cincos de agosto.

comecei uma oficina de criação literária. vou postando, neste blog, alguns dos exercícios propostos nas aulas.  : )


amassou o quarto filtro manchado de vermelho no cinzeiro de vidro e olhou o relógio pela primeira vez desde que chegou no café onde tinham se visto pela última vez.

vinte e oito. oito e vinte e oito.

no mesmo dia, às quatro e doze, fingiu uma dor de cabeça usando uma cara que ensaiou muito bem no espelho antes de sair de casa. disse para o chefe que não estava se sentindo disposta: uma dorzinha chata, “coisa de mulher”. ela sabia que o chefe nunca soube lidar muito bem com coisas de mulher (e isso ele tinha confidenciado numa cerveja de departamento. contou toda a história chatíssima da sua educação sentimental. quatro mulheres ao todo: ana maria, solange, maria helena e uma que ele não mencionava. justamente a mais fascinante: a que fez com que ele se decidisse comprometer com a solidão) e ele prontamente lhe pagou um taxi para que ela pudesse ir para casa tranquila, descansar, tomar uma aspirina e estar sorrindo e falante na reunião que teriam na manhã seguinte. típico.

se o chefe prestasse um pouquinho de atenção, perceberia que ela fazia a mesma coisa, com a mesma cara ensaiada, no mesmo dia do ano, há cinco anos. nos três primeiros – antes de descobrir como apertar no chefe aquela parte que doía –  ela usou desculpas menos verossímeis do que absurdas. o chefe nunca fez perguntas.

já em casa, demorou a encontrar o saca rolhas que ela nem sabia se ainda tinha. tomou duas taças de um vinho que não sabia ser bom ou ruim. acendeu uma vela no banheiro e se deu um banho – o banho longo da semana, que ela geralmente tomava aos sábados. raspou os pêlos das pernas para vestir aquela saia azul que, um dia, ele disse que era bonita. passou na pele um óleo de banho que tinha sido presente de uma amiga vaidosa. esfregou especialmente o óleo na barriga. porque hoje está sol e deu tudo certo e ele com certeza vai passar a mão na barriga dela. ajeitou o cabelo de um jeito diferente. puxou tudo para um lado e enfeitou o outro com uma presilha nova. demorou vinte e três minutos e algumas bolas de algodão para conseguir reproduzir nos olhos a pintura que tinha arrancado da revista do dentista, duas semanas antes. vestiu o casaco e percebeu que ele agora apertava um pouco nos braços. teria percebido que também a saia azul apertava um pouco e não mais lhe caía tão bem quanto antes. mas se dedicasse alguns minutos a mais ao espelho, ela ia se atrasar. e se hoje ele chegasse na hora?

só se permitiu os trinta segundos de passar o batom vermelho que um outro homem num outro café uma vez lhe disse que despertava pensamentos lúbricos. na ocasião, ela foi ao banheiro procurar na internet do celular o que “lúbrico” significava. retocou o batom e menos de uma hora depois, não tinha mais nem sinal de vermelho na boca.

hoje, tudo o que ela queria era que ele tivesse pensamentos lúbricos por causa daquele batom. mas acontece que o batom não resistiu ao quinto cigarro. oito e quarenta e cinco. ela não podia sair para o banheiro retocar. das últimas quatro vezes não. mas na quinta, quarenta e cinco minutos de atraso significa que ele vai chegar a qualquer momento.

e será que brigará com ela quando descobrir que ela começou a fumar? e será que por isso iria embora de novo? será que ele engordou? que ele ainda tem aqueles cachos? que amanhã chove? será que ele ainda faz cara de dor quando goza? que os anos não conseguiram destruir o sorriso de criança? será que ainda usa o mesmo relógio que tantas vezes lhe anunciou as horas tempranas? quantas vezes em seis anos será que se troca a bateria de um relógio? será que ele se esqueceu do acordo? será que ela era, dele, a mulher que ele não mencionava?

nove e meia. sete cigarros.

pagou a conta, vestiu o casaco e voltou para casa pensando em qual roupa usará no ano que vem.

das mães.

mãe,
este é nosso vigésimo oitavo dia das mães juntas. parece muito, né? vinte e oito.
coincidentemente, você tinha vinte e oito anos quando eu nasci. e você me contou a história daquele dia tantas vezes. de como eu demorei pra chegar. mas de como, quando estava perto, eu tive pressa em nascer e o médico quase não chegou a tempo. de como a espera foi longa. e de como, durante a espera, você conseguiu construir todo um mundo doce pra me receber. de como, pra ser verdadeiro, decidiu abandonar a carreira pra ser mãe em tempo integral. de como escolheu o meu nome. e me contou tantas histórias tantas vezes. me contou a história de como me obrigou a aprender a andar de bicicleta. eu, que sempre tive tanto medo de tudo. mas me contou também, com orgulho, de como eu fui corajosa no primeiro dia de aula. você me deixou na escola e eu olhei pra trás só uma vez, pra te sorrir e dar tchau. e você ficou na porta da escola chorando até eu sair. coisa de mãe que esperou muito, eu acho.
sabe que eu gosto especialmente da história de quando, me ensinando a escrever, você descobriu que, com as letras do teu nome, era possível escrever o meu, sobrando só uma letra e faltando uma outra. eu gosto dessa história porque ela ilustra, no simbólico, o quão derivada de você eu sou. são seis letras, de sete no total.
hoje você não consegue mais me contar histórias, mãe, e raramente pronuncia o nome que você escolheu pra mim. e eu, que sempre precisei tanto de referências, me vejo sem as tuas.
tem dias em que eu me sinto tão à deriva. sem lastro, sem porto. é tão difícil fazer escolhas sem a tua aprovação, mãe. viver sem a luz do apreço to teu olhar. mas eu sinto falta das tuas histórias, acima de tudo, porque elas me ancoram no mundo doce que você construiu pra gente. porque além de ser portadora de grande parte da doçura do mundo, você também é portadora da maior parte da doçura em mim. você me ensinou a valorizar a beleza dos gestos, a dar a cada gesto uma intenção poderosa, a olhar as pessoas por inteiro, a não julgar, a ter o cuidado de chamar as coisas pelo nome certo, sempre. eu olho pra mim e acho que consegui aprender bem, mas tem coisas que eu não consegui aprender com você. você sempre disse que eu saí mais ao meu pai e que tinha tanta coisa em mim que te escapavam à compreensão, que eu fazia as coisas mais difíceis do que elas realmente eram. e agora, como sobre tantas outras coisas, eu vejo que você estava certa. eu não compartilho dessa tua essência ensolarada. eu não aprendi, por exemplo, a acordar feliz e ruidosa, como você fazia todos os dias. não aprendi a ter aquela tua esperança e não aprendi a fazer aquele teu bolo de fubá que me alegrava tanto. e agora me fazem tanta falta, mãe, essas coisas que eu não consegui aprender de você. talvez fosse um bocado mais fácil tudo isso, caso eu não acordasse todos os dias tão anuviada.
mas já é tão difícil te perder um pouco por dia, mãe. tão difícil ver você se perder de si e ir embora aos pouquinhos. é tão essencialmente difícil que, pensando bem, eu acho que nem é possível eu fazer disso mais difícil, como você falava que eu fazia. eu penso em várias coisas e eu penso tanto. eu maldigo o sagrado e eu às vezes fico brava. mas sempre depois que eu penso, eu vejo que não é por ser tão difícil que eu preferisse te perder mais rápido por causa disso. porque eu sei que você ainda está lá um pouquinho. e eu sei que, em algum lugar desses teus pensamentos raros, você também sabe que eu estou aqui.
faz alguns meses você tem um novo doutor, mãe. depois de tantos doutores que conhecemos, cada um falando uma coisa diferente e nos deixando tão confusos, escolhemos esse e decidimos confiar nele, nos remédios que ele escolhe pra você (decidimos confiar até nos erros dele), e nos conselhos que ele nos dá pra lidar com você. seu novo doutor é tão humano, mãe. você diria que ele é uma pessoa “iluminada”, como você sempre dizia das pessoas que sabem ouvir, que olham nos olhos quando a gente fala, que têm um aperto de mão forte, um sorriso fácil e que, de certa forma, fogem do padrão do esperado. uma das coisas que nos disse o seu novo doutor é que devemos te chamar pelo teu nome de batizado porque você não se identifica mais como mãe (ou esposa). essa é uma das únicas orientações dele que eu não consigo seguir, por mais que eu me esforce. não te chamar de mãe. porque “mãe” é o nome certo. e, da mesma forma que você me deu um nome, “mãe” foi o nome que eu te dei e te chamar por ele me leva um pouquinho de volta ao mundo doce que você construiu pra gente.
de fato, quase sempre, você não levanta mais o olhar quando eu te chamo mãe. mas eu insisto. e vez por outra, quando você responde, você me olha e sorri. vira e mexe até fala o meu nome. as três sílabas que você escolheu.
é o meu quinhãozinho de céu, mãe. é a hora em que eu vivo o “sentimento oceânico” que você me explicou um dia. é a hora em que eu percebo como você continua me ensinando as coisas que você, me conhecendo tanto, sabe que eu não conseguiria aprender em vinte e oito anos. nessas horas, você me ensina a ter esperança.
e é aí que eu tenho certeza de que você ainda está lá e sei que você sabe que eu estarei aqui. e isso é tão – mas tão – bonito. (e eu não sei ao certo, porque é você quem sempre soube das receitas, mas eu desconfio que é de coisas assim que foi feito o nosso mundo doce).
e eu morarei aqui.
feliz dia das mães, com todo amor e gratidão,
mirella
(minha mãe tem 56 anos, foi diagnosticada com mal de alzheimer há sete, escolheu pra mim o pai mais herói do mundo e tenta me ensinar todos os dias que todas as coisas podem ser bonitas. é só a gente saber calibrar o olhar.)

os filmes dos nossos livros favoritos.

em 2006 meu coração derreteu.
na época, uma das amigas mais queridas trabalhava numa livraria. um dia veio e me entregou um livro e disse que era um lançamento, que as pessoas ‘choravam horrores’ e que era exatamente daquilo que meu coração precisava.

“eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”.

li as duzentas e tantas páginas em dois dias, compulsivamente. fiz os grifos à caneta. transcrevi trechos. chorei. horrores.

não consegui ler nenhum outro livro com paixão naquele ano. nada ia ter mais aderência com o que eu sentia. com isso, reli umas quatro ou cinco vezes. da segunda, comecei a chorar na segunda página. na terceira, fiz novos grifos. para a quarta, com o coração um pouco (bem pouco) menos líquido, comprei um exemplar novo pra uma leitura nova e mais limpa, sem os grifos do coração derretido. não adiantou muito. os grifos nos nossos livros favoritos acabam tatuados na nossa alma.

“eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” é a história de um amor marginal. uma tentativa desesperada de resgate da delicadeza num ambiente árido e hostil. cauby e lavínia. a inevitabilidade de certos encontros e das suas consequências devastadoras. um furacão que derreteu tudo.

“o amor é sexualmente transmissível”, escreveu marçal aquino pra inaugurar a história. alguém consegue contestar?

em 2010, marçal foi na usp conversar sobre ficção. eu respirei fundo e fui tiete. levei o livro e pedi autógrafo. falei de como eu amava aquela história, de como ri e reli. contei da vez que vi uma menina no metrô lendo as últimas páginas do livro e passei minha parada pra ver como ela ia reagir. ela não aguentou. deu um suspiro, fechou o livro e guardou na mochila. eu esperei ela descer pra pegar o trem de volta. ganhei um abraço do marçal e uma dedicatória linda. e ele contou que a história de lavínia e cauby ia pros cinemas, obviamente dirigida pelo beto brant, que já tinha adaptado parte do livro na série “o amor segundo b. schiamberg”. também contou que a camila pitanga ia ser a lavínia e eu fiquei azeda. nunca gostei da camila pitanga. nisso, prometi pra mim que, de novo, não veria o filme. ficaria com a lavínia da minha cabeça. e tudo bem.

mas quem disse que a gente consegue? assim como cauby, faço parte do grupo das pessoas de sangue quente. daquelas que, “apesar de resistirem com diferentes graus de esforço, acabam por ceder às tentações”. ano passado, “eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” teve pré-estreia na mostra internacional de sp. sofri. comprei ingresso “só pra garantir” e cogitei não ir até o último instante. mas obviamente eu fui. sabendo que, se fosse um filme ruim, não seria inofensivo (hector babenco, por exemplo, me destruiu “o passado”, do alan pauls). sempre um risco ver os filmes dos nossos livros favoritos.

mas o filme é uma porrada. camila pitanga é… bom, a camila pitanga. mas gustavo machado é o cauby da minha cabeça. beto brant e marçal fizeram um filme moroso. amarelo. fizeram o filme de uma história de amor na terra do meio. fizeram um filme lindo e um filme de livro impecável, que estréia dia 20 de abril agora. e eu não vejo a hora de rever quantas vezes for preciso. vocês, vão e me chamem.

e já estamos em 2012, mas 2006 nunca acaba. a certa altura do livro, cauby encontra uma fotografia que tirou no interior dos estados unidos, numa cidade outrora devastada por um furacão. “no one forgets a hurricane”, dizia a placa.

e dá pra esquecer?

ricos no rio

se hoje, como nos jogos da infância, eu pudesse escolher qualquer coisa do mundo pra querer, eu com certeza ia escolher ser rica no rio com você.

quando eu conheci você, eu não conhecia o rio. e fiquei assim, ignorante do rio, por muito tempo. por todo o tempo em que eu passei me educando em você.
quando eu, enfim, conheci o rio, no depois do eu-e-você, não foi nenhuma surpresa. porque eu conhecia você. e depois de amar tanto você, era óbvio que eu também ia amar o rio.
porque você sempre teve esse jeito de quem faz parte do rio.
o érre sutil. o jeito que você abre a palavra e faz o érre sumir. o jeito que a sua voz desvanece e deixa tudo aberto. do mesmo jeito que você sempre deixa todas as coisas abertas. o seu problema com portas.
os olhos fechadinhos. como se você tivesse o sol o tempo todo virado pra você. e o jeito como essa luz refletia e iluminava os meus olhos quando nós nos orbitávamos.
os cachos. próximos de estarem sujos. e como eles brilhavam e se mexiam de acordo com seu passo. como quem saiu do mar e se secou na areia. a sua maneira de quem simplesmente não se importou o suficiente.
as roupas largas de algodões e linhos. o arrastar dos chinelos. o seu passo.
como ricos no rio, a gente vai frequentar pouco a praia. e sempre elegantes. e com o cachorro. é claro que, como ricos no rio, a gente vai dar um jeito de o cachorro não morrer nunca. e a gente vai passear o cachorro cumprimentando conhecidos bronzeados. e chegar atrasado em coquetéis na livraria da travessa. deixar umas palavras baratas sobre o papel da crítica na literatura e logo depois ir embora. a gente vai em restaurantes caros de qualidade questionável nas travessas da orla, encontrar nossos colegas de circunstância: os outros ricos no rio. e lá a gente vai usar o nosso humor mais domesticado. a gente vai falar sobre a vida amorosa do amigo divorciado e sobre como o pedido de concordata da american airlines vai afetar a nossa próxima viagem pra macau, johanesburgo ou ilha da madeira. a gente vai ouvir coisas sobre estúdios de pilates, alimentos orgânicos e personal trainers. e a gente vai se cansar bem rápido e voltar pra sacada com vista pro mar e pro cachorro. no dia seguinte, a gente vai beber cerveja na praia com os nossos amigos de coração. e lá, a gente vai usar o nosso humor mais precioso, a gente vai falar de coisas da alma e depois vai rir dos colegas ricos no rio do dia anterior.
e esse vai ser o nosso hobby favorito. rir e rir muito. rir sem parar. rir até morrer. de nós e de todos os outros ricos no rio.

em automático.

são poucas as coisas nesse mundo que têm a capacidade tão incisiva de me colocar a vida em perspectiva como o subir-e-descer de um avião. e por dois motivos:
o primeiro, e também o mais óbvio, pelo distanciamento físico que um vôo de avião oferece. estar a trinta e cinco mil pés da própria vida faz com que ela diminua em tamanho e praticamente suma em meio à grandeza absurda da cidade vista de cima. diminuída em tamanho, também acaba reduzida em relevância e isto nos atira à constatação inquietante da pequenez da nossa existência, do nosso corpo e de tudo que o orbita e o penetra.
o segundo motivo, menos universal, creio, é decorrente do medo nem um pouco razoável que eu tenho de aviões. poucas coisas me parecem mais absurdas do que um monte de lata pressurizado que acelera e levanta vôo. danem-se as leis da física que permitem que isso aconteça e dane-se a estatística que me conta que é mais provável que eu morra num acidente de carro. num hipopótamo. num tiro de culatra. numa coxinha estragada. eu odeio aviões e agora me parece tão imprudente assumir isso assim, por escrito e publicamente.
cerca de 80% do tempo que eu passo dentro de um avião, gasto pensando: na morte. incêndios. explosões. asfixia. carbonização. nos outros 20%, consigo, não com pouco esforço, distrair o medo pensando em: sexo. música pra fazer sexo. refeições fartas. mar. gramados. todas essas coisas que, no final, não deixam de ser feitas da mesma matéria que a morte.
de certa forma, cada vez que um avião acelera pra me levantar vôo é como se me cravassem no peito um termómetro bizarro de medir se estou cuidando bem de mim e se estou sabendo ser feliz. como um diálogo no escuro com os recônditos do próprio coração. talvez uma versão em miniatura dessas experiências de quase-morte que a gente ouve por aí.
da mesma forma, subir num avião com alguém é abrir as portas pro coração se manifestar sem filtros e despejar sobre nós suas entranhadas opiniões.
uma vez eu subi num avião com um homem e a idéia de morrer ali, ao lado dele, me apavorou de tal maneira que eu não consegui parar de tremer durante as seismilequinhentas horas que durou aquele vôo. eu não queria que aquela mão pegasse a minha no instante em que o motor parasse. nem que aquela mão me puxasse pr’aqueles braços quando começasse a queda. nem que fossem aqueles ouvidos a ouvir minhas últimas palavras ou que fosse aquela a última voz que eu ouviria nesta vida. eu não queria estar ali.
claro que eu teria percebido mais cedo ou mais tarde, mas o distanciamento do resto da minha vida (primeiro motivo) e a iminência da morte no monte de lata voador (segundo motivo), me pouparam de alguns momentos (meses, talvez até anos) orbitando uma pessoa cuja mão eu não queria apertar durante a queda.
e nisso, sou grata às tantas horas intranqüilas e ao medo irrazoável.  eu o alimento. vejo filmes sobre histórias horrorosas. cuido do medo e faço paz com ele.
porque se essa vida não é senão abrir espaço aos encontros com as pessoas cujas mãos a gente gostaria de apertar quando nosso avião cair, então eu não sei.

gota d’água

hoje eu sonhei com lobos.
quer dizer, eu sonhei com um lago habitado por lobos. lobos que viviam embaixo d’água como as arraias. lobos que viviam com os peixes.
era um lago raso. entrei no lago guiada por um nativo. dava pra alcançar os pés no chão e a água não chegava nos nossos ombros.
dava pra abrir os olhos embaixo d’água. e ver os lobos e os peixes. os lobos andavam no fundo lago e os peixes iam naqueles cardumes circulando e chegavam muito muito perto de tudo. os lobos tinham olhos amarelos e brilhantes e eram alheios a nós e ao resto do lago.
eu tive medo dos lobos mesmo com ele me dizendo que não precisava.
então ele me ensinou que, se a gente mergulhasse, abrisse bem os olhos e desse um grito bem forte embaixo d’água, a gente podia mudar as coisas no lago. os lobos iam andar pra outra direção e os peixes iam trocar de cardume.
gritando embaixo d’água, bem forte, a gente podia fazer aquele lago dançar.
……………………………………………………
hoje eu sonhei com lobos e acordei pensando em você. dei um grito embaixo d’água (mais um), como tenho feito todos os dias desde que você foi embora. dei (mais) esse grito embaixo d’água mas você não voltou a andar na minha direção.
(desde que você foi embora, não importa o quanto eu grite, meu mundo nunca mais soube dançar.)

a música mais bonita do mundo

a música mais bonita do mundo não tem nem 3 minutos.

o começo e o fim da música mais bonita do mundo se encaixam perfeitamente.

de modo que a música mais bonita do mundo pode, então, não terminar nunca.

a música mais bonita do mundo só tem 4 versos, com 21 palavras diferentes (incluindo os artigos).

são 5 vozes cantando a música mais bonita do mundo.

me disseram que a música mais bonita do mundo tem só 3 notas.

mas a música mais bonita do mundo tem milhares de reticências.

a música mais bonita do mundo obviamente fala de amor.

a música mais bonita do mundo tem aquela simplicidade desconcertante.

e também fala de permanência, de escolha, de entrega, essa que é a música mais bonita do mundo.

a música mais bonita do mundo é um cover, gravado em 2009 pra um projeto de conscientização sobre a aids.

a música mais bonita do mundo diz assim:

I keep a service bell by my bed for you
let the others do what they do
I will hold on hold on hold on
I keep a service bell by my bed for you

john & yoko.

diego & frida.

ulay & marina.

grégoire & sophie.

clyde & bonnie.

humphrey & lauren.

auguste & camille.

albert & victoria.

josé & pilar.

“é preciso ir ver”

para o meu pai.

quando criança, nunca entendi o porque de usarem verde no reveillon. nem em nenhuma dessas coisas que as pessoas compram que são coloridas e que cores significam coisas que a gente deseja.

“esperança”, eles diziam.

mas não fazia nenhum sentido desejar esperança. a esperança era o desejo em si, a certeza de que tudo ia dar certo, e isso era tão óbvio. não fazia sentido, portanto, “gastar” a chance da cor da calcinha ou da fitinha no braço numa coisa tão fácil, quando se podia desejar saúde, amor, prosperidade ou paz. a esperança era um axioma. não era concebível que não estivesse lá, que pudesse vir a não estar.

com nove, dez, onze anos, são poucas as coisas no mundo que não têm saída. ainda foram poucas as vezes em que nos confrontamos com situações que simplesmente não melhorariam. ainda foram poucas as vezes em que a vida colocou um muro (bum!) à nossa frente e fez a gente baixar a cabeça e desejar não estar ali naquele momento. a esperança era uma condição universal. como a fome ou o sono ou o calor o frio.

mas aí vem o tempo, vem a vida e todas as suas coisas.

vêm os erros que a gente faz. vêm todas as coisas que a gente quebra. todas as coisas que quebram na gente. vem aquele telefone tocando às onze da noite. vem tanta chuva e vai tanta gente. vêm todos os pedidos de desculpas que a gente não conseguiu pedir. vem aquele último beijo que eu não te dei. vêm os médicos com os seus “degenerativo e irreversível”. vem todo o tempo que a gente perdeu. vem o telejornal e vem aquele monte de música ruim. vem esse ranço dessa apatia.

e aí um dia a gente se vê. aporia. sentada num banco com a própria solidão, desejando.

e o primeiro desejo é estar no balcão de um bar virando quantas forem as doses possíveis. da bebida mais barata. é estar num barco no meio do mar indo pra qualquer lugar menos o aqui. é sair correndo na velocidade aquela em que seria possível se descolar de si.

aí a gente abre um livro velho, daqueles favoritos que a gente já leu vários milhões de vezes. e ele diz assim:

“as esperanças, sedentárias, deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens. e são como as estátuas que é preciso ir ver, porque elas não vêm até nós.”*

e a gente levanta e vai. porque parece que chega uma hora em que não se trata mais de ainda existir alguma esperança.

mas sim de não se deixar desistir.

*Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas

coração tão branco.

dei por mim que, caso essa situção permaneça por mais algum tempo, é capaz d’esse fel todo me matar um dia. como aquelas histórias que a gente ouve, das esposas que envenenam seus maridos um pouco por dia até que eles caem de cara e se afogam num assado qualquer. e elas sorriem baixinho, as esposas. por um segundo elas sorriem muito, antes de vestirem o luto e fazerem aquelas cenas. dizem que é mais comum do que se imagina.

e deve ser mais ou menos a mesma coisa com a tristeza, um soro amarelo e espêsso se multiplicando dentro da gente, até-que-um-dia.

eu daria a vida pra estar lá e ver se você sorriria, apesar de todo o paradoxo da situção.

porque eu carreguei toda a culpa, trouxe pra mim a responsabilidade do feito, pra que você sofresse mais leve. pra que conseguisse se levantar todas as manhãs e dar o seu passo pra longe de mim. eu drenei o fel que eu produzi em ti, diluí em destilado e bebi aquela solução amarga até não sobrar gota.

e eu fiquei com todos os restos, não saí daquela casa. eu alinhavei todo o estrago pra costurar depois com linha grossa. e furei todos meus dedos. fechei todas as portas. lavei os lençóis e depois os comi, como comi um a um de todos os vestígios de nós. eu comi as palavras e seus ecos. comi os planos. no caso de você fraquejar e querer voltar. você tinha aquele desespero e não via nada. eu tinha a culpa e a urgência de te tirar daquele lugar.

isso foi há muito tempo. e a doçura sempre esteve em ti. mesmo antes de eu comer e beber o resto apodrecido de tudo o que fomos. mesmo antes. sempre, sempre e só em ti.  nunca tive nada em mim que me pudesse ajudar a digerir tudo aquilo. é o tipo de coisa que se deveria constatar antes, não acha?

agora você vê, não vê?

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