em automático.

são poucas as coisas nesse mundo que têm a capacidade tão incisiva de me colocar a vida em perspectiva como o subir-e-descer de um avião. e por dois motivos:
o primeiro, e também o mais óbvio, pelo distanciamento físico que um vôo de avião oferece. estar a trinta e cinco mil pés da própria vida faz com que ela diminua em tamanho e praticamente suma em meio à grandeza absurda da cidade vista de cima. diminuída em tamanho, também acaba reduzida em relevância e isto nos atira à constatação inquietante da pequenez da nossa existência, do nosso corpo e de tudo que o orbita e o penetra.
o segundo motivo, menos universal, creio, é decorrente do medo nem um pouco razoável que eu tenho de aviões. poucas coisas me parecem mais absurdas do que um monte de lata pressurizado que acelera e levanta vôo. danem-se as leis da física que permitem que isso aconteça e dane-se a estatística que me conta que é mais provável que eu morra num acidente de carro. num hipopótamo. num tiro de culatra. numa coxinha estragada. eu odeio aviões e agora me parece tão imprudente assumir isso assim, por escrito e publicamente.
cerca de 80% do tempo que eu passo dentro de um avião, gasto pensando: na morte. incêndios. explosões. asfixia. carbonização. nos outros 20%, consigo, não com pouco esforço, distrair o medo pensando em: sexo. música pra fazer sexo. refeições fartas. mar. gramados. todas essas coisas que, no final, não deixam de ser feitas da mesma matéria que a morte.
de certa forma, cada vez que um avião acelera pra me levantar vôo é como se me cravassem no peito um termómetro bizarro de medir se estou cuidando bem de mim e se estou sabendo ser feliz. como um diálogo no escuro com os recônditos do próprio coração. talvez uma versão em miniatura dessas experiências de quase-morte que a gente ouve por aí.
da mesma forma, subir num avião com alguém é abrir as portas pro coração se manifestar sem filtros e despejar sobre nós suas entranhadas opiniões.
uma vez eu subi num avião com um homem e a idéia de morrer ali, ao lado dele, me apavorou de tal maneira que eu não consegui parar de tremer durante as seismilequinhentas horas que durou aquele vôo. eu não queria que aquela mão pegasse a minha no instante em que o motor parasse. nem que aquela mão me puxasse pr’aqueles braços quando começasse a queda. nem que fossem aqueles ouvidos a ouvir minhas últimas palavras ou que fosse aquela a última voz que eu ouviria nesta vida. eu não queria estar ali.
claro que eu teria percebido mais cedo ou mais tarde, mas o distanciamento do resto da minha vida (primeiro motivo) e a iminência da morte no monte de lata voador (segundo motivo), me pouparam de alguns momentos (meses, talvez até anos) orbitando uma pessoa cuja mão eu não queria apertar durante a queda.
e nisso, sou grata às tantas horas intranqüilas e ao medo irrazoável.  eu o alimento. vejo filmes sobre histórias horrorosas. cuido do medo e faço paz com ele.
porque se essa vida não é senão abrir espaço aos encontros com as pessoas cujas mãos a gente gostaria de apertar quando nosso avião cair, então eu não sei.

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