Daniela Mercury comandou um gigantesco pré-Carnaval da mistura e da diversidade em SP

DANIELAEMSP

O primeiro Carnaval que participei foi lá nos anos 80, quando eu tinha seis ou sete anos. Me lembro até hoje do tio Lui me levando no ombro pelas ruas de Salvador. Ele era um molecão de vinte e poucos anos e proporcionava até então a maior alegria da minha curta vida, me carregando pra cima e pra baixo por aquelas ladeiras de paralelepípedo, me apresentando aos amigos como “o sobrinho preferido”.

A minha mãe era mãe solteira e, por isso, em feriados e dias de festas os tios tentavam – com muito sucesso – fazer as vias do “pai inexistente” que constava na minha certidão de nascimento.

Eram tempos realmente gloriosos pra mim e talvez por isso ame tanto o Carnaval.

Pelas minhas recordações – e relatos dos meus tios – naquela época ainda não se cobravam os tais dos abadás dos foliões e não existiam os tais camarotes com tapumes. Me encantou aquela multidão de todas as cores e raças, cantando músicas até então desconhecidas e seguindo uns blocos barulhentos, cheios de instrumentos de percussão.

Mesmo sendo filho, neto e bisneto de baianos, acho que aquela foi a primeira vez que me dei conta que nós pessoas brancas não éramos a maioria no mundo. Puxando pela memória falha, talvez tenha sido a primeira vez que eu vi alguém de dreadlocks, de roupas rodadas de baiana e também com guias de Candomblé penduradas no pescoço.

Tanta encantadora mistura e tanta novidade jamais passaria despercebida pela cabeça de uma criança curiosa. Eu invejava aquela beleza e alegria e queria ser igual.

Voltei a sentir a mesma encantadora sensação de 26 anos atrás neste domingo, seguindo o bloco da Daniela Mercury. Pode ser minha impressão, mas talvez eu tenha visto nascer de verdade o Carnaval de São Paulo, nos moldes do que era antes aquelas gloriosas ruas do circuito Barra-Ondina.

Gays, lésbicas e heteros. Negros, brancos e gringos. Gente linda e gente feia, gente sarada e barrigudinhos, rockeiros, pagodeiros e sertanejeiros, católicos, judeus e protestantes. Todos pulando no mesmo ritmo, na mesma frequência desordenada e descordenada. Todos cantando sem se recordarem dos problemas, somente atrás de alguém pra beijar e trocar saliva, como manda a cartilha do bom folião e dos inesquecíveis carnavais.

E o melhor: tudo de graça, ou ao preço de uma cerveja ou catuaba, onde ricos e pobres dividiam o mesmo espaço público das ruas. No mesmo lugar avistei o amigo playboy do Itaim Bibi e, duas quadras pra frente, o porteiro do meu prédio com a família.

Foram seis horas onde certamente não passou pela cabeça daquela gente os problemas de violência, desemprego e preconceito que assolam São Paulo.

Numa cidade de 8 milhões de pessoas, por que demorou tantos anos pra alguém ter a idéia de colocar alguém em cima de um trio elétrico, percorrendo as ruas da cidade e cantando de graça no pré-carnaval, meu Deus?!

Medo de esvaziar o fluxo de turistas para Salvador, Recife e Rio? Receio de igualar a “elite intelectual da locomotiva paulista que move o Brasil” aos “vagões pesados do resto do país”, como se costuma dizer erroneamente por aqui?!

Nem eu nem você temos a resposta. Mas é sintomático que isso tenha acontecido num feriado em que se comemora o aniversário de São Paulo, num arrastão gigantesco e guiado por uma mulher, baiana, assumidamente lésbica e que celebra em suas canções a música negra e a felicidade.

A capital paulista tem muitíssimos mais defeitos que qualidades, sob qualquer ponto de vista. Mas o segredo de se viver aqui é justamente o da mistura. Só quem circula pela diversidade dessa cidade consegue verdadeiramente entender o espírito dela e suportá-la de alguma maneira.

Nesses 462 anos de São Paulo, esqueça fotos de prédios, viadutos e parques bonitos. Se dê de presente uma volta pelos bairros onde se mistura de tudo: gente, música e comportamento.

A mistura nos ajuda a nos entendermos mais como humanos. E, portanto, nos ajuda a superar todas as fragilidades e armadilhas que ser um humano significa, amigos.

E se Bernie Sanders vencer Hillary Clinton?

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Aos 78 anos e autointitulado socialista, Bernie Sanders pode derrotar Hillary Clinton em New Hampshire e Iowa – as duas primeiras etapas das primárias do Partido Democrata – e abrir caminho para uma eventual candidatura à presidência dos Estados Unidos.

O que ele prega? Entre outras coisas, a redução da desigualdade, o fim do financiamento empresarial de campanha, aumento de impostos para os ricos e classe média, o direito da mulher às decisões que envolvam o próprio corpo, criação de uma espécie de SUS Ianque – com atendimento universal e gratuito para todos – e, claro, o cerco contra o lobby da indústria de armas.

Todas bandeiras que a turma do pensamento binário brasileiro rotulou de “coisa de petralha”, “bolivariano”, “esquerdopata que vota no PSOL”, entre outras bobagens de desnecessária reprodução.

A exemplo de Barack Obama, Bernie Sanders é um azarão com chances reais de chegar à Casa Branca, principalmente se do lado Republicano o escolhido for o falastrão racista Donald Trump, ou o terceiro membro da traumática família Bush.

É bem cedo para fazer previsões e comemorar. Mas abro o debate aos amigos: se Bernie Sanders vencer, aceitaremos Rodrigo Constantino e a turma que resolveu migrar pra Miami de volta?!

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Batismo de Carnaval (Uma história – quase – ficcional) 

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Era uma noite como qualquer outra de fevereiro. O verão exigia das lindas garotas daquela festa o clássico vestido curto e colado, exibindo as novas e velhas tatuagens, além das marcas do último fim de semana no Guarujá.
O calor abafado do salão lotado exigia de Fernando uma cerveja atrás da outra, para driblar o cansaço da semana de trabalho e iniciar os festejos carnavalescos. Depois da décima longneck, as garotas maravilhosas se tornavam ainda mais belas, se aproximando das deusas protagonistas dos filmes de Fellini.
Quanto mais bebida, mais bonitas e mais iguais aquelas jovens que ferviam ao som de Tati Quebra-Barraco se pareciam. Sobe e desce, num rebolado carioca e malemolente, com intervalos para ajustar o cabelo e tirar selfies. Eram movimentos tão sincronizados e padronizados, que mais pareciam atletas olímpicas numa competição de sincronias.
Era o primeiro Carnaval de Fernando e ele não sabia como fazer e se comportar, nem para onde olhar, tamanha a oferta de jovens à procura de um grande amor. Os amigos que o levaram até aquele baile, Felipe, Tiago e Rodrigo, já haviam se separado, cada um atrás de um rabo de saia diferente.
Vindo de Jundiaí, no interior de São Paulo, era o que esses novos companheiros de noitada costumavam chamar de “cabaço” – ou “cristão novo”, caso alguma tia mais recatada atravesse alguma conversa.
O olhar perdido quase fez Fernando perder a última morena que saía do fumódromo. Só percebeu a presença dela quando a mesma passou por trás das costas dele, cantarolando uma canção conhecida como quem sussurra uma oração.
– Ai meu coração, tão solitário sem você ( underere )…
As estrofes tão conhecidas ativaram nele o primeiro sentimento de familiaridade desde que chegou àquele salão com os amigos. O coração de Fernando bateu mais forte e logo ele se virou para procurar a origem daquele som tão familiar.
A moça, entretanto, já tinha dado as costas. Ele notou o vestidinho preto indefectível padrão, exibindo a tatuagem de borboleta por trás do cabelo amarrado, ao final do pescoço.
A visão do todo foi bastante agradável, dando coragem ao jovem de ir atrás daquela que cantarolava seus versos preferidos da adolescência. Tomou coragem, dois coles a mais na cerveja e, dois passos adiante, já se encontrava ao lado dela, tocando os pequenos ombros ainda desconhecidos:
– Eliana de Lima?
– Não, desculpe. Você deve estar me confundindo…
– Não, não. Eu sei. É o “Underere…”
– Como assim, garoto? Você tá bem?
– Sim, sim. Sei que seu nome não é esse. O que você estava cantando era Eliana de Lima – afirmou encabulado.
O estranhamento inicial da moça logo deu lugar a um enorme sorriso entusiasmado, ao mesmo tempo analítico.
– Você conhece? Hahaha Que vergonha…
– Não, não se sinta envergonhada. Eu adoro Eliana de Lima.
– Nossa, eu achava que só eu gostasse dessas coisas. Herança da minha mãe, pagodeira inveterada e sofredora… hahahha
– Minha mãe ouvia coisa muito pior: Raça Negra. Acabei herdando o hábito também- afirma o jovem, ainda sem conseguir olhar a menina olho nos olhos.
– Adoro, cara! “Então me ajude a segurar, essa barra que é gostar de você…”
– “Dididiê, didididiê-ê-ê…” – cantaram os dois juntos e sincronizados, terminando os versos com uma longa risada.
– Nossa, não imaginava que encontraria alguém como você por aqui.
– Nem eu.
– Você é tão linda. É solteira ou o seu namorado está por aí?
– Nada, tô solteira há seis meses. Ouvindo ‘Só Pra Contrariar’ toda noite em casa…
– “… O que é que vou fazer com essa tal liberdade, se estou na solidão pensando em você…”
– hahaha você conhece tudo, meu. É minha preferida! – declarou ela, já repousando as mãos sob o braço do recém-conhecido.
A partir daí, os dois se olharam finalmente nos olhos e seguiu-se um longo abraço forte, que muito se assemelhava ao de dois amigos de longa data.
– Muito prazer. Fernando.
– Sheila.
Ainda sob o efeito do álcool, ele fitou a jovem com atenção, observando os olhos grandes e caramelados da morena, que tinha quase a altura dele, cerca de 1,87 metro, e o cabelo até um pouco ralo.
A vista um pouco turva, entretanto, impedia que Fernando se atentasse a detalhes das roupas e do porte físico da nova conhecida. Preferiu continuar o papo e envergou para a afinidade dos dois com ‘Katinguelê’, ‘Sorriso Maroto’, ‘Art Popular’, ‘Os morenos’, ‘Terra Samba’ e tantos outros grupos de pagode que povoaram o imaginário adolescente no início dos anos 90.
Naquele tempo, o pagode era objeto de desejo de boa parte dos adolescentes, antes de serem atropelados pelo Axé e pelo Sertanejo e suas vertentes.
Quando o DJ da festa soltou os berros de Neguinho da Beija-Flor no salão, gritando “é bonita, é bonita e é bonita”, Fernando chamou a moça para acompanha-lo até a pista, onde os dois sumiram na multidão de mãos dadas.
O sol já raiava na manhã de sábado quando ele se deu conta do horário. Era quase meio dia do sábado e ele já estava atrasado para o encontro com os amigos, a fim de malhar o Judas no dia de aleluia. A companhia dele já tinha levantado e se encontrava no banheiro, a portas trancadas. Pelo barulho do chuveiro, certamente ela estava se banhando.
Da noite anterior, Fernando só se lembrava do nome da jovem e dos beijos acalorados que deram na pista, até terminarem na cama dele. Não se recordava nem da idade da moça, sequer o que ela fazia.
Enquanto ela se banhava, ele resolveu mexer na bolsa dela, afim de achar alguma coisa que pudesse reavivar sua memória para poder ter algum tipo de conversa depois da noite de prazeres. Futuca daqui, mexe de lá, achou apenas um crachá velho que dizia: “Osvaldo Andrade – enfermeiro – Hospital Oswaldo Cruz” e uma carteira de motorista do mesmo sujeito.
Pela semelhança com a moça, logo imaginou que fosse algum irmão dela. Era a pista que precisava para iniciar a conversa assim que ela saísse do banheiro. Ainda pelado, ele ascendeu um cigarro e foi para a varanda do quarto, repetindo o ritual de todas as manhãs.
Foi de lá que ele avistou a turma de amigos, todos gritando seu nome na portaria do prédio, em frases pouco audíveis. Foi então que o celular e o interfone tocaram juntos. Ao mesmo tempo ele atendeu o interfone e viu as incessantes mensagens dos amigos, que logo começaram a gritar na portaria:
– Se fodeu, pegou o travesti da festa! Hahahahahah
Paralisado e chocado, Fernando caiu em si e percebeu: caíra numa brincadeira de Carnaval dos amigos. Estava finalmente e lamentavelmente batizado pela lorota e a picardia.




Aos Rodrigos de todo o mundo

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Minha mãe sempre quis que eu me chamasse Patrick. Graças a tia Guiomar, virei Rodrigo por conta de uma novela chamada “Irmãos Coragem”, onde havia um promotor galante e corajoso, que estimulou os “Coragem” a entrarem para a Política e, de quebra, ainda casou com alguém da família.

Mas nesses primeiros dias no Chile topei com vários jovens chamados Rodrigo e fiquei impressionado com a quantidade de chilenos com esse nome, sempre da mesma idade que eu mais ou menos. Achando que era influência das telenovelas brasileiras – que são muito populares na América Latina inteira – perguntei no Ônibus sobre o motivo do nome ser aparentemente tão popular por aqui. O motorista que ouvia a conversa interrompeu antes que o jovem respondesse:

– Também tenho um filho Rodrigo. Ele tem 29 anos. Coloquei o nome dele em homenagem a um menino de seis anos assassinado por Pinochet. Na época era como podíamos dizer ao governo que não concordávamos com aquele horror.

Rodrigo Anfruns Papi foi sequestrado em 1979 pelas forças repressoras de Pinochet e achado morto 14 dias depois, num sítio onde a polícia tinha feito várias diligências antes e não achado nada. O caso do menino mobilizou o país e foi o primeiro movimento de insatisfação contra Pinochet registrado no Chile, até que o plebiscito de 1988 levasse de vez o ditador pra casa, com 40 mil mortes nas costas.

O mesmo motorista de Ônibus me perguntou ainda:

– É verdade que no Brasil as pessoas estão fazendo protesto pra pedir a volta dos militares?

No meu sim meio envergonhado, o motorista Gonzalo Afonsin completou:

– Por Diós. Como querem de volta um sistema que é capaz de matar até um niño inocente?

Foi a primeira vez que senti vergonha de ser brasileiro no exterior, mesmo com todas as piadas que sempre ouvimos sobre bundas, 7 x 1, corrupção e violência. Pelos cálculos dos chilenos, ao menos 2 mil crianças foram vítimas direta ou indiretamente da carnificina comandada por Pinochet.

O caso Rodrigo Anfruns virou filme e série de televisão chamada “Os 12 dias que estremeceram o Chile”, exibida na Chilevision, tipo uma Globo ou SBT daqui.

Com todo o respeito a tia Guiomar, que convenceu mamãe a trocar meu nome, a partir de agora vou adotar a história do pequeno Anfruns para justificar a origem do meu nome. Me parece uma história que precisa ser lembrada muito mais que uma novela da Janete Clair, pra que esses tempos de horror não se repitam nunca mais.

 

https://www.youtube.com/watch?v=TPxXWeJ6COA


A conta do leite e a extorsão da tarifa em SP

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Sou o filho mais velho e orgulhoso de uma empregada doméstica, mais tarde faxineira, mãe de cinco filhos. A primeira operação matemática que aprendi na vida, a duras penas, foi a conta do leite. Ela é simples e minha mãe repetia a cada escândalo que eu dava pra poder ir num passeio da escola, ou comprar o brinquedo ou roupa da moda.

Explicava a minha mãe:

– Se eu der R$30,00 pra você ir no zoológico com a escola, deixarei de comprar duas caixas de leite para os seus irmãos. Você prefere ir num passeio ou ver seus irmãos chorando de fome?

O aumento de R$0,30 nas passagens de ônibus e metrô, para uma mãe de família que pega os dois transportes diariamente pra ir e pra voltar do trabalho, significa R$1,20 por dia. R$6,00 por semana, R$30,00 num mês de 25 dias.

Parece bem pouco pra nós, gente de classe média, que gasta muito mais em chopp e em balada. E pelo preço atual do leite, talvez compre pouco menos que uma caixa com 12 litros de leite.

Mas pergunte pra qualquer mãe pobre a diferença que uma caixa de 12 litros de leite faz pra uma família de dois, três filhos menores.

Por isso, o aumento da passagem promovido por Alckmin, Haddad, Pezão e Lacerda (BH), sob qualquer aspecto, é imoral. Fruto de uma classe política alienada, que considera apenas planilhas, não gente e nem famílias.

Isso sim é vandalismo.

Que modernidade, cara-pálida ? (Ou R$3,80 é a solução do atraso)

haddad + alckmin

Em meados de 2015 os adoradores do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, foram ao orgasmo com as várias citações do mandatário paulistano nos jornais internacionais, que classificaram o petista de “moderno” e “visionário”, por conta da política de ciclovias na cidade. O mesmo está se dizendo agora sobre a alternativa dada por Haddad para regulamentar o serviço Uber em SP e o suposto projeto pra enterrar fios.

Pelo lado tucano, eleição atrás de eleição, os adoradores do PSDB martelam na propaganda política que o governador Geraldo Alckmin é igualmente um administrador “moderno”, “arrojado” e “destemido”.

Onde estão tantas qualidades na hora que se precisa realmente delas?

Num contexto de crise econômica e desemprego, o cidadão esperava justamente soluções criativas e a altura da modernidade vendida pelos aduladores da corte. Mas o aumento da tarifa anunciado por eles é a solução de sempre, só que agora combinada entre Prefeitura e Estado para que os dois dividam o ônus político do desgaste.

De alguém intitulado – ou autointitulado – “moderno” e “visionário” se esperava soluções criativas que pudessem segurar as tarifas ou gerassem aumentos menores, dando benefícios e alternativas aos cidadãos que enfrentam falta de emprego e dificuldades financeiras.

E exemplos não faltam no mundo inteiro sobre isso.

Em Madrid e Barcelona a diferenciação é por zonas e linhas. Em Vancouver por regiões, com tarifa conjunta e única de metrô e ônibus.

Pra não precisar ir tão longe, nossos próprios vizinhos latino-americanos podem nos dar exemplos de criatividade. Ficando apenas no exemplo de Santiago do Chile, onde estive nas últimas festas de Natal, me impressionou o fato do metrô da capital ter três diferentes tarifas pra cada hora do dia.

Em Santiago o horário de rush, entre 07h e 09h, custa $720 pesos chilenos (cerca de R$3,90 a R$4,00), enquanto que depois das 20h45 o preço cai para $610 (R$3,40 a R$3,50) e durante o meio do dia o valor é $660 (R$3,70). Por lá, a tarifa paga no metrô não é cobrada novamente no ônibus, como acontece em São Paulo, onde é acrescentado mais R$1,95 ao usar os dois transportes.

Além de beneficiar o bolso do cidadão, tarifas diferenciadas servem para descongestionar os horários de rush e equilibrar o fluxo de passageiros no sistema.

Quem não é alucinado e delirante compreende que existe custo de operacionalização do sistema de transporte paulista e que ele aumenta com a inflação, como tudo na economia.

O que não se compreende é por quê Alckmin e Haddad não usam as qualidades auto-imbuídas para propor caminhos alternativos, fora do óbvio, do fácil e do comum?

O aumento que começa a vigorar neste 09/01 equipara Haddad e Alckmin a Maluf, Pitta, Serra, Fleury e tantos outros, que optaram por esse mesmo caminho fácil e óbvio do aumento de tarifas.

Como repete sempre um amigo, a crise do Brasil é de ideias, não de ideologia.

Tucanos e petistas se autodestroem porque, no espelho, são a face um do outro. E o que é pior: a face do óbvio, do comum e do arroz com feijão. Coisas que já não dão conta da complexidade da evolução da sociedade brasileira.

Que os protestos comecem e se multipliquem. É pouco pra Alckmin e Haddad, que não aprenderam nada com o passado recente.


“O assédio contra as mulheres deve ser combatido na escola, não só na família”, diz pesquisadora

POR RODRIGO RODRIGUES
Recentemente, um grupo de mulheres que discutem e pensam a feminilidade iniciou um movimento que tomou a internet de assalto, propondo mapear os casos de assédio contra as mulheres nas ruas de São Paulo.
Reunidas no coletivo “Think Olga”, o projeto chamado “Chega de Fiu Fiu” teve milhares de colaborações voluntárias de mulheres vítimas de assédio ou tentativas de estupro em várias ruas e regiões da capital paulista.
O site se transformou num grande espaço de desabafo de quem não agüenta mais ser objeto de machismo gratuito por onde passa.
Na prática, é uma experiência coletiva semelhante e anterior ao vídeo que viralizou no mundo todo nesta semana, onde a atriz Shoshana Roberts passa dez horas andando por Nova York e registra uma centena de cantadas e insinuações, com a ajuda de uma câmera escondida.
O vídeo norte-americano já foi visto por 23 milhões de internautas no mundo.
Já o mapa paulistano registrou mais de mil denúncias de mulheres no Brasil inteiro e chamou a atenção da editora “Companhia das Letras”, que propôs ao grupo a edição de um livro pelo selo “Breve Companhia”, oferecendo espaço para que as jovens pudessem contar um pouco dessas histórias registradas no “Chega de Fiu Fiu”.
Escrito pela jornalista Juliana de Faria e pela socióloga Bárbara Castro, o e-book “Meu corpo não é seu” é um dos poucos trabalhos do mercado que mesclam o conhecimento acadêmico com a pesquisa jornalística, na tentativa de desmantelar a lógica torta por trás da diferença de gênero que assola 70% das mulheres do mundo ao menos uma vez na vida, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).
Como o livro mostra, essa lógica mundial se materializa no Brasil não apenas através do assédio nas ruas, mas também pela violência doméstica e pela diferença salarial, que leva muitas mulheres a ganharem 70% do salário de um homem em várias profissões, mesmo exercendo as mesmas funções na iniciativa privada.
Sobre a ausência do assunto nas campanhas eleitorais, o mapa do assédio no Brasil, as diferenças de gênero e o vídeo viral que espantou a internet, Terra Magazine conversou com a socióloga Bárbara Castro, que é professora e pesquisadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e ajudou a escrever o livro.
Confira a entrevista completa:
A experiência da atriz em Nova Iorque é semelhante aos casos registrados no “Chega de Fiu Fiu”. Por que esse assédio se repete tanto aqui e nos EUA?
A desigualdade de gênero, que produz hierarquias e deságua na discriminação, não é um fenômeno concentrado. É um fenômeno social que se registra em diversas sociedades mundo afora. Muitas vezes, as pessoas relacionam o assédio e os crimes sexuais à um certo atraso estrutural que envolve diversos elementos, mas destacam especialmente educação e renda. Não se trata disso. A divisão sexual do trabalho foi historicamente construída nas mais diferentes sociedades, por isso é que o sexismo e o assédio são disseminados, mundializados. Obviamente que em cada sociedade ele vai ter nuanças diferentes, dependendo do modo de vida e do progressismo do cidadão comum. Por isso que defendo, sempre, que este é um tema que tem que ser debatido nas escolas. Tem que haver um local de formação que não dependa apenas da família.
Que conclusões vocês já chegaram através do mapa “Chega de Fiu Fiu” em São Paulo?
Nós ainda estamos trabalhando nos dados. Mas a problematização já está bem clara: o assédio está presente em todas as regiões, independente da renda, da classe social e da escolaridade do grupo que reside majoritariamente nesses pontos. É algo que nos assusta muito. O assédio está presente em todos os bairros, seja na forma de assédio, estupro ou tentativa de estupro. Mas o que chamou atenção até agora é o esforço das meninas de contar o que já aconteceu com elas no passado. É um mapa que está servindo também como um espaço de desabafo dessas meninas, porque há casos com datas de anos anteriores, das quais elas se lembram e fazem questão de registrar, tamanha a cicatriz da ofensa ou violência que sofreram.
Há padrões de comportamento dos assediadores que já é possível detectar no mapa?
Não é tão simples assim. São relatos de assédio e tentativa de estupro que vão de um espaço público – como pontos de ônibus – até um ambiente privado de uso compartilhado, como o local de trabalho. É triste ver como a violência é disseminada e tem agentes e vítimas tão plurais, sem classe social, escolaridade ou região habitacional específicas. Pelos relatos, são meninas e mulheres que não tiveram força ou coragem de contar para alguém o ocorrido, mas que agora nesse espaço da internet – e mantendo o sigilo de identidade – de alguma maneira trazem isso a público.
Falta cobrança das autoridades para que esses assuntos entrem na pauta dos governos?
Faltam mais ações de governo, isso sim. Os casos de estupro, por exemplo, ainda são muito sub notificados. Por medo, vergonha, ou por uma acolhida ruim dessas vítimas da violência nas delegacias. Ainda assim, os números que são registrados evidenciam que esse tipo de violência é maior que o número de homicídios no Estado de São Paulo, segundo as estatísticas da própria Secretaria de Segurança Pública. Mas apesar desse número alarmente, a gente vê muito pouco sendo feito em termos de campanhas públicas para publicizar o problema, debater o assunto, conscientizar a população e estimular a denúncia.
Nos jornais se vê diariamente muita cobrança em relação ao combate ao roubo de bancos, latrocínio e homicídios. Mas muito pouco sobre a violência contra a mulher. O livro mostra esses números através de histórias e relatos. Mas também problematiza a questão mostrando como essa violência é consentida culturamente.
Muita gente tende a achar natural a cantada nas ruas, especialmente se a mulher estiver usando roupas curtas. Onde está o erro que nos levou a essa lógica tão bárbara?
Nossa sociedade tende a colocar na cabeça de meninos e meninas que o homem tem obrigação de construir a sexualidade de forma mais ativa, enquanto a mulher mais passivamente. Nessa lógica, o homem tem que afirmar a virilidade o tempo todo. Isso se dá através de cantadas na rua, nos bares ou supermercados, até de agarrões nas meninas em festas ou baladas, mesmo contra a vontade delas. Se o homem não tem esse comportamento, eles são alvo de piadas dos amigos, por não “chegarem” na menina ou não agirem de acordo como o que o grupo acha que tem que ser. É uma lógica que causa muito sofrimento também para certos meninos ou jovens. E no livro a gente faz essa desconstrução, mostrando como essa prática de afirmação da virilidade por imposição do desejo é uma violência.
Na obra vocês também falam sobre a “privatização” da violência contra a mulher. O que isso quer dizer?
Apesar da violência contra a mulher ter evoluído na esfera pública, com a criação das delegacias da mulher, dos juizados especiais e da Lei Maria da Penha, o problema é que o tema ainda é tratado como um problema privado e de âmbito doméstico, não social e que também pode ocorrer na esfera pública. Muitas das discussões sobre a violência contra a mulher se referem ao âmbito da casa e da família e são tratados, pelo senso comum, como casos anônimos, que são atribuídos às famílias desestruturadas. Ou ainda aos homens com traumas, que apanhavam da mãe e do pai quando jovens, por exemplo. E a culpa sempre volta para a pessoa que fez a denúncia. É esse conjunto de elementos que nos leva a dizer que a violência contra a mulher é privatizada. A gente tenta mostrar que a violência contra a mulher é um problema público, que não obedece a essa lógica do senso comum. Quando o mapa mostra a presença em cada esquina dos assediadores e estupradores, é o sinal claro de que o problema não é apenas privado, mas público.
A pesquisadora Bárbara Castro escreveu o livro “Meu corpo não é seu” ao lado da jornalista Juliana de Faria, criadora do “Think Olga” (Foto: Divulgação)
Mesmo com os esforços recentes em falar da agressão contra mulheres em novelas, séries e filmes, como a Polícia ainda encara esses casos no Brasil ou em São Paulo?
Após as manifestações do ano passado, a sociedade debateu muito a violência policial contra manifestantes. Mas a situação, infelizmente, vai além. O relato de uma das meninas no mapa é sobre uma ida dela à delegacia para denuciar um crime, que era assalto ou algo parecido. Ao chegar, o policial começou a fazer diversas perguntas sobre a vida pessoal dela. Fez convites indiscretos e insinuações…
É uma situação muito maluca porque, como é que uma pessoa, sozinha, vai reagir ao assédio policial dentro de uma delegacia? Como reagir a esse poder sem temer ser presa e ter a fala distorcida por uma autoridade? Comigo mesmo já aconteceu um episódio parecido no Parque Triannon, em plena a Avenida Paulista. Perguntei um endereço para o policial e a resposta dele foi “o que uma menina tão bonita está fazendo perdida? Não quer que te acompanhe?”. Não consegui reagir por medo de ser presa por desacato.
Com o mapa, a gente descobriu que há muitos relatos parecidos, vindos daqueles que deveriam zelar para que a violência não aconteça. É preciso urgentemente inserir esse tema nas escolas, mas também treinar os agentes públicos, porque esse tipo de situação humilhante é inaceitável.
É de fato algo muito bizarro. Mas como colocar isso na agenda política dos estados e municípios?
Nunca vi esse assunto ser pauta de eleição com grande destaque, lamentavelmente. A única coisa que coloca o gênero em destaque é a questão do aborto, que é sempre discutido pela ótica religiosa e conservadora, nunca analisando a situação do ponto de vista da saúde pública brasileira ou da liberdade de escolha das mulheres. Salvo raras exceções, são assuntos que os candidatos e os gurus de campanha tratam como “pautas menores”. Não me recordo de nenhum candidato que tenha sido eleito recentemente defendendo a bandeira da igualdade de gênero, sexualidade ou da violência contra a mulher com protagonismo. As campanhas pautam os projetos em pesquisas de opinião pública, que sempre focam os grandes problemas da Educação, da Saúde ou do Trânsito. Eles só querem falar no que o eleitor pensa e se preocupa de imediato. Assuntos que despertam paixões e identificação rápida.
Passada a eleição, os candidatos realmente não colocaram esses assuntos em debate. Esse silêncio assusta?
Sou um pouco cética, infelizmente. Se a eleição tivesse acontecido na curva da história dos “encoxadores do metrô”, talvez os candidatos ao Governo de São Paulo se preocupassem com o assunto. Mas os assuntos entram ou saem dos planos de governo dos candidatos conforme também saem ou não nos jornais. A pauta do assédio saiu dos jornais. E infelizmente é um assunto que não é considerado fundamental para os candidatos e partidos. Não se discute problema de gênero na eleição no Brasil porque não rende voto rápido e instantâneo, especialmente das camadas mais conservadoras.
Apesar do Brasil ter a primeira mulher presidente reeleita da história da República, conseguimos avançar na questão da desigualdade e violência contra as mulheres no primeiro governo Dilma?
Acredito que sim. Mas também ainda há muito o que realizar. O grande mérito da Dilma foi colocar a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres conversando com os outros ministérios na criação de políticas de governo. A SPM conversa com a política social, a política agrária, o Bolsa Família, os programas de habitação, entre outras áreas. Foi no primeiro governo Dilma que as mulheres casadas passaram a ter titularidade do lote da reforma agrária, no modelo do Bolsa Família e dos programas habitacionais. Quando a posse era só do marido, isso gerava sérios problemas para as mulheres e seus filhos.

A campanha “Chega de Fiu Fiu” é um dos carros chefes do coletivo feminino “Think Olga” em São Paulo (Foto: Reprodução)

Num País onde temos quase 40 mil mulheres vítimas de violência doméstica todos os anos, para alguns ouvidos esses parecem avanços bem tímidos, não?

Podemos dizer que seja, quando pensamos que há muito mais trabalho a se fazer ainda. Especialmente no que toca ao combate estrutural das desigualdades entre homens e mulheres. Mas acredito que a grande chave para entender o avanço das políticas para as mulheres no governo Dilma é pensar na transversalidade e na autonomia econômica das mulheres. Acho que essa foi a linha mestra dessa gestão. As falas que acompanho nesses anos todos da ministra Eleonora Minecucci vão nesse sentido, de não desamparar as mulheres economicamente. E isso tem relação com a questão da violência. A ministra sempre fala na questão de tentar inserir economicamente essas mulheres, para que elas fiquem menos vulneráveis diante dos maridos do ponto de vista financeiro e consigam se libertar mais facilmente dos agressores. E precisamos pensar nisso em um contexto em que, sem creches públicas para todos, quando um casal tem filhos pequenos é preciso que alguém tome conta. Não só a mulher acaba desempenhando esse papel por ele ser socialmente determinado, mas também porque, e isso é comprovado estatisticamente, as mulheres ganham menos do que os homens.

Qual o maior desafio da presidente Dilma nessa área no próximo mandato?

Se teci um elogio pelo governo Dilma ter dado ênfase à autonomia econômica das mulheres, a crítica que fica é a de superar a emancipação no nível individual e buscar um caminho de construção mais coletiva da superação das desigualdades. Precisamos empurrar esse horizonte político para mais longe. Se as mulheres têm conquistado autonomia econômica, ainda ocupam os postos de trabalho mais precarizados, como diversos estudos acadêmicos têm mostrado. Precisamos pensar na qualidade dos empregos que têm sido gerados para as mulheres. Além disso, no que tange à violência, é preciso desenvolver políticas que ultrapassem a lógica punitiva. Já se passam 10 anos da Lei Maria da Penha. É preciso ir além da solução criminal, senão a saída continua individualizada.

Temos que cobrar um trabalho mais efetivo de conscientização não só dos agressores, mas de toda a sociedade. Sem um trabalho de base que vise superar o preconceito e a discriminação, vamos continuar apagando incêndios. E não que as políticas imediatas não sejam necessárias. São. Mas precisamos pensar em maneiras de transformá-las em justiça perene, o que quer dizer uma sociedade que trate homens e mulheres de maneira igual, em todas as esferas da vida.

Aprovada no governo Lula, esperava-se que a Lei Maia da Penha diminuísse mais drasticamente os casos de violência contra as mulheres. Dez anos depois, ainda temos uma situação alarmante. Onde erramos com essa lei?

A lei de fato é um grande avanço do governo Lula, mas precisa de ajustes e avanços. Ela tem já dez anos e, como tal, precisa de correções. Uma das questões diz respeito à Justiça. Muitos casos de violência demoram um enorme tempo para serem julgadas, o que deslegitima, em certa dose, todo o processo de denúncia. Outra correção fundamental é a construção de uma rede efetiva de proteção da mulher vítima de violência, desde a chegada na delegacia até o pós-denúncia. Porque ainda há muito despreparo e insensibilidade entre os funcionários que recebem a denúncia, deixando as mulheres desconfortáveis e desconfiadas da efetividade do processo. Além disso, quando a violentada faz a denúncia, o agressor pode não ser preso imediatamente e essa mulher volta para casa, ou vai para a casa de conhecidos e familiares. E aí a mulher fica vulnerável, fica sujeita a novas violências desse parceiro. Às vezes até mais graves. Deveria haver mais efetividade na acolhida dessas mulheres, especialmente nos casos de agressão mais graves.

Os abrigos para mulheres vítimas de violência são poucos no Brasil ou não estão sendo usados de forma eficiente?

A rede de proteção ainda é muito pequena no País. Existem casos graves de mulheres levadas para abrigos e que têm a vida salva. Mas infelizmente eles ainda são pouquíssimos. Há muitas cidades de médio porte que nem têm espaços para receber mulheres com filhos. Outro ponto é que, nesse processo, a mulher que foge do agressor tem que sumir do mapa para não ser morta. Mas as escolas não estão preparadas para fazer a transferência dos filhos de forma rápida. Há ainda muita dificuldade das mulheres conseguirem aquela licença do trabalho de seis meses, prevista na lei em casos de violência. Tudo isso implica na exposição da mulher, porque o agressor espera por ela na porta da escola dos filhos, no trabalho. E aos olhos das estatísticas, parece que o processo não funciona. Mas não é bem por aí…
Falta engajamento das empresas na ajuda às mulheres vítimas de agressão, então?
A questão do trabalho é ainda mais difícil. Porque é um duplo desafio para a vítima de agressão doméstica admitir para ela mesma que está sendo agredida ou torturada pelo companheiro, imagina para o chefe e os colegas de trabalho?! É uma coisa muito complicada chegar para o chefe e pedir a licença porque está sendo agredida ou ameaçada de morte pelo marido. Isso tudo vincula a mulher ao trabalho e a deixa mais vulnerável ao agressor. É preciso mecanismos que agilizem esses processos, porque as mulheres podem ser agredidas na entrada ou saída do trabalho. Ajustes na lei e engajamento das empresas talvez possam corrigir isso.
Meses atrás, uma pesquisa do IPEA mostrou que 58% dos brasileiros concordam com a afirmação de que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Como mudar isso?
É uma questão cultural enraizada, que passa pela Educação para o gênero. A Lei Maria da Penha prevê o aprendizado das questões de gênero nas escolas, mas ainda percebemos uma ausência total desse tema nos currículos escolares. O Brasil precisa formar na escola as gerações que entenderão melhor que homens e mulheres têm o mesmo papel na sociedade. Que é preciso compartilhar as tarefas de casa, que agressão contra mulher é crime, etc. Trabalhar isso desde cedo é necessário para modificar o senso comum, que naturaliza a desigualdade entre homens e mulheres a partir de uma diferença biológica. E essa desigualmente culmina em discriminação e também está na origem da violência.
Como assim, “origem da violência”?
O ato de violência, óbvio, é individual. Mas como sociedade, temos a obrigação de mudar essa mentalidade, até para que as pessoas denunciem e tenham coragem de se envolverem mais nessa discussão. O caldo de cultura é o trampolim da violência de fato. Ela se dá, primeiro, no imaginário social. Na ideia de hierarquizar os sexos, de atribuir maior poder aos homens. A violência não é só o física, mas também e, cotidianamente emocional, como o assédio no trabalho e no transporte público, por exemplo. Sem falar na discriminação do mercado de trabalho, que ainda acha que uma mulher não pode fazer certas tarefas que um homem faz, porque exigem força física ou raciocínio lógico.
Isso é uma construção social. Não há, efetivamente, diferença de capacidade intelectual ou física entre homens e mulheres. O que há é uma educação que ensina as mulheres a cuidar da casa e da família, quando lhes damos bonecas, vassouras e  fogões de brinquedo. E que ensina os homens a gostarem de tecnologia, velocidade e desafios matemáticos, quando lhes damos carrinhos, Lego ou jogos de aventura. E esses gostos se refletem mais à frente, não apenas na naturalização de papeis sexuados, mas também na escolha das carreiras.
Por isso é que a desconstrução dessas ideias de que menino gosta disso e menina gosta daquilo deve começar não apenas em casa, mas também na pré-escola, nos primeiros anos de ensino. A lei prevê a promoção dessas questões de gênero nas escolas, mas não vemos acontecer na prática de maneira massiva, infelizmente. É algo que precisamos cobrar mais dos governos todos, nos municípios, nos estados e na esfera federal.
Muito se fala sobre a criação de um benefício econômico para a mulher vítima de agressão. Você concorda?
Sim, especialmente para as mulheres que não trabalham. No caso das mulheres que trabalham, a lei prevê o afastamento de seis meses com manutenção do vínculo. Mas ainda há uma jurisprudência em formação sobre se o pagamento do salário, no tempo de afastamento, acontecerá através do empregador ou do INSS.
O grande problema está nas empresas se abrirem mais para isso e encararem com mais naturalidade o assunto, para que a mulher vítima de agressão se sinta mais confiante para falar sobre o tema com o chefe. Também para que o emprego dela esteja realmente lá na volta desse processo todo, que é muito doloroso para a mulher e para a família, principalmente do ponto de vista psicológico.
A diferença de salário entre homens e mulheres é uma discussão ainda relevante dentro dos movimentos de gênero?
Muito! A média nacional diz que mulheres recebem 73,5% do salário dos homens, exercendo as mesmas atividades. O que é mais gritante é que, quando você pega a distribuição por escolaridade, quanto maior o nível de formação acadêmica, maior é a diferença salarial entre homens e mulheres aumenta. É algo chocante, porque as mulheres com nível máximo de escolaridade (12 anos ou mais) chegam a ganhar 60% do salário de um homem no Brasil. Ou seja, não é um problema de diferença de formação. É discriminação mesmo. É preciso assegurar que essas coisas não aconteçam, porque a própria Constituição Federal cita a proibição da discriminação por raça, cor ou gênero.
Por que a diferença salarial entre homens e mulheres tem relação direta com casos de violência?
Essa diferença é sinalizadora de desigualdade de poderes. Além disso, um dos motivos de violência familiar é justamente quando a mulher começa a trabalhar e ganhar algum dinheiro, e o parceiro começa a ficar irritado. Ele fica se sentindo ameaçado pela independência da esposa, ou quando ela passa a ganhar mais do que ele. É uma situação que coloca em xeque a situação dele como provedor do lar, que é o papel social ultrapassado que é atribuído ao homem. E esse é um sinalizador de violência de gênero mais comum do que a gente imagina, mas que só muda com educação escolar e consciência coletiva através de campanhas públicas.
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O livro “Meu corpo não é seu” está disponível em e-book através do site da Cia das Letras.
O mapa “Chega de Fiu Fiu” também continua recebendo colaborações e relatos de mulheres através do endereço: http://chegadefiufiu.com.br/
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Ria palhaço, ria!

O ator Robin Williams, morto nos Estados Unidos na último 11 de agosto de 2014

O ator Robin Williams, morto nos Estados Unidos na último 11 de agosto de 2014

“Palhaço também chora?”

Essa frase marcou para sempre a minha vida. Faz parte da ópera “Palhaço”, do italiano Ruggero Leoncavallo, escrita em 1892.

Lá pelos anos 90, eu era um menino de 12 para 13 anos, tímido e cheio de problemas familiares. Sem amigos, mas com uma porrada de preocupações, apesar da pouca idade.

Numa bela tarde de Primavera, fui convidado pelo meu querido professor de Matemática Adhemar Reis Maia para ingressar no grupo de teatro da escola.

O grupo TEPAM (Teatro Estudantil Adhemar Maia) ensaiava justamente a peça do italiano. Era a primeira vez que tinha contato com atores e, por ser o aluno mais novo daquele grupo, me era designado um papel sem fala, no que no teatro costuma-se chamar de coro.

No sábado do primeiro ensaio, fiquei sentado como espectador assistindo aos futuros colegas atores declamando as falas daquele enredo em que o palhaço, dono do circo que acabara de aportar na cidade, descobriria que sua esposa, Nedda, o traíra com um sujeito burguês da cidade chamado Silvio.

Antes do desfecho final trágico, o velho palhaço apaixonado de nome Canio é questionado pelas viúvas do coro com a fatídica pergunta: “Palhaço também chora?”

Naquela época fora uma frase que mudara a minha vida. Foi um tempo que, por conta do velho palhaço, resolvi não mais chorar e me lamentar dos problemas, mas sempre fazer os outros rirem e também rir da minha própria condição.

O desenrolar da história de Canio e Nedda é cantada magistralmente pelo saudoso Luciano Pavarotti, que interpretou como poucos no mundo a dor do palhaço traído.


Dizia o monólogo:

“Se o Arlequim roubar tua Colombina / Ria, Palhaço, e todos aplaudirão!
Ria, palhaço, Sobre este amor despedaçado / Ria da dor que te envenena o coração”.

A morte do ator Robin Williams, para mim, remete também ao velho Canio.

Por onde passava, Williams era o centro das atenções com sua irreverência e piadas bem calibradas, as vezes pouco certeiras.

Era o típico palhaço, que não parava quieto e a única intenção era divertir.

Basta ver nas várias entrevistas dele no programa de David Letterman, nos Estados Unidos. As intervenções do apresentador sempre eram mínimas, cabendo ao ator a ribalta e o centro do picadeiro.

Mas por mais que nos fizesse rir, por dentro Robbin Willians chorava. Era consumido pela depressão e solidão. Freqüentava os Alcoólicos Anônimos (AA) e fora até viciado em cocaína.

Terminara a vida, ao que tudo indica, se suicidando e não agüentando o peso da própria existência.

Antes disso, entretanto, era um daqueles sujeitos que sempre estavam dispostos a fazerem rir os amigos a qualquer custo. Como no caso em que invadiu o hospital onde o ator Christopher Reeve estava internado, após saber que ficara paraplégico depois de sofrer um acidente de cavalo.

Disfarçado de médico, Willians fez um sotaque russo e falou meia dúzia de palavras inteligíveis ao amigo doente antes de revelar a verdadeira identidade.

Conseguiu arrancar o primeiro sorriso do ator, após meses de agonia pela tragédia.

Robbin Willians foi decididamente alguém que se dedicou a servir ao riso, não se servir dele. Confortar os amigos e tira-lhe do rosto a feição dura fora certamente a missão mais complicada e divertida.

Assim como Willians, também o ator e comediante Fausto Fanti, do grupo Hermes e Renato, o fazer sorrir não foi o suficiente para ele mesmo se libertar dos próprios palhaços. Fanti também tirou a própria vida deixando, contudo, uma legião de amigos que fez rir e ajudou a esquecer os problemas através da gargalhada.

Dois exemplos incríveis de pessoas que optaram por ajudar ao próximo, ao invés de se salvarem. São heróis que optaram por salvar o mundo inteiro, mas esqueceram de si mesmo.

Aprendi em casa, com meu tio padre Antonio Hélio, que todos os dias alguém acorda mais triste que a gente, precisando de ajuda e uma palavra amiga.

Em nome dessa gente, procuro sempre manter o sorriso no rosto. As vezes mais como um personagem, que se importa mais em fazer aquilo que a religião chama de “dar a vida pelo irmão”.

E tudo começou com aquele lindo “Ridi, Pagliaccio, ridi”.

E espero, sinceramente, que Deus reserve um lado especial ao lado dele para todos nós, os palhaços da vida real.

Obrigado, queridos heróis. Acho que a gente pode continuar daqui, porque, como diz o ditado: “O humor salva a paciência, que salva o amor, que salva o mundo inteiro”.

E o circo da vida continua. O show não pode parar!!

A gente cresceu

Olhando atrás, parece que algum caminho já foi percorrido. E juntos, a gente nem percebeu...

Olhando atrás, parece que algum caminho já foi percorrido. E juntos, a gente nem percebeu...

Chegar aos trinta não é sinal de que o tempo corre pra nós.

Aliás, arrisco-me a dizer que nem se trata de um sinal.

Todo mundo já ouviu alguém comentar que chegou ao 50, 60, sem nem sentir o tempo passar.

E muitos tem razão. Aos 31, minha cabeça parece ser a mesma dos 18 anos, salvo a amplitude dos pensamentos e a forma de raciocinar mais coletivamente.

Mas desde que cheguei aos trinta, um sinal claro de que a vida mudou e que envelhecemos lentamente são a qualidade dos nossos tipos de problemas – que certas vezes nem nos damos conta.

No passado, nossos papos giravam sempre em torno de assuntos engraçados, permeados hora ou outra por temas da sociedade e nossas incertezas sobre o futuro.

Hoje falamos mais (e com mais amargor) dos temas da sociedade, permeados por assuntos engraçados e escondendo as incertezas do futuro.

O fracasso pela vaga de estágio que não conseguimos deu lugar à frustração da profissão, o desgosto pelo chefe, a sensação que escolheu a profissão errada ou a vontade de mudar.

A expectativa de sair com aquele moça que estávamos de olho, em alguns casos virou a vontade ou iminência de separar, a narrativa das noites que o filho não nos deixa dormir ou a o jejum sexual que a rotina impôs ao casal.

Ora, vejamos nós, se não é o “menino pai do homem” – narrado por Machado de Assis, se materializando entre nós?! A profecia “como nossos pais” – cantada por Elis Regina, dando thauzinho na janela, implorando para entrar…

A gente cresceu. E isso não é ruim. Sabe por que? Os anos se passaram e continuamos juntos. Ou você nunca pensou que pé daria essa amizade de boteco e até onde ela nos levaria?

Pois é, amigos. Olhando atrás, já dá pra dizer que algum caminho já percorremos. E cá estamos nós. Caminhando pra frente sempre.

E sabe o que é melhor? A gente nem percebeu. Sinal que a caminhada conjunta para o fim não é tão dura como diziam. Afinal, estamos todos juntos!

É nóix!

A Copa das nossas vidas

Patrick é um garoto comum, como muitos brasileiros de 11 anos

Patrick é um garoto comum, como muitos brasileiros de 11 anos

Na década de 90, Patrick aparentava ser uma criança como outra qualquer. Gostava de empinar pipa, brincar na rua e, claro, jogar futebol – uma das maiores paixões dele.

Nascera, óbvio, no Brasil. São Paulo, Zona Norte – para ser mais específico.

Filho de mãe solteira, imigrante nordestina e empregada doméstica sonhadora, aquele menino era como tantos outros daquela rua, daquele bairro, daquela cidade e País.

Ruim de bola, alguns estranhavam a paixão enorme do garoto pelo esporte das massas. Justo ele, que só se diferenciava dos demais por gostar de ler, pedir “a bença” aos avós, tios e padrinhos sempre que os avistava perambulando nas ruas do bairro. Justo ele que ninguém queria no time e acabara ficando sempre no gol nas peladas da vizinhança.

Era 1994. Ano da Copa nos Estados Unidos.

Foi ali que a paixão do menino pelo futebol nascera.

Pros mais apressados, é de se supor que o clima nacionalista influenciara a cabeça do menino e fizera crescer essa enorme veneração pela redonda.

Ledo engano.

Patrick era um menino tão comum que, de tão comum, escondia segredos, como outros comuns.

A mãe acabara de casar novamente com um sujeito baiano, vendedor de calçados. Antes da união, a mulher havia tido outro filho, fruto de uma aventura com Jonas, um desconhecido caminhoneiro das bandas de Cachoeirinha.

E como em todas as histórias comuns, o caminhoneiro fora embora, largando a mãe de Patrick com mais um rebento cujo pai era identificado no documento como um tal de “desconhecido”.

Com onze anos, Patrick era o irmão mais velho e quase pai daquele menininho simpático que nascera, chorão, mas extremamente agarrado ao irmão.

Quando casou, a mãe de Patrick levara os dois pequenos para morar junto com ela e o novo marido. Finalmente formariam uma família, apostava ela.

Em 94, na Copa, mais uma irmã tinha acabado de nascer. Tinha menos de seis meses e os dois já não eram mais um, eram três.

Traumatizada com as derrotadas de 90 e da mágica seleção de 86, os brasileiros chegaram nos Estados Unidos desacreditados.

Mesmo assim, o País parava para ver aqueles onze guerreiros entrando de mãos dadas em campo, vestindo a camisa amarela – até então com três escudos, que simbolizavam as três Copas vencidas anteriormente.

Na casa de Patrick não era diferente. Dia de jogo o silêncio imperava e só era quebrado nos lances perigosos de gol e nas explosões da bola no fundo da rede.

A cada jogo, Patrick tomara mais amor por aquele time.

No início da Copa, jamais tinha ouvido falar em Bebeto, Romário, Tafarel ou Zagalo. O único que conhecia era um tal de Cafu e o fiel escudeiro Leonardo, que vestiam antes daquela competição a camisa tricolor paulista.

Mas a cada gol, a cada vitória, sentia um amor incondicional por cada um daqueles moços bronzeados e negros, que lembravam bastante dos tios dele, que moravam na Bahia.

Mas aquela euforia escondia uma dor, que a cada apito final de partida retornava.

Durante aqueles 30 dias de competição, houve tempos até que Patrick rezava baixinho para que os jogos não acabassem. Mesmo após a tão esperada taça, desejou que o campeonato recomeçasse do zero após o grito de “É campeão”.

Tudo por causa daquele segredo comum, se lembram?

Ao chegar na escola em algumas manhãs, como tantos garotos da escola EMPG Marcílio Dias, Patrick exibia algumas marcas no corpo, que algumas vezes a professora notava.

Quando perguntava ao garoto o motivo das marcas, Patrick sempre respondia à professora que eram marcas das brincadeiras com o irmão mais novo, que sempre queria ser o Romário ou o Chaves das brincadeiras, deixando a tarefa de ser o Quico, o Godines ou o Tafarel para o irmão mais velho.

Era o segredo de Patrick.

As marcas na verdade eram das surras que levava todas as noites do padrasto, mas não tinha coragem de confessar porque, como tantos outros amigos que passavam pelo mesmo, quem haveria de ligar para aquela história comum?

Patrick gostava tanto daquela seleção porque os dias de jogos do Brasil eram os únicos dias em que o padrasto estava de bom humor. Eram dias que, por mais que aprontasse, escaparia das agressões e tapas na cara, comuns a ele e o irmão.

Os jogos para ele eram motivos de esperança. Até hoje ele se lembra da emoção que era ver todas aquelas pessoas reunidas em Copacabana, no Anhangabaú, no Pelourinho. Todos para ver os jogos do Brasil.

A imaginação do menino viajava e ele sempre pensava: “Por que não estou lá, mas aqui?! Porque não sou tão comum como eles?!”

Até a final com a Itália, o único sonho de Patrick era um dia estar na Copa.

Mas ele não queria ser jogador, porque sabia que pouca ou nenhuma vocação tinha pra isso.

Queria ser apenas um espectador.

Porque pra ele, aqueles sorrisos nas arquibancadas e nos telões pelo Brasil eram sinônimo de felicidade. De ausência de dor…

Passados mais de vinte anos daquele domingo ensolarado, dia de final contra a Itália, o garoto ainda guarda a lembrança do primeiro grito de campeão.

Até hoje tem certeza que o pênalti errado por Baggio foi um presente de Deus para ele.

Naquele dia Patrick decidiu: “Quero ir para a Copa”.

A Copa virara para ele sinônimo de felicidade.

Libertação.

Da dor, da opressão, dos tapas, socos e pontapés…

Ir à Copa significava ser feliz, como aquelas pessoas todas que sorriam e gritavam gol nos links da TV Globo.

Aos treze anos fugiu de casa a primeira vez. O único de casa que sabia era o irmão, agora com seis ou sete anos.

Dissera apenas ao pequeno: “Vou ver a Copa e volto pra te pegar um dia”.

Hoje, com mais de trinta e tantos anos, Patrick ainda não conseguiu ver a tão sonhada Copa.

Mas ao ver se aproximar a Copa no Brasil, não tem como esquecer de como aquela disputa de 94 salvou a vida dele.

Jornalista, formado, talvez nem consiga “ver a Copa” do jeito que sonhou que veria aos onze anos.

Quando a bola rolar no Itaquerão em junho, contudo, onde quer que ele e os outros meninos franzinos comuns da Zona Norte de outrora estejam, poderão finalmente sorrir e dizer: “eu sobrevivi”.

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