro: qualquer distração e eles se voltam pra dentro, numa tentativa-última de não se deixar escapar. você nunca [...]
7 de setembro de 2009 – 22:27
madeleine de scudéry foi uma moça francesa nascida no início do séc XVII. madeleine tinha idéias modernas. estudou e viveu no burburio intelectual de paris. madeleine escrevia romances e-nor-mes de dez, vinte volumes.
obviamente, madeleine escrevia sobre o amor.
em um dos 16 tomos de seu giga-romance clélie, madeleine desenhou (com a pena dos ideais do amor [...]
26 de agosto de 2009 – 10:35
dias atrás, numa aula sobre o ‘prazer quase perverso da leitura’, meu professor de literatura falou sobre um conceito muito interessante de um antropólogo americano chamado clifford geertz: deep play. ou jogo profundo, em tradução livre.
geertz estudou a sociedade balinesa a partir das brigas de galo (ok, impossível ignorar o apelo erótico contido no termo [...]
15 de agosto de 2009 – 9:29
um dia o amor pegou o ônibus errado. ficou um tempo sumido, ninguém sabia dele.
um outro dia o amor voltou. sujismundo e minguado. tinha a cara amarela e os dedos sujos de terra. ninguém nunca soube por onde o amor andou. o amor nunca falou sobre isso.
o amor dificilmente sai da cama. o amor não [...]
30 de julho de 2009 – 19:18
viro e mexo tropeço nas quinas daquela história. uma por uma das quinas daquele amor. o amor que você deixou. justamente por ter tantas quinas. eu nunca soube lidar com as tuas quinas. e você sempre teve tantas delas. você sempre soube do meu desjeito. sempre soube que uma hora ou outra meu passo torto [...]