Ernesto “Che” Guevara na festa dos Trabalhadores do ABC

Na última sexta-feira, 1 de Maio, como em todos os anos, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) promoveu em São Bernardo o tradicional show do Dia do Trabalhador. Lá pelo meio da tarde, curiosamente, o locutor da festa chamou ao palco um cantor de nome “Ernesto Che Guevara”.

Como você, nobre leitor, a maioria dos presentes também estranhou o nome do sujeito que se apresentaria. As pessoas se entreolharam e até o próprio locutor pensou estar enganado e tentou corrigir: “Ernesto Che Guerrara”. Depois que um produtor se aproximou e chamou-lhe atenção, ele mais uma vez repetiu: “Ah, não. É Ernesto Che Guevara mesmo”. Mesmo com a confusão, subiu ao palco um sujeito com pinta de mauricinho, que mais parecia o Rogério Flauzino, vocalista do Jota Quest, ou o piloto Felipe Massa, que o guerrilheiro mais famoso da Serra Maestra.

Vestindo um sobretudo preto por cima da camiseta rosa, uma calça jeans e óculos escuros, o cantor nada lembrava o barbudo que até hoje arrebata corações revolucionários mundo afora. Para surpresa de muitos, ou talvez para manter a coerência do nome, o repertório do suposto sósia de Che era recheado de canções da chamada “velha esquerda”, como Chico Buarque e Geraldo Vandré.

Apesar disso, algo precisava ser esclarecido e, ao final do show, o repórter “N-Idéias” foi atrás do guerrilheiro-cantor:

 Repórter N-idéias: Afinal, qual é o seu nome de batismo?     

Ernesto: É Ernesto Guevara de Carvalho.

 

RN: Mas e o Che?

Ernesto: O Che foi confusão do apresentador.

 

RN: Quem foi que deu esse nome para você, rapaz?

Ernesto: Foi meu pai. Ele era militante político na década de setenta. Como nasci em 68 e o Che foi assassinado em outubro de 67, ele resolveu me batizar com esse nome para homenagear o líder da Revolução Cubana.

 

RN: Mas nunca tiraram sarro de você na escola por conta desse nome?

Ernesto:(Risos) Tenho o maior orgulho de ter esse nome. Não só pelo momento histórico que nasci, mas também pela coragem do meu pai em me batizar com esse nome, justamente no momento que a repressão do Brasil era mais forte. 68 foi o ano do AI-5 e meu pai era metalúrgico, militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e ajudou a fundar o MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes). Infelizmente ele foi assassinado em 1971 e me mudei com minha mãe e irmão para o Chile. Após o golpe de Pinochet em 73, fomos para Argentina e depois para Portugal e França. Só conseguimos voltar ao Brasil após a Anistia Política.

 

 

RN: Mas você não tem nenhum perfil de guerrilheiro, né? E essas roupas de boy?

Ernesto: (Risos) Olha, o mundo tem muitos guerrilheiros hoje em dia. Tem o guerrilheiro urbano e o da selva, como foi o Che. Acho que a guerrilha se dá em outros campos também. O meu repertório é uma forma de fazer uma guerra também, porque o mercado fonográfico não dá espaço para esse tipo de canção de resistência. E quando dá, como é o caso do “Nós vamos invadir sua praia”, do Ultraje a Rigor (música que abre o show), a imprensa não faz questão nenhuma de mostrar o real lado político dela. Essa canção foi feita no final da década de oitenta, quando o Brizola foi eleito no Rio e a Zona Sul tinha muito preconceito com quem vinha do morro. Mas pouca gente sabe e fala disso. Então, a canção acaba se tornando um front pra mim também.

 

RN: E quem são os ídolos do “Guevara” brasileiro?

Ernesto: Todos os revolucionários que participaram da ocupação de Cuba são meus ídolos. Mas também tenho admiração pelo presidente Lula, não só pela história pessoal dele. Apesar da popularidade, quando alcançarmos um tempo histórico, nós vamos reconhecer ainda mais o governo de transformações que ele faz.

 

RN: Como você virou cantor?

Ernesto: Quando voltamos ao Brasil, fomos morar na casa da minha avó e descobri que uma parte da família da minha mãe era de músicos. Eles cantavam na igreja Assembléia de Deus. Por volta de oitenta e dois, quando eu tinha uns catorze anos, vim num show de primeiro de Maio que aconteceu justamente aqui, no Paço Municipal de São Bernardo. Era um um show do Zé Geraldo e fiquei encantado com a forma que ele tocava as pessoas com aquelas músicas de cunho social. Lembro que ele cantou aquela música “Cidadão” e tinha muitos operários aqui nesse dia. Era o fim daquele ciclo de greves aqui no ABC e eu estava no meio deles. Vi a reação de cada um. Eles estavam muito emocionados. Foi aí que pensei, “poxa, é isso que quero fazer da minha vida”…

 

RN: O Zé Geraldo vai cantar aqui hoje. Você pretende tietá-lo?

Ernesto: Pois é, rapaz. Uma coincidência muito agradável. Se eu tiver oportunidade, pretendo falar com ele sim. Vou contar como ele influenciou a minha carreira.

 

((( Nesse momento a entrevista é interrompida pelo meu celular, que não parava de tocar. Era a redação mandando fazer um boletim ao vivo. Não tinha como não atender. Antes de terminar, ainda descobri que o Ernesto Guevara do ABC tem 41 anos de idade e pelo menos doze anos de “cantante” profissional.)))

 

Minha maior surpresa foi descobrir, horas depois, que o “guerrilheiro da música” também é apresentador de tv. Tomei um susto quando vi ele de microfone na mão, entrevistando o presidente nacional da CUT, Arthur Henrique. Claro que fotografei o ato único, pois não é sempre que encontramos uma figura tão inusitada na vida, com uma história, digamos, surpreendente.

Troquei umas breves palavras novamente com o “guerrilheiro-cantor-apresentador” no meio de um dos shows, onde descobri que o programa apresentado por ele é o “ABC de toda Gente”, que fala de iniciativas do terceiro setor que deram certo na região. O programa também mistura um pouco colunismo social da região, o que faz dele um Amaury Júnior da Resistência.

Ernesto Guevara numa performance revolucionária

Ernesto Guevara numa performance revolucionária

O programa passa em um canal da NET que não me recordo. Mas é só para a região do ABC mesmo. Numa rápida busca pela internet ainda descobri o site do Ernesto Guevara, que é o seguinte: www.cantorernestoguevara.com.br. No site tem alguns músicas cantadas por ele e algumas fotos emblemáticas da era de chumbo no Brasil. Mas o que chama mais atenção é uma frase solta que diz o seguinte: “Perder a ternura jamais!! Canções da Resistência.”

Chupa, Cuba!

Estréia (ou estreia?)

Minha intenção na estréia desse espaço era fazer um vídeo legal para postarmos aqui. Fiquei vários dias tentando fazer algo que fosse realmente engraçado, mas não consegui. Não sei se por causa da mudança ortográfica ou da crise financeira global, que tiraram acentos e assentos de tudo e todos, uma confusão se deu em minha cabeça e nada consegui preparar. Mas tinha um vídeo já na manga, prevendo a minha crise de criatividade. Um tanto besta, mas pelo menos não passa em branco.

O princípio

Como meus vizinhos já disseram, o projeto A nível de nasceu antes mesmo de ter esse nome. Desde os tempos de faculdade, nosso sonho era poder trabalhar com o que gosta, de forma independente e aloprando tudo que é (ou se acha) muito sério. A maioria dos inquilinos deste condomínio aprendeu a ler anos depois do fim do saudoso O Pasquim. Mas como diria a dupla de intelectuais Sandy e Júnior, “o que é imortal não morre no final”. Sendo assim, “O Pasquim” tentou reencarnar várias vezes e até com nomes diferentes, como a revista Bundas ou O Pasquim 21. Todos sem sucesso.

Nossa intenção nem de longe é ser um pasquim. Não temos genialidade, tão pouco o tempo necessário para se criar algo do gênero. Aliás, pelos posts que se viu até aqui, esse espaço em nada lembra a turba daquela época. Mas esse é o primeiro passo que demos para, quem sabe um dia, conseguirmos fazer algo legal da nossa vocação. É como se “O Pasquim” fosse o objetivo a ser alcançado.

Alguém lembrou que, nas infinitas conversas de bar, alguém sempre lembrava da necessidade de criarmos um funzine, um jornal ou um site. O primeiro passo foi dado: colocamos o primeiro tijolo, coincidentemente vermelho, chamado “A nível de”. Contratamos também um trio de publicitárias pra lá de criativas, além de agregarmos outros jornalistas que nem sempre fizeram parte das conversas de bar de outrora. Uma turma e muito melhor do que as que frequentam muitas redações e agências publicitárias do Brasil.

Quem sabe assim, em alguns anos, alguém tome coragem de erguer a parede que falta?!

Quem viver verá!

A última palavra sobre os brancos de olhos claros

Não costumo repercutir nesse espaço as bobagens ditas pelo nosso presidente da República. Já falei sobre isso mais de uma vez e repito: as frases polêmicas de Lula são uma estratégia para atrair os holofotes. Poucos me ouvem, mas um dia a história me dará razão (risos). 

Deixando a modéstia de lado, aproveito a nova polêmica lulista para reproduzir um trecho da coluna do ombudsman da Folha neste domingo, 29 de março. É um trecho muito sintomático sobre as armadilhas presidenciais que Folha e Estado inocentemente (ou conscientemente) caem. Nas polêmicas criadas por Lula, os jornalões paulistas parecem mariscos indefesos perto dos tentáculos do líder político mais habilidoso (e escroto) que se ouviu falar por essas terras. 
Eis o trecho: 
“A Folha adora debochar das mancadas verbais do presidente Lula. Quase sempre de maneira preconceituosa, elitista, exagerada, inócua e equivocada porque um presidente deve ser julgado pela sua administração, não pelo seu português ou seus conhecimentos gerais.

Na sexta, deu destaque a um desses deslizes: a acusação de que a crise econômica é culpa de “gente branca com olhos azuis”. A frase tem conotação racista e ideológica, foi proferida diante de um chefe de governo de nação majoritariamente branca e merecia repercussão.
Mas ao armar uma pegadinha para Lula e mostrar que há envolvidos na crise negros, asiáticos e de olhos castanhos, o jornal aceita a premissa do argumento e se nivela com ele.”

Amaury Jr. Verde

Marx tinha razão

O velho gordo, judeu e barbudo Karl Marx dizia que “A história se repete como tragédia ou farsa”. Isso vale para tudo, inclusive para eleição no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. 
Dando uma analisada na lista de integrantes da “Chapa 2”, deparei-me com o nome de Igor Fuser como diretor de “Cultura e Comunicação”. Quem conhece bem a história sabe de sua passagem controversa pelas dependências da Rua Rego Freitas. O direito de mudar é dado a todos no mundo. Porém, o que há de fato realmente é que, para o bem ou para o mal, a “Chapa 2” perdeu as eleições ontem. O placar foi o seguinte: 
Chapa 1 (situação): 653 votos
Chapa 2 (oposição): 515 votos
Na página do Sindicato dos  Jornalista chama a atenção uma nota de José Augusto Camargo (o Guto), reeleito presidente da entidade: “A campanha mostrou o envolvimento das redações no debate”. Se não sou burro, idiota  ou coisa parecida, um universo de 1168 votantes não me parece representar as redações do estado, confere?  
Por essas e outras é que defendo uma condecoração para Karl Marx no Conselho de Segurança da ONU. 

Meu dia de Mônica Bergamo

Coincidentemente estive nesta quinta-feira na livraria Cultura do Conjunto Nacional, justamente na noite em que José Gregori lançava seu mais novo livro: José Gregori – Os sonhos que alimentam a vida. Confesso que tinha lido outro dia na Folha sobre o evento, mas não me atentei a data. Tanto que me espantei ao ver aquele tanto de gente engravatada, enquanto trajava uma calça jeans rasgada e um humilde chinelo de dedos com correia azul. 

José Gregori foi ministro da Justiça de FHC e, como era de se esperar, caciques tucanos de alta plumagem apareceram no evento. Entre as tantas figuras, o governador paulista José Serra e seu antecessor (e atual secretário) Geraldo Alckmin.

Provavelmente você não vai ler amanhã nos jornais que o ilustre governador José Serra deu uma de “José sem braço” e resolveu furar a fila de autógrafos, para a fúria de muitos que aguardavam a oportunidade de um aperto de mão no ex-ministro. Entre os que esperavam na fila estava justamente o humilde secretário Alckmin, feliz da vida com os resultados da última pesquisa Datafolha para a sucessão no estado e distribuindo sorrisos e tchauzinhos aos transeuntes.  

Provavelmente Folha e Estado também não dirão que, cansado de esperar na fila, Geraldo “Trabalho e Geração de Renda” Alckmin, saiu a francesa do evento, minutos depois que o patrão Serra deixou a livraria. O novo titular da pasta estadual de Desenvolvimento foi embora sem nem pegar autógrafo do anfitrião da noite. 

Gente muito influente do PSDB me garantiu que “Geraldinho”, como é conhecido no partido, sequer adquiriu um exemplar do livro de Gregori, saindo do evento de mãos abanando e fazendo jus a fama de sovina. Pelo sim ou pelo não, a lição que fica é que o “jeitinho brasileiro” parece não ser privilégio apenas dos cidadãos de baixa renda. 

Papelão, governadores.

GreNal

Virou mania na web fazer traillers de filmes usando rivalidades entre times de futebol. Dá uma olhada nessa: 

Radiohead – Creep

Mundo mais triste

Minha mãe sempre dizia que a gente só da valor aos pais quando perde. Acho que qualquer pai contrariado deve dizer isso aos filhos. Para contrariá-los mais uma vez, digo que isso não acontece apenas com os pais. Mas também com os amigos. 

Nessa segunda-feira faleceu uma grande amiga: Thaís Sauaya. Ela era a mulher mais velha da sala. Decidira cursar Jornalismo depois de anos de profissão, apenas para adquirir o diploma e continuar trabalhando. Era mais jornalista que qualquer um de nós. Daquelas das antigas, que atuara inclusive no movimento estudantil, quando ainda era aluna da Química. 
Quis o destino que ela falecesse num acidente automobilístico. Durante a cerimônia de despedida, no crematório da Vila Alpina hoje, muita gente importante. Vereadores, líderes sindicais, representantes do terceiro setor, jornalistas. Ao lado do caixão, uma coroa de flores enviada por Lula e Marisa Letícia.
Sabe, com todo a experiência e influência política que tinha, Thaís era a aluna mais aplicada da sala. Sentava entre as “crianças”, como gostava de se referir a nós, colegas de sala, sem distinção. Excluía apenas os colegas que gostavam de colocar o nome nos trabalhos, sem dar o suor necessário.
Fechou o curso com nota máxima: 10. Nos formamos em 2006 e desde então mantínhamos contato apenas por e-mail, numa lista de debates administrada por ela. O espaço era para a discussão dos rumos políticos do país. Da forma mais simples conseguiu influenciar meu voto muitas vezes, sempre buscando justiça social e preocupando-se com os amigos. Em síntese, uma mulher de fazer inveja a qualquer homem. 
A notícia de sua morte caiu como uma bomba entre nós, colegas de sala. Era do tipo de pessoa que imaginamos eterna. Só depois de sua partida damos conta que o mundo não será o mesmo. Será pior, com menos uma grave voz para gritar contra as mazelas deste mundo.  

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