Uma foto que diz muito sobre 2010

Presidente Lula cumprimenta populares durante visita aos canteiros de obras na tomada d'água do Eixo Leste (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Presidente Lula cumprimenta populares durante visita aos canteiros de obras na tomada d'água do Eixo Leste (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

As diaristas

domesticas04

Uso esse espaço hoje para um desabafo. Muitos me condenarão, mas tenho que confessar do fundo do meu peito: odeio faxineiras!

A palavra ódio talvez não seja a mais adequada. O que tenho na verdade é trauma ou algo muito próximo disso. Com suas falas mansas, seus sotaques geralmente nordestino e suas toucas na cabeça, essas mulheres são para mim o esteriótipo do juízo final.

Desconfio que, quando chegar o meu fim, a morte me virá na forma de uma mulher de meia idade, grisalha e com touca na cabeça. Dizendo morar na periferia, ela me estenderá a mão e, soltando uma dessas gargalhadas de madrastas dos filmes das Disney, sorrirá dizendo:

- Se fodeu, meu filho! Se fodeu, meu filho!

A visão é apocalíptica. Mas nem a bíblia dá conta do meu medo dessas senhoras. Elas são más e guardam um rancor no peito típico da babá Maria de Fátima, vilã da novena “Vale Tudo”. Quem já fez entrevistas para contratação de uma diarista sabe do que estou falando. Pelo telefone são todas uns amores. Chegam na sua casa pela primeira vez no horário, chamam você de senhor, até se voluntariam em coar o café preto de manhã.

Bastam duas semanas para que mostrem as garras e transformem sua vida num inferno!

Trocam os livros de lugar, mudam as ordens dos cd’s e dv`s e quebram todos os copos da casa. Dão pitacos na sua vida, dizem que seu quarto está uma bagunça e ainda ficam amigas do porteiro que você mais detesta.

Nos últimos doze meses troquei sete vezes de faxineira. Não sei por qual motivo, mas elas me escolheram para destilar todo o ódio que acumulam em anos de destrato de outros patrões. Justo eu, que ouço seus dramas, divido a mesma mesa e até distribuo parte dos meus pertences com seus milhares de netos ou filhos.

Dia desses, quando ainda estava desempregado, saí para uma entrevista e voltei com uma monstruosa fome. Era quarta-feira, dia de limpeza. A vilã da vez morava em Perus e, como na minha casa não tinha nada pra comer, passei no primeiro boteco para adquirir o rango. Solidário, comprei duas marmitex. O cardápio do dia era peixe ou feijoada. Liguei em casa para perguntar à senhora da vez qual era sua preferência, mas ninguém atendia. Tentei uma, duas, três vezes. O telefone tocava exaustivamente e nada de atender.

Decidi por comprar um peixe pra mim, que é o meu cardápio preferido, e uma feijoada na inocência para ela. Achei que era mais fácil agradar com uma feijuca que desagradar com peixe.

Ledo engano.

Quando a porta do apartamento abriu, o som do último volume denunciava que aquela não seria uma boa tarde. A moça ouvia a banda Magníficos e, com um lenço amarrado na cabeça, limpava os vidros da sala com ajuda da escada. Com a minha entrada, tomou um susto e quase caiu do décimo andar.

- Ruth, trouxe comida pra nós. Vamos comer?

- Vou já, já, “seu Rudrigu”.

Comecei a comer antes porque a fome já ladrava feito um cachorro vira-latas. Ao entrar na cozinha, a faxineira deu a deixa para o desfecho trágico do episódio:

- Nossaaa… Que cheiro bom é esse?!

Realmente, era um peixe ensopado muito gostoso, vendido na esquina da Teodoro Sampaio com a Capote Valente. Mas como só tinha um, tentei justificar ainda com a boca cheia:

- Olha, não sabia se você gostava de peixe ou não. Acabei trazendo feijoada para você, tudo bem?

- Tudo bem nada – disse a mulher. Vocês patrões são todos iguais, pensam que ainda estamos na época da escravidão e tratam a gente como vassalos. Só porque eu moro em Perus, tomo duas conduções para chegar até aqui nessa mansão, você acha que é melhor do que eu? Isso é preconceito, é…

A comida quase não descia direito. Entalou na entrada na laringe enquanto a mulher desatava o rosário de críticas. Nunca pensei que uma feijoada fosse causar tanta discórdia. Ouvi tudo sem acreditar na cena que se desdobrava naquela cozinha. Cheguei a olhar para os lados, na esperança que fosse mais uma armação do pessoal de casa.

Pensei por um segundo que até fosse uma pegadinha do Silvio Santos. Na minha fantasia, a faxineira tiraria o disfarce logo em seguida, apresentando-se como Carlinhos Aguiar ou Gibe…

Lamentavelmente em vão.

Antes que eu esboçasse qualquer reação, a mulher virou as costas praguejando contra Deus e a humanidade. Dizia que preferia ficar com fome a comer aquela comida amaldiçoada.

Cristão e de origem pobre, larguei o suculento filé com a mesma culpa dos soldados que imolaram Jesus Cristo na cruz. Tinha cometido o crime que mais detestava: o de preconceito. Tudo por causa de uma feijoada, que há séculos não tem nada de inocente. Mas que estava longe de ser pivô de um crime tão repugnante.

Envergonhado, liguei para a minha colega de apartamento contando a história. Desesperada e temerosa pelo meu temperamento explosivo, ela aconselhou-me a sair de casa e evitar novas confusões. Ela temia que o episódio da faxineira virasse o caso da manicure, protagonizado anos atrás por um grande técnico de futebol…

Na semana seguinte, com tudo contornado, o telefone toca:

  • Pronto.

  • Seu Rudrigu, sou eu.

  • Eu quem?

  • A Ruth. Lembra de mim?

  • Como ei de esquecer, Ruth?! – comentei baixinho.

  • Posso ir amanhã? – disse ela sem pestanejar e sem nem gagejar de vergonha.

Quanto ouvi a pergunta achei que a mulher era louca, que tinha dupla personalidade ou era esquizofrênica. Pra não pagar pra ver outra confusão, inventei uma desculpa esfarrapada e disse que a viajaríamos por dois meses para a Europa. A casa ficaria vazia e sem necessidade de faxina por um longo período.

Era a senha mais fácil para se livrar de uma faxineira. A maluca nunca mais ligou e o processo, que eu tanto temia, ainda não foi lavrado em juízo.

Do episódio restou apenas a casa suja. Sem faxineira, a poeira se acumulava e era hora de achar outra diarista. Fiz contatos com várias tias e amigas, todas elas com boas histórias para contar sobre as faxineiras. Histórias boas e ruins, como a da faxineira que deu a luz prematuramente na área de serviço, ou a outra que roubou mais de três mil da patroa.

No final das contas, achamos outra faxineira recomendada por amigos que também moravam em república. No começo foi a mesma papo de “Seu Rudrigu”pra lá e pra cá, mas acabou sendo dispensada por chegar atrasada e deixar a gente esperando em casa.

Não fazia a limpeza adequadamente e toda semana pedíamos exaustivamente para ela lavasse o latão de lixo que ficava na área de serviço.

Era a mesma coisa que pedir para não lavar.

Quando questionávamos a serviço mal executado, ela vinha com a mesma desculpa:

  • Ah, é? Era pra limpar?

  • Quantas vezes eu já pedi isso?

  • Pediu…? – sorria ela, sem graça e baixando a cabeça.

Era uma relação fadada a fracasso. Aliás, o que mais admirava nela era a desfaçatez e o contorcionismo teatral para se livrar do embaraço. Colocava as atrizes globais no chinelo.

Para minha sorte (ou azar), descobri que isso é uma característica da classe. A última que passou por aqui foi dispensada porque tinha as mãos mais pesada que as do Popeye. Era a única que frequentava meu quarto na minha ausência. Um a um, ela pôs fim a todos os bibelôs que eu trouxera da última viagem à Bahia.

Eram artesanatos vagabundos, mas de valor sentimental inestimável.

O pior de tudo é que eu só descobria o crime semanas depois do flagrante. O atentado era crime era tão bem maquiado para não deixar registro dos fatos. Num sábado qualquer, fui mostrar um dos pretos-velhos baianos para a minha mãe e, ao tirar o boneco de barro do lugar, a cabeça pulou na frente e rolou para debaixo da cama.

Era o quinto elemento quebrado em três meses de emprego. Se a média fosse mantida, em um ano já não restaria apartamento para contar a história. E o pior de tudo: quebrava sem nem ao menos avisar. Ao ser questionada, a resposta era padrão: “Não, seu Rudrigu. Não fui eu não! Magina que eu faria isso com as coisas do sr…” – sempre com voz embargada e olhar amedrontado, para ajudar na composição do personagem.

Minha vontade era jogá-la pela janela toda vez que respondia tão descaradamente. “Atriz maldita!”, pensei várias vezes. Pena que o arremesso de faxineira pela janela não é esporte olímpico. Do contrário, seria minha única vocação esportiva…

No balanço dos fatos, era mais uma daquelas relações humanas fadadas ao fracasso da convivência. Contei mais uma vez da minha viagem para a Irlanda e dispensei pessoalmente os serviços dela por algumas semanas. A sorte é que ela entendeu o recado.

As paredes devem ter se sentido aliviadas.

******

Diante de tantos fatos verídicos, não preciso justificar o meu trauma por essas doces senhoras mais uma vez, né? Nos momentos de reflexão, tento entender por que essas coisas aconteceram só aqui em casa. Que grande mal fiz nessa ou em outra encarnação?

Só posso ter sido uma daquelas patroas megeras, que humilhava os empregados e atrasava os salários. Não tem outra explicação para tamanho ódio contra mim.

O Paulo, que é namorado da Thaís e vez outra está por aqui, diz que o drama da mãe dele é o mesma. Ou até pior, pelas histórias que ele conta. Na teoria dele, o problema está no cerne do marxismo: “É o ódio de classes que se manifesta nos serviços domésticos”, debocha.

“Qualquer hora veremos o I Simpósio Nacional das Faxineiras ou o movimento “Faxineiras pelo direito de sacanear”, teoriza Paulo.

Os amigos da CUT preferem dizer que quebrar e ironizar faz parte do curso de reciclagem que toda faxineira faz antes de entrar na profissão.

Há quem diga que é vingança ou terapia.

A atual diarista que temos atende pelo nome de Nita. Não é o nome verdadeiro, mas ela se recusa a dizer o real. Estamos juntos há seis meses e até agora ela não pisou na bola.

Claro que não é perfeita. Já quebrou outros três bibelôs e dei ordens expressas para que ela se mantenha longe do videogame e dos inúmeros equipamentos eletrônicos espalhados pela casa.  Semana passada ela quase botou fogo no apartamento ao tentar esquentar um pão no microondas. Ela digitou o número doze, ao invés de um minuto e vinte. A cozinha fede até agora.

Apesar disso, só o fato dela não me chamar de “seu Rudrigu” já é um grande passo para eu me livrar desse trauma.

((O narrador senta na cadeira. Todos os integrantes do círculo batem palmas para mais um depoimento vitorioso do A.A.))

 

PIB não é documento

Charge do cartunista Paixão, publicada em 17/09 na Gazeta do Povo, do Paraná.

Charge do cartunista Paixão, publicada em 17/09 na Gazeta do Povo, do Paraná.

Literatura canina

Tem coisas que só o mundo corporativo faz pra você. Uma delas são esses manuais de como se dar bem, mordendo e aterrozidando os adversários e colegas de trabalho. A foto foi tirada na livraria do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. É o tipo de leitura que deveria ser proibida em aeronaves, sob o risco do leitor arrancar braços e pernas dos comissários de bordo.

Porque profissional bom morde e arrebenta!

Porque profissional bom morde e arrebenta!

Geraldo Alckmin: a coerência engrandece a pessoa, não é?

A política dá voltas. Muitas e rápidas voltas, já diria o velho lugar comum. No caso do PSDB, não precisou mais de uma eleição para que esse ditado se concretizasse.

Quem acompanhou o pleito para prefeito de São Paulo, em 2008, se lembra da disputa ferrenha entre Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab. A briga dividiu a base do partido tucano em São Paulo e colocou serristas e alckministas de lados opostos do ringue. Representados por Walter Feldman, o lado serrista do tucanato foi de Gilberto Kassab. Os alckmistas tiveram Gabriel Chalita e a Canção Nova, Edson Aparecido e Aécio Neves. Mediando o embate: FHC, que nunca foi simpático aos alckmistas, diga-se de passagem.

Acuado com a falta de verba e apoio do partido a sua candidatura, os ataques de Geraldo Alckmin foram centrados em Orestes Quércia, cacique do PMDB paulista e principal responsável pela vitória de Kassab nas eleições de 2008. Na mais dura propaganda contra Kassab, Alckmin ligava o atual prefeito à Quércia, Maluf e Pitta, dizendo que todos eles eram farinha do mesmo saco.

Pra quem não se lembra, a propaganda está disponível no final do post. Ela termina com uma colossal pergunta: “A coerência engrandece a pessoa, não é?”

Para o espanto de todos, no último dia 11/09 a Folha de São Paulo trouxe a seguinte informação: Alckmin e Quércia  fecharam acordo de colaboração e mutuo apoio para as próximas eleições. Disse Mônica Bergamo: “Os ex-governadores Orestes Quércia (PMDB-SP) e Geraldo Alckmin (PSDB-SP) já acertam os ponteiros. Os dois se encontraram recentemente na casa de Quércia e discutiram a chapa estadual para a campanha de 2010 em São Paulo, com Alckmin candidato ao governo e Quércia, ao Senado. Quércia, que firmou acordo para apoiar o candidato do PSDB no próximo ano, sempre manifestou sua preferência por outro tucano, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), que disputa a indicação do partido com Alckmin. A escolha de Alckmin como candidato, no entanto, pode beneficiar o peemedebista: o tucano ficaria fora da disputa pelo Senado em 2010. E Quércia seria então o candidato forte da chapa PSDB-PMDB para o parlamento.”

Nessa hora cabe uma pergunta capciosa à Geraldo Alckmin: “A coerência engrandece a pessoa, não é, governador?”

Silvio Santos e o Doutor Abobrinha são a mesma pessoa

Depois do seriado “Chaves”, o Castelo Rá-tim-bum é, de longe, o programa mais reprisado da tv brasileira. As filmagens do infantil terminaram em 97, mas desde então os 90 episódios da série são reprisados exaustivamente pela Tv Cultura. Assim como acontece no SBT, as aventuras da família Stradivarius continuam sendo a maior audiência da emissora pública paulista. Em 40 anos de existência, a única vez que a Tv Cultura atingiu 12 pontos de audiência foi justamente com a exibição do Castelo Rá-tim-bum.

Nesse anos todos, a maior façanha do programa dirigido por Cao Hamburger foi ter misturado entretenimento com educação, sem cair na chatice dos infantis pedagógicos e politicamente corretos. O infantil é excelência até hoje no imaginário das crianças e gerou peças de teatro, filme e até exposição de arte.

Castelo Rá-tim-bum também é responsável por alçar ao estrelato atores como Cássio Scapin (Nino), Cinthya Rachel (Biba) e Luciano Amaral (Pedro), que estava esquecido desde “Mundo da Lua”.

Porém, a maior herança do infantil se chama Pompeu Pompilho Pomposo. Interpretado pelo ator Pascoal da Conceição, o “Dpascoal da conceição 3outor Abobrinha”, como silvio santosé conhecido, é um dos vilões mais caricatas da tv brasileira e conhecido por três ou quatro gerações de crianças e adolescentes.

Ao contrário dos outros personagens centrais, como Nino, Pedro e Zequinha, o doutor Abrobrinha foi o único preservado na versão cinematográfica da série, em 2000, com o mesmo ator.

Foi graças à série infantil que Pascoal da Conceição ficou conhecido pelo grande público e, mais tarde, foi convidado para trabalhar na Tv Globo. Ele interpretou o escritor Mário de Andrade na minissérie “Um só Coração” e na última novela das oito, “Caminho das Índias”, ocupou um papel terciário,ao lado de Chico Anysio.

O que pouca gente sabe na trajetória de Pascoal da Conceição é que o doutor Abobrinha foi inspirado em outro grande ídolo da tv: Silvio Santos. A revelação me foi feita pelo próprio ator, durante a cerimônia de lançamento do ‘Vale Cultura’, em São Paulo. Vestido de Mário de Andrade, personagem que o próprio Conceição admite que não conseguiu se desvencilhar, o ator disse que nunca entendeu a obcessão do dono do Baú em comprar o teatro Oficina e transformá-lo em um shopping center. “É uma idéia tão megalomaníaca que foi irresistível não aplicar no personagem”, conta o doutor Abobrinha.

Como pertencia desde os anos 80 à trupe dirigida por José Celso Martinez Corrêa, o ator conta que acompanhou de perto a briga do diretor com o dono do SBT. Para quem não se lembra ou nunca assistiu, a obcessão do doutor Abobrinha era comprar o castelo da família Stradivarius e transformá-lo num prédio de cem andares. O bordão preferido e repetido pelo vilão era “um dia esse castelo será meu”, que reproduz a exatamente a noção que Pascoal da Conceição tinha de Silvio Santos: “Imaginava que ele tramava pelos cantos e dormia imaginando novas formas de derrubar o teatro”, brinca.

O próprio Pascoal da Conceição conta que, no início, achava graça da briga entre Silvio Santos e o amigo Zé Celso. Porém, ao presenciar de perto o embate, viu que a intenção megalomaníaca do dono do Baú era para valer. “Naquele momento o Silvio Santos era pra mim o exemplo mais concreto do especulador imobiliário”, conta.

A conversa que tive com Pascoal da Conceição foi absolutamente informal, feita no corredor do Teatro da Fecomércio, no Centro de São Paulo. Porém, de tanto pensar achei a história absolutamente relevante e, graças a vizinha Mirella, que se autodenomina um crepe suzette, resolvi registrar nos anais da história.

Depois da conversa com o ator, esse humilde blogueiro começou a comparar as roupas extravagantes, os planos malévolos e a garganhada do doutor Abobrinha. O personagem remete à Silvio Santos em tudo, mesmo que involuntariamente.  

Para Pascol da Conceição, o personagem do Castelo Rá-tim-bum é também uma crítica ampla aos grandes especuladores imobiliários de São Paulo. Pra mim, entretanto, vai ser difícil olhar para o doutor Abobrinha sem fazer comparações. Na minha cabeça, Silvio Santos e Doutor Abobrinha são a mesma pessoa a partir de agora. Ponto final.

Lula deixaria a presidência?

No início do ano, antes da piora no quadro clínico de José Alencar, corria entre os corredores do planalto que o presidente Lula estava disposto a deixar a presidência da República em nome de Dilma.

A idéia do presidente era percorrer o Brasil divulgando sua candidata do coração, sem precisar dar satisfação à oposição e sem precisar enfrentar a lenga-lenga do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). No último final de semana estive com uma enfermeira do Sírio-Libanês, que me confirmou ou óbvio: as idas e vindas de Alencar ao hospital não são mais as mesmas. O vice-presidente, que antes do tratamento nos Estados Unidos chegava sorridente, feliz e bem-humorado ao hospital, hoje já não esbanja tanta vitalidade e dá sinais claros de abatimento. E entrega.

Perguntei a ela se José Alencar sobreviveria até outubro de 2010. A resposta foi lacônica: “Vindo dele, tudo se pode esperar. É um guerreiro. Mas o futuro só pertence a Deus”.

Na semana passada, a revista Veja trouxe uma excelente entrevista com Alencar. Arrancou-me lágrimas o relato dele sobre a vida, a gratidão, a incapacidade de realizar qualquer tarefa sem ajuda e a ansiedade de encontrar os pais. Foi uma entrevista de cortar o coração. Um depoimento emocionante de quem já se prepara para a morte.

Se Alencar falecer antes de outubro de 2010, Lula estaria disposto, mesmo que apenas quinze dias, largar a presidência para fazer campanha e ajudar Dilma?

Estaria o sapo barbudo disposto a deixar, mesmo que provisoriamente, o país nas mãos do PMDB de Michel Temmer, que é o segundo na linha sucessória?

A resposta, caros leitores, veio de um grão petista de alta plumagem, o qual um vizinho deste condomínio definiu semana passada como “alguém que manda muito e a imprensa não fala”:

- Lula está disposto a se ausentar da presidência.

Até junho de 2010, quando começam as campanhas de fato, muita água vai rolar. Dilma pode melhorar nas pesquisas e nem precisar de tamanho sacrifício do chefe. Mas Dilma também pode cair ainda mais nas pesquisas e precisar de todo o apoio do patrão. Ou até de uma operação resgate.

Mesmo que Alencar não morra, é arriscado deixar o governo na mão de uma pessoa tão doente. Mais cedo ou mais tarde, Alencar se ausentará e o PMDB ocupará a cozinha, como ratos que são.

Suicídio político para Lula ou ato estratégico? Cartada política ou ato de desespero?

 Quem saberá?

Concreto de fato só temos uma coisa: é bom não duvidar das palavras de Lula. Os números do PIB no 2 trimestre mostram que o cara tem uma boca santa, muito santa. Foi o único que apostou em crescimento substancial do Brasil em 2009. É o único que diz, desde o início do ano: ‘Vou fazer meu sucessor, custe o que custa’.

Numa frase que gosto muito: “Quem viver, verá!”

A internet ainda não é um bom negócio

Muito se fala sobre o avanço da internet em substituição às publicações impressas. Porém, do ponto de vista publicitário, o papel continua a mídia preferida dos anunciantes. O levantamento recente do IBOPE / Nielsen mostra que, apesar da web estar ganhando território, vai demorar um bocado para as empresas de mídia começarem a ganhar dinheiro de verdade com suas plataformas online.

Jornais e revistas perderam espaço desde 2008.  Porém, num ritmo muito menor do que se imaginava. Com exceção dos grandes grupos, as médias e pequenas empresas de mídia consideram a internet  um negócio ainda muito caro. Falta anunciantes e os poucos e grandes que investem pesado nessa categoria dividem as verbas publicitárias com redes sociais e links patrocinados no Google.

É muito mais barato e tem muito mais efeito, segundo alguns diretores comerciais consultados por N-Ideias.

Pela pesquisa IBOPE, a internet fechou o primeiro semestre de 2009 com apenas 3% da fatia publicitária no país. TVs, jornais e revistas tiveram, respectivamente, 54%, 23% e 8%.

Os leitores podem argumentar que a internet ainda não tomou corpo e engatinha. Mesmo assim, a participação financeira é muito pequena pelo barulho que se faz até aqui.

Suspeito que a internet seja um negócio lucrativo apenas para empresas de vendas, como livrarias, lojas de departamento e agências de viagens, por exemplo.

Do ponto de vista da informação a web vai demorar a ser um negócio rentável como são os jornais, revistas e emissoras de televisão. Como muitas pessoas já dizem por aí, a internet veio para acabar de vez com o atual modelo concentrado de negócio das empresas de mídia. Mesmo assim, qualquer um que criar um site de informação terá que se digladiar com páginas de humor, de games, redes socias, youtube e tantos outros que existem e existirão daqui pra frente.

Tudo isso pra dizer o seguinte: o atual modelo de trabalho do jornalista tende acabar ou se deteriorar ainda mais com a net. Tanto do ponto de vista do ofício, com equipes reduzidas, como do ponto de vista do salário, que, penso eu, jamais alcançarão o patamar de um jornal ou revista.

Conversando com um bamba do jornal “O Dia”, do Rio, ele me contou que a internet é um negócio que ainda não se sustenta monetariamente . Segundo ele, sem o apoio da redação do jornal impresso, o site não conseguiria manter uma equipe minimante razoável para fazer o básico do jornalismo.

Aos amigos que trabalham ou trabalharam em grandes sites, como Terra, IG e UOL, repasso uma pergunta: a rotina de trabalho se assemelha a uma redação de impresso em número de repórteres, editores e redatores? Esses profissionais tem salários maiores ou menores que o de seus pares do jornalismo offline?

- Os investimentos em publicidade no Brasil

 

Meios

1°Semestre 2009

1°Semestre 2008

Investimento (milhões de R$)

Partic. (%)

Investimento (milhões de R$)

Partic. (%)

TV

15.042.034

54

13.378.801

50

JORNAL

6.326.263

23

6936566

26

REVISTA

2.262.168

8

2.243.210

8

TV POR ASSINATURA

2.199.949

8

2.045.632

8

RÁDIO

1.289.134

5

1181039

4

INTERNET

784.649

3

649.322

2

CINEMA

177.123

1

170.799

1

OUTDOOR

26.012

0

32.092

0

TOTAL

28.107.331

100

26.637.460

100

Fonte: Ibope/Nielsen Online (01/jan/2009 à 30/jun/2009)

Pequenos nazismos

 
"A Onda": terapia coletiva sobre o autoritarismo individual

"A Onda": terapia coletiva sobre o autoritarismo

Há tempos escrevi nesse espaço sobre o meu encanto pelos filmes alemães. Não sei se por nossa sorte ou por questões artísticas, as produções germânicas que chegam ao Brasil são pequenas pérolas cinematográficas. Adeus, Lenin!, Os educadores, O túnel e A espiã são só alguns exemplos de ficções que são verdadeiros documentos históricos não só sobre a Alemanha, mas dos períodos mais obscuros vividos entre o Nazismo e a Guerra Fria.

Junta-se a essa galeria o novo filme A onda, dirigido por Dennis Gansel. Como o francês Entre os muros da escola, a trama alemã também é ambientada num colégio de segundo grau onde os alunos não vêm muito sentido em estudar. A aula é de “autocracia” e os estudantes acham um saco ter que ouvir, pela milésima vez, a história do nazismo.

No diálogo com o professor um dos alunos diz: “Que culpa temos nós do nazismo?”

A partir dessa frase, o professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) tenta mostrar na prática, através de exercícios pedagógicos, como o nazismo dominou as mentes da sociedade alemã. Aproveitando-se da falta de confiança dos jovens alunos nas instituições políticas e nas relações sociais de agora, o professor instaura um movimento de unificação na sala de aula. Os decotes e roupas coloridas dão lugar à camisa branca e à calça jeans, que se tornam por uma semana uniforme, extinto nas escolas públicas alemãs que desde o final dos anos 90.

A partir daí, o movimento denominado A Onda toma corpo e logo extravasa os limites da escola e do bairro, gerando inclusive atritos com gangues neonazistas e punks alemães.

Antes de ver o filme, esqueça tudo que os jornais e revistas disseram sobre A onda ser baseada na experiência do professor norte-americano Willian Ron Jones, em 1967. A única semelhança entre os dois casos é o lugar escolhidos para as duas experiências pedagógicas: duas escolas.

A onda é pura ficção, mas bem que poderia ser a mais verossímil das verdades. Ao expor as raízes dos regimes autoritários, o professor alemão Rainer Wenger faz uma terapia coletiva sobre a anulação voluntária que o cidadão se submete para dar corpo a um regime ditatorial. Além de expor os alemães a uma análise individual do nazismo, o filme chama atenção para o carácter autoritário que existe dentro de cada cidadão.

O roteiro é baseado justamente na autoridade central do professor Rainer Wenger. Por ser atleta, gostar de rock, ter posições políticas que no Brasil chamaríamos de “esquerda”e ser o técnico do time de pólo-aquático, Wenger tem o respeito e admiração dos alunos. É considerado um “igual”, ponto fundamental da personificação autocrática.

O fuhrer do colegial consegue conduzir os alunos da mesma forma que Hitler ou Mussolini fizeram na Europa.

No momento que o mundo passa por uma das piores crises de desemprego da história, partilhando do medo coletivo do terrorismo talebã e norte coreano e vendo a política doméstica desmoronar diante dos olhos, o filme de Dennis Gansel serve para abrir os olhos do mundo e, principalmente, da juventude desengajada, que prefere Susan Boyle à Angela Merkel, Sarkozy ou Obama.

“A onda” serve também ao Brasil, que assiste atônito ao desmoronamento da terceirização política promovida por todos nós desde a abertura democrática. A julgar pelos comentários que se lê e ouve na internet, a mais nova obra prima alemã deveria ser obrigatória em todos os vestibulares brasucas.

Cinco estrelas.

Obs.: não confundir o filme de agora “A Onda”(Die Welle, Alemanha, 2008) com o “A Onda”( The wave, EUA, 1981). Ambos têm a mesma temática e se passam dentro da escola. Entretanto, são abordagens diferentes. Variações sobre o mesmo medo.

Lula salvou Sarney porque assim deveria fazer

No meio de tantos vizinhos brilhantes, escrever sobre política se torna um desafio. Qualquer coisa que eu diga nesse espaço seria chamado de “petista”, “idiota”ou coisa que o valha. Mas diante da “irrevogável” crise política , é necessário lançar novas luzes sobre o picadeiro de Brasília.

 A primeira delas e a mais polêmica: Lula salvou Sarney porque assim deveria ser feito. No lugar dele, FHC, Itamar, Collor e o próprio Sarney teria se salvado.

E não é apenas pela tal da governabilidade. Mas para zelar pela própria biografia.

Explico: Se Lula não salvasse Sarney, dificilmente teria condições de realizar as coisas que precisa antes de terminar o mandato. E não são poucas coisas: a nova regulamentação do pré-sal é a mais séria.

Desde quando Lula assumiu a presidência, em 2002, lideranças sindicais como a Federação Única dos Petroleiros e os vários movimentos sociais, como MST, pressionam o governo para promover mudanças na atual legislação do petróleo. Principalmente nos tais leilões para a exploração de novos campos. Essa era, inclusive, uma das bandeiras eleitorais do PT.

Lula não o fez assim que assumiu porque tinha outras preocupações como a estabilidade econômica, que naquela ocasião ainda preocupava-se com o tal “efeito PT”.

Veio o mensalão e a coisa piorou. Não tinha clima pra mais nada.

A descoberta do óleo na camada pré-sal pareceu um presente dos deuses ao sapo barbudo. Era a oportunidade que ele precisava para mudar o atual modelo e fazer as pazes com as bases, que, aliás, precisará muito daqui pra frente. Se Lula não fizer as mudanças que precisa até o final do ano, não será perdoado pela companheirada.

Passou oito anos no poder e nada fez”, dirão.

Para qualquer mudança acontecer hoje Lula precisa do PMDB na Câmara e no Senado.

O PMDB, por sua vez, jamais aceitaria perder outra grande liderança, como aconteceu com Renan Calheiros, em 2007. Jogar Sarney aos leões teria consequências rápidas e graves. A começar pela CPI da Petrobrás, que, aliás, ninguém nunca mais ouviu falar.

E o que dizer do “PAC 2 – a missão” e do projeto “Minha Casa, Minha Vida”? São programas que não interessam apenas ao projeto “Dilma 2010”. São marcas que Lula levará para sempre como suas. Mesmo com uma possível derrota do PT nas eleições do ano que vem.

Sem o PMDB não sobraria biografia para Lula tentar voltar em 2014, se assim o quiser. Muito menos para ser o maior cabo eleitoral do país nas próximas eleições daqui pra frente.

Mas o maior pecado do presidente Lula nesses sete anos não foi tentar salvar a tal governabilidade. Foi doutrinar as centrais sindicais e movimentos sociais.

 Alguém tem alguma dúvida de que Sarney já teria caído se o presidente fosse FHC?

Não, nenhuma.

Infelizmente no Brasil apenas sindicatos, movimentos sociais e a UNE (União Nacional dos Estudantes) conseguem levar as pessoas às ruas para protestar. Foram essas as únicas entidades que conseguiram derrubar alguém do poder.

 Até agora não se viu nenhuma delas sair às ruas para pedir o “Fora Sarney”. Se assim o fizessem, o coronel maranhense já tinha tomado o rumo de casa há tempos, assim como o senador Arthur Virgílio.

 Não pensem vocês que esses movimentos são fiéis ao PT. Não. São fiéis a Lula tão e somente. É o operário que eles respeitam. Sabem que, se ele errar, jamais outro simples brasileiros pisará no Planalto.

 Com tudo isso, o pós-Lula, como Aécio Neves tem pregado, não é bom apenas para a oposição. É bom para o PT, para os sindicatos e movimentos sociais, é bom para a normalidade de qualquer democracia.

 Mesmo com Dilma ou qualquer candidato do PT, a história do Brasil a partir de 2010 será outra.

 Página 1 de 18  1  2  3  4  5 » ...  Última »