O dia que Haddad interrompeu a caminhada para uma oração na Faria Lima

Entre críticas e elogios, Haddad interrompe caminhada para fazer oração no meio da Faria Lima
Que a vida de prefeito numa cidade como São Paulo não é fácil, isso todo mundo sabe. Para todo lado que vai, pedidos e reclamações são certamente mais numerosos que elogios, tapinhas nas costas e pedidos de fotografia.
Mas na manhã desta quarta-feira (22), o prefeito Fernando Haddad foi surpreendido por um pedido pra lá de inusitado no Largo da Batata, zona Oeste de São Paulo. Enquanto tentava caminhar até o Mercadão de Pinheiros, o prefeito foi abordado por um grupo de jovens com rostos pintados que tinha apenas um pedido:
“Prefeito, o senhor pode fazer uma oração com a gente?”, disse um dos jovens, identificado apenas como Leonardo, de 15 anos.
Espantado e aparentemente sem jeito com o pedido, o prefeito da maior cidade da América Latina pareceu não acreditar no que estava ouvindo:
“Como é que é? De onde vocês são?”, respondeu.
Os cerca de vinte jovens explicaram que eram da Igreja Cristã da Família, na Zona Sul, e estavam na região para colher donativos para as obras sociais da entidade, através de intervenções de mímica no farol.
Surpreendido, Haddad deu a mão aos jovens e ele mesmo puxou a oração coletiva, feita debaixo de um sol que marcava 28 graus na Avenida Faria Lima, uma das mais movimentadas da cidade.
Abordado mais tarde pela reportagem de Terra Magazine, o prefeito disse que achou o pedido “inusitado” e afirmou ser aquela a primeira vez que tinha sido abordado na rua com pedido de oração pública. “Eu não canso de me surpreender nessa cidade. Mas achei muito bom”, contou.
O jovem Leonardo, autor da proposta inusitada do dia, disse que o pedido foi feito porque “o prefeito precisa ter Deus no coração para trabalhar direito pelas pessoas”.
Questionado se para ser prefeito de São Paulo era preciso fazer muita oração no meio do expediente, Haddad deu uma gargalhada discreta e respondeu: “Rezo todos dos dias pela cidade e pela minha família”.
Mas como perguntar não ofende, o repórter tentou ser mais indecoroso e perguntou ao prefeito se as orações aumentaram depois da maré de más notícias que a administração dele tem enfrentando, como o bloqueio no aumento do IPTU progressivo, os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus e as tentativas do Tribunal de Contas Município (TCU) de inviabilizar o projeto de construção de novos corredores de ônibus.
Com o sorriso ainda no semblante, o prefeito apenas balançou a cabeça com uma resposta enfática: “Claro que não…”
Coincidência ou não, o pedido de oração dos jovens cristãos aconteceu 15 minutos depois que o prefeito teve um discurso interrompido ainda naquele lugar por um manifestante descontente com a classe política.
Haddad falava da proposta de entregar 37 quilômetros de ciclovias entre o Largo da Batata e o Terminal João Dias, quando o cidadão que aparentava não menos de 35 anos começou a gritar “promessa antiga, promessa antiga”.
Sem perder o rebolado, o prefeito deu razão ao manifestante:
“Ele tem razão em cobrar as administrações anteriores, que prometeram e não fizeram. Nós precisamos trabalhar para dar respostas que a cidade precisa e não cometer o mesmo erro”, cobrou o prefeito de seus secretários presentes.
“O sr também só promete”, retrucou o manifestante.
Parecia aquele ser mais um dia longo na vida do mandatário e ouvidor da cidade. E o dia nem tinha ainda batido as doze badaladas do almoço.
Mas veio então o pedido dos jovens cristãos, que naquele momento soava como música aos ouvidos do maior ouvidor público da cidade.
A corrente parece ter espantado os maus fluídos pois, no quarteirão seguinte, Haddad foi parado por duas senhoras que elogiaram a atuação dele na Cracolândia:
“O senhor deu emprego, comida e hotel para aqueles pobrezinhos. Mas precisa dar uma casa, porque quando o senhor for embora, o que vier depois acaba com tudo e eles voltam tudo pra rua de novo”, clamou ao prefeito uma senhora de nome Maria Aparecida, de 59 anos.
O seguinte era um jornalista conhecido, chamado Ricardo Ferraz, que entregou ao prefeito uma réplica de um banco de praça de madeira, símbolo do “Movimento Boa Praça”, que pediu a Haddad mais atenção na construção de bancos para quer a cidade ofereça lugares de conforto aos munícipes.
Depois dele foram sete abordagens no total, que fizeram o prefeito percorrer uma distância de não mais que quinhentos metros, entre a Faria Lima e o Mercadão, em vinte e um minutos. Qualquer cidadão normal percorreria o mesmo trecho em três.
Em todas elas o sorriso permanecia no rosto. Não se sabe ao certo se por causa daquela  oração no meio do expediente. Mas o certo é que, ao chegar no Mercadão de Pinheiros com uma multidão de repórteres, cinegrafistas e assessores atrás, sobrou bom humor de Haddad até para uma piada com os feirantes locais:
“Não se assustem. Não é a turma do ‘rolezinho’ que está chegando…”

Que a vida de prefeito numa cidade como São Paulo não é fácil, isso todo mundo sabe. Para todo lado que vai, pedidos e reclamações são certamente mais numerosos que elogios, tapinhas nas costas e pedidos de fotografia.

Mas na manhã desta quarta-feira (22), o prefeito Fernando Haddad foi surpreendido por um pedido pra lá de inusitado no Largo da Batata, zona Oeste de São Paulo. Enquanto tentava caminhar até o Mercadão de Pinheiros, o prefeito foi abordado por um grupo de jovens com rostos pintados que tinha apenas um pedido:

“Prefeito, o senhor pode fazer uma oração com a gente?”, disse um dos jovens, identificado apenas como Leonardo, de 15 anos.

Espantado e aparentemente sem jeito com o pedido, o prefeito da maior cidade da América Latina pareceu não acreditar no que estava ouvindo:

“Como é que é? De onde vocês são?”, respondeu.

Os cerca de vinte jovens explicaram que eram da Igreja Cristã da Família, na Zona Sul, e estavam na região para colher donativos para as obras sociais da entidade, através de intervenções de mímica no farol.

Surpreendido, Haddad deu a mão aos jovens e ele mesmo puxou a oração coletiva, feita debaixo de um sol que marcava 28 graus na Avenida Faria Lima, uma das mais movimentadas da cidade.

Abordado mais tarde pela reportagem de Terra Magazine, o prefeito disse que achou o pedido “inusitado” e afirmou ser aquela a primeira vez que tinha sido abordado na rua com pedido de oração pública. “Eu não canso de me surpreender nessa cidade. Mas achei muito bom”, contou.

O jovem Leonardo, autor da proposta inusitada do dia, disse que o pedido foi feito porque “o prefeito precisa ter Deus no coração para trabalhar direito pelas pessoas”.

Questionado se para ser prefeito de São Paulo era preciso fazer muita oração no meio do expediente, Haddad deu uma gargalhada discreta e respondeu: “Rezo todos dos dias pela cidade e pela minha família”.

Mas como perguntar não ofende, o repórter tentou ser mais indecoroso e perguntou ao prefeito se as orações aumentaram depois da maré de más notícias que a administração dele tem enfrentando, como o bloqueio no aumento do IPTU progressivo, os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus e as tentativas do Tribunal de Contas Município (TCU) de inviabilizar o projeto de construção de novos corredores de ônibus.

Com o sorriso ainda no semblante, o prefeito apenas balançou a cabeça com uma resposta enfática: “Claro que não…”

Coincidência ou não, o pedido de oração dos jovens cristãos aconteceu 15 minutos depois que o prefeito teve um discurso interrompido ainda naquele lugar por um manifestante descontente com a classe política.

Haddad falava da proposta de entregar 37 quilômetros de ciclovias entre o Largo da Batata e o Terminal João Dias, quando o cidadão que aparentava não menos de 35 anos começou a gritar “promessa antiga, promessa antiga”.

Sem perder o rebolado, o prefeito deu razão ao manifestante:

“Ele tem razão em cobrar as administrações anteriores, que prometeram e não fizeram. Nós precisamos trabalhar para dar respostas que a cidade precisa e não cometer o mesmo erro”, cobrou o prefeito de seus secretários presentes.

“O sr também só promete”, retrucou o manifestante.

Parecia aquele ser mais um dia longo na vida do mandatário e ouvidor da cidade. E o dia nem tinha ainda batido as doze badaladas do almoço.

Mas veio então o pedido dos jovens cristãos, que naquele momento soava como música aos ouvidos do maior ouvidor público da cidade.

A corrente parece ter espantado os maus fluídos pois, no quarteirão seguinte, Haddad foi parado por duas senhoras que elogiaram a atuação dele na Cracolândia:

“O senhor deu emprego, comida e hotel para aqueles pobrezinhos. Mas precisa dar uma casa, porque quando o senhor for embora, o que vier depois acaba com tudo e eles voltam tudo pra rua de novo”, clamou ao prefeito uma senhora de nome Maria Aparecida, de 59 anos.

O seguinte era um jornalista conhecido, chamado Ricardo Ferraz, que entregou ao prefeito uma réplica de um banco de praça de madeira, símbolo do “Movimento Boa Praça”, que pediu a Haddad mais atenção na construção de bancos para quer a cidade ofereça lugares de conforto aos munícipes.

Depois dele foram sete abordagens no total, que fizeram o prefeito percorrer uma distância de não mais que quinhentos metros, entre a Faria Lima e o Mercadão, em vinte e um minutos. Qualquer cidadão normal percorreria o mesmo trecho em três.

Em todas elas o sorriso permanecia no rosto. Não se sabe ao certo se por causa daquela  oração no meio do expediente. Mas o certo é que, ao chegar no Mercadão de Pinheiros com uma multidão de repórteres, cinegrafistas e assessores atrás, sobrou bom humor de Haddad até para uma piada com os feirantes locais:

“Não se assustem. Não é a turma do ‘rolezinho’ que está chegando…”

Manual de convivência com o amigo(a) solteiro(a) – Parte I

Nos últimos meses tenho recebido muitos convites de amigos recém-casados para fazer visitas. A ideia é sempre matar as saudades, colocar o papo em dia e dar boas risadas. Os amigos casados se divertem, ouvem boas histórias e até o próximo encontro, aquela sensação de voltar a ficar solteiro desaparece! Mas por estarem casados, os amigos esquecem do “manual básico de cordialidade com os solteiros”. Sendo assim, você que está casado (a) e pensa em chamar um amigo (a) na sua casa, atente-se para as regras de boa educação com um solteiro:

1 – Marque o compromisso sempre no horário de alguma refeição. Muito mais do que se preocupar em quem ele ou ela vai comer, o solteiro se preocupa mais em o que vai comer na próxima refeição. Sem sexo ele/ela já se habituou a ficar. Sem comida ainda não. Mesmo que você e seu marido, assim como o amigo solteiro, odeiam cozinhar, o solteiro vai sempre ficar grato por poder ajudar alguém a preparar um bom prato e compartilhar a louça suja. Ele é preguiçoso, geralmente pobretão, e vive para descolar uma refeição pelo mínimo preço e esforço.

2 – Nunca ofereça água pro amigo solteiro, salvo se vocês moram no Deserto do Saara. O amigo solteiro invariavelmente só tem água pra beber em casa e oferecer aos visitantes. Ele vai beber querer beber detergente da sua pia, menos água! Mesmo que vocês não bebam, da próxima vez que forem ao supermercado com a esposa (marido), lembrem de comprar um conhaque, uma vodka, uma 51, um rabo de galo, um vinho, cerveja ou coisa que o valha. Fala pro companheiro(a): “Essa é pra próxima visita do amigo solteiro!”

3 – Quando o amigo solteiro fizer a fatídica pergunta: “Como vai a vida de casado?”, seja educado com ele! Comece sempre falando das coisas ruins do casamento, os tropeços, as coisas chatas. Como o amigo solteiro acabara de chegar e vai ficar até o final da refeição, ele precisa estar feliz e achar que se manter solteiro é a melhor coisa do mundo. Do contrário, ele vai passar a refeição inteira chateado, achando que o amor não bateu a porta dele e a vida resolveu pregar-lhe uma “pegadinha do Malandro”.

4 – Só falem do amor que vocês sentem, das maravilhas que o casamento promove e dos planos de ter filhos após a refeição. O amigo solteiro vai ter a sensação de que, apesar das coisas chatas, o amor ainda existe. E o vazio que ele sente por dentro vai estar preenchido, temporariamente, por aquela bela lasanha que vocês prepararam. Ele vai embora querendo encontrar alguém. Mas vai de barriga cheia e com energia renovada para lidar com próximo fora que vai ganhar na balada.

5 – Após a refeição, nunca diga pra ele lavar a louça. Pecado mortal! Um amigo solteiro tem mais pavor de louça do que de ser flagrado nu pelos amigos de república, se masturbando na sala. Espere ele se oferecer. Do contrário, ele vai se sentir pressionado e desconfortável, como na casa dos pais. E provavelmente vai pensar duas vezes em voltar na sua casa, que na cabeça dele, será uma espécie de campo de concentração. Um lugar onde soltam fogo pelo nariz e o obrigam a lavar a louça! Para o amigo solteiro lavar louça é um castigo maior que ir num show da Clarice Falcão.

6 – Nunca, mas nunca mesmo, diga para um amigo solteiro: “preciso te apresentar uma amiga (o)” ou “tenho uma amiga (o) que é a sua cara”. Ele vai pensar que você pensa que ele está encalhado e precisa de ajuda de alguém pra descolar uma mina ou um cara (aí depende do time que o amigo solteiro joga…). Se você tiver alguém que acha que combina com ele, mostre primeiro umas fotos, conte um causo. Se ele gostar do que ver ou ouvir, vai perguntar se a pessoa é solteira e propor o próximo jantar em grupo pra conhecer a tal pessoa especial. Do contrário, o solteiro sempre pensa que está participando de um programa de namora do Silvio Santos e nada vai dar certo entre ele e a sua amiga (o). Ou ele vai pensar que você está querendo empurrar aquele amiga (o) encalhada, que passou dos 50 anos sem ninguém. Uma lástima.

7 – Não se prenda aos detalhes minuciosos do papo do amigo solteiro. Provavelmente a história que ele está contando é mentira ou meia verdade, porque ele estava tão bêbado naquela noite que nem se lembra do que aconteceu. Sorria sempre, finja que acreditou e deixe a história virar lenda urbana. Apesar de solteiro, o amigo em voga gosta da fama de mito que carrega. De ter apanhado de segurança de puteiro ou do namorado (a) da mina que ele/ela ficou de conversa na balada.

Filmes

Sempre pensei que roteiros de filmes fossem fruto da mente doentia e genial de um roteirista. Na minha cabeça eles eram seres solitários e fracassados emocionalmente, que passam os dias na frente do computador criando e imaginando uma vida que deveria ter sido, mas que não foi. Definição boba, ignorante e esteriotipada. Óbvio. Mas desde os 14 anos que não me lembro de ter pensado novamente sobre como seria a vida de um roteirista de cinema. Mas depois do que vivi ontem, essa definição mudou. E foram necessários não mais quinze vinte minutos de conversa…

Eu acabara de chegar a um pub na Vila Madalena, onde fui encontrar meu irmão e a namorada. Preocupados comigo e com a minha solidão temporária, em virtude de um longo relacionamento que chegou ao fim, eles passaram a se preocupar mais em me chamar para as atividades sociais da turma, na esperança que eu saísse do período de balanço emocional.
Na prática, era a minha primeira noite solteiro, desde aquela noite que ela resolveu ir embora. Como sempre fui atrasado, a primeira badalada da madrugada se anunciava junto com a minha chegada no bar. Encontrei uma turma pra lá de alegre, inebriados pelos exageros etílicos. Tanto que meu irmão nem se preocupou em me apresentar àquela enorme turma que comemoravam o aniversário de uma jovem de azul.
Encostei no balcão com a intenção de pedir uma bebida. Enquanto o garçom me servia, observei uma garota lendo um punhado de notas. Eram escritas em papel de caderno, que mais pareciam uma carta, daquelas que se escreve aos corações apaixonados. Ao primeiro olhar, contei quatro folhas de uma uma letra redonda. Moça bonita. Olhos e cabelos que me pareciam castanhos, apesar da baixa luz. Com a curiosidade e a deselegância que me são peculiares, iniciei uma conversa com aquela bela desconhecida. E a partir daí que se iniciaram as gravações…
– Recebeu uma carta do namorado, hein! Que legal…
– Quem dera fosse… – disse ela com um mix de surpresa e estranhamento pela pergunta.
– E o que são então essas folhas?
– Algo que escrevi para mim mesmo há quatro meses, tentando encontrar respostas e incentivo para seguir em frente, depois do fim de um relacionamento… – respondeu, dobrando e guardando os papeis.
– Sério? Deve ter sido um relacionamento difícil para você ter escrito uma parta para você mesmo…
Daí por diante o diálogo fluiu como se fossemos dois velhos amigos, falando de relacionamentos, contando histórias sobre como a vida amorosa tinha nos levado até ali, naquele balcão molhado, ao fundo de um bar escuro.
A música em alto volume atrapalhava a fluidez do papo. Mas a medida que ela narrava suas desventuras, comecei a me sentir personagem do livro “O homem duplicado”, de Saramago, onde um moço de meia idade se deparava com ele mesmo, numa fotografia que sabia nunca ter tirado na vida. Nossas dores e dessabores eram as mesmas, diante da frustração de um relacionamento que chegara ao fim. Ela depois de dois anos (talvez menos, não me recordo detalhadamente), eu após nove anos.
Fato é que, certa hora, ela fez a pergunta que calou profundo:
– Será que o ser humano é mesmo tão descartável?
Precisei de alguns segundos pra pensar numa resposta, que veio em tom de piada:
– Olha, acho que sim… Vamos nos conformar?! – explodimos os dois em gargalhada.
Naquele instante me dei conta de que vivia uma cena típica de filme, onde dois estranhos acabam de se conhecer e, mais estranhamente ainda, se davam tão bem como se há vinte anos já fossem amigos.
– Isso não parece um filme do Wood Allen? Qual a probabilidade de encontrar alguém numa balada lendo uma carta escrita por ela e para ela?
– Parece que não… – respondeu enrubescida.
– O que você faz da vida? Sou jornalista.
– Eu também!
– Caraca. Que legal!
Falamos sobre a profissão, as desilusões, a vontade de fazer outra coisa da vida após o fim da graduação. Ela estudava Direito, coisa que sempre quis, eu agora estudava Economia, coisa que sempre pensei que queria. Mencionei a preguiça de ter que começar tudo novamente, TCC, trabalhos provas, festas da Centro Acadêmico… ufa! E ela pensava igualzinho a mim!
– Uau. Você também resolveu começar de novo… Posso te dar um abraço?
Meio desajeitado, o abraço durou meio segundo. Tempo suficiente pra eu pensar naquela teoria dos universos paralelos, que convivem simultaneamente no mesmo espaço.
– Será que ela é minha versão de outro universo? Terá a matéria finalmente vibrado na mesma frequência, aproximando dois mundo diferentes? – perguntei em pensamento.
Ao sair de casa naquela sexta-feira, jamais imaginei que iria encontrar comigo mesmo por aí. Usando calças pretas meio justas, uma blusa igualmente preta e olhos delicadamente delineados. Era, finalmente, a minha versão bonita!
Já estávamos conversando há cerca de vinte minutos e as pessoas ao lado começaram a nos observar, ou melhor, a me observar. Elas pareciam buscar respostas sobre quem era o sujeito estranho que há tempos alugava a colega de turma, que ninguém sabia de onde vinha.
Foi quando percebi que não sabia o meu nome, ou melhor, o nome daquela moça disfarçada de eu, que aproveitava uma fenda no tempo para me visitar.
– Nós estamos aqui há tempos e não sei o seu nome?
– Anne.
– Rodrigo.
– Muito prazer! – dissemos os dois, apertando as mãos.
– Você está sozinha?
– Não. Tô com a minha turma.
– Aquele ali é meu irmão.
– Ah, a gente está na mesma turma.
– Nossa, que coincidência…
Nem terminei a frase e fui interrompido pela amiga de Anne, que convocava a jovem para finalmente unir a turma no constrangedor cântico de parabéns à aniversariante da noite.
Mal tive tempo de dizer adeus, apesar da promessa dela de voltar ao balcão. Só tive tempo de perguntar se tinha autorização para contar essa história. E fui prontamente atendido.
Após os parabéns, trocamos ainda um par de olhares, antes que ela desaparecesse na multidão de jovens daquele show de rock. Saiu empolgada, requebrando, ao lado da amigo de cabelos encaracolados. Eu observava o desaparecimento, enquanto tentava prestar atenção no que diziam os amigos finalmente apresentados pelo meu irmão.
Assim como Anne, uma a uma, as pessoas foram indo embora do bar. Decidi que ficaria ali até o fim da música, para aproveitar aquela primeira noite solteiro e livre.
Entre um gole e outro de vodka com energético, iniciei a escrita dessas linhas pelo editor de texto do celular. No que a música parou, fui surpreendido novamente por Anne, que surgira como uma fada ao meu lado. Com um sorriso largo e um abraço apertado, ela soltou um delicioso. “Prazer imenso em te conhecer”.
A partir daquele ponto já não me lembro de nada. Apenas do sorriso largo e da sensação certa de finalmente ter compreendido como nascem os grandes filmes, cujo um deles eu acabara de participar.

Sempre pensei que roteiros de filmes fossem fruto da mente doentia e genial de um roteirista. Na minha cabeça eles eram seres solitários e fracassados emocionalmente, que passam os dias na frente do computador criando e imaginando uma vida que deveria ter sido, mas que não foi. Definição boba, ignorante e esteriotipada. Óbvio. Mas desde os 14 anos que não me lembro de ter pensado novamente sobre como seria a vida de um roteirista de cinema. Mas depois do que vivi ontem, essa definição mudou. E foram necessários não mais quinze vinte minutos de conversa…

Eu acabara de chegar a um pub na Vila Madalena, onde fui encontrar meu irmão e a namorada. Preocupados comigo e com a minha solidão temporária, em virtude de um longo relacionamento que chegou ao fim, eles passaram a se preocupar mais em me chamar para as atividades sociais da turma, na esperança que eu saísse do período de balanço emocional.

Na prática, era a minha primeira noite solteiro, desde aquela noite em que ela resolveu ir embora. Como sempre fui atrasado, a primeira badalada da madrugada se anunciava junto com a minha chegada no bar. Encontrei uma turma pra lá de alegre, inebriados pelos exageros etílicos. Tanto que meu irmão nem se preocupou em me apresentar àquela enorme turma que comemoravam o aniversário de uma jovem de azul.

Encostei no balcão com a intenção de pedir uma bebida. Enquanto o garçom me servia, observei uma garota lendo um punhado de notas. Eram escritas em papel de caderno, que mais pareciam uma carta, daquelas que se escreve aos corações apaixonados. Ao primeiro olhar, contei quatro folhas de uma uma letra redonda. Moça bonita. Olhos e cabelos que me pareciam castanhos, apesar da baixa luz. Com a curiosidade e a deselegância que me são peculiares, iniciei uma conversa com aquela bela desconhecida. E a partir daí que se iniciaram as gravações…

– Recebeu uma carta do namorado, hein! Que legal…

– Quem dera fosse… – disse ela com um mix de surpresa e estranhamento pela pergunta.

– E o que são então essas folhas?

– Algo que escrevi para mim mesmo há quatro meses, tentando encontrar respostas e incentivo para seguir em frente, depois do fim de um relacionamento… – respondeu, dobrando e guardando os papeis.

– Sério? Deve ter sido um relacionamento difícil para você ter escrito uma parta para você mesmo…

Daí por diante o diálogo fluiu como se fossemos dois velhos amigos, falando de relacionamentos, contando histórias sobre como a vida amorosa tinha nos levado até ali, naquele balcão molhado, ao fundo de um bar escuro.

A música em alto volume atrapalhava a fluidez do papo. Mas a medida que ela narrava suas desventuras, comecei a me sentir personagem do livro “O homem duplicado”, de Saramago, onde um moço de meia idade se deparava com ele mesmo, numa fotografia que sabia nunca ter tirado na vida. Nossas dores e dessabores eram as mesmas, diante da frustração de um relacionamento que chegara ao fim. Ela depois de dois anos (talvez menos, não me recordo detalhadamente), eu após nove anos.

Fato é que, certa hora, ela fez a pergunta que calou profundo:

– Será que o ser humano é mesmo tão descartável?

Precisei de alguns segundos pra pensar numa resposta, que veio em tom de piada:

– Olha, acho que sim… Vamos nos conformar?! – explodimos os dois em gargalhada.

Naquele instante me dei conta de que vivia uma cena típica de filme, onde dois estranhos acabam de se conhecer e, mais estranhamente ainda, se davam tão bem como se há vinte anos já fossem amigos.

– Isso não parece um filme do Wood Allen? Qual a probabilidade de encontrar alguém numa balada lendo uma carta escrita por ela e para ela?

– Parece que não… – respondeu enrubescida.

– O que você faz da vida? Sou jornalista.

– Eu também!

– Caraca. Que legal!

Falamos sobre a profissão, as desilusões, a vontade de fazer outra coisa da vida após o fim da graduação. Ela estudava Direito, coisa que sempre quis, eu agora estudava Astronomia, coisa que sempre pensei que queria. Mencionei a preguiça de ter que começar tudo novamente, TCC, trabalhos provas, festas da Centro Acadêmico… ufa! E ela pensava igualzinho a mim!

– Uau. Você também resolveu começar de novo… Posso te dar um abraço?

Meio desajeitado, o abraço durou meio segundo. Tempo suficiente pra eu pensar naquela teoria dos universos paralelos, que convivem simultaneamente no mesmo espaço.

– Será que ela é minha versão de outro universo? Terá a matéria finalmente vibrado na mesma frequência, aproximando dois mundo diferentes? – perguntei em pensamento.

Ao sair de casa naquela sexta-feira, jamais imaginei que iria encontrar comigo mesmo por aí. Usando calças pretas meio justas, uma blusa igualmente preta e olhos delicadamente delineados. Era, finalmente, a minha versão bonita!

Já estávamos conversando há cerca de vinte minutos e as pessoas ao lado começaram a nos observar, ou melhor, a me observar. Elas pareciam buscar respostas sobre quem era o sujeito estranho que há tempos alugava a colega de turma, que ninguém sabia de onde vinha.

Foi quando percebi que não sabia o meu nome, ou melhor, o nome daquela moça disfarçada de eu, que aproveitava uma fenda no tempo para me visitar.

– Nós estamos aqui há tempos e não sei o seu nome?

– Anne.

– Rogério.

– Muito prazer! – dissemos os dois, apertando as mãos.

– Você está sozinha?

– Não. Tô com a minha turma.

– Aquele ali é meu irmão.

– Ah, a gente está na mesma turma.

– Nossa, que coincidência…

Nem terminei a frase e fui interrompido pela amiga de Anne, que convocava a jovem para finalmente unir a turma no constrangedor cântico de parabéns à aniversariante da noite.

Mal tive tempo de dizer adeus, apesar da promessa dela de voltar ao balcão. Só tive tempo de perguntar se tinha autorização para contar essa história. E fui prontamente atendido.

Após os parabéns, trocamos ainda um par de olhares, antes que ela desaparecesse na multidão de jovens daquele show de rock. Saiu empolgada, requebrando, ao lado da amigo de cabelos encaracolados. Eu observava o desaparecimento, enquanto tentava prestar atenção no que diziam os amigos finalmente apresentados pelo meu irmão.

Assim como Anne, uma a uma, as pessoas foram indo embora do bar. Decidi que ficaria ali até o fim da música, para aproveitar aquela primeira noite solteiro e livre.

Entre um gole e outro de vodka com energético, iniciei a escrita dessas linhas pelo editor de texto do celular. No que a música parou, fui surpreendido novamente por Anne, que surgira como uma fada ao meu lado. Com um sorriso largo e um abraço apertado, ela soltou um delicioso. “Prazer imenso em te conhecer”.

A partir daquele ponto já não me lembro de nada. Apenas do sorriso largo e da sensação certa de finalmente ter compreendido como nascem os grandes filmes, cujo um deles eu acabara de participar.

– Corta!

Niemeyer, 101 anos

Houve um dia na vida que eu quis deixar de ser eu mesmo e ser Niemeyer. Foi em 2010, durante as eleições presidenciais. No Rio de Janeiro, num encontro de intelectuais e artistas que decidiram apoiar Dilma, Niemeyer era o centro das atenções, aos 101 anos de idade. No lugar havia Chico Buarque, Leonardo Boff, Beth Carvalho, Ziraldo, Hugo Carvana. Mas Niemeyer fora reverenciado como nenhum outro presente. Com o olhar sempre distante, me parecia que nada compreendia sobre aquele momento. Mais tarde, perguntei a um repórter de um portal concorrente que cobrira o evento sobre se o arquiteto estava ali por decisão própria ou interesse familiar. Ele então me disse que conversara com um parente que acompanhava o arquiteto no evento. O mesmo dissera que Niemeyer contrariara decisão médica e familiar para lá estar “num momento considerado por ele o mais delicado vivido pelo país pós-democratização”.
Foi ai que passei admira-lo, ao ponto de querer tomar o seu lugar. Enquanto todos os meus amigos reclamavam sobre a política “ser uma merda”, “ser suja” e “todos os políticos corruptos e toscos”, um homem de 101 anos fazia questão de se posicionar. Um cara de 101 anos, que podia estar preocupado com a morte, a saúde, a frauda que haveria de trocar de hora em hora, ou o próximo rabisco de obra que poderia fazer, decidira ensinar aos jovens e ao mundo como se discute política. Como é importante descer do muro invisível da covardia. Ele podia ter decido apoiar o Serra naquele momento. Minha admiração não mudaria. Deus queira que eu seja dotado de tanta lucidez até o fim da minha vida.

Houve um dia na vida que eu quis deixar de ser eu mesmo e ser Niemeyer. Foi em 2010, durante as eleições presidenciais. No Rio de Janeiro, num encontro de intelectuais e artistas que decidiram apoiar Dilma, Niemeyer era o centro das atenções, aos 101 anos de idade. No lugar havia Chico Buarque, Leonardo Boff, Beth Carvalho, Ziraldo, Hugo Carvana. Mas Niemeyer fora reverenciado como nenhum outro presente. Com o olhar sempre distante, me parecia que nada compreendia sobre aquele momento. Mais tarde, perguntei a um repórter de um portal concorrente que cobrira o evento sobre se o arquiteto estava ali por decisão própria ou interesse familiar. Ele então me disse que conversara com um parente que acompanhava o arquiteto no evento. O mesmo dissera que Niemeyer contrariara decisão médica e familiar para lá estar “num momento considerado por ele o mais delicado vivido pelo país pós-democratização”.

Foi ai que passei admira-lo, ao ponto de querer tomar o seu lugar. Enquanto todos os meus amigos reclamavam sobre a política “ser uma merda”, “ser suja” e “todos os políticos corruptos e toscos”, um homem de 101 anos fazia questão de se posicionar. Um cara de 101 anos, que podia estar preocupado com a morte, a saúde, a frauda que haveria de trocar de hora em hora, ou o próximo rabisco de obra que poderia fazer, mas estava preocupado com o seu país. E decidira ensinar aos jovens e ao mundo como se discute política. Decidira mostrar como é importante descer do muro invisível da covardia.

Ele podia ter decido apoiar o Serra naquele momento. Minha admiração não mudaria. Deus queira que eu seja dotado de tanta lucidez até o fim da minha vida.

Pondé em poucas palavras

Está circulando no Facebook um texto de Fernando Barros e Silva, da Folha, sobre a última coluna do Pondé, aquele suposto filósofo da mesma Folha, que, como todo bom pombo paulistano, semanalmente solta um desaforo sem cabimento na cabeça dos leitores. Achei o resumo muito bem pesado sobre o que o Pondé virou e resolvi colocar aqui no blog, pra deixar registrado em algum lugar e não se perder. Não tive autorização do Fernando, mas a partir do momento que caiu na rede, fica sem dono. Em poucas palavras ele resume o que Pondé é: um inimputável despudorado, “filósofo de catálogo da Avon”. Sem mais.

Obs.: Ah, antes que perguntem da veracidade, amigos que seguem o tal Fernando no Facebook garantiram a autenticidade do mesmo. Logo, fica o registro que até na Folha o tal Pondé anda arrebatando inimizades por conta de suas grosserias.

Texto do Fernando Barros E Silva (Folha de SP)

“Perderei um pouco do meu tempo: Pondé é um ideólogo do ressentimento da classe média diante da mínima mobilidade social verificada no Brasil nos últimos anos (FHC e sobretudo Lula). Esse é o seu lugar: um papagaio da mentalidade exclusivista e senhorial num país que ainda está entre os 12 mais desiguais do planeta. Não tolera que os aeroportos estejam mais movimentados que as rodoviárias, acha tudo muito misturado e vulgar. O problema, porém, é anterior ao conservadorismo. Não existe o menor risco de que esse filósofo da revista Avon escreva algo intelectualmente aproveitável. Sempre, invariavelmente, lá está ele, mobilizando seu playground mental para provocar escândalos de pacotilha. Tudo nele é previsível, banal, maledicente, grosseiro, chulé. Quanto mais baixo, melhor. Não se trata aqui de ter verve _uma qualidade no ensaísmo jornalístico_, mas do aviltamento sistemático de qualquer debate ao nível da sarjeta e das ofensas pessoais. Nos poucos parágrafos em que se dedica a supostamente embasar seus impropérios de boutique, o personagem vira o rei do lugar comum: há um problema concreto e real envolvendo uma população indígena, uma questão complexa que pede discussão qualificada e discernimento? Tratemos de descaracterizá-la, mergulhando-a em clichês. A culpa, diz o sábio do ressentimento, é do mito do bom selvagem de Rousseau e, claro, de Marx, de quem tenho certeza que este senhor jamais leu uma linha. Essa é a fórmula: insultos, vilezas, mesquinharias, abjeções, seguidos de três ou quatro citações de almanaque pretensamenta eruditas. O pensamento conservador precisaria ser representado por figuras um pouco menos patéticas, um pouco menos deslumbradas com a sua _ai, ai_ fama de mau.”

A história de G. – mais um anônimo brasileiro (por Eduardo Barros )

A história de G. – mais um anônimo brasileiro (por Eduardo Barros )
G. nasceu em Maceió. Filho de uma prostituta e de um viciado em crack. Apanhou a infância inteira. Fugiu pra Brasília. Morou com os avós. Apanhou dos avós. Fugiu mais uma vez. Agora pra rua. Sofreu abusos sexuais. Primeiro de mendigos. Depois de policiais. Depois, por opção: pra poder comer, pra poder ter onde dormir, pra poder tomar banho. Ele tinha onze anos.
Um dia G. viu a foto do Cristo Redentor numa folha esquecida de jornal. Ficou fascinado. Vontade danada de conhecer o Rio. Foi. E foi caminhando. Mil cento e cinquenta quilômetros vencidos por um par de pés número 32. Semanas dormindo sob as marquises da Visconde de Pirajá. Até que uma senhora solidária o convidou a ir morar com ela num casebre em Belford Roxo. Aceitou. Três dias mais tarde, descobriu que a senhora não era senhora. Era senhor. Saiu correndo no meio da madrugada.
Novamente em Maceió. A mãe não era mais prostituta. Agora era dona de puteiro. Lá ficou por alguns meses. Mas certa noite um marido bêbado invadiu o lugar armado querendo matar a esposa de leito fácil, o menino G. protegeu a mulher e foi jurado de morte. E, antes que o próximo dia nascesse, pegou a estrada escondido e voltou pra Brasília. A pé. Dois mil quilômetros a caminho de lugar nenhum.
Catou papelão. Pediu esmola. Vigiou carro. Comeu fruta podre, borda de pizza, pão velho. Escondia da chuva nos banheiros sujos do Parque da Cidade. Prostituiu-se. Ele tinha quatorze anos.
G. cheirava tiner porque assim o tempo passava mais rápido. Cheirava. Dormia. Cheirava. Dormia. Sem ter o que fazer, sem ter pra onde olhar. Foi assim que uma porção de meses se empilharam até começarem a formar uma porção de anos. E um dia G. percebeu que cheirar tiner não adiantava, porque ele estava trancado num presente que era sempre igual. E aí a coisa começou a mudar.
Mais ou menos nessa época foi morar num abrigo. Pouco depois começou a participar de um projeto social do Sesi. Apaixonou-se por matemática. Descobriu o que era um documentário. Pegava livros emprestados e lia na madrugada. Foi contratado pela Caixa Econômica Federal como jovem aprendiz. Um dia quer ser sociólogo.
A gente descobriu tudo isso enquanto gravava um vídeo sobre a vida de G. No palco enorme e vazio de um teatro do Distrito Federal, ele foi contando tintim por tintim cada capítulo da sua vida. E, depois que terminou, o acompanhamos até a porta do prédio, nos despedimos e ficamos vendo ele se afastar pela calçada escura e esburacada de Taguatinga.
Eu pensava em como a vida tinha sido injusta com aquele rapaz, injusta tantas vezes e com tanta força. E pensava também no jeito como G. havia contado sua história, sem nenhuma raiva, sem dizer “por que” com rancor, sem procurar culpados, sem se prender no passado. Pensava no jeito como ele sorria (leve) e no jeito como ele chorava (resignado). E aí ele sumiu na esquina lá em cima e pensei que nunca mais veria G. Mas estava enganado.
Um minuto depois ele apontou novamente lá na esquina e veio caminhando de volta em nossa direção. Quando estava bem próximo, perguntei se ele havia esquecido alguma coisa. Ele fez que não com a cabeça, deu um sorriso humilde e disse assim:
– Eu achei essa carteira jogada ali na esquina. Alguém deve ter deixado cair. Vou entregar aqui na portaria do prédio, para o caso do dono vir

Foto: Eduardo Dias Gontijo

Foto: Eduardo Dias Gontijo

procurar…

Foto: Eduardo Dias Gontijo

Foto: Eduardo Dias Gontijo

((Meu amigo de faculdade Eduardo Barros postou essa história real, que aconteceu com ele, no Facebook. Achei ela tão impressionante que resolvi colocar aqui no blog pra que não se perca e seja de fácil acesso pra quando você ou eu pensarmos que a vida fora injusta conosco))

G. nasceu em Maceió. Filho de uma prostituta e de um viciado em crack. Apanhou a infância inteira. Fugiu pra Brasília. Morou com os avós. Apanhou dos avós. Fugiu mais uma vez. Agora pra rua. Sofreu abusos sexuais. Primeiro de mendigos. Depois de policiais. Depois, por opção: pra poder comer, pra poder ter onde dormir, pra poder tomar banho. Ele tinha onze anos.

Um dia G. viu a foto do Cristo Redentor numa folha esquecida de jornal. Ficou fascinado. Vontade danada de conhecer o Rio. Foi. E foi caminhando. Mil cento e cinquenta quilômetros vencidos por um par de pés número 32. Semanas dormindo sob as marquises da Visconde de Pirajá. Até que uma senhora solidária o convidou a ir morar com ela num casebre em Belford Roxo. Aceitou. Três dias mais tarde, descobriu que a senhora não era senhora. Era senhor. Saiu correndo no meio da madrugada.

Novamente em Maceió. A mãe não era mais prostituta. Agora era dona de puteiro. Lá ficou por alguns meses. Mas certa noite um marido bêbado invadiu o lugar armado querendo matar a esposa de leito fácil, o menino G. protegeu a mulher e foi jurado de morte. E, antes que o próximo dia nascesse, pegou a estrada escondido e voltou pra Brasília. A pé. Dois mil quilômetros a caminho de lugar nenhum.

Catou papelão. Pediu esmola. Vigiou carro. Comeu fruta podre, borda de pizza, pão velho. Escondia da chuva nos banheiros sujos do Parque da Cidade. Prostituiu-se. Ele tinha quatorze anos.

G. cheirava tiner porque assim o tempo passava mais rápido. Cheirava. Dormia. Cheirava. Dormia. Sem ter o que fazer, sem ter pra onde olhar. Foi assim que uma porção de meses se empilharam até começarem a formar uma porção de anos. E um dia G. percebeu que cheirar tiner não adiantava, porque ele estava trancado num presente que era sempre igual. E aí a coisa começou a mudar.

Mais ou menos nessa época foi morar num abrigo. Pouco depois começou a participar de um projeto social do Sesi. Apaixonou-se por matemática. Descobriu o que era um documentário. Pegava livros emprestados e lia na madrugada. Foi contratado pela Caixa Econômica Federal como jovem aprendiz. Um dia quer ser sociólogo.

A gente descobriu tudo isso enquanto gravava um vídeo sobre a vida de G. No palco enorme e vazio de um teatro do Distrito Federal, ele foi contando tintim por tintim cada capítulo da sua vida. E, depois que terminou, o acompanhamos até a porta do prédio, nos despedimos e ficamos vendo ele se afastar pela calçada escura e esburacada de Taguatinga.

Eu pensava em como a vida tinha sido injusta com aquele rapaz, injusta tantas vezes e com tanta força. E pensava também no jeito como G. havia contado sua história, sem nenhuma raiva, sem dizer “por que” com rancor, sem procurar culpados, sem se prender no passado. Pensava no jeito como ele sorria (leve) e no jeito como ele chorava (resignado). E aí ele sumiu na esquina lá em cima e pensei que nunca mais veria G. Mas estava enganado.

Um minuto depois ele apontou novamente lá na esquina e veio caminhando de volta em nossa direção. Quando estava bem próximo, perguntei se ele havia esquecido alguma coisa. Ele fez que não com a cabeça, deu um sorriso humilde e disse assim:

– Eu achei essa carteira jogada ali na esquina. Alguém deve ter deixado cair. Vou entregar aqui na portaria do prédio, para o caso do dono vir procurar…

Apoio de Maluf não muda eleição em São Paulo (infelizmente)

ELEICOES 2012 MALUF ANUNCIA APOIO AO PT

Se você é um dos indignados pela aliança entre PT e Paulo Maluf (PP), que culminou com a saída de Luiza Erundina (PSB) da chapa do ex-ministro Fernando Haddad, estou rindo muito de você agora. Não da sua indignação, que fique claro. Mas da sua ingenuidade, utopia e falta de memória.

Também já fui assim. Não se preocupe. Só me curei depois de ingressar no jornalismo político e acompanhar de perto e por dentro pelo menos três eleições, uma delas presidencial.

Começo justificando meus argumentos de trás pra frente: pela falta de memória. Não é a primeira vez que o PT faz aliança com Maluf. Em 2006 Maluf apoiou Lula no segundo turno das eleições presidenciais, assim como apoiaram Renan, Collor, Jader e Sarney. Desde então, está claro que o ex-presidente Lula nunca foi um cara de esquerda e aprendeu a jogar o jogo político tão bem quanto aqueles que um dia ele apontara os dedos que lhe sobraram. O próprio Lula, aliás, disse durante a presidência que o sujeito se aproxima do centrão tão logo a idade vai aumentando.

Aliás, Lula já posou ao lado de Sarney, Collor, Renan e Jader. Todos do PMDB. Que diferença faria pra ele posar ao lado de Maluf? Aliás, qual a diferença entre os bandidos do PMDB e do PP? Na prática, nenhuma.

Outro ponto importante: o apoio de Maluf não tira votos significativos em São Paulo. Dado importante que prova isso é a última pesquisa Datafolha, que apontou que 40% dos entrevistados dizem que o apoio de X ou Y não é fator importante para a escolha do candidato. Na última sondagem, esse número era de 33%.

Se apoio tirasse voto, Kassab nunca teria sido reeleito prefeito da cidade. Na última eleição teve apoio do próprio Maluf e de Quércia. Abaixo coloco um vídeo que diz muito sobre isso e vai refrescar a sua memória:

Trata-se de um vídeo que Geraldo Alckmin (PSDB) veiculou na televisão durante o ano de 2008, dias antes do primeiro turno da eleição. O hoje governador era candidato à prefeito da capital e estava em segundo lugar nas pesquisas, atrás apenas de Marta Suplicy (PT), que liderava a corrida. Dias antes, o QG de Alckmin detectou o crescimento exponencial de Kassab, apelando então para o vídeo acima, que foi veiculado exaustivamente durante a reta final do primeiro turno.

Conclusão: fechadas as urnas, Kassab chegou em primeiro lugar, superando a primeira colocada, Marta Suplicy, e deixando Alckmin de fora do segundo turno. O resultado, quatro anos depois, é o que todos nós conhecemos em São Paulo.

A eleição de 2008, meus caros, a qual trabalhei no núcleo de campanha de Geraldo Alckmin, foi ganha essencialmente pela televisão. Gilberto Kassab tinha o maior tempo de tv, recursos e um jingle irritante (“Sorria, meu bem. Sorria…”), repetido exaustivamente em rádio e televisão. Eis o jingle:

Isso tudo quer dizer, meus caros, que tecnicamente a eleição de SP é decidida na televisão. O escândalo com a saída de Erundina do jogo político tem efeito em nós, antiga classe média que tem uma formação sólida e acompanha os fatos políticos cotidianamente. A última pesquisa Datafolha apurou que apenas 37% dos entrevistados sabem quem são os candidatos e se interessaram pelo pleito.

Infelizmente o grosso da população carece de entendimento e interesse sobre política. Elas se informam exclusivamente pela televisão e, principalmente pelo Jornal Nacional, que até agora ignorou a corrida eleitoral nas capitais e só deve começar a falar do assunto no início do próximo mês.

Muito se fala sobre o poder crescente da internet, mas ela não tem um terço da influência da televisão. Por isso PT e PSDB se digladiaram na disputa pelo apoio de Paulo Maluf. E é por isso que o candidato José Serra (PSDB) se irritou tanto com o fato de Alckmin ter deixado o PP migrar para o barco petista.

Há poucas semanas, quando o QG tucano anunciara o apoio do PR à Serra, os tucanos faziam as contas e teriam 2 minutos e meio de tempo de televisão a mais que Fernando Haddad. Isso é uma enorme diferença não só para o horário eleitoral. Significa mais inserções comerciais ao longo do dia nas programações de TV. E isso é ouro para um candidato que precisa aparecer, como Haddad, e outro que precisa defender o seu legado, como Serra, que será sistematicamente atacado no horário eleitoral. É através da TV que a massa da população vai se informar sobre a eleição, minha gente. Lula, Serra e os marqueteiros sabem bem disso.

Em hipótese alguma esse texto é uma defesa de Lula e da aliança espúria feita com Paulo Maluf, leitores. Trata-se de uma análise seca sobre como se dá a eleição numa cidade enorme quanto a nossa. Embora tire o chapéu para atitude da deputada Luiza Erundina, da qual votei e ano passado participei do jantar que angariou fundos para ajudá-la a pagar uma multa de processo judicial no período em que era prefeita, pouca coisa muda no xadrez eleitoral com a saída dela da disputa. Pergunte a qualquer político carreirista que encontrar pela frente: vice não tira nem dá voto a ninguém! Só agrega ou desagrega tempo de tv.

Fosse assim, Dilma não teria sido eleita em 2010 com Michel Temmer (PMDB), Luiz Marinho (PT) não teria sido eleito com Frank Aguiar em SBC e Serra teria vencido com seu Índio da Costa (ex-DEM). Numa pergunta rápida: alguém lembra por acaso quem era o vice de Alckmin em 2006, quando ele concorreu à presidência da República. Duvido que você saída. E se souber, duvido que me diga onde está o tal senador José Jorge.

Triste em pensar assim, né?! Em política que não é feita com o coração, com o objetivo de melhorar a vida das pessoas. Mas é assim que é atualmente. E isso só muda com educação e reforma política. Não culpo Lula pela aliança sombria com Maluf. Culpo o ex-presidente por não ter usado sua sagacidade e prestígio para aprovar uma reforma política ampla, que acabasse com os partidos de aluguel e traçasse limites para essa lambança partidária. Ao invés disso, Lula só aprimorou sua inteligência para lidar com o xadrez político. E deixar as coisas como sempre estiveram, afinal, “em time que ganha não se mexe”.

A atitude de Erundina é grandiosa por mostrar que ainda há políticos compromissados com os limites, idéias e princípios. Quando alianças obscuras e pragmáticas dão lugar a esses itens, é sinal que não existe diferença entre direita ou esquerda, centro ou extremo, PT, PSDB ou DEM. E, infelizmente, parece que no Brasil as fronteiras não importam ou já não existem de fato.

Me desculpe leitor por zombar da sua indignação e lhe dar esse choque de realidade. Fico triste em lhe dizer: mas sua utopia não vale nada nesse processo. Pra nenhum dos candidatos que estão concorrendo a prefeitura, seja qual for a bandeira que ele empunha. Menos ainda o indignação de Erundina, que logo será esquecida pelo sucessão de fatos que ocorrerão até 03 de outubro.

Porém, não desista dela, como eu desisti. Certamente tu terás uma vida muito mais feliz que a minha. E terá motivos ainda para acreditar… Que bom se São Paulo fosse feita só de pessoas como você.

((Obs.: to usando um MAC e ainda tenho muito problema em digitar as coisas aqui, principalmente porque o editor de texto está em inglês. E eu entendo inglês igual ao Lula. Se você achar algum erro, comenta abaixo que vou corrigir. Tks. :-P))

Let it be, querida avó!

Querida vó. Tenho que pedir desculpas a sra. sobre o episódio de Finados. Nos falamos logo depois do caso, a sra. tinha voltado pra casa e se dizia bem. Para esquecer e afastar qualquer hipótese ruim da cabeça, rimos do acontecido, como sempre fizemos logo após as situações trágicas da vida, a sra. sabe bem. Foram tantas, né mesmo?!. Nos restava apenas rir… Hoje acordei com a notícia que busquei afastar da minha mente. Acordei culpado por não estar ajudando a sra, que tanto cuidou dos meus irmãos menores nesse período tumultuado da vida. A sra. fez deles dois adolescentes lindos, inteligentes. Duas pessoas incríveis. Foi graças a sra., minha avó. Sinto não ter estado ao seu lado nesses últimos dias. Como sempre, a sra. não quis preocupar ninguém. Toda vez que ouço a frase “dar a vida pelo irmão”, dita por Jesus Cristo, penso logo nas quatro avós que Deus me deu. A vida me furtou de um pai, mas compensou com quatro avós gigantes, maravilhosas. Deus me deu muitas mães doces, como a sra. Nos falamos pouco nessa vida. Mas quero muito que a sra. me recepcione no céu. Prepare a minha ida, como sempre fez com a cama dos meus irmãos mais novos, como sempre fez com o pão com manteiga, como sempre fez a vida inteira, preparando os filhos e netos para o mundo. Minha avó. Tenho muito respeito por você, que deu sua vida por todos nós. Dando carinho e amor sem ter nada em troca. Adeus, minha querida. Sempre que houver perigo com meus irmãos, me alerte por favor. Cuidarei dos nossos pequenos, não se preocupe. Deixa ser, minha querida. Deixa ser…

As diaristas

domesticas04

Uso esse espaço hoje para um desabafo. Muitos me condenarão, mas tenho que confessar do fundo do meu peito: odeio faxineiras!

A palavra ódio talvez não seja a mais adequada. O que tenho na verdade é trauma ou algo muito próximo disso. Com suas falas mansas, seus sotaques geralmente nordestino e suas toucas na cabeça, essas mulheres são para mim o esteriótipo do juízo final.

Desconfio que, quando chegar o meu fim, a morte me virá na forma de uma mulher de meia idade, grisalha e com touca na cabeça. Dizendo morar na periferia, ela me estenderá a mão e, soltando uma dessas gargalhadas de madrastas dos filmes das Disney, sorrirá dizendo:

– Se fodeu, meu filho! Se fodeu, meu filho!

A visão é apocalíptica. Mas nem a bíblia dá conta do meu medo dessas senhoras. Elas são más e guardam um rancor no peito típico da babá Maria de Fátima, vilã da novena “Vale Tudo”. Quem já fez entrevistas para contratação de uma diarista sabe do que estou falando. Pelo telefone são todas uns amores. Chegam na sua casa pela primeira vez no horário, chamam você de senhor, até se voluntariam em coar o café preto de manhã.

Bastam duas semanas para que mostrem as garras e transformem sua vida num inferno!

Trocam os livros de lugar, mudam as ordens dos cd’s e dv`s e quebram todos os copos da casa. Dão pitacos na sua vida, dizem que seu quarto está uma bagunça e ainda ficam amigas do porteiro que você mais detesta.

Nos últimos doze meses troquei sete vezes de faxineira. Não sei por qual motivo, mas elas me escolheram para destilar todo o ódio que acumulam em anos de destrato de outros patrões. Justo eu, que ouço seus dramas, divido a mesma mesa e até distribuo parte dos meus pertences com seus milhares de netos ou filhos.

Dia desses, quando ainda estava desempregado, saí para uma entrevista e voltei com uma monstruosa fome. Era quarta-feira, dia de limpeza. A vilã da vez morava em Perus e, como na minha casa não tinha nada pra comer, passei no primeiro boteco para adquirir o rango. Solidário, comprei duas marmitex. O cardápio do dia era peixe ou feijoada. Liguei em casa para perguntar à senhora da vez qual era sua preferência, mas ninguém atendia. Tentei uma, duas, três vezes. O telefone tocava exaustivamente e nada de atender.

Decidi por comprar um peixe pra mim, que é o meu cardápio preferido, e uma feijoada na inocência para ela. Achei que era mais fácil agradar com uma feijuca que desagradar com peixe.

Ledo engano.

Quando a porta do apartamento abriu, o som do último volume denunciava que aquela não seria uma boa tarde. A moça ouvia a banda Magníficos e, com um lenço amarrado na cabeça, limpava os vidros da sala com ajuda da escada. Com a minha entrada, tomou um susto e quase caiu do décimo andar.

Ruth, trouxe comida pra nós. Vamos comer?

Vou já, já, “seu Rudrigu”.

Comecei a comer antes porque a fome já ladrava feito um cachorro vira-latas. Ao entrar na cozinha, a faxineira deu a deixa para o desfecho trágico do episódio:

– Nossaaa… Que cheiro bom é esse?!

Realmente, era um peixe ensopado muito gostoso, vendido na esquina da Teodoro Sampaio com a Capote Valente. Mas como só tinha um, tentei justificar ainda com a boca cheia:

– Olha, não sabia se você gostava de peixe ou não. Acabei trazendo feijoada para você, tudo bem?

Tudo bem nada – disse a mulher. Vocês patrões são todos iguais, pensam que ainda estamos na época da escravidão e tratam a gente como vassalos. Só porque eu moro em Perus, tomo duas conduções para chegar até aqui nessa mansão, você acha que é melhor do que eu? Isso é preconceito, é…

A comida quase não descia direito. Entalou na entrada na laringe enquanto a mulher desatava o rosário de críticas. Nunca pensei que uma feijoada fosse causar tanta discórdia. Ouvi tudo sem acreditar na cena que se desdobrava naquela cozinha. Cheguei a olhar para os lados, na esperança que fosse mais uma armação do pessoal de casa.

Pensei por um segundo que até fosse uma pegadinha do Silvio Santos. Na minha fantasia, a faxineira tiraria o disfarce logo em seguida, apresentando-se como Carlinhos Aguiar ou Gibe…

Lamentavelmente em vão.

Antes que eu esboçasse qualquer reação, a mulher virou as costas praguejando contra Deus e a humanidade. Dizia que preferia ficar com fome a comer aquela comida amaldiçoada.

Cristão e de origem pobre, larguei o suculento filé com a mesma culpa dos soldados que imolaram Jesus Cristo na cruz. Tinha cometido o crime que mais detestava: o de preconceito. Tudo por causa de uma feijoada, que há séculos não tem nada de inocente. Mas que estava longe de ser pivô de um crime tão repugnante.

Envergonhado, liguei para a minha colega de apartamento contando a história. Desesperada e temerosa pelo meu temperamento explosivo, ela aconselhou-me a sair de casa e evitar novas confusões. Ela temia que o episódio da faxineira virasse o caso da manicure, protagonizado anos atrás por um grande técnico de futebol…

Na semana seguinte, com tudo contornado, o telefone toca:

  • Pronto.

  • Seu Rudrigu, sou eu.

  • Eu quem?

  • A Ruth. Lembra de mim?

  • Como ei de esquecer, Ruth?! – comentei baixinho.

  • Posso ir amanhã? – disse ela sem pestanejar e sem nem gagejar de vergonha.

Quanto ouvi a pergunta achei que a mulher era louca, que tinha dupla personalidade ou era esquizofrênica. Pra não pagar pra ver outra confusão, inventei uma desculpa esfarrapada e disse que a viajaríamos por dois meses para a Europa. A casa ficaria vazia e sem necessidade de faxina por um longo período.

Era a senha mais fácil para se livrar de uma faxineira. A maluca nunca mais ligou e o processo, que eu tanto temia, ainda não foi lavrado em juízo.

Do episódio restou apenas a casa suja. Sem faxineira, a poeira se acumulava e era hora de achar outra diarista. Fiz contatos com várias tias e amigas, todas elas com boas histórias para contar sobre as faxineiras. Histórias boas e ruins, como a da faxineira que deu a luz prematuramente na área de serviço, ou a outra que roubou mais de três mil da patroa.

No final das contas, achamos outra faxineira recomendada por amigos que também moravam em república. No começo foi a mesma papo de “Seu Rudrigu”pra lá e pra cá, mas acabou sendo dispensada por chegar atrasada e deixar a gente esperando em casa.

Não fazia a limpeza adequadamente e toda semana pedíamos exaustivamente para ela lavasse o latão de lixo que ficava na área de serviço.

Era a mesma coisa que pedir para não lavar.

Quando questionávamos a serviço mal executado, ela vinha com a mesma desculpa:

  • Ah, é? Era pra limpar?

  • Quantas vezes eu já pedi isso?

  • Pediu…? – sorria ela, sem graça e baixando a cabeça.

Era uma relação fadada a fracasso. Aliás, o que mais admirava nela era a desfaçatez e o contorcionismo teatral para se livrar do embaraço. Colocava as atrizes globais no chinelo.

Para minha sorte (ou azar), descobri que isso é uma característica da classe. A última que passou por aqui foi dispensada porque tinha as mãos mais pesada que as do Popeye. Era a única que frequentava meu quarto na minha ausência. Um a um, ela pôs fim a todos os bibelôs que eu trouxera da última viagem à Bahia.

Eram artesanatos vagabundos, mas de valor sentimental inestimável.

O pior de tudo é que eu só descobria o crime semanas depois do flagrante. O atentado era crime era tão bem maquiado para não deixar registro dos fatos. Num sábado qualquer, fui mostrar um dos pretos-velhos baianos para a minha mãe e, ao tirar o boneco de barro do lugar, a cabeça pulou na frente e rolou para debaixo da cama.

Era o quinto elemento quebrado em três meses de emprego. Se a média fosse mantida, em um ano já não restaria apartamento para contar a história. E o pior de tudo: quebrava sem nem ao menos avisar. Ao ser questionada, a resposta era padrão: “Não, seu Rudrigu. Não fui eu não! Magina que eu faria isso com as coisas do sr…” – sempre com voz embargada e olhar amedrontado, para ajudar na composição do personagem.

Minha vontade era jogá-la pela janela toda vez que respondia tão descaradamente. “Atriz maldita!”, pensei várias vezes. Pena que o arremesso de faxineira pela janela não é esporte olímpico. Do contrário, seria minha única vocação esportiva…

No balanço dos fatos, era mais uma daquelas relações humanas fadadas ao fracasso da convivência. Contei mais uma vez da minha viagem para a Irlanda e dispensei pessoalmente os serviços dela por algumas semanas. A sorte é que ela entendeu o recado.

As paredes devem ter se sentido aliviadas.

******

Diante de tantos fatos verídicos, não preciso justificar o meu trauma por essas doces senhoras mais uma vez, né? Nos momentos de reflexão, tento entender por que essas coisas aconteceram só aqui em casa. Que grande mal fiz nessa ou em outra encarnação?

Só posso ter sido uma daquelas patroas megeras, que humilhava os empregados e atrasava os salários. Não tem outra explicação para tamanho ódio contra mim.

O Paulo, que é namorado da Thaís e vez outra está por aqui, diz que o drama da mãe dele é o mesma. Ou até pior, pelas histórias que ele conta. Na teoria dele, o problema está no cerne do marxismo: “É o ódio de classes que se manifesta nos serviços domésticos”, debocha.

“Qualquer hora veremos o I Simpósio Nacional das Faxineiras ou o movimento “Faxineiras pelo direito de sacanear”, teoriza Paulo.

Os amigos da CUT preferem dizer que quebrar e ironizar faz parte do curso de reciclagem que toda faxineira faz antes de entrar na profissão.

Há quem diga que é vingança ou terapia.

A atual diarista que temos atende pelo nome de Nita. Não é o nome verdadeiro, mas ela se recusa a dizer o real. Estamos juntos há seis meses e até agora ela não pisou na bola.

Claro que não é perfeita. Já quebrou outros três bibelôs e dei ordens expressas para que ela se mantenha longe do videogame e dos inúmeros equipamentos eletrônicos espalhados pela casa.  Semana passada ela quase botou fogo no apartamento ao tentar esquentar um pão no microondas. Ela digitou o número doze, ao invés de um minuto e vinte. A cozinha fede até agora.

Apesar disso, só o fato dela não me chamar de “seu Rudrigu” já é um grande passo para eu me livrar desse trauma.

((O narrador senta na cadeira. Todos os integrantes do círculo batem palmas para mais um depoimento vitorioso do A.A.))

 

Literatura canina

Tem coisas que só o mundo corporativo faz pra você. Uma delas são esses manuais de como se dar bem, mordendo e aterrozidando os adversários e colegas de trabalho. A foto foi tirada na livraria do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. É o tipo de leitura que deveria ser proibida em aeronaves, sob o risco do leitor arrancar braços e pernas dos comissários de bordo.

Porque profissional bom morde e arrebenta!

Porque profissional bom morde e arrebenta!

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