Daniela Mercury comandou um gigantesco pré-Carnaval da mistura e da diversidade em SP

DANIELAEMSP

O primeiro Carnaval que participei foi lá nos anos 80, quando eu tinha seis ou sete anos. Me lembro até hoje do tio Lui me levando no ombro pelas ruas de Salvador. Ele era um molecão de vinte e poucos anos e proporcionava até então a maior alegria da minha curta vida, me carregando pra cima e pra baixo por aquelas ladeiras de paralelepípedo, me apresentando aos amigos como “o sobrinho preferido”.

A minha mãe era mãe solteira e, por isso, em feriados e dias de festas os tios tentavam – com muito sucesso – fazer as vias do “pai inexistente” que constava na minha certidão de nascimento.

Eram tempos realmente gloriosos pra mim e talvez por isso ame tanto o Carnaval.

Pelas minhas recordações – e relatos dos meus tios – naquela época ainda não se cobravam os tais dos abadás dos foliões e não existiam os tais camarotes com tapumes. Me encantou aquela multidão de todas as cores e raças, cantando músicas até então desconhecidas e seguindo uns blocos barulhentos, cheios de instrumentos de percussão.

Mesmo sendo filho, neto e bisneto de baianos, acho que aquela foi a primeira vez que me dei conta que nós pessoas brancas não éramos a maioria no mundo. Puxando pela memória falha, talvez tenha sido a primeira vez que eu vi alguém de dreadlocks, de roupas rodadas de baiana e também com guias de Candomblé penduradas no pescoço.

Tanta encantadora mistura e tanta novidade jamais passaria despercebida pela cabeça de uma criança curiosa. Eu invejava aquela beleza e alegria e queria ser igual.

Voltei a sentir a mesma encantadora sensação de 26 anos atrás neste domingo, seguindo o bloco da Daniela Mercury. Pode ser minha impressão, mas talvez eu tenha visto nascer de verdade o Carnaval de São Paulo, nos moldes do que era antes aquelas gloriosas ruas do circuito Barra-Ondina.

Gays, lésbicas e heteros. Negros, brancos e gringos. Gente linda e gente feia, gente sarada e barrigudinhos, rockeiros, pagodeiros e sertanejeiros, católicos, judeus e protestantes. Todos pulando no mesmo ritmo, na mesma frequência desordenada e descordenada. Todos cantando sem se recordarem dos problemas, somente atrás de alguém pra beijar e trocar saliva, como manda a cartilha do bom folião e dos inesquecíveis carnavais.

E o melhor: tudo de graça, ou ao preço de uma cerveja ou catuaba, onde ricos e pobres dividiam o mesmo espaço público das ruas. No mesmo lugar avistei o amigo playboy do Itaim Bibi e, duas quadras pra frente, o porteiro do meu prédio com a família.

Foram seis horas onde certamente não passou pela cabeça daquela gente os problemas de violência, desemprego e preconceito que assolam São Paulo.

Numa cidade de 8 milhões de pessoas, por que demorou tantos anos pra alguém ter a idéia de colocar alguém em cima de um trio elétrico, percorrendo as ruas da cidade e cantando de graça no pré-carnaval, meu Deus?!

Medo de esvaziar o fluxo de turistas para Salvador, Recife e Rio? Receio de igualar a “elite intelectual da locomotiva paulista que move o Brasil” aos “vagões pesados do resto do país”, como se costuma dizer erroneamente por aqui?!

Nem eu nem você temos a resposta. Mas é sintomático que isso tenha acontecido num feriado em que se comemora o aniversário de São Paulo, num arrastão gigantesco e guiado por uma mulher, baiana, assumidamente lésbica e que celebra em suas canções a música negra e a felicidade.

A capital paulista tem muitíssimos mais defeitos que qualidades, sob qualquer ponto de vista. Mas o segredo de se viver aqui é justamente o da mistura. Só quem circula pela diversidade dessa cidade consegue verdadeiramente entender o espírito dela e suportá-la de alguma maneira.

Nesses 462 anos de São Paulo, esqueça fotos de prédios, viadutos e parques bonitos. Se dê de presente uma volta pelos bairros onde se mistura de tudo: gente, música e comportamento.

A mistura nos ajuda a nos entendermos mais como humanos. E, portanto, nos ajuda a superar todas as fragilidades e armadilhas que ser um humano significa, amigos.

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