Grandes Trilhas – “Raindrops Keep Falling on My Head”

Não é o número que impressiona – são nove ocorrências no IMDB – mas sim a diversidade de filmes no qual o one-hit-wonder de B.J. Thomas se encaixa. Começemos com o grande “Forrest Gump”, um filme espetacular com uma trilha sonora à altura. A música toca também em “Homem-Aranha 2”, reforçando a cara de bobo de Peter Parker e “As Panteras Detonando”. Lembro de a ter ouvido ainda na minissérie “O Quinto dos Infernos”. Ou seja, “Raindrops” cabe até em comédias de época sobre a história do Brasil!
Mais uma vez, o que garantiu a popularidade dessa música é a sua capacidade de transmitir um clima. No caso, o frescor e a inofensividade de pingos de chuva.
Raindrops Keep Falling on my Head

Grandes trilhas – “Kung Fu Fighting” diz o que você quiser

Uma música sobre kung fu cantada por um jamaicano num ritmo disco dos anos 70? Com essa mistura improvável, “Kung Fu Fighting”, de Carl Douglas, é uma das canções mais exploradas pelo cinema.

Segundo o IMDB, pelo menos 19 filmes têm a música em sua trilha sonora. Entre eles obras tão diferentes como “A Hora do Rush 3”, “ABC do Amor”, “Pensamentos Mortais” e até o brasileiro “Cidade de Deus”. Isso além de comédias-baba, como “A Creche do Papai”, “Deu a Louca em Hollywood” e “Os Picaretas”. Programas de TV são cinco, incluindo “My Name Is Earl”, “That ’70s Show” e “Dancing With Stars”.

“Kung Fu Fighting” tem uma energia que parece caber em qualquer tipo de filme. Como se diz no jargão empresarial, ela “agrega valores” de concentração, garra, superação e fair-play. Em certos filmes ela é utilizada de forma pontual e reforça o clichê da luta oriental. Em outros vem para lembrar que as coisas não devem ser levadas tão a sério assim. Afinal, transformar uma arte marcial secular em dança comercial é por si só uma ousadia.

E o clipe da música é praticamente um curta:

Carl Douglas – Kung Fu fighting, 1974

O carisma às avessas de Paulo Francis

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Paulo Francis criou para si um personagem tão forte que fica difícil fugir dos chavões que se falam dele há tantos anos. O documentário “Caro Francis”, no entanto, mostra que talvez não conheçamos assim tão bem este que foi um dos mais famosos jornalistas brasileiros das décadas de 70, 80 e 90. Eu não sabia, por exemplo, que ele tinha sido trotskista. Nem que tinha começado a carreira no teatro amador.

Entre as besteiras e genialidades que proferiu, Francis se consagrou por uma coisa que perseguimos muito no jornalismo: o estilo. E o filme mostra a construção minunciosa deste estilo. Seu modo de falar tão característico, por exemplo, foi inventado. Sua capacidade de gerar polêmicas era seu marketing, o que valorizou o seu passe pelos grandes veículos em que trabalhou.

Respeito Nelson Hoineff por ter realizado dois filmes em menos de um ano – “Alô, Alô Terezinha!”, sobre Chacrinha, foi lançado há menos de três meses. Detalhe: nenhum dos dois conta com patrocínio governamental. É verdade que “Caro Francis” é um filme enxuto. Calcado em depoimentos, tem um quê de programa de TV educativa. Mas nem por isso deixa de ser um registro relevante, que conta muito bem a história de alguém que tanto mobilizou a opinião pública brasileira.

Os alienígenas hippies de “Avatar”

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“Avatar” é um filme muito signficativo de como as mudanças aventadas pela Era Obama podem ser mais sutis e vagarosas do que pensamos.

O filme explicitamente discute a ocupação do Iraque e a preocupação com a tal da “sustentabilidade”, mas não avança muito sobre como entendemos a questão da tolerância e da utilização responsável dos recursos naturais.

A missão das tropas terrestres encabeçadas pelos EUA é explorar um planeta exótico em busca de um mineral que vale 20 bilhões de dólares o quilo, mas o próprio filme não diz para que serve (petróleo?). No começo, até me surpreendi com alguns detalhes que enriqueceram o argumento. Um ex-combatente militar assume a posição de seu irmão gêmeo, cientista morto em um assalto. Ele é paraplégico. Promissor, não?

Mas daí a coisa degringola para a pieguice e para o politicamente correte. E para se ter uma noção de como o preconceito está introjetado, em um dado momento um general envolvido na tarefa diz que a missão em Pandora (o planeta exótico) seria pior do que a que o marine e cientista acidental enfrentara na Venezuela. Que tipo de comparação é essa?

Problemas de aculturação decorrentes desse choque, uma nação de bons selvagens que têm uma “conexão bioquímica” com a natureza… Parece que ainda estamos falando dos hippies das décadas de 60 e 70. É triste ver que ainda precisamos de analogias para compreender os nossos próprios problemas. Não muito longe daqui há enchentes que colocam pessoas em condições subumanas, uma crosta nojenta de poluição no horizonte, gelo que não deveria derreter se desfazendo em água com a elevação da temperatura global. Um rinoceronte com quatros olhos em uma floresta fluorescente não me impressiona muito mais que isso.

E há o 3D, que está mais a serviço da salvação das salas de cinema em tempos de pirataria do que da história contada pelo filme.

De volta à Federal

Cheguei ao portão da Federal na hora certa, bem quando a velha fábrica e biscoitos da rua Doutor Pedro Vicente baforava aquele cheiro doce. Fiquei surpresa por ainda existir a fábrica ali, naquele canto entre o Pari e o Canindé que eu vi sendo abandonado há mais de dez anos, desde quando estudava por lá.

Dentro da Federal, as coisas mudaram um pouco mais. Primeiro foi o nome. Ingressei na Escola Técnica Federal, me formei pelo Centro Federal de Educação Tecnológica e farei um breve estágio no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. Na esteira disso vieram os cursos. Antes eram apenas seis tradicionais, entre técnicos e tecnológicos. Enquanto eu estava lá implantaram Turismo e Licenciatura em Física. Agora já perdi a conta.

Mas o que mais me marcou foi a reforma do “prédio de Edi”. Ele agora é chamado de “Construção Civil” e cresceu muito; um reflexo do boom deste setor no país. Ainda não tive estômago para entrar lá no primeiro dia, mas estou curiosa. Não deve haver mais pranchetas. Os canteiros de alvenaria, hidráulica e elétrica devem ter sido reconfigurados e ele deve ter pedido o charmoso mezanino.

Ao mesmo tempo em que me lembrei da primeira vez que estive ali me senti de certa forma novamente em casa. No bom e velho saguão nada mudou. Passei tanto tempo ali que aquele piso de plurigoma e aqueles bancos de praça estão impecavelmente impregnados na minha memória, como se eu ainda os frequentasse. A Federal foi a minha primeira referência de conquista, frustração, amizade, amor e trabalho. Irei explorá-la um pouco mais, por uma semana, para que em algum momento eu possa devolver a ela uma pequena fração de tudo o que ela me proporcionou.

Enfim, a ação no cinema nacional

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Estou gostando desta história da Andréa Beltrão se achar o Bruce Willis brasileiro. Depois do ótimo “Verônica”, ela volta em “Salve Geral”; um filme mais ambicioso, mas que mesmo em suas limitações mostra um cenário otimista para o cinema nacional.

O que me animou em “Verônica” foi ver um filme brasileiro de ação extremamente bem realizado. Com um argumento enxuto e envolvente, tem um “tamanho”, se posso assim dizer, que até pouco tempo não havia em nosso cinema. Nem grande nem pequeno; nem blockbuster nem independente. Ter um filme com este padrão, e bem feito, é sinal de um cenário maduro e promissor.

“Salve Geral” tem uma proposta diferente, se assemelha em seus defeitos e qualidades a filmes maiores como “Sequêstro do Ônibus 174” e “Carandiru”. Como ambos, tem bons atores e um bom roteiro, mas por vezes escorrega na pieguiçe e na empatia exagerada com os bandidos. O grande ponto de “Salve Geral”, no entanto, é ir um pouco além ao colocar a classe média em uma sinuca de bico. Aos poucos o presidiário acidental e sua mãe vão se envolvendo com o crime, o que mostra que, muitas vezes, a questão da violência não é dada a maniqueísmos e obviedades. E é na sua habilidade em retratar estas nuances que o filme agrega.

Obviamente, alguém vai reclamar que este é mais um retrato da violência no Brasil. Pois eu digo que, enquanto a desigualdade e a violência existirem e estiverem presente em nosso cotidiano elas servirão de inspiração para o cinema e qualquer outro tipo de arte. E já que é assim, que se aprimorem as formas e se aprofundem as discussões, como já é possível ver em “Salve Geral”.

A maldade da natureza feminina por Lars von Trier

AnticristoNão sei porque diabos fui ver “Anticristo”. Já havia sido alertada que o filme era forte, mas acho que resolvi pagar para ver até onde eu aguentaria mais esta viagem de Lars von Trier.

Só o seu rótulo pode assustar: um filme de terror/suspense dinamarquês, dirigido por um cara que se acha o maior diretor do mundo.

Pois penso que “Anticristo” não entrega nada além desse rótulo. Apesar de ser impressionante em alguns aspectos, o filme me pareceu gratuito. Não há um propósito aparente, uma discussão, seja ela temática ou estética.

Não creio que os filmes de terror precisem ser muito mais do que são por definição. Por isso, todo esse esforço pode ter sido em vão. Anticristo não agrada nem ao espectador típico deste tipo de produto (que prefere ver jovens sendo mortos em festas de formatura) nem aos que gostam de filmes-cabeça, como os do próprio von Trier.

O roto falando do rasgado

É impressão minha ou o Quércia estava falando sobre o PMDB nacional e o Sarney em seu programa de rádio, ao justificar a aliança do PMDB paulista com o PSDB? Ele usa uma expressão como “um partido não deve só dizer sim ao presidente”, o que me faz lembrar aquela história de que, na época do regime militar, havia o partido do “sim” e o do “sim, senhor”. Um deles, por sinal, era o próprio MBD.

OK, formar e desmanchar alianças por interesses que não ideológicos é uma prática constante do PMDB, e não sou tão ingênua a ponto de me surpreender com isso. Quando interessa, cola-se no índice de popularidade de Lula. Quando não, agrada aos conservadores apoiando Serra.

O lead aqui é a contundência com a qual um segmento regional questiona o diretório nacional. Será que viveremos para ver o PMDB, com o perdão do trocadilho, tomar um partido?

As bases estão sendo sondadas sobre isso. Esta enquete está no site deles:

“Nas eleições de 2010, para a Presidência da República, o PMDB deve:

( ) Ter candidatura própria.

( ) Apoiar candidatua do PT.

( ) Apoiar candidatura do PSDB.

( ) Liberar as bases para apoiar a quem quiserem.”

A Record e a família

Há tempos estava com vontade de escrever sobre como vejo o crescimento da TV Record. Aconteceu tudo o que aconteceu e meus amigos e colegas de A Nivel De Sava e Flor já disseram o que eu poderia dizer, ainda melhor. Mas tem uma coisa que ainda me incomoda demais, que é um efeito colateral de toda essa agressividade da empresa dos bispos. O sensacionalismo não é novidade, nem foi inventado por eles. Mas o que a Record pratica, não sei como, consegue ser ainda pior do que isso. Se não se expõem mais bizarrices, se a violência e o sexo estão devidamente enquadrados em uma dramaturgia tosca exibida no horário adequado, pessoas têm suor e lágrimas sugados em nome da “emoção” que traz audiência.

Vejamos o caso de “A Fazenda” e as derivativas participações dos concorrentes em outros programas da casa. (Sim, eu vejo o programa porque também mereço lavar o meu cérebro com cândida às vezes). Claramente, um ponto fraco de cada perticipante foi descoberto e espinafrado até o limite do aceitável. Já havia ficado chocada com as perguntas que, no “Hoje em Dia”, fizeram para a Samambaia sobre o seu pai, com quem a garota mal fala e nem faz questão de falar: “O confinamento fez com que você repensasse na sua relação com  ele?” “Você perdoa o que ele fez?” “O que diria se o visse agora?” “Você pensou nele no Dia dos Pais?”

A menina começou a chorar, e meu medo foi que fossem colocar o homem escroto que batia na mãe dela para abraçá-la ao vivo, em frente às câmeras. Isso não acenteceu naquele dia, mas hoje outro participante provou desse veneno. O rapaz é o Carlinhos, ex-menino de rua e ex-interno da Febem que foi abandonado pela família e acabou se tornando radialista e comediante. Pois bem, depois de perder o programa no tapetão que está favorecendo o Dado “Chris Brown” Dolabella o cara ainda teve que amargar uma impostora que apareceu do nada dizendo ser a sua mãe, a mesma gente-boa que o chutou de um ônibus quado ele era criança.

Estava tudo bem até então, o cara não sentia falta de nada pois tocou a vida sem precisar de ninguém. Mas, o que ele vai fazer agora que sabe que a sua mãe é pobre e que seu pai não tem metade dos dentes? Se ajudar, vai se sentir explorado. Se não ajudar, vai se sentir um ingrato e, pior, será julgado assim. Por mais que ele tenha topado participar de um programa que iria invadir a sua privacidade, a fria em que colocaram ele hoje não estava no contrato.

(Minha ressalva: ele poderia ter acordado em encontrá-la fora do ar, mas não o fez)

O que me espanta é que a Record não precisa disso para conseguir faturamento – como bem explicou o Flor, a Universal praticamente pode bancar a rede. Basta ver a irritante repetição de comerciais da emissora para perceber que a cartela de anunciantes que aceitam financiar essa baixaria não é extensa. Mas nem tudo é uma questão de dinheiro. A obsessão é bater a Globo é tanta que parece justificar tudo isso.

Como bom comediante que é, Carlinhos tirou a situação de letra e perguntou para a velha:

– Ainda tá na ativa?

Às vezes é na grosseria que reside o último suspiro de dignidade.

Criança, a Alma do Negócio

criança

Quando eu era criança, meu sonho era ter um Pense Bem. Hoje isso parece extremamnte prosaico, e eu não digo isso por que tenho quaquer saudosimo dos anos 90. Digo isso porque esta é algumas das coisas que eu quis e não pude ter. Não ter tido um Pense Bem não fez de mim uma pessoa pior, menos inteligente ou menos sociável. Pelo contrário. Fez com que, ainda criança, eu tivesse uma noção de limites e de atribuição de valor às coisas que realmente importavam. Essa historinha me veio à cabeça quando assiti ao forte documentário de Estela Renner, “Criança, a Alma do Negócio”, que mostra a perversidade com que a indústria e a publicidade lidam com este público.

 Sou defensora da urgência da infância e acredito que as crianças são seres plenos, complexos e pensantes. Por isso me incomoda tanto a abordagem da publicidade junto a elas, tratando-as como manipuláveis, um nicho de mercado. Criança que é criança quer se divertir, e tem o direito assegurado a fazer isso enquanto pode. O problema é que, por trás disso, há um indústria poderosa, que descobriu a eficácia de falar diretamente a este público.

A discussão gerou um avanço na regulamentação das propagandas que não devem, por exemplo, se dirigir aos pequenos com verbos imperativos: “Compre”, “Peça”, “Use”. Mas isso não servirá de nada se os pais não adotarem uma postura diferente. No afã legítimo de agradar os seus filhos, fazem das tripas coração para comprar tudo o que eles pedem. E, assim, criam verdadeiros monstrinhos insaciáveis.

Isso não é um libelo fefelechiano contra o capitalismo, mas uma defesa da formação de seres críticos ao que consomem. O Pense Bem de ontem é o celular de hoje. Se isso não for levado a sério agora, as próximas gerações serão reféns de algum artefato que ainda está para ser inventado.

Link para assistir ao documentário: http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/Biblioteca.aspx?v=8&pid=40

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