Aos Rodrigos de todo o mundo

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Minha mãe sempre quis que eu me chamasse Patrick. Graças a tia Guiomar, virei Rodrigo por conta de uma novela chamada “Irmãos Coragem”, onde havia um promotor galante e corajoso, que estimulou os “Coragem” a entrarem para a Política e, de quebra, ainda casou com alguém da família.

Mas nesses primeiros dias no Chile topei com vários jovens chamados Rodrigo e fiquei impressionado com a quantidade de chilenos com esse nome, sempre da mesma idade que eu mais ou menos. Achando que era influência das telenovelas brasileiras – que são muito populares na América Latina inteira – perguntei no Ônibus sobre o motivo do nome ser aparentemente tão popular por aqui. O motorista que ouvia a conversa interrompeu antes que o jovem respondesse:

– Também tenho um filho Rodrigo. Ele tem 29 anos. Coloquei o nome dele em homenagem a um menino de seis anos assassinado por Pinochet. Na época era como podíamos dizer ao governo que não concordávamos com aquele horror.

Rodrigo Anfruns Papi foi sequestrado em 1979 pelas forças repressoras de Pinochet e achado morto 14 dias depois, num sítio onde a polícia tinha feito várias diligências antes e não achado nada. O caso do menino mobilizou o país e foi o primeiro movimento de insatisfação contra Pinochet registrado no Chile, até que o plebiscito de 1988 levasse de vez o ditador pra casa, com 40 mil mortes nas costas.

O mesmo motorista de Ônibus me perguntou ainda:

– É verdade que no Brasil as pessoas estão fazendo protesto pra pedir a volta dos militares?

No meu sim meio envergonhado, o motorista Gonzalo Afonsin completou:

– Por Diós. Como querem de volta um sistema que é capaz de matar até um niño inocente?

Foi a primeira vez que senti vergonha de ser brasileiro no exterior, mesmo com todas as piadas que sempre ouvimos sobre bundas, 7 x 1, corrupção e violência. Pelos cálculos dos chilenos, ao menos 2 mil crianças foram vítimas direta ou indiretamente da carnificina comandada por Pinochet.

O caso Rodrigo Anfruns virou filme e série de televisão chamada “Os 12 dias que estremeceram o Chile”, exibida na Chilevision, tipo uma Globo ou SBT daqui.

Com todo o respeito a tia Guiomar, que convenceu mamãe a trocar meu nome, a partir de agora vou adotar a história do pequeno Anfruns para justificar a origem do meu nome. Me parece uma história que precisa ser lembrada muito mais que uma novela da Janete Clair, pra que esses tempos de horror não se repitam nunca mais.

 

https://www.youtube.com/watch?v=TPxXWeJ6COA


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