Ria palhaço, ria!

O ator Robin Williams, morto nos Estados Unidos na último 11 de agosto de 2014

O ator Robin Williams, morto nos Estados Unidos na último 11 de agosto de 2014

“Palhaço também chora?”

Essa frase marcou para sempre a minha vida. Faz parte da ópera “Palhaço”, do italiano Ruggero Leoncavallo, escrita em 1892.

Lá pelos anos 90, eu era um menino de 12 para 13 anos, tímido e cheio de problemas familiares. Sem amigos, mas com uma porrada de preocupações, apesar da pouca idade.

Numa bela tarde de Primavera, fui convidado pelo meu querido professor de Matemática Adhemar Reis Maia para ingressar no grupo de teatro da escola.

O grupo TEPAM (Teatro Estudantil Adhemar Maia) ensaiava justamente a peça do italiano. Era a primeira vez que tinha contato com atores e, por ser o aluno mais novo daquele grupo, me era designado um papel sem fala, no que no teatro costuma-se chamar de coro.

No sábado do primeiro ensaio, fiquei sentado como espectador assistindo aos futuros colegas atores declamando as falas daquele enredo em que o palhaço, dono do circo que acabara de aportar na cidade, descobriria que sua esposa, Nedda, o traíra com um sujeito burguês da cidade chamado Silvio.

Antes do desfecho final trágico, o velho palhaço apaixonado de nome Canio é questionado pelas viúvas do coro com a fatídica pergunta: “Palhaço também chora?”

Naquela época fora uma frase que mudara a minha vida. Foi um tempo que, por conta do velho palhaço, resolvi não mais chorar e me lamentar dos problemas, mas sempre fazer os outros rirem e também rir da minha própria condição.

O desenrolar da história de Canio e Nedda é cantada magistralmente pelo saudoso Luciano Pavarotti, que interpretou como poucos no mundo a dor do palhaço traído.


Dizia o monólogo:

“Se o Arlequim roubar tua Colombina / Ria, Palhaço, e todos aplaudirão!
Ria, palhaço, Sobre este amor despedaçado / Ria da dor que te envenena o coração”.

A morte do ator Robin Williams, para mim, remete também ao velho Canio.

Por onde passava, Williams era o centro das atenções com sua irreverência e piadas bem calibradas, as vezes pouco certeiras.

Era o típico palhaço, que não parava quieto e a única intenção era divertir.

Basta ver nas várias entrevistas dele no programa de David Letterman, nos Estados Unidos. As intervenções do apresentador sempre eram mínimas, cabendo ao ator a ribalta e o centro do picadeiro.

Mas por mais que nos fizesse rir, por dentro Robbin Willians chorava. Era consumido pela depressão e solidão. Freqüentava os Alcoólicos Anônimos (AA) e fora até viciado em cocaína.

Terminara a vida, ao que tudo indica, se suicidando e não agüentando o peso da própria existência.

Antes disso, entretanto, era um daqueles sujeitos que sempre estavam dispostos a fazerem rir os amigos a qualquer custo. Como no caso em que invadiu o hospital onde o ator Christopher Reeve estava internado, após saber que ficara paraplégico depois de sofrer um acidente de cavalo.

Disfarçado de médico, Willians fez um sotaque russo e falou meia dúzia de palavras inteligíveis ao amigo doente antes de revelar a verdadeira identidade.

Conseguiu arrancar o primeiro sorriso do ator, após meses de agonia pela tragédia.

Robbin Willians foi decididamente alguém que se dedicou a servir ao riso, não se servir dele. Confortar os amigos e tira-lhe do rosto a feição dura fora certamente a missão mais complicada e divertida.

Assim como Willians, também o ator e comediante Fausto Fanti, do grupo Hermes e Renato, o fazer sorrir não foi o suficiente para ele mesmo se libertar dos próprios palhaços. Fanti também tirou a própria vida deixando, contudo, uma legião de amigos que fez rir e ajudou a esquecer os problemas através da gargalhada.

Dois exemplos incríveis de pessoas que optaram por ajudar ao próximo, ao invés de se salvarem. São heróis que optaram por salvar o mundo inteiro, mas esqueceram de si mesmo.

Aprendi em casa, com meu tio padre Antonio Hélio, que todos os dias alguém acorda mais triste que a gente, precisando de ajuda e uma palavra amiga.

Em nome dessa gente, procuro sempre manter o sorriso no rosto. As vezes mais como um personagem, que se importa mais em fazer aquilo que a religião chama de “dar a vida pelo irmão”.

E tudo começou com aquele lindo “Ridi, Pagliaccio, ridi”.

E espero, sinceramente, que Deus reserve um lado especial ao lado dele para todos nós, os palhaços da vida real.

Obrigado, queridos heróis. Acho que a gente pode continuar daqui, porque, como diz o ditado: “O humor salva a paciência, que salva o amor, que salva o mundo inteiro”.

E o circo da vida continua. O show não pode parar!!

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