cincos de agosto.

comecei uma oficina de criação literária. vou postando, neste blog, alguns dos exercícios propostos nas aulas.  : )


amassou o quarto filtro manchado de vermelho no cinzeiro de vidro e olhou o relógio pela primeira vez desde que chegou no café onde tinham se visto pela última vez.

vinte e oito. oito e vinte e oito.

no mesmo dia, às quatro e doze, fingiu uma dor de cabeça usando uma cara que ensaiou muito bem no espelho antes de sair de casa. disse para o chefe que não estava se sentindo disposta: uma dorzinha chata, “coisa de mulher”. ela sabia que o chefe nunca soube lidar muito bem com coisas de mulher (e isso ele tinha confidenciado numa cerveja de departamento. contou toda a história chatíssima da sua educação sentimental. quatro mulheres ao todo: ana maria, solange, maria helena e uma que ele não mencionava. justamente a mais fascinante: a que fez com que ele se decidisse comprometer com a solidão) e ele prontamente lhe pagou um taxi para que ela pudesse ir para casa tranquila, descansar, tomar uma aspirina e estar sorrindo e falante na reunião que teriam na manhã seguinte. típico.

se o chefe prestasse um pouquinho de atenção, perceberia que ela fazia a mesma coisa, com a mesma cara ensaiada, no mesmo dia do ano, há cinco anos. nos três primeiros – antes de descobrir como apertar no chefe aquela parte que doía –  ela usou desculpas menos verossímeis do que absurdas. o chefe nunca fez perguntas.

já em casa, demorou a encontrar o saca rolhas que ela nem sabia se ainda tinha. tomou duas taças de um vinho que não sabia ser bom ou ruim. acendeu uma vela no banheiro e se deu um banho – o banho longo da semana, que ela geralmente tomava aos sábados. raspou os pêlos das pernas para vestir aquela saia azul que, um dia, ele disse que era bonita. passou na pele um óleo de banho que tinha sido presente de uma amiga vaidosa. esfregou especialmente o óleo na barriga. porque hoje está sol e deu tudo certo e ele com certeza vai passar a mão na barriga dela. ajeitou o cabelo de um jeito diferente. puxou tudo para um lado e enfeitou o outro com uma presilha nova. demorou vinte e três minutos e algumas bolas de algodão para conseguir reproduzir nos olhos a pintura que tinha arrancado da revista do dentista, duas semanas antes. vestiu o casaco e percebeu que ele agora apertava um pouco nos braços. teria percebido que também a saia azul apertava um pouco e não mais lhe caía tão bem quanto antes. mas se dedicasse alguns minutos a mais ao espelho, ela ia se atrasar. e se hoje ele chegasse na hora?

só se permitiu os trinta segundos de passar o batom vermelho que um outro homem num outro café uma vez lhe disse que despertava pensamentos lúbricos. na ocasião, ela foi ao banheiro procurar na internet do celular o que “lúbrico” significava. retocou o batom e menos de uma hora depois, não tinha mais nem sinal de vermelho na boca.

hoje, tudo o que ela queria era que ele tivesse pensamentos lúbricos por causa daquele batom. mas acontece que o batom não resistiu ao quinto cigarro. oito e quarenta e cinco. ela não podia sair para o banheiro retocar. das últimas quatro vezes não. mas na quinta, quarenta e cinco minutos de atraso significa que ele vai chegar a qualquer momento.

e será que brigará com ela quando descobrir que ela começou a fumar? e será que por isso iria embora de novo? será que ele engordou? que ele ainda tem aqueles cachos? que amanhã chove? será que ele ainda faz cara de dor quando goza? que os anos não conseguiram destruir o sorriso de criança? será que ainda usa o mesmo relógio que tantas vezes lhe anunciou as horas tempranas? quantas vezes em seis anos será que se troca a bateria de um relógio? será que ele se esqueceu do acordo? será que ela era, dele, a mulher que ele não mencionava?

nove e meia. sete cigarros.

pagou a conta, vestiu o casaco e voltou para casa pensando em qual roupa usará no ano que vem.

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