fuga n.º 3.
era como se fosse a primeira vez que entrava naquela casa.
tudo, absolutamente tudo ali lhe parecia alheio. nem aquela varanda, aquela varanda branca, que sempre fora seu lugar preferido no mundo-todo lhe parecia sua. era como se aquele passado tivesse acontecido em uma outra vida, tivesse sido encenado em um palco muito antigo. por alguns instantes era como se o fio daquelas memórias que pouco a pouco se teciam estivessem vindo de uma outra dimensão, e não do fundo-mais-fundo de sua pele e dos espaços mais recônditos das suas entranhas.
à medida em que abria as primeiras portas e caminhava por entre a luz da manhã e as quinas daquela história, revelava-se um sentimento cabisbaixo. era o degelo que tem adoecido o mundo, escorrendo branco e vagaroso, denunciando nas frestas daquele entulho as cores de uma época ancestral na qual o medo era sempre precedido pelo amor.
aos poucos iam se revelando as nuances dos passos de dança dados naquela sala. e devagar começou a sentir os cheiros que entravam pela janela e circo-navegavam brincando por entre cada um dos narizes que viveram aí. e em um instante sentiu o movimento. o pulsar daquela casa que tanto sabia abandonar-se. uma bola giro-rodando e parando aos seus pés. o ruído dos ponteiros do relógio. as tardes de bolo. as vozes. um choro. um cheiro. um medo de infância. toda aquela matéria de memória ricocheteando na frente dos seus olhos. amarelo sem fogo. presença luminosa começando a arder.
e de repente: o alumbramento. o fluxo de passado represado pelo crivo implacável da memória da infância recomeçou a fluir, como rio que rompe barragem. e o esclarecimento que vinha com o ímpeto daquelas águas ia desenhando um ser inteiro. em um instante os pedaços que eram mantidos unidos com muito esforço por anos e anos se fundiam em um só corpo. inteiro. e naquele mesmo instante todo o mundo se resumiu àqueles poucos metros. e era um. inteiro. agindo num mundo que fazia sentido.






Texto maravilhoso. Também tenho pedaços, sentidos soltos e perdidos em algum lugar do tempo onde está a minha infância. Se encontrá-los, um dia, espero sentir o mesmo reconforto que você parece ter sentido.
Bjos