“é preciso ir ver”

para o meu pai.

quando criança, nunca entendi o porque de usarem verde no reveillon. nem em nenhuma dessas coisas que as pessoas compram que são coloridas e que cores significam coisas que a gente deseja.

“esperança”, eles diziam.

mas não fazia nenhum sentido desejar esperança. a esperança era o desejo em si, a certeza de que tudo ia dar certo, e isso era tão óbvio. não fazia sentido, portanto, “gastar” a chance da cor da calcinha ou da fitinha no braço numa coisa tão fácil, quando se podia desejar saúde, amor, prosperidade ou paz. a esperança era um axioma. não era concebível que não estivesse lá, que pudesse vir a não estar.

com nove, dez, onze anos, são poucas as coisas no mundo que não têm saída. ainda foram poucas as vezes em que nos confrontamos com situações que simplesmente não melhorariam. ainda foram poucas as vezes em que a vida colocou um muro (bum!) à nossa frente e fez a gente baixar a cabeça e desejar não estar ali naquele momento. a esperança era uma condição universal. como a fome ou o sono ou o calor o frio.

mas aí vem o tempo, vem a vida e todas as suas coisas.

vêm os erros que a gente faz. vêm todas as coisas que a gente quebra. todas as coisas que quebram na gente. vem aquele telefone tocando às onze da noite. vem tanta chuva e vai tanta gente. vêm todos os pedidos de desculpas que a gente não conseguiu pedir. vem aquele último beijo que eu não te dei. vêm os médicos com os seus “degenerativo e irreversível”. vem todo o tempo que a gente perdeu. vem o telejornal e vem aquele monte de música ruim. vem esse ranço dessa apatia.

e aí um dia a gente se vê. aporia. sentada num banco com a própria solidão, desejando.

e o primeiro desejo é estar no balcão de um bar virando quantas forem as doses possíveis. da bebida mais barata. é estar num barco no meio do mar indo pra qualquer lugar menos o aqui. é sair correndo na velocidade aquela em que seria possível se descolar de si.

aí a gente abre um livro velho, daqueles favoritos que a gente já leu vários milhões de vezes. e ele diz assim:

“as esperanças, sedentárias, deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens. e são como as estátuas que é preciso ir ver, porque elas não vêm até nós.”*

e a gente levanta e vai. porque parece que chega uma hora em que não se trata mais de ainda existir alguma esperança.

mas sim de não se deixar desistir.

*Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas

5 Comentários

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  • <3

  • <3

    esperança é esperar, né. não dá só pra esperar.
    as coisas vêm pra obrigar a gente a ir.

  • Quem espera, sempre cansa.

  • Eu aprendi a não contar com a sorte, as vezes confundo um pouco sorte com fé e esperança…

    enfim! bebidas e cor verde me lembra o saudoso absinto!

    bjs

  • nunca tinha pensado sobre a cor verde no reveillon….boa.

    Abs!

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