gota d’água

hoje eu sonhei com lobos.
quer dizer, eu sonhei com um lago habitado por lobos. lobos que viviam embaixo d’água como as arraias. lobo que viviam com os peixes.
era um lago raso. entrei no lago guiada por um nativo. dava pra alcançar os pés no chão e a água não chegava nos nossos ombros.
dava pra abrir os olhos embaixo d’água. e ver os lobos e os peixes. os lobos andavam no fundo lago e os peixes iam naqueles cardumes circulando e chegavam muito muito perto de tudo. os lobos tinham olhos amarelos e brilhantes e eram alheios a nós e ao resto do lago.
eu tive medo dos lobos mesmo com ele me dizendo que não precisava.
então ele me ensinou que, se a gente mergulhasse, abrisse bem os olhos e desse um grito bem forte embaixo d’água, a gente podia mudar as coisas no lago. os lobos iam andar pra outra direção e os peixes iam trocar de cardume.
gritando embaixo d’água, bem forte, a gente podia fazer aquele lago dançar.
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hoje eu sonhei com lobos e acordei pensando em você. dei um grito embaixo d’água (mais um), como tenho feito todos os dias desde que você foi embora. dei (mais) esse grito embaixo d’água mas você não voltou a andar na minha direção.
(desde que você foi embora, não importa o quanto eu grite, meu mundo nunca mais soube dançar.)

a música mais bonita do mundo

a música mais bonita do mundo não tem nem 3 minutos.

o começo e o fim da música mais bonita do mundo se encaixam perfeitamente.

de modo que a música mais bonita do mundo pode, então, não terminar nunca.

a música mais bonita do mundo só tem 4 versos, com 21 palavras diferentes (incluindo os artigos).

são 5 vozes cantando a música mais bonita do mundo.

me disseram que a música mais bonita do mundo tem só 3 notas.

mas a música mais bonita do mundo tem milhares de reticências.

a música mais bonita do mundo obviamente fala de amor.

a música mais bonita do mundo tem aquela simplicidade desconcertante.

e também fala de permanência, de escolha, de entrega, essa que é a música mais bonita do mundo.

a música mais bonita do mundo é um cover, gravado em 2009 pra um projeto de conscientização sobre a aids.

a música mais bonita do mundo diz assim:

I keep a service bell by my bed for you
let the others do what they do
I will hold on hold on hold on
I keep a service bell by my bed for you

john & yoko.

diego & frida.

ulay & marina.

grégoire & sophie.

clyde & bonnie.

humphrey & lauren.

auguste & camille.

albert & victoria.

josé & pilar.

“é preciso ir ver”

quando criança, nunca entendi o porque de usarem verde no reveillon. nem em nenhuma dessas coisas que as pessoas compram que são coloridas e que cores significam coisas que a gente deseja.

“esperança”, eles diziam.

mas não fazia nenhum sentido desejar esperança. a esperança era o desejo em si, a certeza de que tudo ia dar certo, e isso era tão óbvio. não fazia sentido, portanto, “gastar” a chance da cor da calcinha ou da fitinha no braço numa coisa tão fácil, quando se podia desejar saúde, amor, prosperidade ou paz. a esperança era um axioma. não era concebível que não estivesse lá, que pudesse vir a não estar.

com nove, dez, onze anos, são poucas as coisas no mundo que não têm saída. ainda foram poucas as vezes em que nos confrontamos com situações que simplesmente não melhorariam. ainda foram poucas as vezes em que a vida colocou um muro (bum!) à nossa frente e fez a gente baixar a cabeça e desejar não estar ali naquele momento. a esperança era uma condição universal. como a fome ou o sono ou o calor o frio.

mas aí vem o tempo, vem a vida e todas as suas coisas.

vêm os erros que a gente faz. vêm todas as coisas que a gente quebra. todas as coisas que quebram na gente. vem aquele telefone tocando às onze da noite. vem tanta chuva e vai tanta gente. vêm todos os pedidos de desculpas que a gente não conseguiu pedir. vem aquele último beijo que eu não te dei. vêm os médicos com os seus “degenerativo e irreversível”. vem todo o tempo que a gente perdeu. vem o telejornal e vem aquele monte de música ruim. vem esse ranço dessa apatia.

e aí um dia a gente se vê. aporia. sentada num banco com a própria solidão, desejando.

e o primeiro desejo é estar no balcão de um bar virando quantas forem as doses possíveis. da bebida mais barata. é estar num barco no meio do mar indo pra qualquer lugar menos o aqui. é sair correndo na velocidade aquela em que seria possível se descolar de si.

aí a gente abre um livro velho, daqueles favoritos que a gente já leu vários milhões de vezes. e ele diz assim:

“as esperanças, sedentárias, deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens. e são como as estátuas que é preciso ir ver, porque elas não vêm até nós.”*

e a gente levanta e vai. porque parece que chega uma hora em que não se trata mais de ainda existir alguma esperança.

mas sim de não se deixar desistir.

*Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas

coração tão branco.

dei por mim que, caso essa situção permaneça por mais algum tempo, é capaz d’esse fel todo me matar um dia. como aquelas histórias que a gente ouve, das esposas que envenenam seus maridos um pouco por dia até que eles caem de cara e se afogam num assado qualquer. e elas sorriem baixinho, as esposas. por um segundo elas sorriem muito, antes de vestirem o luto e fazerem aquelas cenas. dizem que é mais comum do que se imagina.

e deve ser mais ou menos a mesma coisa com a tristeza, um soro amarelo e espêsso se multiplicando dentro da gente, até-que-um-dia.

eu daria a vida pra estar lá e ver se você sorriria, apesar de todo o paradoxo da situção.

porque eu carreguei toda a culpa, trouxe pra mim a responsabilidade do feito, pra que você sofresse mais leve. pra que conseguisse se levantar todas as manhãs e dar o seu passo pra longe de mim. eu drenei o fel que eu produzi em ti, diluí em destilado e bebi aquela solução amarga até não sobrar gota.

e eu fiquei com todos os restos, não saí daquela casa. eu alinhavei todo o estrago pra costurar depois com linha grossa. e furei todos meus dedos. fechei todas as portas. lavei os lençóis e depois os comi, como comi um a um de todos os vestígios de nós. eu comi as palavras e seus ecos. comi os planos. no caso de você fraquejar e querer voltar. você tinha aquele desespero e não via nada. eu tinha a culpa e a urgência de te tirar daquele lugar.

isso foi há muito tempo. e a doçura sempre esteve em ti. mesmo antes de eu comer e beber o resto apodrecido de tudo o que fomos. mesmo antes. sempre, sempre e só em ti.  nunca tive nada em mim que me pudesse ajudar a digerir tudo aquilo. é o tipo de coisa que se deveria constatar antes, não acha?

agora você vê, não vê?

desse silêncio,

.“a luz estava toda lá dentro e o escuro, todo fora.”

.

paolo giordano, in a solidão dos números primos.

o infinito foi descoberto ou foi inventado?

e o amor?

fuga n.º 3.

era como se fosse a primeira vez que entrava naquela casa.

tudo, absolutamente tudo ali lhe parecia alheio. nem aquela varanda, aquela varanda branca, que sempre fora seu lugar preferido no mundo-todo lhe parecia sua. era como se aquele passado tivesse acontecido em uma outra vida, tivesse sido encenado em um palco muito antigo. por alguns instantes era como se o fio daquelas memórias que pouco a pouco se teciam estivessem vindo de uma outra dimensão, e não do fundo-mais-fundo de sua pele e dos espaços mais recônditos das suas entranhas.

à medida em que abria as primeiras portas e caminhava por entre a luz da manhã e as quinas daquela história, revelava-se um sentimento cabisbaixo. era o degelo que tem adoecido o mundo, escorrendo branco e vagaroso, denunciando nas frestas daquele entulho as cores de uma época na qual o medo era sempre precedido pelo amor.

aos poucos iam se revelando as nuances dos passos de dança dados naquela sala. e devagar começou a sentir os cheiros que entravam pela janela e circo-navegavam brincando por entre cada um dos narizes que viveram aí. e em um instante sentiu o movimento. o pulsar daquela casa que tanto sabia abandonar-se. uma bola giro-rodando e parando aos seus pés. o ruído dos ponteiros do relógio. as tardes de bolo. as vozes. um choro. um cheiro. um medo de infância. toda aquela matéria de memória ricocheteando na frente dos seus olhos. amarelo sem fogo. presença luminosa começando a arder.

e de repente: o alumbramento. o fluxo de passado represado pelos medos de infância recomeçou a fluir, como rio que rompe barragem. e o esclarecimento que vinha com o ímpeto daquelas águas ia desenhando um ser inteiro. em um instante os pedaços que eram mantidos unidos com muito esforço por anos e anos se fundiam em um só corpo. inteiro. e naquele mesmo instante todo o mundo se resumiu àqueles poucos metros. e era um. inteiro. agindo num mundo que fazia sentido.

no lo saben. lo terrible es que no lo saben.

julio cortázar, un tal lucas.

(en algun lugar debe haber un basural donde están amontonadas las explicaciones.)

pequena consideração sobre o medo do escuro.

as luzes se apagam e com elas vão todos os artifícios.
dissovem-se os simulacros.
calam-se as mentiras que a contemporaneidade conta pra se esconder de si.

as luzes se apagam e uma voz grave nos vem sussurrar no escuro:

suas coisas são frágeis demais. vocês estão fazendo tudo errado.

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