10 de julho de 2010 – 12:20
dei por mim que, caso essa situção permaneça por mais algum tempo, é capaz d’esse fel todo me matar um dia. como aquelas histórias que a gente ouve, das esposas que envenenam seus maridos um pouco por dia até que eles caem de cara e se afogam num assado qualquer. e elas sorriem baixinho, as esposas. por um segundo elas sorriem muito, antes de vestirem o luto e fazerem aquelas cenas. dizem que é mais comum do que se imagina.
e deve ser mais ou menos a mesma coisa com a tristeza, um soro amarelo e espêsso se multiplicando dentro da gente, até-que-um-dia.
eu daria a vida pra estar lá e ver se você sorriria, apesar de todo o paradoxo da situção.
porque eu carreguei toda a culpa, trouxe pra mim a responsabilidade do feito, pra que você sofresse mais leve. pra que conseguisse se levantar todas as manhãs e dar o seu passo pra longe de mim. eu drenei o fel que eu produzi em ti, diluí em destilado e bebi aquela solução amarga até não sobrar gota.
e eu fiquei com todos os restos, não saí daquela casa. eu alinhavei todo o estrago pra costurar depois com linha grossa. e furei todos meus dedos. fechei todas as portas. lavei os lençóis e depois os comi, como comi um a um de todos os vestígios de nós. eu comi as palavras e seus ecos. comi os planos. no caso de você fraquejar e querer voltar. você tinha aquele desespero e não via nada. eu tinha a culpa e a urgência de te tirar daquele lugar.
isso foi há muito tempo. e a doçura sempre esteve em ti. mesmo antes de eu comer e beber o resto apodrecido de tudo o que fomos. mesmo antes. sempre, sempre e só em ti. nunca tive nada em mim que me pudesse ajudar a digerir tudo aquilo. é o tipo de coisa que se deveria constatar antes, não acha?
agora você vê, não vê?
5 de março de 2010 – 12:29
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“a luz estava toda lá dentro e o escuro, todo fora.”
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paolo giordano, in a solidão dos números primos.
2 de dezembro de 2009 – 13:31
era como se fosse a primeira vez que entrava naquela casa.
tudo, absolutamente tudo ali lhe parecia alheio. nem aquela varanda, aquela varanda branca, que sempre fora seu lugar preferido no mundo-todo lhe parecia sua. era como se aquele passado tivesse acontecido em uma outra vida, tivesse sido encenado em um palco muito antigo. por alguns instantes era como se o fio daquelas memórias que pouco a pouco se teciam estivessem vindo de uma outra dimensão, e não do fundo-mais-fundo de sua pele e dos espaços mais recônditos das suas entranhas.
à medida em que abria as primeiras portas e caminhava por entre a luz da manhã e as quinas daquela história, revelava-se um sentimento cabisbaixo. era o degelo que tem adoecido o mundo, escorrendo branco e vagaroso, denunciando nas frestas daquele entulho as cores de uma época ancestral na qual o medo era sempre precedido pelo amor.
aos poucos iam se revelando as nuances dos passos de dança dados naquela sala. e devagar começou a sentir os cheiros que entravam pela janela e circo-navegavam brincando por entre cada um dos narizes que viveram aí. e em um instante sentiu o movimento. o pulsar daquela casa que tanto sabia abandonar-se. uma bola giro-rodando e parando aos seus pés. o ruído dos ponteiros do relógio. as tardes de bolo. as vozes. um choro. um cheiro. um medo de infância. toda aquela matéria de memória ricocheteando na frente dos seus olhos. amarelo sem fogo. presença luminosa começando a arder.
e de repente: o alumbramento. o fluxo de passado represado pelo crivo implacável da memória da infância recomeçou a fluir, como rio que rompe barragem. e o esclarecimento que vinha com o ímpeto daquelas águas ia desenhando um ser inteiro. em um instante os pedaços que eram mantidos unidos com muito esforço por anos e anos se fundiam em um só corpo. inteiro. e naquele mesmo instante todo o mundo se resumiu àqueles poucos metros. e era um. inteiro. agindo num mundo que fazia sentido.
12 de novembro de 2009 – 13:16
julio cortázar, un tal lucas.
(en algun lugar debe haber un basural donde están amontonadas las explicaciones.)
11 de novembro de 2009 – 12:26
as luzes se apagam e com elas vão todos os artifícios.
dissovem-se os simulacros.
calam-se as mentiras que a contemporaneidade conta pra se esconder de si.
as luzes se apagam e uma voz grave nos vem sussurrar no escuro:
suas coisas são frágeis demais. vocês estão fazendo tudo errado.
9 de novembro de 2009 – 14:35
um passo dado na direção errada. um passo. uma curva e lá estava ele. exibia aquela mesma postura ao mesmo tempo tão frágil e tão digna de quem perdeu faz tempo a única certeza que teve na vida. lá estava ele. esperando um sinal verde para cruzar a avenida. contando os ponteiros daquele relógio que tantas vezes me anunciou as horas tempranas. aqueles olhos. vestia aquele mesmo casaco de sempre, agora mais folgado do que antes. e vestia botas de couro marrom. botas que eu não conhecia.
era a primeira vez que o via desde o acontecido.
já uma distância muito grande nos separava. cada um tratou de cuidar sozinho das feridas que tínhamos aberto um no outro e de construir ao redor de si os mesmos muros que um dia tínhamos erguido ao redor de nós. tinha eu tratado de comprar sapatos novos com os quais eu me afastava um passo por dia das ruínas do que fôramos. ele comprou botas novas de couro marrom.
e agora uma curva. é nessas horas que não dá pra duvidar do determinismo contido em todas as coisas que existem ou surgem ou acontecem. um passo dado na direção errada. uma curva. e lá estávamos nós. nós e nossas cicatrizes. nós e nossos muros. nós e nossos sapatos novos. nós e todos os passos que demos pra nos afastar um do outro e que nos levaram pr’aquela mesma esquina. a poucos metros. mas ele não era mais ele. eu não era mais eu. éramos nada além das sobras do que fomos.
o sinal abriu e ele atravessou a rua.
as ruínas de nós nos seguem de dentro da gente.
26 de outubro de 2009 – 10:46

sinto saudade das brevidades recém-saídas do forno e das mentirinhas incrementadas com glacê e formigas.
sinto falta dos cafés-da-manhã às sextas feiras e de ser obrigada a comer all bran.
sinto saudade das tantas histórias que ela contava e sinto um rombo no peito quando lembro das outras tantas que ela só insinuou.
sinto falta do vocabulário dela e de como ela confundia algumas palavras e as coisas graves acabavam ficando leves.
sinto saudade de como tudo acabava ficando leve.
sinto falta do telefone tocando todos os dias no mesmo horário.
sinto saudade da constância daquela presença. mesmo quando, pela ignorância da infância, eu era quase cruel com ela.
sinto falta dos pijamas que ela me dava. um no natal (sempre de algodão, fresquinho) e um outro no aniversário (sempre de flanela, quentinho).
sinto saudade de como o papel de presente vinha sempre amassado e ela tentava ajeitar o embrulho na hora, aquela ansiedade.
sinto falta de fingir que cochilava no sofá de couro marrom só pra ouvir ela conversar com a apresentadora da tv.
sinto saudade de como ela percebia quando eu precisava de silêncio e depois, da maneira ruidosa como ela me amava.
sinto falta de quando esse amor vinha com bolo de fubá e suco de laranja, sempre adoçado demais.
sinto saudade da casa desarrumada, do bombril na antena da tv que recebia o sinal via cabo, do banheiro sem espelho, da porta da frente sempre destrancada.
sinto falta de perder tardes ensinando como mexer no celular dela ou como programar o despertador.
sinto saudade de quando ela perdia tardes tentando que eu aprendesse a fazer crochê.
sinto falta dos cachecóis de tricô que eu começava e nunca terminava. e de como eles apareciam inteiros e arrematados, uma semana depois.
sinto saudade da resignação determinada com que ela comprava os meus projetos absurdos de moda.
sinto falta do barulho da cadência e do pedal da máquina de costura.
sinto saudade da minúcia compartilhada na escolha pelos botões perfeitos e de como ela se importava com os detalhes e criticava os meus avessos.
sinto saudades sobretudo do cheiro dela. e do quanto aquele cheiro significava e de como aquele cheiro era reparador qualquer que fosse o tamanho do estrago.
o dia 1º de abril de 2009 foi uma quarta-feira. eu me deitei pra dormir com a roupa que tinha usado no dia. pensava em ’stay and fight’ daquela música do interpol porque tinha esquecido como se reza. dois dias antes ela tinha um olhar sereno e sorria. me fez prometer que eu não choraria, que não deixaria que ninguém se aproximasse dela com “aquelas flores” e que eu seria feliz em medidas incomparáveis. o telefone tocou às onze e cinquenta da noite. no primeiro toque a gente já sabia. ela não deixaria esse detalhe pra trás bem nessa hora. ainda era dia da mentira e no céu a lua sorria pra sempre.
20 de outubro de 2009 – 17:21
e amanhã o tempo era elástico e as distâncias se mediam em passos. as armaduras eram feitas de lã lapis-lazuli e as pessoas só sorriam com olhos fechados. amanhã a verdade não tinha esse caráter problemático e os consensos não estavam nem perto de ser provisórios. amanhã as recompensas eram diretamente proporcionais às esperas e o trânsito, o chefe, a chuva eram apenas coadjuvantes. amanhã os acordos eram tácitos e os encontros eram fáceis. amanhã os avós viviam pra sempre. e os cães. amanhã ninguém desaprendia a entender os silêncios e todas as músicas tinham sonzinho de piano. amanhã as palavras tinham toda a certeza e os ventos desprendiam de nós tudo que pudesse estar errado.
amanhã as paredes eram todas coloridas. amanhã você não foi embora nunca.
17 de setembro de 2009 – 12:15
você não soube ouvir, por todo o barulho que sempre saiu dessa tua existência tão ruidosa. você nunca notou, por serem tantas as vezes que você olhava pros lados e por ter nesses olhos um estrabismo tão raro: qualquer distração e eles se voltam pra dentro, numa tentativa-última de não se deixar escapar. você nunca tropeçou. nem sequer chegou perto de tropeçar, por andar somente pelos caminhos planos que são concêntricos a si.
acontece.
e acontecia de todo aquele meu silêncio virar melodia de piano e bem-te-vi. do meu olhar se encher de cor e margaridas. daqueles meus caminhos se forrarem com nuvem e pão-de-ló quentinho.
era só olhar. só ouvir. só de lembrar que você existe.