desse silêncio,

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“a luz estava toda lá dentro e o escuro, todo fora.”

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paolo giordano, in a solidão dos números primos.

o infinito foi descoberto ou foi inventado?

e o amor?

fuga n.º 3.

era como se fosse a primeira vez que entrava naquela casa.

tudo, absolutamente tudo ali lhe parecia alheio. nem aquela varanda, aquela varanda branca, que sempre fora seu lugar preferido no mundo-todo lhe parecia sua. era como se aquele passado tivesse acontecido em uma outra vida, tivesse sido encenado em um palco muito antigo. por alguns instantes era como se o fio daquelas memórias que pouco a pouco se teciam estivessem vindo de uma outra dimensão, e não do fundo-mais-fundo de sua pele e dos espaços mais recônditos das suas entranhas.

à medida em que abria as primeiras portas e caminhava por entre a luz da manhã e as quinas daquela história, revelava-se um sentimento cabisbaixo. era o degelo que tem adoecido o mundo, escorrendo branco e vagaroso, denunciando nas frestas daquele entulho as cores de uma época ancestral na qual o medo era sempre precedido pelo amor.

aos poucos iam se revelando as nuances dos passos de dança dados naquela sala. e devagar começou a sentir os cheiros que entravam pela janela e circo-navegavam brincando por entre cada um dos narizes que viveram aí. e em um instante sentiu o movimento. o pulsar daquela casa que tanto sabia abandonar-se. uma bola giro-rodando e parando aos seus pés. o ruído dos ponteiros do relógio. as tardes de bolo. as vozes. um choro. um cheiro. um medo de infância. toda aquela matéria de memória ricocheteando na frente dos seus olhos. amarelo sem fogo. presença luminosa começando a arder.

e de repente: o alumbramento. o fluxo de passado represado pelo crivo implacável da memória da infância recomeçou a fluir, como rio que rompe barragem. e o esclarecimento que vinha com o ímpeto daquelas águas ia desenhando um ser inteiro. em um instante os pedaços que eram mantidos unidos com muito esforço por anos e anos se fundiam em um só corpo. inteiro. e naquele mesmo instante todo o mundo se resumiu àqueles poucos metros. e era um. inteiro. agindo num mundo que fazia sentido.

brinquedinho.


faz uns meses apareceu no meu reader um post sobre um LP de um projeto chamado little toys. passaria despercebido se a capa do LP não fosse um cantinho da casa da frida kahlo, em coyoacan. e eu sou sensível à frida, todomundo sabe.

baixei o arquivo e ele ficou umas semanas abandonadinho no desktop. belo dia resolvi ouvir e foi de cara foi aquele arrebatamento. ‘frida & diego viveron en esta casa’, é uma delícia. cheio de referências e delicadezas.  dá pra identificar yann tiersen, beirut, arcade fire. mas ao mesmo tempo é uma lufada de novidade que não dá pra comparar com nada que se tenha ouvido ultimamente. um exercício de doçura, lembranças de sons de infãncia. dá pra baixar o álbum todo aqui. atenção especial pra ‘declaration of war’, pra faixa-título e pra ‘el día de la independência’.

declaration of war, de ‘frida y diego vivieron en esta casa’

o homem por trás do little toys é pablo maqueda, um cineasta espanhol inquieto de 24 anos. nascido e vivido em madrid, foi pra londres mudar de ares e agora, depois de gravar em casa (a clareza da gravação deixa um pouco a desejar) seu primeiro LP “frida and diego vivieron en esta casa” e um novo EP “con músicas para bailar” a ser lançado em dezembro, ele se prepara para voltar para a espanha.

entre gravações do novo EP, ligações de colaboradores para seu próximo projeto de cinema na internet e empaquetamento dos seus brinquedos para a mudança, pablo (doce de gente) respondeu  uma entrevista exclusiva para este blog (caham).

não-coisa: quando e como começou a sua relação com a música?
pablo maqueda: eu comecei fazendo as trilhas dos meus curtas-metragem quando eu tinha 15 anos e mais tarde, quando eu já tinha 20, decidi compor minhas próprias músicas. eu era louco pelo yann tiersen e queria tentar aquele tipo de melodia que eu gostava tanto e, mais tarde, buscar meu próprio estilo musical.

não-coisa: como estão relacionados seus trabalhos com música e com o cinema?
pablo maqueda: o cinema é minha paixão e meu trabalho. a música é meu hobby, mas eu decidi ir em frente e tentar criar as músicas que eu gostaria de ouvir.

ñc: quais as obras que mais te marcaram e que de certa forma te motivaram a seguir a trajetória de música e cinema?
pm: em música, a discografia de yann tiersen, sigur ros e arcade fire. pensando em filmes… o fabuloso destino de amelie poulain e a nouvelle vague que eu adoro, com françois truffaut e jean-luc godard.

ñc: o que da espanha e o que da Inglaterra estão presentes nas suas obras?
pm: eu moro em londres já faz um ano. na semana que vem volto para a espanha, para a minha cidade – madrid. estou muito muito feliz em voltar para meus amigos e minha família, então acho que isso sim vai afetar minhas próximas músicas.

ñc: o que te inspira a fazer música?
pm: como você pode ver, a fonte da inspiração é bem diferente em cada música. pinturas, livros, cinema… meu próximo EP que será lançado em dezembro é completamente diferente de “frida & diego vivieron en esta casa”, mais eletrônico. mas isso também não significa que eu não vou voltar para as canções acústicas.

ñc: qual a relação que você tem com o trabalho da frida?
pm: ela sempre foi e será minha artista favorita em toda a história. o quadro “la pelona” mexeu muito comigo no ano passado. foi quando decidi fazer esse tributo a ela.

ñc: que pergunta você faria se se encontrasse com ela?
pm: perguntaria se ela amou diego rivera tanto quanto diego rivera a amou.

el día de la independência, de ‘frida y diego vivieron en esta casa’

ñc: você tem alguma relação com a cultura brasileira ou latina?
pm: eu gosto de filmes brasileiros,da língua portuguesa e também de filmes portugueses. eu gosto de manoel de oliveira, joão cesar monteiro…
todo o meu trabalho tem um laço muito forte com a américa do sul e a cultura latina. meu novo EP “the night we loved nikola tesla” tem esse single “moctezuma”. espero que você dance muito com essa música. tem apenas 4 palavras na letra: “moctelife, moctesun, moctewar, moctelove…” e a melodia é similar aos trabalhos de delorean, animal collective, panda bear… mas obviamente com meus brinquedos e meus sintetizadores e samplers.

ñc: que músicas você anda ouvindo?
pm: o novo album do julian casablancas, little boots, moldy peaches, o novo do noah & the whale, ayrton senna – esse album do delorean, tudo de beirut, killers, strokes…

ñc: o que tem te encantado no novo cinema?
pm: a inovação. sou obcecado com isso. criar novos pontos de vista, histórias, personagens nunca vistos antes. não fazer nunca as coisas triviais e “filmar o que nunca foi filmado”. é uma das minhas frases favoritas.

ñc: por que “little toys”?
pm: porque eu sempre adorei caixinhas de música, sons esquisitos. e brinquedos e instrumentos de criança, como xilofones, glockenspiels… achei que seria uma forma interessante de experimentar com música.

ñc: e quando você era criança? quais eram teus brinquedos preferidos?
pm: boa pergunta. não consegui responder de pronto e tive que pensar muito, então acho que os brinquedos não eram tão importantes assim na minha infância. acho que eu gostava mais da tv com todos os filmes. filmes da disney. sou um grande fã da disney.

ñc: de todos os teus projetos deste ano, qual foi o mais desafiador?
pm: welovecinema.es acho que é o projeto que mais me orgulha. estou trabalhando muito nele. eu juntei profissionais, amigos e muitos talentos em diferentes áreas: cinema, crítica de cinema, design e fotografia num projeto com um único foco: “meu amor ao cinema”. sstou muito feliz com ele. vamos lançar o site em 1º de janeiro de 2010 com um especial sobre “o cinema espanhol no novo milênio” com 31 artistas dando suas opiniões sobre o mais importante filme da década. 31 diretores, designers, animadores e fotógrafos que vão dar seu ponto de vista artístico para “meu amor ao cinema”, além de vários críticos que vão escrever sobre o novo cinema espanhol. como diretor dessa inicativa, posso dizer que estou muito orgulhoso.

ñc: o que você estava fazendo antes de responder essas perguntas? o que vai fazer depois?
pm: antes, mandando emails para os críticos do projeto welovecinema. depois, vou ao cinema.

ñc: alguma coisa que eu esqueci e você gostaria de comentar?
pm: nada em especial. muito obrigado por ouvir minha música e espero ir ao brasil logo, pra apresentar minhas músicas e dançar com vocês.

de nada! =)

no lo saben. lo terrible es que no lo saben.

julio cortázar, un tal lucas.

(en algun lugar debe haber un basural donde están amontonadas las explicaciones.)

pequena consideração sobre o medo do escuro.

as luzes se apagam e com elas vão todos os artifícios.
dissovem-se os simulacros.
calam-se as mentiras que a contemporaneidade conta pra se esconder de si.

as luzes se apagam e uma voz grave nos vem sussurrar no escuro:

suas coisas são frágeis demais. vocês estão fazendo tudo errado.

centrípeta.

um passo dado na direção errada. um passo. uma curva e lá estava ele. exibia aquela mesma postura ao mesmo tempo tão frágil e tão digna de quem perdeu faz tempo a única certeza que teve na vida. lá estava ele. esperando um sinal verde para cruzar a avenida. contando os ponteiros daquele relógio que tantas vezes me anunciou as horas tempranas. aqueles olhos. vestia aquele mesmo casaco de sempre, agora mais folgado do que antes. e vestia botas de couro marrom. botas que eu não conhecia.

era a primeira vez que o via desde o acontecido.

já uma distância muito grande nos separava. cada um tratou de cuidar sozinho das feridas que tínhamos aberto um no outro e de construir ao redor de si os mesmos muros que um dia tínhamos erguido ao redor de nós. tinha eu tratado de comprar sapatos novos com os quais eu me afastava um passo por dia das ruínas do que fôramos. ele comprou botas novas de couro marrom.

e agora uma curva. é nessas horas que não dá pra duvidar do determinismo contido em todas as coisas que existem ou surgem ou acontecem. um passo dado na direção errada. uma curva. e lá estávamos nós. nós e nossas cicatrizes. nós e nossos muros. nós e nossos sapatos novos. nós e todos os passos que demos pra nos afastar um do outro e que nos levaram pr’aquela mesma esquina. a poucos metros. mas ele não era mais ele. eu não era mais eu. éramos nada além das sobras do que fomos.

o sinal abriu e ele atravessou a rua.
as ruínas de nós nos seguem de dentro da gente.

mentirinha.

sinto saudade das brevidades recém-saídas do forno e das mentirinhas incrementadas com glacê e formigas.
sinto falta dos cafés-da-manhã às sextas feiras e de ser obrigada a comer all bran.
sinto saudade das tantas histórias que ela contava e sinto um rombo no peito quando lembro das outras tantas que ela só insinuou.
sinto falta do vocabulário dela e de como ela confundia algumas palavras e as coisas graves acabavam ficando leves.
sinto saudade de como tudo acabava ficando leve.
sinto falta do telefone tocando todos os dias no mesmo horário.
sinto saudade da constância daquela presença. mesmo quando, pela ignorância da infância, eu era quase cruel com ela.
sinto falta dos pijamas que ela me dava. um no natal (sempre de algodão, fresquinho) e um outro no aniversário (sempre de flanela, quentinho).
sinto saudade de como o papel de presente vinha sempre amassado e ela tentava ajeitar o embrulho na hora, aquela ansiedade.
sinto falta de fingir que cochilava no sofá de couro marrom só pra ouvir ela conversar com a apresentadora da tv.
sinto saudade de como ela percebia quando eu precisava de silêncio e depois, da maneira ruidosa como ela me amava.
sinto falta de quando esse amor vinha com bolo de fubá e suco de laranja, sempre adoçado demais.
sinto saudade da casa desarrumada, do bombril na antena da tv que recebia o sinal via cabo, do banheiro sem espelho, da porta da frente sempre destrancada.
sinto falta de perder tardes ensinando como mexer no celular dela ou como programar o despertador.
sinto saudade de quando ela perdia tardes tentando que eu aprendesse a fazer crochê.
sinto falta dos cachecóis de tricô que eu começava e nunca terminava. e de como eles apareciam inteiros e arrematados, uma semana depois.
sinto saudade da resignação determinada com que ela comprava os meus projetos absurdos de moda.
sinto falta do barulho da cadência e do pedal da máquina de costura.
sinto saudade da minúcia compartilhada na escolha pelos botões perfeitos e de como ela se importava com os detalhes e criticava os meus avessos.
sinto saudades sobretudo do cheiro dela. e do quanto aquele cheiro significava e de como aquele cheiro era reparador qualquer que fosse o tamanho do estrago.

o dia 1º de abril de 2009 foi uma quarta-feira. eu me deitei pra dormir com a roupa que tinha usado no dia. pensava em ’stay and fight’ daquela música do interpol porque tinha esquecido como se reza. dois dias antes ela tinha um olhar sereno e sorria. me fez prometer que eu não choraria, que não deixaria que ninguém se aproximasse dela com “aquelas flores” e que eu seria feliz em medidas incomparáveis. o telefone tocou às onze e cinquenta da noite. no primeiro toque a gente já sabia. ela não deixaria esse detalhe pra trás bem nessa hora. ainda era dia da mentira e no céu a lua sorria pra sempre.

ruínas.

e amanhã o tempo era elástico e as distâncias se mediam em passos. as armaduras eram feitas de lã lapis-lazuli e as pessoas só sorriam com olhos fechados. amanhã a verdade não tinha esse caráter problemático e os consensos não estavam nem perto de ser provisórios. amanhã as recompensas eram diretamente proporcionais às esperas e o trânsito, o chefe, a chuva eram apenas coadjuvantes. amanhã os acordos eram tácitos e os encontros eram fáceis. amanhã os avós viviam pra sempre. e os cães. amanhã ninguém desaprendia a entender os silêncios e todas as músicas tinham sonzinho de piano. amanhã as palavras tinham toda a certeza e os ventos desprendiam de nós tudo que pudesse estar errado.

amanhã as paredes eram todas coloridas. amanhã você não foi embora nunca.

bande à part

você não soube ouvir, por todo o barulho que sempre saiu dessa tua existência tão ruidosa. você nunca notou, por serem tantas as vezes que você olhava pros lados e por ter nesses olhos um estrabismo tão raro: qualquer distração e eles se voltam pra dentro, numa tentativa-última de não se deixar escapar. você nunca tropeçou. nem sequer chegou perto de tropeçar, por andar somente pelos caminhos planos que são concêntricos a si.

acontece.

e acontecia de todo aquele meu silêncio virar melodia de piano e bem-te-vi. do meu olhar se encher de cor e margaridas. daqueles meus caminhos se forrarem com nuvem e pão-de-ló quentinho.

era só olhar. só ouvir. só de lembrar que você existe.

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