Batismo de Carnaval (Uma história – quase – ficcional) 

amaury

 

Era uma noite como qualquer outra de fevereiro. O verão exigia das lindas garotas daquela festa o clássico vestido curto e colado, exibindo as novas e velhas tatuagens, além das marcas do último fim de semana no Guarujá.
O calor abafado do salão lotado exigia de Fernando uma cerveja atrás da outra, para driblar o cansaço da semana de trabalho e iniciar os festejos carnavalescos. Depois da décima longneck, as garotas maravilhosas se tornavam ainda mais belas, se aproximando das deusas protagonistas dos filmes de Fellini.
Quanto mais bebida, mais bonitas e mais iguais aquelas jovens que ferviam ao som de Tati Quebra-Barraco se pareciam. Sobe e desce, num rebolado carioca e malemolente, com intervalos para ajustar o cabelo e tirar selfies. Eram movimentos tão sincronizados e padronizados, que mais pareciam atletas olímpicas numa competição de sincronias.
Era o primeiro Carnaval de Fernando e ele não sabia como fazer e se comportar, nem para onde olhar, tamanha a oferta de jovens à procura de um grande amor. Os amigos que o levaram até aquele baile, Felipe, Tiago e Rodrigo, já haviam se separado, cada um atrás de um rabo de saia diferente.
Vindo de Jundiaí, no interior de São Paulo, era o que esses novos companheiros de noitada costumavam chamar de “cabaço” – ou “cristão novo”, caso alguma tia mais recatada atravesse alguma conversa.
O olhar perdido quase fez Fernando perder a última morena que saía do fumódromo. Só percebeu a presença dela quando a mesma passou por trás das costas dele, cantarolando uma canção conhecida como quem sussurra uma oração.
– Ai meu coração, tão solitário sem você ( underere )…
As estrofes tão conhecidas ativaram nele o primeiro sentimento de familiaridade desde que chegou àquele salão com os amigos. O coração de Fernando bateu mais forte e logo ele se virou para procurar a origem daquele som tão familiar.
A moça, entretanto, já tinha dado as costas. Ele notou o vestidinho preto indefectível padrão, exibindo a tatuagem de borboleta por trás do cabelo amarrado, ao final do pescoço.
A visão do todo foi bastante agradável, dando coragem ao jovem de ir atrás daquela que cantarolava seus versos preferidos da adolescência. Tomou coragem, dois coles a mais na cerveja e, dois passos adiante, já se encontrava ao lado dela, tocando os pequenos ombros ainda desconhecidos:
– Eliana de Lima?
– Não, desculpe. Você deve estar me confundindo…
– Não, não. Eu sei. É o “Underere…”
– Como assim, garoto? Você tá bem?
– Sim, sim. Sei que seu nome não é esse. O que você estava cantando era Eliana de Lima – afirmou encabulado.
O estranhamento inicial da moça logo deu lugar a um enorme sorriso entusiasmado, ao mesmo tempo analítico.
– Você conhece? Hahaha Que vergonha…
– Não, não se sinta envergonhada. Eu adoro Eliana de Lima.
– Nossa, eu achava que só eu gostasse dessas coisas. Herança da minha mãe, pagodeira inveterada e sofredora… hahahha
– Minha mãe ouvia coisa muito pior: Raça Negra. Acabei herdando o hábito também- afirma o jovem, ainda sem conseguir olhar a menina olho nos olhos.
– Adoro, cara! “Então me ajude a segurar, essa barra que é gostar de você…”
– “Dididiê, didididiê-ê-ê…” – cantaram os dois juntos e sincronizados, terminando os versos com uma longa risada.
– Nossa, não imaginava que encontraria alguém como você por aqui.
– Nem eu.
– Você é tão linda. É solteira ou o seu namorado está por aí?
– Nada, tô solteira há seis meses. Ouvindo ‘Só Pra Contrariar’ toda noite em casa…
– “… O que é que vou fazer com essa tal liberdade, se estou na solidão pensando em você…”
– hahaha você conhece tudo, meu. É minha preferida! – declarou ela, já repousando as mãos sob o braço do recém-conhecido.
A partir daí, os dois se olharam finalmente nos olhos e seguiu-se um longo abraço forte, que muito se assemelhava ao de dois amigos de longa data.
– Muito prazer. Fernando.
– Sheila.
Ainda sob o efeito do álcool, ele fitou a jovem com atenção, observando os olhos grandes e caramelados da morena, que tinha quase a altura dele, cerca de 1,87 metro, e o cabelo até um pouco ralo.
A vista um pouco turva, entretanto, impedia que Fernando se atentasse a detalhes das roupas e do porte físico da nova conhecida. Preferiu continuar o papo e envergou para a afinidade dos dois com ‘Katinguelê’, ‘Sorriso Maroto’, ‘Art Popular’, ‘Os morenos’, ‘Terra Samba’ e tantos outros grupos de pagode que povoaram o imaginário adolescente no início dos anos 90.
Naquele tempo, o pagode era objeto de desejo de boa parte dos adolescentes, antes de serem atropelados pelo Axé e pelo Sertanejo e suas vertentes.
Quando o DJ da festa soltou os berros de Neguinho da Beija-Flor no salão, gritando “é bonita, é bonita e é bonita”, Fernando chamou a moça para acompanha-lo até a pista, onde os dois sumiram na multidão de mãos dadas.
O sol já raiava na manhã de sábado quando ele se deu conta do horário. Era quase meio dia do sábado e ele já estava atrasado para o encontro com os amigos, a fim de malhar o Judas no dia de aleluia. A companhia dele já tinha levantado e se encontrava no banheiro, a portas trancadas. Pelo barulho do chuveiro, certamente ela estava se banhando.
Da noite anterior, Fernando só se lembrava do nome da jovem e dos beijos acalorados que deram na pista, até terminarem na cama dele. Não se recordava nem da idade da moça, sequer o que ela fazia.
Enquanto ela se banhava, ele resolveu mexer na bolsa dela, afim de achar alguma coisa que pudesse reavivar sua memória para poder ter algum tipo de conversa depois da noite de prazeres. Futuca daqui, mexe de lá, achou apenas um crachá velho que dizia: “Osvaldo Andrade – enfermeiro – Hospital Oswaldo Cruz” e uma carteira de motorista do mesmo sujeito.
Pela semelhança com a moça, logo imaginou que fosse algum irmão dela. Era a pista que precisava para iniciar a conversa assim que ela saísse do banheiro. Ainda pelado, ele ascendeu um cigarro e foi para a varanda do quarto, repetindo o ritual de todas as manhãs.
Foi de lá que ele avistou a turma de amigos, todos gritando seu nome na portaria do prédio, em frases pouco audíveis. Foi então que o celular e o interfone tocaram juntos. Ao mesmo tempo ele atendeu o interfone e viu as incessantes mensagens dos amigos, que logo começaram a gritar na portaria:
– Se fodeu, pegou o travesti da festa! Hahahahahah
Paralisado e chocado, Fernando caiu em si e percebeu: caíra numa brincadeira de Carnaval dos amigos. Estava finalmente e lamentavelmente batizado pela lorota e a picardia.




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