das mães.

mãe,
este é nosso vigésimo oitavo dia das mães juntas. parece muito, né? vinte e oito.
coincidentemente, você tinha vinte e oito anos quando eu nasci. e você me contou a história daquele dia tantas vezes. de como eu demorei pra chegar. mas de como, quando estava perto, eu tive pressa em nascer e o médico quase não chegou a tempo. de como a espera foi longa. e de como, durante a espera, você conseguiu construir todo um mundo doce pra me receber. de como, pra ser verdadeiro, decidiu abandonar a carreira pra ser mãe em tempo integral. de como escolheu o meu nome. e me contou tantas histórias tantas vezes. me contou a história de como me obrigou a aprender a andar de bicicleta. eu, que sempre tive tanto medo de tudo. mas me contou também, com orgulho, de como eu fui corajosa no primeiro dia de aula. você me deixou na escola e eu olhei pra trás só uma vez, pra te sorrir e dar tchau. e você ficou na porta da escola chorando até eu sair. coisa de mãe que esperou muito, eu acho.
sabe que eu gosto especialmente da história de quando, me ensinando a escrever, você descobriu que, com as letras do teu nome, era possível escrever o meu, sobrando só uma letra e faltando uma outra. eu gosto dessa história porque ela ilustra, no simbólico, o quão derivada de você eu sou. são seis letras, de sete no total.
hoje você não consegue mais me contar histórias, mãe, e raramente pronuncia o nome que você escolheu pra mim. e eu, que sempre precisei tanto de referências, me vejo sem as tuas.
tem dias em que eu me sinto tão à deriva. sem lastro, sem porto. é tão difícil fazer escolhas sem a tua aprovação, mãe. viver sem a luz do apreço to teu olhar. mas eu sinto falta das tuas histórias, acima de tudo, porque elas me ancoram no mundo doce que você construiu pra gente. porque além de ser portadora de grande parte da doçura do mundo, você também é portadora da maior parte da doçura em mim. você me ensinou a valorizar a beleza dos gestos, a dar a cada gesto uma intenção poderosa, a olhar as pessoas por inteiro, a não julgar, a ter o cuidado de chamar as coisas pelo nome certo, sempre. eu olho pra mim e acho que consegui aprender bem, mas tem coisas que eu não consegui aprender com você. você sempre disse que eu saí mais ao meu pai e que tinha tanta coisa em mim que te escapavam à compreensão, que eu fazia as coisas mais difíceis do que elas realmente eram. e agora, como sobre tantas outras coisas, eu vejo que você estava certa. eu não compartilho dessa tua essência ensolarada. eu não aprendi, por exemplo, a acordar feliz e ruidosa, como você fazia todos os dias. não aprendi a ter aquela tua esperança e não aprendi a fazer aquele teu bolo de fubá que me alegrava tanto. e agora me fazem tanta falta, mãe, essas coisas que eu não consegui aprender de você. talvez fosse um bocado mais fácil tudo isso, caso eu não acordasse todos os dias tão anuviada.
mas já é tão difícil te perder um pouco por dia, mãe. tão difícil ver você se perder de si e ir embora aos pouquinhos. é tão essencialmente difícil que, pensando bem, eu acho que nem é possível eu fazer disso mais difícil, como você falava que eu fazia. eu penso em várias coisas e eu penso tanto. eu maldigo o sagrado e eu às vezes fico brava. mas sempre depois que eu penso, eu vejo que não é por ser tão difícil que eu preferisse te perder mais rápido por causa disso. porque eu sei que você ainda está lá um pouquinho. e eu sei que, em algum lugar desses teus pensamentos raros, você também sabe que eu estou aqui.
faz alguns meses você tem um novo doutor, mãe. depois de tantos doutores que conhecemos, cada um falando uma coisa diferente e nos deixando tão confusos, escolhemos esse e decidimos confiar nele, nos remédios que ele escolhe pra você (decidimos confiar até nos erros dele), e nos conselhos que ele nos dá pra lidar com você. seu novo doutor é tão humano, mãe. você diria que ele é uma pessoa “iluminada”, como você sempre dizia das pessoas que sabem ouvir, que olham nos olhos quando a gente fala, que têm um aperto de mão forte, um sorriso fácil e que, de certa forma, fogem do padrão do esperado. uma das coisas que nos disse o seu novo doutor é que devemos te chamar pelo teu nome de batizado porque você não se identifica mais como mãe (ou esposa). essa é uma das únicas orientações dele que eu não consigo seguir, por mais que eu me esforce. não te chamar de mãe. porque “mãe” é o nome certo. e, da mesma forma que você me deu um nome, “mãe” foi o nome que eu te dei e te chamar por ele me leva um pouquinho de volta ao mundo doce que você construiu pra gente.
de fato, quase sempre, você não levanta mais o olhar quando eu te chamo mãe. mas eu insisto. e vez por outra, quando você responde, você me olha e sorri. vira e mexe até fala o meu nome. as três sílabas que você escolheu.
é o meu quinhãozinho de céu, mãe. é a hora em que eu vivo o “sentimento oceânico” que você me explicou um dia. é a hora em que eu percebo como você continua me ensinando as coisas que você, me conhecendo tanto, sabe que eu não conseguiria aprender em vinte e oito anos. nessas horas, você me ensina a ter esperança.
e é aí que eu tenho certeza de que você ainda está lá e sei que você sabe que eu estarei aqui. e isso é tão – mas tão – bonito. (e eu não sei ao certo, porque é você quem sempre soube das receitas, mas eu desconfio que é de coisas assim que foi feito o nosso mundo doce).
e eu morarei aqui.
feliz dia das mães, com todo amor e gratidão,
mirella
(minha mãe tem 56 anos, foi diagnosticada com mal de alzheimer há sete, escolheu pra mim o pai mais herói do mundo e tenta me ensinar todos os dias que todas as coisas podem ser bonitas. é só a gente saber calibrar o olhar.)

14 Comentários

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  • das coisas mais lindas que já li na minha vida.
    no fim, não é o nome de todas as coisas, é só o amor que importa.

  • você só é bonita assim porque veio da sua mãe.
    e das coisas bonitas que ela te ensinou.
    e porque ela fazia bolo de fubá.

    amo você.

  • Tão bonito!Não consegui parar de chorar por um bom tempo! Tente sempre ser feliz,pois sempre foi o maior desejo de sua mãe.Beijos.

  • Sem palavras… Só os dias que passei na sua casa nas minhas férias quando era pequenininha já são o suficiente para entender e sentir falta de tudo que vc disse! E pode ter certeza que no fundo sua mãe sempre te ouve <3 Bjinho*

  • Os que tem AMOR para dar sabe quanto é valioso isso, não so para quem recebe mas para quem da mesmo. Tenho certeza que a Marilde é feliz de ter construido todo esse sentimento na filha, da mesma forma que minha mãe (sua vó) nos ensinou e criar e cuidar de quem amamos. E triste perder quem amamos, e ainda não sei o que é pior de pouquinho em pouquinho como foi meu pai ou rapido como foi minha mãe. bjs te amo e amo minha irmã. bjs

  • Como filha, como Mae, como ser humano que já perdeu uma pessoa muito amada nao tão aos pouquinhos assim eu me simpatizo com seus sentimentos e me emociono com as lindas, sinceras e puras palavras que aqui compartilhas.
    Forca e muito amor para vc minha linda!

  • Eu não tenho palavras pra descrever o quanto isso é lindo e o quanto tem de coisas lindas aí dentro de você e de toda essa história Mi. Amo poder te chamar de amiga e amo poder dizer que pode contar sempre comigo.

  • Só quem viveu ou vive isso talvez consiga entender a profundidade e a intensidade das suas palavras. Só quem enxerga aquele olhar vazio e distante, que parece buscar por autoconhecimento, entende que é preciso lutar com todas as forças, tentar todas as possibilidades, ir até o fim, mesmo que não saibamos onde ele se encontra e quando vamos dar de cara com ele.

    Só quem conviveu ou convive com essa ‘sentença’ sabe a dor, a dilacerável dor, de ver quem se ama perdendo seu ‘eu’, sua história, suas lembranças… não reconhecendo o presente, não esperando pelo futuro, não lembrando do passado. E eu vou te dizer que compartilho muito da sua dor, mesmo sem ao menos saber de onde você é.

    É triste de mais, muitas vezes parece extremamente injusto, desumano, revoltante… só que bem no fundo existe a essência, e essa, mesmo com a perda da memória, não se perde. Continue chamando-a sim pelo seu nome: mãe! Porque é isso que ela é. Como você disse, ela ainda estará lá e você aí. Eu eu creio nisso porque vivi isso. Eu busquei nos momentos presente uma pessoa que não vivia mais a realidade na grande maioria do tempo, mas que sempre esteve e ainda estava ali comigo…e eu com ela. E nos poucos momentos de lucidez ela me olhava com um amor tão forte e um carinho tão verdadeiro! Ela mostrava que estava ali. Que sentia. Que a memória era ‘uma questão de opinião’.

    Olha, não sei o que vem pela frente, o que Deus tem reservado p/ vocês, mas faça tudo, TUDO que estiver ao seu alcance. Ultrapasse os limites do medo, do cansaço físico e emocional, da tristeza, da solidão, do desespero, do ódio, da indignação. Faça o que tiver que fazer, com toda a pureza do seu coração, com toda a gratidão que tens por ela, com toda a força de uma mulher guerreira que existe dentro de você, com todo o amor de uma filha que reconhece o valor de uma mãe.

    Vá até o fim, Mirella. Esgote todas as possibilidades de formas de amor que você possa dar a ela, se é que elas podem se esgotar algum dia da nossa existência! Chore sempre que preciso, e chore mesmo, mas depois converta essas lágrimas em combustível para seguir em frente ao lado dela, junto dela, na inversão de papéis que acabou se dando: você, a mãe; ela, a filha.

    Força e amor, muito amor. É o que eu posso te desejar com toda a intensidade do meu coração e com toda a serenidade de quem passou por isso também. Cada um sabe a dor que sente, mas o amor é o único e maior sentimento que faz com que ultrapassemos toda e qualquer barreira.

    Segue em frente. Firme.

  • Mi, passei um tempinho pensando no que poderia escrever para voce, sei que não sou a melhor pesoa para entender o que voce esta passando, mas estamos ligadas por algum fiozinho, nao acha? Cada uma com seus problemas maternos, diferentes mas, ao mesmo tempo, semelhantes, e com a forca de seguir em frente! Nao tenho essa gloriosa vocacao que deus te deu de expor os sentimentos com extrema coragem e de maneira tao tocante, guardo tudo para mim, engolindo-os e fugindo, mas é em voce que eu encontrei o “enfrentar”, é em voce que eu penso todos os dias e que me inspiro ao tentar compreender minha mae! Tentar acha-la no meio dessa confusão na cabecinha dela, seja por minimos sinais de lucidez e de lembranca que a desperta as vezes! Nao vou mentir que foi um choque ver minha tia, senti falta daquele abraco apertado que me dava quando nos encontravamos e dela dizendo que eu estava crescendo depressa, mas quando olhei para vc, e vi seu sorriso p mim, é como se fosse ela olhando p mim! Nunca direi quenao consigo enxergar mais minha tia quando a vejo, pq eu sei que ela esta em voce, no seu jeitinho, no seu olhar, nas suas palavras, na sua forca, em tudo! Eu nao perdi uma pessoa que amo, eu ganhei duas, jjuntinhas! Sei que nao nos vemos muito, mas quando nossos encontros acontecem, posso nao demonstrar, mas sempre me faz bem! É uma licao de vida! Te amo muito mi, amo muito minha tia! E sim, seu pai é um heroi ( nao posso terminar um texto sem falar do tio lindao hahahaah(Desculpa os erros, minhas lágrimas estao me impedindo de ler o que escrevi) beijinho

  • que texto forte.
    que forte é você, mirella.

    um beijo, linda. saudade.

  • Minha filha adorada,
    Não posso deixar de comentar sua carta tão linda e verdadeira prá mamãe.
    Seu amor e sua verdade são ensinamentos.
    Assim como você aprendeu muitas coisas com a mamãe, você me ensina todos os dias como ter forças para seguir adiante. Você se transformou, daquela linda menina a quem eu alimentava na boca, em uma mulher linda, inteligente, forte, decidida e verdadeira.
    Tenho o maior orgulho em você ser minha filha. Você foi o maior presente que mamãe me deu.
    Se continuo, é por ter você. Mamãe simplesmente esta vivendo de uma forma diferente. Ela sabe o quanto nós a amamos. Ela sabe que vamos, você do seu jeito e eu do meu, estar com ela todos os momentos, presentes e futuros.
    Alegre seu coração, a vida sempre foi muito generosa conosco, felizmente só temos boas lembranças a serem cultivadas.
    Sempre te motivamos a ser independente e responsável; sei que fizemos um excelente trabalho.
    Não se deixe abater por temores imaginários, não se desgaste com problemas que “poderão” acontecer. Lembre-se que a solução sempre aparece.
    Preciso que você me perdoe por ser tão zeloso com mamãe. Acontece que assim como você, ela sempre foi a outra melhor coisa na minha vida. Por vezes sinto que não te dedico toda a atenção que deveria. Talvez por ter tanta segurança de quem você é.
    Preciso que você me perdoe também, por não conseguir deixa-la aos cuidados de estranhos. Minha ligação com vocês duas não tem como ser remota. Preciso dela junto a mim, assim como sinto sua falta todo o tempo.
    Abro mão de meu egoísmo em ter você próxima, para que viva plenamente sua vida.
    Busque ser feliz a qualquer custo. Mamãe e eu sempre desejamos isto. Valorize seus bons amigos, empenhe-se na sua carreira e jamais esqueça suas origens.
    Sei que mamãe sente o quanto nós a amamos.
    Te amo, te amo, te amo…

  • miré, desde a primeira vez que te vi senti em você todo o sol do mundo. Como diria minha avó, vc é uma pessoa quentinha =) seus pais devem ser pessoas lindas. Um beijo enorme pra esse mundo doce

  • Mirella, meu carinho de todo o meu coração. Bjo

  • Mirella, esse texto foi um dos textos mais lindos
    que já li na vida. Fiquei muito emocionado mesmo.
    Acredito que, mesmo que a consciência “da terra” esteja
    perdida ou escondida, a alma dela sabe desse amor.
    É na alma que eu acredito. Parabéns.
    Marcelo Niel.

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