“Som e Fúria”, uma pérola

Minha expectativa era grande para a estreia de “Som e Fúria”. O primeiro capítulo correspondeu, com a habilidade que Fernando Meirelles tem de pegar os clichês e virá-los do avesso – como na cena em que Pedro Paulo Rangel é atropelado por um caminhão de presunto. E há Felipe Camargo e sua angústia verdadeira. Ele parece estar se divertindo, tirando uma com a cara de quem acha que só o Wagner Moura é um bom ator nesse país. Meirelles começou na TV, como o primeiro Valdeci (cinegrafista) de Ernesto Varela. Enquanto seus colegas amargavam a falta de dinheiro e incentivos e passavam anos sem conseguir concluir nenhum filme, ele fazia um programa por semana. Alguns, como o de Serra Pelada, são memoráveis. Depois de fazer filmes e ser premiado internacionalmente, ele volta à televisão. Sem preconceitos, e com uma liberdade conquistada na unha. Da mesma forma em que sabe fazer uma sofisticada referência a Shakespeare, vem com uma no naipe daquela do caminhão de presunto. Vai valer a pena acompanhar, pois não é todo dia que a gente tem um produto com essa qualidade na TV aberta.

As maiores bombas que vi no cinema

Uma coisa é estar zapeando e parar em um filme ruim. O cérebro começa a derreter e por um motivo qualquer a gente não muda o canal. Alugar um DVD errado também pode acontecer, e aí pelo menos dá para abreviar o sofrimento. Mas em tela grande esses filmes conseguiram ficar ainda piores.

10.000 a.C.(2008) – A proposta é a mesma de Apocalypto (outra bomba), mas sem o inegável estofo de Mel Gibson. Os homens das cavernas parecem uma mistura de personagens de “Malhação” com hippies fedidos da Paulista.

Daft Punk´s Electroma (2006) – Esse nem estreou no Brasil, eu vi numa cabine da Mostra. Pelo menos não paguei ingresso. São dois robôs andando no deserto, que colocam uma máscara de borracha por cima do capacete (imagine os cabeções), para se passarem por homens em uma espécie de cidade-fantasma onde os humanos usam… capacetes! Daí você tira qualquer coisa – a humanização da máquina, a maquinização do homem, etc…

Syriana (2005) – Zzzzzzz…

Doom (2005) e Navio Fantasma (2002) – E precisa assistir para saber que é um lixo?

Van Helsing (2004) –  Hugh Jackman é o máximo: bonito, charmoso, talentoso, carismático, sabe dançar e cantar. Mas tem um dedo podre para escolher papéis. Tirando o Wolverine e o seu personagem em “Scoop” (um Woody Allen bem médio, mas Woody Allen é que nem pizza, mesmo quando é ruim é bom), seus papéis são invariavelmente uma catástrofe.

A Árvore da Vida (2006) –  Pretensioso até a medula, é chato, piegas e confuso, com uma moral rasteira. E outro personagem desastroso de Hugh Jackman. Mas o tempo transformou Darren Aronofsky no diretor do maduro e sensível “O Lutador”.

Tróia (2004) – É quase uma novela da Glória Perez, tal a capacidade de banalizar o tema que o diretor teve. Não que eu esperasse ver um tratado histórico, mas o filme sequer tem o charme de um “300” ou daqueles épicos antigos.

A Reconquista (2000) – A única coisa legal foi rir da cara do John Travolta com aquela mãozinha gorda e unhas pontudas. A ficção da cientologia faz o discurso deles parecer algo normal.

E você, qual foi o pior filme que assistiu no cinema?

Com champignon

De uma forma ou de outra, Wilson Simonal ainda tem um lugar próprio no imaginário dos brasileiros. Depois de assistir a “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, sobra pouco a dizer sobre este cantor inigualável. O documentário é definitivo, esgota o assunto. O que posso falar para além dele é que Simonal ainda provoca uma reação estranha nas pessoas. Uma expressão de curiosidade e um certo constrangimento paira no ar a quem digo que vi o filme. É como se todos fôssemos cúmplices de sua ascensão e queda. Nos divertimos com ele e às custas dele. Não pertenço à geração que o viu hipnotizar um púbico de 30 mil pessoas, nem testemunhei a sua queda nas garras do maniqueísmo que imperava na época do regime militar. Mas o peso da figura e do talento de Simonal me inclui nesta manada. Nos tempos atuais vivemos o inferno do politicamente correto, onde Grazi Massafera “estuda interpretação” e Angelina Jolie adota milhares de crianças e faz boas ações a torto e a direito; tudo para mascarar a falta de talento nato de ambas. Simonal era arrebatador, como poucos são. Não precisava de estudo, não precisava se engajar contra a ditadura, não precisava provar nada a ninguém. E justamente pelo excesso de confiança que tinha em si mesmo, morreu pela boca. Foi julgado, condenado e executado numa situação tão obscura que nem ele mesmo parecia compreender. Ao final da exibição, a comoção foi tanta que batemos palmas para uma tela inanimada enquanto “Nem vem que não tem” não nos deixava sair da sala. Aplaudimos o vazio pois, infelizmente, não podemos mais aplaudir Wilson Simonal.

Página 5 de 512345