sobre deep play, taketina e aprender com o coração.
dias atrás, numa aula sobre o ‘prazer quase perverso da leitura’, meu professor de literatura falou sobre um conceito muito interessante de um antropólogo americano chamado clifford geertz: deep play. ou jogo profundo, em tradução livre.
geertz estudou a sociedade balinesa a partir das brigas de galo (ok, impossível ignorar o apelo erótico contido no termo em inglês: cockfight. o horror.) simplificando BEM, ele conclui que o trabalho de um antropólogo não é o de interpretar uma sociedade, mas o de desvendar as interpretações que cada sociedade já faz de si. no caso dos balineses, o jogo extremamente mundano e aparentemente inócuo para os jogadores continha todos os elementos-chave para desvendar as minúcias da sociedade balinesa. os galos em luta eram uma espécie de continuidade extrema dos indivíduos reunidos ao redor da rinha. uma representação cuidadosamente preparada.
e, diferentemente da representação pela arte, a representação metassocial pelo jogo envolvia o risco concreto da perda. no jogo profundo, o lúdico se paga às custas de orgulho, honra, tradição, limitações. certezas.
foi mais ou menos isso que senti nas oito horas de taketina que participei no último final de semana. taketina é uma espécie de meditação ativa coletiva baseada na polirritmia. orientados por instrumentos de percussão, mantemos um ritmo com os pés, um outro ritmo com palmas e por vezes um terceiro ritmo com a voz.
é um desafio. à primeira vista pode parecer trivial e inofensivo, mas naquelas poucas horas de prática, ganhei e perdi muitas coisas. apostei algumas certezas, entrei e saí do eixo várias vezes. percebi tantos erros e acendi um bocado de luzes em cantos escuros da minha alma, bem nos cantos que não costumo visitar com frequência, justamente por serem bagunçados e caóticos.
eram umas 30 pessoas. entre elas, uma amiga muito querida. poucas as vezes em que ficamos lado a lado no círculo, eu e ela. engraçado. mantínhamos uma certa distância como que pra preservar o afloramento daquele ser que se apresenta somente na alcova ou no anonimato (aquela parte de si que só a gente conhece) e que de certa forma era importante que estivesse presente ali, naquele momento.
a taketina me colocou num lugar desconfortável, onde eu estava vulnerável e corri muitos riscos. um lugar onde meu corpo não respondia à minha cabeça, minha adorada e vida-toda alimentada cabeça. meu corpo não correspondia aos geniais cálculos que eu fiz, encontrando o mínimo múltiplo comum entre o compasso do passo e o compasso da palma. meu corpo não ligou pros meus amplos conhecimentos musicais, ignorou se eu dissesse a mim mesma que estava calma (fuu fuuuu) ou se repetia incessantemente que a segunda palma é na pausa da batida do pé esquerdo. eu estive num lugar onde meu corpo deixou de corresponder à minha vontade cerebral. nunca o “se deixar levar” fez tanto sentido. e quando eu me deixei, o corpo passou a dar conta. sozinho. sem as minhas contas. sem o “palma-pé-pan.pé-palma”. uma sensação muito parecida com uma alegria infantil de certeza. difícil traduzir. “apprendre par coeur”, dizia o mestre. aprender com o coração.
tendo aceito a limitação física de quem fez pré-escola há vinte e tantos anos e superado o bloqueio inicial do medo do erro (ok, não cheguei a superar 100% o medo do erro. sempre que errava, a reação era aquela cara de d’oh! e então errava mais e perdia o fio, enfim.), pude começar a aproveitar mais a vivência. a absorver os detalhes daquele momento. um grupo de desconhecidos (tão familiares) na alcova. um grupo pulsando (não uma engrenagem, mas um corpo). em dois, três ritmos. simultâneos.
relacionar-se pode ser muito difícil: o Outro. o ritmo do outro. as contas e cálculos e medos e conhecimentos do outro. ao mesmo tempo que o contato com o outro é referência para encontrarmos o nosso próprio ritmo e nos reencontrarmos quando nos perdemos, é também o guia do rumo errado que tomamos quando apoiamos o nosso ritmo nessa outra cadência.
numa certa hora, devíamos entregar o braço esquerdo ao outro e tomar, com nosso braço direito, o controle do braço esquerdo de um outro-outro. a entrega e o controle. ao mesmo tempo. no domínio de um mesmo corpo. controlados (ou não) pela mesma cabeça.
outras vezes, nos intervalos entre as práticas de uma ou duas horas ininterruptas, devíamos “encontrar nosso espaço” no tatame e deitar. em silêncio. como que para metabolizar as descobertas do corpo e a aprendizagem pelo coração. a pausa. a importância da pausa. absorver (“apprendre par coeur”, ele dizia).
ainda não sei como essa experiência vai ressoar na minha vida. mas eu sinto por vezes que essa prática fecundou aqueles embriõezinhos das pequenas revoluções que são tão particulares. por vezes acordo cantando ‘ta ke ti na – ta ke ti na’. por vezes, quando estou nadando, sinto melhor as vontades do meu corpo. por vezes, entre pessoas, percebo um corpo inteiro pulsando, ritmado. ou entre outras pessoas, um corpo tentando se constituir, descompassado e fragmentado. por vezes sou eu que dito a primeira palma. por vezes eu só movo os pés quando já tenho as coordenadas. por vezes eu sinto a alegria infantil em curtir a música que é orquestrada pelos meus vários ritmos. por vezes eu preciso mais do que nunca da referência e do suporte do ritmo do Outro.
a continuidade extrema da linha fina da vida. a representação cuidadosamente preparada. o meu jogo profundo.
nota: a taketina ocorre anualmente no espaço da ana thomaz.
e um beijo e gratidão sem-tamanho pra minha Lu. por topar ir comigo às cegas, por estar lá. por ser tão companheira e por ter aquele ritmo que é só dela. e que soa tão bem.






Demais, Mirella!
E to me deliciando com seu espaço aqui também.
Engraçado que o Henning não explicou muito e todo mundo chegava em experiências muito parecidas. O Henning medita, mas nunca falou em “meditação” quando falava de TaKeTiNa. Mesmo assim, quase todo mundo, em todos os grupos, falava ao fim: “Nossa, é meio meditação, a gente cria um observador, a mente se afasta, os pensamentos caem…”.
O Henning dança tango, mas nunca falou em “dança de salão” ao falar de TaKeTiNa. Mesmo assim, a galera depois: “Nossa, deu vontade de dançar…”.
Fiquei feliz com sua presença lá. Pena que não conversamos. Foi tão corrido. Agora lembrando de tudo penso que poderia ter aproveitado mais. hahahahahah
Abração!
Te convido pra ser cobaia quando eu der meu primeiro workshop.
Oh! Amiga =)
que afago bom no meu coração quase sempre caótico hihihi
foi fantástico e quero mais ano que vem!
e topo sempre que o programa incluir sua sincera, leve e adorável cia! como falamos, no meio desse caos todo, das coisas bestas que tentamos controlar, só o que importa é o que podemos construir no relacionemento acolhedor com o outro.
bjks
Lu