“O assédio contra as mulheres deve ser combatido na escola, não só na família”, diz pesquisadora

POR RODRIGO RODRIGUES
Recentemente, um grupo de mulheres que discutem e pensam a feminilidade iniciou um movimento que tomou a internet de assalto, propondo mapear os casos de assédio contra as mulheres nas ruas de São Paulo.
Reunidas no coletivo “Think Olga”, o projeto chamado “Chega de Fiu Fiu” teve milhares de colaborações voluntárias de mulheres vítimas de assédio ou tentativas de estupro em várias ruas e regiões da capital paulista.
O site se transformou num grande espaço de desabafo de quem não agüenta mais ser objeto de machismo gratuito por onde passa.
Na prática, é uma experiência coletiva semelhante e anterior ao vídeo que viralizou no mundo todo nesta semana, onde a atriz Shoshana Roberts passa dez horas andando por Nova York e registra uma centena de cantadas e insinuações, com a ajuda de uma câmera escondida.
O vídeo norte-americano já foi visto por 23 milhões de internautas no mundo.
Já o mapa paulistano registrou mais de mil denúncias de mulheres no Brasil inteiro e chamou a atenção da editora “Companhia das Letras”, que propôs ao grupo a edição de um livro pelo selo “Breve Companhia”, oferecendo espaço para que as jovens pudessem contar um pouco dessas histórias registradas no “Chega de Fiu Fiu”.
Escrito pela jornalista Juliana de Faria e pela socióloga Bárbara Castro, o e-book “Meu corpo não é seu” é um dos poucos trabalhos do mercado que mesclam o conhecimento acadêmico com a pesquisa jornalística, na tentativa de desmantelar a lógica torta por trás da diferença de gênero que assola 70% das mulheres do mundo ao menos uma vez na vida, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).
Como o livro mostra, essa lógica mundial se materializa no Brasil não apenas através do assédio nas ruas, mas também pela violência doméstica e pela diferença salarial, que leva muitas mulheres a ganharem 70% do salário de um homem em várias profissões, mesmo exercendo as mesmas funções na iniciativa privada.
Sobre a ausência do assunto nas campanhas eleitorais, o mapa do assédio no Brasil, as diferenças de gênero e o vídeo viral que espantou a internet, Terra Magazine conversou com a socióloga Bárbara Castro, que é professora e pesquisadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e ajudou a escrever o livro.
Confira a entrevista completa:
A experiência da atriz em Nova Iorque é semelhante aos casos registrados no “Chega de Fiu Fiu”. Por que esse assédio se repete tanto aqui e nos EUA?
A desigualdade de gênero, que produz hierarquias e deságua na discriminação, não é um fenômeno concentrado. É um fenômeno social que se registra em diversas sociedades mundo afora. Muitas vezes, as pessoas relacionam o assédio e os crimes sexuais à um certo atraso estrutural que envolve diversos elementos, mas destacam especialmente educação e renda. Não se trata disso. A divisão sexual do trabalho foi historicamente construída nas mais diferentes sociedades, por isso é que o sexismo e o assédio são disseminados, mundializados. Obviamente que em cada sociedade ele vai ter nuanças diferentes, dependendo do modo de vida e do progressismo do cidadão comum. Por isso que defendo, sempre, que este é um tema que tem que ser debatido nas escolas. Tem que haver um local de formação que não dependa apenas da família.
Que conclusões vocês já chegaram através do mapa “Chega de Fiu Fiu” em São Paulo?
Nós ainda estamos trabalhando nos dados. Mas a problematização já está bem clara: o assédio está presente em todas as regiões, independente da renda, da classe social e da escolaridade do grupo que reside majoritariamente nesses pontos. É algo que nos assusta muito. O assédio está presente em todos os bairros, seja na forma de assédio, estupro ou tentativa de estupro. Mas o que chamou atenção até agora é o esforço das meninas de contar o que já aconteceu com elas no passado. É um mapa que está servindo também como um espaço de desabafo dessas meninas, porque há casos com datas de anos anteriores, das quais elas se lembram e fazem questão de registrar, tamanha a cicatriz da ofensa ou violência que sofreram.
Há padrões de comportamento dos assediadores que já é possível detectar no mapa?
Não é tão simples assim. São relatos de assédio e tentativa de estupro que vão de um espaço público – como pontos de ônibus – até um ambiente privado de uso compartilhado, como o local de trabalho. É triste ver como a violência é disseminada e tem agentes e vítimas tão plurais, sem classe social, escolaridade ou região habitacional específicas. Pelos relatos, são meninas e mulheres que não tiveram força ou coragem de contar para alguém o ocorrido, mas que agora nesse espaço da internet – e mantendo o sigilo de identidade – de alguma maneira trazem isso a público.
Falta cobrança das autoridades para que esses assuntos entrem na pauta dos governos?
Faltam mais ações de governo, isso sim. Os casos de estupro, por exemplo, ainda são muito sub notificados. Por medo, vergonha, ou por uma acolhida ruim dessas vítimas da violência nas delegacias. Ainda assim, os números que são registrados evidenciam que esse tipo de violência é maior que o número de homicídios no Estado de São Paulo, segundo as estatísticas da própria Secretaria de Segurança Pública. Mas apesar desse número alarmente, a gente vê muito pouco sendo feito em termos de campanhas públicas para publicizar o problema, debater o assunto, conscientizar a população e estimular a denúncia.
Nos jornais se vê diariamente muita cobrança em relação ao combate ao roubo de bancos, latrocínio e homicídios. Mas muito pouco sobre a violência contra a mulher. O livro mostra esses números através de histórias e relatos. Mas também problematiza a questão mostrando como essa violência é consentida culturamente.
Muita gente tende a achar natural a cantada nas ruas, especialmente se a mulher estiver usando roupas curtas. Onde está o erro que nos levou a essa lógica tão bárbara?
Nossa sociedade tende a colocar na cabeça de meninos e meninas que o homem tem obrigação de construir a sexualidade de forma mais ativa, enquanto a mulher mais passivamente. Nessa lógica, o homem tem que afirmar a virilidade o tempo todo. Isso se dá através de cantadas na rua, nos bares ou supermercados, até de agarrões nas meninas em festas ou baladas, mesmo contra a vontade delas. Se o homem não tem esse comportamento, eles são alvo de piadas dos amigos, por não “chegarem” na menina ou não agirem de acordo como o que o grupo acha que tem que ser. É uma lógica que causa muito sofrimento também para certos meninos ou jovens. E no livro a gente faz essa desconstrução, mostrando como essa prática de afirmação da virilidade por imposição do desejo é uma violência.
Na obra vocês também falam sobre a “privatização” da violência contra a mulher. O que isso quer dizer?
Apesar da violência contra a mulher ter evoluído na esfera pública, com a criação das delegacias da mulher, dos juizados especiais e da Lei Maria da Penha, o problema é que o tema ainda é tratado como um problema privado e de âmbito doméstico, não social e que também pode ocorrer na esfera pública. Muitas das discussões sobre a violência contra a mulher se referem ao âmbito da casa e da família e são tratados, pelo senso comum, como casos anônimos, que são atribuídos às famílias desestruturadas. Ou ainda aos homens com traumas, que apanhavam da mãe e do pai quando jovens, por exemplo. E a culpa sempre volta para a pessoa que fez a denúncia. É esse conjunto de elementos que nos leva a dizer que a violência contra a mulher é privatizada. A gente tenta mostrar que a violência contra a mulher é um problema público, que não obedece a essa lógica do senso comum. Quando o mapa mostra a presença em cada esquina dos assediadores e estupradores, é o sinal claro de que o problema não é apenas privado, mas público.
A pesquisadora Bárbara Castro escreveu o livro “Meu corpo não é seu” ao lado da jornalista Juliana de Faria, criadora do “Think Olga” (Foto: Divulgação)
Mesmo com os esforços recentes em falar da agressão contra mulheres em novelas, séries e filmes, como a Polícia ainda encara esses casos no Brasil ou em São Paulo?
Após as manifestações do ano passado, a sociedade debateu muito a violência policial contra manifestantes. Mas a situação, infelizmente, vai além. O relato de uma das meninas no mapa é sobre uma ida dela à delegacia para denuciar um crime, que era assalto ou algo parecido. Ao chegar, o policial começou a fazer diversas perguntas sobre a vida pessoal dela. Fez convites indiscretos e insinuações…
É uma situação muito maluca porque, como é que uma pessoa, sozinha, vai reagir ao assédio policial dentro de uma delegacia? Como reagir a esse poder sem temer ser presa e ter a fala distorcida por uma autoridade? Comigo mesmo já aconteceu um episódio parecido no Parque Triannon, em plena a Avenida Paulista. Perguntei um endereço para o policial e a resposta dele foi “o que uma menina tão bonita está fazendo perdida? Não quer que te acompanhe?”. Não consegui reagir por medo de ser presa por desacato.
Com o mapa, a gente descobriu que há muitos relatos parecidos, vindos daqueles que deveriam zelar para que a violência não aconteça. É preciso urgentemente inserir esse tema nas escolas, mas também treinar os agentes públicos, porque esse tipo de situação humilhante é inaceitável.
É de fato algo muito bizarro. Mas como colocar isso na agenda política dos estados e municípios?
Nunca vi esse assunto ser pauta de eleição com grande destaque, lamentavelmente. A única coisa que coloca o gênero em destaque é a questão do aborto, que é sempre discutido pela ótica religiosa e conservadora, nunca analisando a situação do ponto de vista da saúde pública brasileira ou da liberdade de escolha das mulheres. Salvo raras exceções, são assuntos que os candidatos e os gurus de campanha tratam como “pautas menores”. Não me recordo de nenhum candidato que tenha sido eleito recentemente defendendo a bandeira da igualdade de gênero, sexualidade ou da violência contra a mulher com protagonismo. As campanhas pautam os projetos em pesquisas de opinião pública, que sempre focam os grandes problemas da Educação, da Saúde ou do Trânsito. Eles só querem falar no que o eleitor pensa e se preocupa de imediato. Assuntos que despertam paixões e identificação rápida.
Passada a eleição, os candidatos realmente não colocaram esses assuntos em debate. Esse silêncio assusta?
Sou um pouco cética, infelizmente. Se a eleição tivesse acontecido na curva da história dos “encoxadores do metrô”, talvez os candidatos ao Governo de São Paulo se preocupassem com o assunto. Mas os assuntos entram ou saem dos planos de governo dos candidatos conforme também saem ou não nos jornais. A pauta do assédio saiu dos jornais. E infelizmente é um assunto que não é considerado fundamental para os candidatos e partidos. Não se discute problema de gênero na eleição no Brasil porque não rende voto rápido e instantâneo, especialmente das camadas mais conservadoras.
Apesar do Brasil ter a primeira mulher presidente reeleita da história da República, conseguimos avançar na questão da desigualdade e violência contra as mulheres no primeiro governo Dilma?
Acredito que sim. Mas também ainda há muito o que realizar. O grande mérito da Dilma foi colocar a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres conversando com os outros ministérios na criação de políticas de governo. A SPM conversa com a política social, a política agrária, o Bolsa Família, os programas de habitação, entre outras áreas. Foi no primeiro governo Dilma que as mulheres casadas passaram a ter titularidade do lote da reforma agrária, no modelo do Bolsa Família e dos programas habitacionais. Quando a posse era só do marido, isso gerava sérios problemas para as mulheres e seus filhos.

A campanha “Chega de Fiu Fiu” é um dos carros chefes do coletivo feminino “Think Olga” em São Paulo (Foto: Reprodução)

Num País onde temos quase 40 mil mulheres vítimas de violência doméstica todos os anos, para alguns ouvidos esses parecem avanços bem tímidos, não?

Podemos dizer que seja, quando pensamos que há muito mais trabalho a se fazer ainda. Especialmente no que toca ao combate estrutural das desigualdades entre homens e mulheres. Mas acredito que a grande chave para entender o avanço das políticas para as mulheres no governo Dilma é pensar na transversalidade e na autonomia econômica das mulheres. Acho que essa foi a linha mestra dessa gestão. As falas que acompanho nesses anos todos da ministra Eleonora Minecucci vão nesse sentido, de não desamparar as mulheres economicamente. E isso tem relação com a questão da violência. A ministra sempre fala na questão de tentar inserir economicamente essas mulheres, para que elas fiquem menos vulneráveis diante dos maridos do ponto de vista financeiro e consigam se libertar mais facilmente dos agressores. E precisamos pensar nisso em um contexto em que, sem creches públicas para todos, quando um casal tem filhos pequenos é preciso que alguém tome conta. Não só a mulher acaba desempenhando esse papel por ele ser socialmente determinado, mas também porque, e isso é comprovado estatisticamente, as mulheres ganham menos do que os homens.

Qual o maior desafio da presidente Dilma nessa área no próximo mandato?

Se teci um elogio pelo governo Dilma ter dado ênfase à autonomia econômica das mulheres, a crítica que fica é a de superar a emancipação no nível individual e buscar um caminho de construção mais coletiva da superação das desigualdades. Precisamos empurrar esse horizonte político para mais longe. Se as mulheres têm conquistado autonomia econômica, ainda ocupam os postos de trabalho mais precarizados, como diversos estudos acadêmicos têm mostrado. Precisamos pensar na qualidade dos empregos que têm sido gerados para as mulheres. Além disso, no que tange à violência, é preciso desenvolver políticas que ultrapassem a lógica punitiva. Já se passam 10 anos da Lei Maria da Penha. É preciso ir além da solução criminal, senão a saída continua individualizada.

Temos que cobrar um trabalho mais efetivo de conscientização não só dos agressores, mas de toda a sociedade. Sem um trabalho de base que vise superar o preconceito e a discriminação, vamos continuar apagando incêndios. E não que as políticas imediatas não sejam necessárias. São. Mas precisamos pensar em maneiras de transformá-las em justiça perene, o que quer dizer uma sociedade que trate homens e mulheres de maneira igual, em todas as esferas da vida.

Aprovada no governo Lula, esperava-se que a Lei Maia da Penha diminuísse mais drasticamente os casos de violência contra as mulheres. Dez anos depois, ainda temos uma situação alarmante. Onde erramos com essa lei?

A lei de fato é um grande avanço do governo Lula, mas precisa de ajustes e avanços. Ela tem já dez anos e, como tal, precisa de correções. Uma das questões diz respeito à Justiça. Muitos casos de violência demoram um enorme tempo para serem julgadas, o que deslegitima, em certa dose, todo o processo de denúncia. Outra correção fundamental é a construção de uma rede efetiva de proteção da mulher vítima de violência, desde a chegada na delegacia até o pós-denúncia. Porque ainda há muito despreparo e insensibilidade entre os funcionários que recebem a denúncia, deixando as mulheres desconfortáveis e desconfiadas da efetividade do processo. Além disso, quando a violentada faz a denúncia, o agressor pode não ser preso imediatamente e essa mulher volta para casa, ou vai para a casa de conhecidos e familiares. E aí a mulher fica vulnerável, fica sujeita a novas violências desse parceiro. Às vezes até mais graves. Deveria haver mais efetividade na acolhida dessas mulheres, especialmente nos casos de agressão mais graves.

Os abrigos para mulheres vítimas de violência são poucos no Brasil ou não estão sendo usados de forma eficiente?

A rede de proteção ainda é muito pequena no País. Existem casos graves de mulheres levadas para abrigos e que têm a vida salva. Mas infelizmente eles ainda são pouquíssimos. Há muitas cidades de médio porte que nem têm espaços para receber mulheres com filhos. Outro ponto é que, nesse processo, a mulher que foge do agressor tem que sumir do mapa para não ser morta. Mas as escolas não estão preparadas para fazer a transferência dos filhos de forma rápida. Há ainda muita dificuldade das mulheres conseguirem aquela licença do trabalho de seis meses, prevista na lei em casos de violência. Tudo isso implica na exposição da mulher, porque o agressor espera por ela na porta da escola dos filhos, no trabalho. E aos olhos das estatísticas, parece que o processo não funciona. Mas não é bem por aí…
Falta engajamento das empresas na ajuda às mulheres vítimas de agressão, então?
A questão do trabalho é ainda mais difícil. Porque é um duplo desafio para a vítima de agressão doméstica admitir para ela mesma que está sendo agredida ou torturada pelo companheiro, imagina para o chefe e os colegas de trabalho?! É uma coisa muito complicada chegar para o chefe e pedir a licença porque está sendo agredida ou ameaçada de morte pelo marido. Isso tudo vincula a mulher ao trabalho e a deixa mais vulnerável ao agressor. É preciso mecanismos que agilizem esses processos, porque as mulheres podem ser agredidas na entrada ou saída do trabalho. Ajustes na lei e engajamento das empresas talvez possam corrigir isso.
Meses atrás, uma pesquisa do IPEA mostrou que 58% dos brasileiros concordam com a afirmação de que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Como mudar isso?
É uma questão cultural enraizada, que passa pela Educação para o gênero. A Lei Maria da Penha prevê o aprendizado das questões de gênero nas escolas, mas ainda percebemos uma ausência total desse tema nos currículos escolares. O Brasil precisa formar na escola as gerações que entenderão melhor que homens e mulheres têm o mesmo papel na sociedade. Que é preciso compartilhar as tarefas de casa, que agressão contra mulher é crime, etc. Trabalhar isso desde cedo é necessário para modificar o senso comum, que naturaliza a desigualdade entre homens e mulheres a partir de uma diferença biológica. E essa desigualmente culmina em discriminação e também está na origem da violência.
Como assim, “origem da violência”?
O ato de violência, óbvio, é individual. Mas como sociedade, temos a obrigação de mudar essa mentalidade, até para que as pessoas denunciem e tenham coragem de se envolverem mais nessa discussão. O caldo de cultura é o trampolim da violência de fato. Ela se dá, primeiro, no imaginário social. Na ideia de hierarquizar os sexos, de atribuir maior poder aos homens. A violência não é só o física, mas também e, cotidianamente emocional, como o assédio no trabalho e no transporte público, por exemplo. Sem falar na discriminação do mercado de trabalho, que ainda acha que uma mulher não pode fazer certas tarefas que um homem faz, porque exigem força física ou raciocínio lógico.
Isso é uma construção social. Não há, efetivamente, diferença de capacidade intelectual ou física entre homens e mulheres. O que há é uma educação que ensina as mulheres a cuidar da casa e da família, quando lhes damos bonecas, vassouras e  fogões de brinquedo. E que ensina os homens a gostarem de tecnologia, velocidade e desafios matemáticos, quando lhes damos carrinhos, Lego ou jogos de aventura. E esses gostos se refletem mais à frente, não apenas na naturalização de papeis sexuados, mas também na escolha das carreiras.
Por isso é que a desconstrução dessas ideias de que menino gosta disso e menina gosta daquilo deve começar não apenas em casa, mas também na pré-escola, nos primeiros anos de ensino. A lei prevê a promoção dessas questões de gênero nas escolas, mas não vemos acontecer na prática de maneira massiva, infelizmente. É algo que precisamos cobrar mais dos governos todos, nos municípios, nos estados e na esfera federal.
Muito se fala sobre a criação de um benefício econômico para a mulher vítima de agressão. Você concorda?
Sim, especialmente para as mulheres que não trabalham. No caso das mulheres que trabalham, a lei prevê o afastamento de seis meses com manutenção do vínculo. Mas ainda há uma jurisprudência em formação sobre se o pagamento do salário, no tempo de afastamento, acontecerá através do empregador ou do INSS.
O grande problema está nas empresas se abrirem mais para isso e encararem com mais naturalidade o assunto, para que a mulher vítima de agressão se sinta mais confiante para falar sobre o tema com o chefe. Também para que o emprego dela esteja realmente lá na volta desse processo todo, que é muito doloroso para a mulher e para a família, principalmente do ponto de vista psicológico.
A diferença de salário entre homens e mulheres é uma discussão ainda relevante dentro dos movimentos de gênero?
Muito! A média nacional diz que mulheres recebem 73,5% do salário dos homens, exercendo as mesmas atividades. O que é mais gritante é que, quando você pega a distribuição por escolaridade, quanto maior o nível de formação acadêmica, maior é a diferença salarial entre homens e mulheres aumenta. É algo chocante, porque as mulheres com nível máximo de escolaridade (12 anos ou mais) chegam a ganhar 60% do salário de um homem no Brasil. Ou seja, não é um problema de diferença de formação. É discriminação mesmo. É preciso assegurar que essas coisas não aconteçam, porque a própria Constituição Federal cita a proibição da discriminação por raça, cor ou gênero.
Por que a diferença salarial entre homens e mulheres tem relação direta com casos de violência?
Essa diferença é sinalizadora de desigualdade de poderes. Além disso, um dos motivos de violência familiar é justamente quando a mulher começa a trabalhar e ganhar algum dinheiro, e o parceiro começa a ficar irritado. Ele fica se sentindo ameaçado pela independência da esposa, ou quando ela passa a ganhar mais do que ele. É uma situação que coloca em xeque a situação dele como provedor do lar, que é o papel social ultrapassado que é atribuído ao homem. E esse é um sinalizador de violência de gênero mais comum do que a gente imagina, mas que só muda com educação escolar e consciência coletiva através de campanhas públicas.
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O livro “Meu corpo não é seu” está disponível em e-book através do site da Cia das Letras.
O mapa “Chega de Fiu Fiu” também continua recebendo colaborações e relatos de mulheres através do endereço: http://chegadefiufiu.com.br/
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