os filmes dos nossos livros favoritos.

em 2006 meu coração derreteu.
na época, uma das amigas mais queridas trabalhava numa livraria. um dia veio e me entregou um livro e disse que era um lançamento, que as pessoas ‘choravam horrores’ e que era exatamente daquilo que meu coração precisava.

“eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”.

li as duzentas e tantas páginas em dois dias, compulsivamente. fiz os grifos à caneta. transcrevi trechos. chorei. horrores.

não consegui ler nenhum outro livro com paixão naquele ano. nada ia ter mais aderência com o que eu sentia. com isso, reli umas quatro ou cinco vezes. da segunda, comecei a chorar na segunda página. na terceira, fiz novos grifos. para a quarta, com o coração um pouco (bem pouco) menos líquido, comprei um exemplar novo pra uma leitura nova e mais limpa, sem os grifos do coração derretido. não adiantou muito. os grifos nos nossos livros favoritos acabam tatuados na nossa alma.

“eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” é a história de um amor marginal. uma tentativa desesperada de resgate da delicadeza num ambiente árido e hostil. cauby e lavínia. a inevitabilidade de certos encontros e das suas consequências devastadoras. um furacão que derreteu tudo.

“o amor é sexualmente transmissível”, escreveu marçal aquino pra inaugurar a história. alguém consegue contestar?

em 2010, marçal foi na usp conversar sobre ficção. eu respirei fundo e fui tiete. levei o livro e pedi autógrafo. falei de como eu amava aquela história, de como ri e reli. contei da vez que vi uma menina no metrô lendo as últimas páginas do livro e passei minha parada pra ver como ela ia reagir. ela não aguentou. deu um suspiro, fechou o livro e guardou na mochila. eu esperei ela descer pra pegar o trem de volta. ganhei um abraço do marçal e uma dedicatória linda. e ele contou que a história de lavínia e cauby ia pros cinemas, obviamente dirigida pelo beto brant, que já tinha adaptado parte do livro na série “o amor segundo b. schiamberg”. também contou que a camila pitanga ia ser a lavínia e eu fiquei azeda. nunca gostei da camila pitanga. nisso, prometi pra mim que, de novo, não veria o filme. ficaria com a lavínia da minha cabeça. e tudo bem.

mas quem disse que a gente consegue? assim como cauby, faço parte do grupo das pessoas de sangue quente. daquelas que, “apesar de resistirem com diferentes graus de esforço, acabam por ceder às tentações”. ano passado, “eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” teve pré-estreia na mostra internacional de sp. sofri. comprei ingresso “só pra garantir” e cogitei não ir até o último instante. mas obviamente eu fui. sabendo que, se fosse um filme ruim, não seria inofensivo (hector babenco, por exemplo, me destruiu “o passado”, do alan pauls). sempre um risco ver os filmes dos nossos livros favoritos.

mas o filme é uma porrada. camila pitanga é… bom, a camila pitanga. mas gustavo machado é o cauby da minha cabeça. beto brant e marçal fizeram um filme moroso. amarelo. fizeram o filme de uma história de amor na terra do meio. fizeram um filme lindo e um filme de livro impecável, que estréia dia 20 de abril agora. e eu não vejo a hora de rever quantas vezes for preciso. vocês, vão e me chamem.

e já estamos em 2012, mas 2006 nunca acaba. a certa altura do livro, cauby encontra uma fotografia que tirou no interior dos estados unidos, numa cidade outrora devastada por um furacão. “no one forgets a hurricane”, dizia a placa.

e dá pra esquecer?

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