O Rio entre a violência e a arte

O Rio de Janeiro é a cidade mais linda do mundo. Não que eu conheça muitas outras – infelizmente ainda não tive a oportunidade de viajar para o exterior. Mas duvido muito que qualquer outro lugar mais “organizado” e “funcional” seja tão exuberante quanto o Rio.

Mas uma cidade, obviamente, é feita de muito mais do que praias, montanhas e florestas. É acima de tudo feita de pessoas. E as pessoas que moram no Rio fazem ele ser ainda mais incrível e vivem na pele toda a sua beleza natural. Os cariocas são leves, divertidos, inteligentes e criativos; trazem no sotaque e no jeito de lidar com as coisas uma naturalidade que quebra as pernas dos mais sisudos.

Todo esse nariz-de-cera é para ilustrar o maior desafio que eu vejo para a resolução da violência: até onde conseguimos incentivar o potencial que uma cidade como Rio tem, sem fazer vista grossa para os seus mais graves problemas estruturais?

Quando você diz, todos os dias, que o lugar onde uma pessoa mora, estuda ou trabalha é um lixo ela passa a acreditar que aquele lugar é de fato um lixo. Não é uma questão promover uma auto-estima fake, mas de criar a instrumentos para que ela mantenha uma visão crítica sobre a sua realidade sem sucumbir às dificuldades que enfrenta.

Nesta semana, o programa “A Liga”, da TV Bandeirantes, fez uma grande reportagem sobre a favela da Rocinha. Os apresentadores se dividiram entre dois clichês: um que mostrava toda a violência do lugar e outro que defendia que, para além dessa violência, havia ali pessoas muito simples, que enfrentavam dificuldades estruturais.

Isso, meus caros produtores da Band, todo mundo sabe. Eu queria saber da Rocinha quais são as expectativas das crianças e jovens que estão na escola, qual é a visão dos moradores sobre as políticas públicas que ali são feitas, como eles enfrentam o preconceito, etc. Ou seja, provocar no espectador um sentimento de alteridade e identificação.

No programa eles insistiam em chamar favela de “comunidade”. Para mim, isso só esconde a situação em que essas pessoas vivem, e não contribuiu em nada para melhorar a vida de quem mora nela. Na era da informação, não podemos ver esses moradores como massa de manobra e reféns de programas como o Bolsa Família. Eles assistem TV a cabo (net-gato, que seja) e acessam a internet. Por conta da própria configuração urbana do Rio, circulam por entre muito lugares em comum com a classe mais alta da sociedade e sabem profundamente o que está acontecendo com ela.

E em meio a todo esse caos entra a referência à “Tropa de elite” e uma demonstração de como a arte pode conscientizar e mobilizar a sociedade. Muito do êxito de ambos os filmes da série está justamente em não subestimar a inteligência das pessoas: eles mostraram com uma clareza quase didática toda a complexidade do tráfico e das milícias e a forma ainda mais complexa como as pessoas lidam com eles. Tenho certeza que quem assistiu a esses dois filmes pode ver os eventos que aconteceram esta semana no Rio com mais clareza e com uma visão quase tão crítica quanto a de um morador da Vila Cruzeiro ou do Morro do Alemão que está sofrendo essa violência na pele.

MTV, 20

Para comemorar os seus 20 anos, a MTV Brasil está apresentando uma série chamada “MTV Ano a Ano”. De 1990 até 2010, em episódios de uma hora, cada ano será relembrado por dez de seus videoclipes mais emblemáticos, pontuados por trechos da programação. Cuca, Otaviano Costa, Marcio Garcia, Edgard, Rodrigo, Gastão, Zeca Camargo, Maria Paula, Soninha, Astrid, Fabio Massari, Cazé e Marina Person , com seus cabelões e figurinos exuberantes, ajudam a contar a história da primeira década desta emissora. Grandes entrevistas e participações especiais (Gilberto Gil, José Simão e Fernanda Abreu como improváveis VJs) também fazem parte deste auto-tributo.

No sábado de manhã assisti à maratona das reprises. Sentei no sofá às 8h30, com o programa de 1990/1991 pelo meio e só consegui levantar para tomar café às 10h quando acabou o de 1992. Ver como era a MTV nesta época é como reencontrar um amigo querido do colégio. Para a minha geração esta foi uma fase de final da infância e início da adolescência, onde a música é altamente definidora da sua personalidade e da sua identidade. A MTV intensificou isso ainda mais agregando o fator imagem, com tudo de mais arrebatador que ela pode ter.

É possível perceber alguns critérios que a emissora escolheu para eleger os videoclipes. Estão ali pedras fundamentais das bandas e movimentos que viriam a se tornar os mais importantes da década. Há também espaço para videoclipes – tanto de artistas novos como consagrados – que investiram em algum tipo de inovação na linguagem. E, por que não, one-hit wonders que marcaram uma geração e serviram de trilha para histórias mundanamente fantásticas (e até de novelas da Globo)?

Foi de assistir de joelhos. Vibrei e me emocionei como em uma final de Copa do Mundo. Tentei adivinhar que música viria, fiquei brava com algumas escolhas, fui surpreendida por outras. Quando uma seleção como essa passa pelos seus olhos você não só lembra de quem você era, mas de como a música – e a arte em geral – tiveram um papel fundamental na formação da sua identidade hoje.

1990/1991
Deee-Lite – Groove Is in the Heart
Guns N’ Roses – You Could be Mine
Faith No More – Epic
Metallica – Enter Sandman
Michael Jackson – Black and White
Nirvana – Smells Like Teen Spirit
(faltam quatro, que eu não vi)

1992
Alice in Chains – Man in the Box
Soul Asylum – Runaway Train
Cidade Negra – Falar a Verdade
Cure – Friday I’m in Love
Daniela Mercury – O Canto da Cidade
Ugly Kid Joe – Everything About You
Whitney Houston – I’ll Always Love You
Rage Against the Machine – Killin’ in the Name
Pearl Jam – Jeremy
U2 – One

1993
4Non Blondies – What’s Up
Aerosmith – Amazin’
Gabriel, O Pensador – Retrato de um Playboy
Stone Temple Pilots – Plush
Cranbierres – Linger
Radiohead – Creap
Lenny Kravitz – Are You Gonna Go My Way
Fernanda Abreu – Rio 40º
Ace of Base – All That She Wants
Blind Melon – No Rain

1994
Green Day – Basket Case
Couting Crows – Mr. Jones
Bon Jovi – Always
Cássia Eller – Malandragem
Rolling Stones – Love is Strong
Edwyn Collins – A Girl Like You
Legião Urbana – Perfeição
Offsping – Come Out and Play
Beastie Boys – Sabotage
Back – Loser

1995
Elastica – Connection
Coolio – Gangsta’s Paradise
Supergrass – Alright
Paralamas do Sucesse – Uma Brasileira
Seal – Kiss From a Rose
Van Hallen – I Can’t Stop Lovin’ You
TLC – Waterfalls
Alanis Morissette – You Oughta Know
Planet Hemp – Legalize Já
Oasis – Wonderwall

Pausa dramática para 1996, que será exibido no próximo sábado, às 8h. Passou nesta segunda, mas eu não vi. Este foi o ano em que eu entrei no colégio e passei a, de fato, assistir MTV. Sabrina apresentava o Disk MTV, parada dos dez mais pedidos no Brasil. Nem a emissora nem os artistas sabiam, mas toda a efervescência deste ano embalou uma série de momentos importantes na vida de uma menina de 14 anos que morava em uma cidade chamada São Paulo.

Arrisco aqui alguns palpites, para 1996 e 1997.

1996
Smashing Pumpkins – Tonight, Tonight
Red Hot Chilli Peppers – Love Rollercoaster
Raimundos – Eu Quero Ver o Oco
Kid Abelha – Na Rua, na Chuva, na Fazenda
Skank – Garota Nacional
Chico Science e Nação Zumbi – Manguetown
Sepultura – Roots
Silverchair – Pure Massacre
Foo Fighters – Big Me
Pato Fu – Pinga

Repescagem
Garbage – Only Happy When It Rains
The Presidents of United States of America – Peaches
Barão Vermelho – Vem Quente que eu Estou Fervendo
Karnak – Comendo Uva na Chuva

1997
Blur – Song 2
The Verve – Bittersweet Symphony
Prodigy – Breathe
No Doubt – Don’t Speak
Puff Daddy – I’ll be Missing You
Charlie Brown Jr. – O Couro vai Comer
Spice Grils – Wannabe
The Fugees – Killin’ me Softly
Titãs – Pra Dizer Adeus
Celine Dion – My Heart Will Go On

Repescagem
One of Us – Joan Osborne
Cardigans – Lovefool
Chico César – Mama África

Mais sobre o papel que a arte exerce na vida das pessoas, neste belo post do vizinho Sorry Periferia.

Gekko is back

Nem a informação e nem o próprio dinheiro. O tempo é o verdadeiro trunfo de qualquer investimento. Se fosse possível saber com antecedência o que vai acontecer, se fosse possível voltar atrás em decisões equivocadas, fortunas não teriam sido construídas ou destruídas no mercado financeiro.

A continuação de Wall Street dá um salto sobre a década mais que perdida para chegar em 2008, no momento imediatamente anterior à primeira grande crise do século XXI. Nós já sabemos o que vai acontecer, mas os personagens ainda não.

Talvez tenha sido justamente a crise que inspirou Oliver Stone a retomar este tema. E o filme mostra mais uma vez como a credulidade e a ganância (tão falada no primeiro filme) podem levar os homens a repetir o mesmo erro.

Novos atores surgem na trama – a internet, os mercados da China, a discussão sobre sustentabilidade e energia. O mercado imobiliário, apontado como grande vilão da crise, está representado na participação especial de Susan Sarandon, uma enfermeira que deixa o seu ofício para se tornar corretora durante o boom dos imóveis.

Gordon Gekko (Michael Douglas) ressurge egresso da prisão. Dá uns tropeços aqui e ali, até se adaptar à nova realidade. Mas apesar de mantê-lo isolado por um período, o cárcere deu a ele distanciamento para enxergar além do que quem estava imerso na euforia do mercado aquecido poderia ver.

“Wall Steet 2” é um filme ágil, um bom retrato de seu tempo. É menos sisudo do que o primeiro; tem um pouco mais de cores e de humores. Tem até mais nuances para lembrar que nem todo mundo é só lobo ou cordeiro.

“Wall Street” fita o abismo

Oliver Stone tem a mão pesada. Faz diálogos densos, personagens perturbados e histórias intrincadas. Costumo achar seus filmes chatos, mas dei uma chance a “Wall Street” (1987), como uma preparação para a estreia de “Wall Street 2”.

Antes de fazer “Wall Street”, Stone já havia se debruçado sobre a cultura norte-americana, em filmes como “Platoon” e “Salvador”. Quer dizer, sempre em oposição a outra cultura em uma situação de conflito. Quando decide falar sobre os EUA de dentro dos EUA, escolhe logo o olho do furacão: o mercado financeiro em seu aspecto mais selvagem. Ao contrário das guerras dos filmes anteriores, os conflitos aqui são internos.

Com as ótimas interpretações de um jovem Charles Sheen e um bronzeado Michael Douglas, “Wall Street” poderia ser apenas um filme “de ator”, mas é mais do que isso. O pai de Stone foi um corretor da bolsa, e é a ele que o filme é dedicado. Essa figura paterna é representada por Martin Sheen, que inspira altivez e cumplicidade ao contracenar com o seu filho. Trabalho, dinheiro, amizade, casamento, família… “Wall Street” mostra como, no liberalismo, não dá para achar os limites entre uma coisa e outra.

É um dos poucos filmes em que achei que as frases de efeito vêm acompanhadas de uma certa naturalidade. Mesmo um tanto elaborados e inverossímeis, os diálogos não irritam e nem parecem sobrar. Vale a pena prestar atenção, por exemplo, nas enigmáticas falas do chefe do personagem de Sheen.

Para “Wall Street 2”, minha expectativa é a de um filme um tanto mais ágil, que fale com consistência sobre a crise pela qual o mundo passou. Gordon Grekko (personagem que rendeu o Oscar a Michael Douglas) envelheceu 23 anos, mas ainda não deve ter perdido o tino nem o bronzeado. Seu pupilo agora é Shia LaBeouf (de Transformers), que tinha apenas um aninho quando Charles Sheen comeu o pão que o diabo amassou. O tempo passou, mas sempre haverá quem ache que ganância é bom.

Frases memoráveis de “Wall Street”: http://www.imdb.com/title/tt0094291/quotes

Um fim para o horário eleitoral

Quero pertencer à geração que verá o fim do horário eleitoral gratuito . Esta eleição, mais do que qualquer outra, mostrou que o tempo dos programas dos candidatos na TV virou um antro de subcelebridades e tosqueiras, que nada agregam ao debate político.

Na era da internet, as propostas concretas dos candidatos podem estar disponíveis on-line. É uma forma mais democrática, pois o custo para fazer uma boa apresentação é relativamente baixo.

O partido acha que a celebridade tem cacife para angariar votos e levar vários outros candidadatos na garupa? Então arranja dinheiro e compra um horário, como é feito em vários países.

O horário eleitoral já contou com momentos históricos, como a inspirada “TV Povo” no programa de Lula em 1989. Agora, em um momento repleto de restrições e quando os artistas se esquivam de demonstrar suas convições políticas, este tipo de iniciativa perde a força.

E para quem acha que o fim do horário eleitoral privilegiaria apenas os partidos grandes, lembro que, mesmo com ele, nossas eleições já se tornaram um modorrento plebiscito, meio como já é nos Estados Unidos.

Hoje, vemos o programa com um pouco de escárnio (rimos das tosqueiras) e temor (de que estas tosqueiras sejam eleitas). Tirando alguns aspectos dos programas majoritários, só o que repercurte é isso. A reforma política poderia contemplar seriamente esta questão que, junto ao financiamento público de campanhas, traria mais transparência para as nossas eleições.

Amuleto na Serra

Estou me preparando para deixar Campos do Jordão. Meus avós querem vender a casa deles e voltar para São Paulo e eu não terei mais um porto seguro nessa cidade que tanto amo.

Mesmo não tendo nascido em Campos, é de lá que começo a contar a minha história. Foi para lá que o meu tio avô e minha avó vieram, vindos das Alagoas, e viveram e trabalharam feitos loucos por quase vinte anos. Foi lá que meus avós (paternos e maternos), meus pais e meus tios se conheceram. Foi lá que meus pais se casaram, foi para lá a primeira viagem que fiz, aos quinze dias de vida. Lá me refugiei para estudar para o vestibular da faculdade em que fui aprovada. Campos é o meu amuleto na serra da Mantiqueira.

A rigor, Campos do Jordão é uma pequena cidade encravada na montanha, com uma economia frágil e dependente de uma temporada anual de inverno. Quase tudo lá é caro demais. Sob alguns pontos de vista, é feia e mal gerida. Mas tem uma natureza exuberante, especialmente no Horto, no Pico do Itapeva e na Pedra do Baú. Tem um chocolate inigualável, uma arquitetura rica e um monte de lugares maravilhosos que, mesmo frequentando a cidade desde que nasci, nunca conheci.

Para além do glamour do Palácio do Governo, do Festival de Inverno e de locais míticos como o Grande Hotel, há uma cidade povoada por pessoas simples e repletas de dificuldades. Nada ilustra mais esta contradição do que o conjunto habitacional popular tipo Projeto Cingapura com linhas de arquitetura alemã.

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Pode parecer piegas, mas na primeira noite em que dormi em meu quarto, na casa que meus avós construíram, custei a cair no sono.

Esses movimentos fazem parte da vida e nos mostram o quanto somos apegados a certas coisas. Confesso: tenho medo de perder meu amuleto. No entanto, nesse momento, o mais importante é ter meus avós por perto. Campos do Jordão continuará lá, com seus esquilos correndo pelas araucárias, seu frio cortante na sombra e seu calor torrante ao sol. Se eu voltarei com frequência, não sei. Mas a memória de nossa família de certa forma ali está preservada, pelo menos em uma modesta travessa da Vila Abernéssia.

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Maria Augusta Teixeira foi irmã do meu avô paterno e viveu nesta rua por mais de trinta anos

O austero Tarantino

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“À Prova de Morte” é uma saga tarantinesca clássica. Mas, por outro lado, é possível observar uma diferença entre esta e as outras obras de Quentin Tarantino: a ausência do apelo pop. Apesar de conter doses generosas de música, violência e ironia, o filme carece daquilo que transformou “Kill Bill” e “Pulp Fiction” em verdadeiros tratados pop. “À Prova …” é mais próximo de “Jackie Brown” – e quase austero, eu diria.

Gosto de pensar que este é um mecanismo que Tarantino encontra para se reinventar. “Bastardos Inglórios” é um filme também rigoroso, mas por conta de sua abordagem histórica essa severidade está dentro de um contexto. Em “À Prova…”, uma história banal vem em uma embalagem de luxo, com referências à arte e aquela fotografia meio suja – e linda – de sempre.

Gostei, mas acho que poderia ter um pouco menos de conversa. São dois blocos, intermináveis. Aquele papo meio besta que Tarantino adora colocar é genial, faz parte de seu estilo, mas só tem impacto quando é mais curto. A metalinguagem do cinema como máquina letal se faz presente mais uma vez. Afinal, o carro e o motorista-dublê assassinos são frutos de um recurso real criado para conferir o fator mágica ao cinema. O filme abusa dessa dualidade entre o real e o imaginário (uma das mocinhas é DJ e modelo); entre a vilania e a pura curtição da vida.

Tirem Pirituba dessa patuscada

Que preço estamos dispostos a pagar para ter o orgulho de ostentar uma partida inaugural de Copa do Mundo? Não pergunto isso porque acho que não vale a pena investir em equipamentos esportivos de qualidade. Basta ver os CEUs e o impacto social e cultural que eles provocaram nas regiões mais pobres da cidade. Pergunto pois sou cética quanto ao legado que um elefante branco como esse pode deixar.

O Brasil tem capacidade técnica, urbanística e esportiva para aproveitar a oportunidade que a Copa do Mundo oferece para repensar as suas cidades e a sua sociedade. O que enfrentamos é um problema de escala: ou pensamos pequeno ou pensamos grande demais. Levar a cabo um projeto desse só realça os problemas oriundos de uma cidade de crescimento desordenado, que joga para a periferia tudo o que não consegue resolver nas zonas mais nobres e centrais.

Construir um estádio é muito mais do que construir um estádio. É pensar a mobilidade, a infra-estrutura, os serviços. No longo prazo, acredito que essa arena não representará absolutamente nada para o bairro; não trará nenhuma melhoria para a região. Voltando a falar dos CEUs, eles deram certo porque seu conceito gira em torno da escola, que funciona praticamente o ano todo. E, para além do período da aula, há uma gestão séria e um forte envolvimento da comunidade do entorno em sua programação. É possível que isso aconteça com um estádio deste porte? Ou é mais provável que ele seja (mal)feito a toque de caixa em pouco mais de dois anos e fique largado às moscas depois?

Guardadas as devidas proporções, basta ver o estado atual da Cidade do Rock. Com o mato chegando à altura do joelho, ela pouco guarda dos shows inesquecíveis que vi no Rock in Rio de 2001.

Cidade do Rock

Lembrando que a Cidade do Rock foi uma iniciativa privada, uma egotrip do Roberto Medina.

O Brasil já conta com uma importante “malha esportiva”, e o desafio para 2014 não é apenas aumentá-la, mas melhorá-la. Quando a Copa acabar, que time pagará aluguel para jogar em outro estádio quando já tem um?

Tenho medo do quanto custará esses 90 minutos de fama de Pirituba.

A TV é o novo cinema

Há bem pouco tempo, em 2006, Felicity Huffman perdeu uma merecida estatueta do Oscar de melhor atriz por sua atuação em “Transamerica”. Reese Witherspoon, de “Johnny e June”, levou. Um dos motivos para que Felicity não vencesse foi o preconceito da academia – e da indústria cinematográfica em geral – por atores vindos da televisão.

Em quatro anos muita coisa mudou. Se antes havia um choque dos mundos quando Al Bandy aparecia surdinamente como coadjuvante em um filme como “O Colecionador de Ossos”, hoje o caminho é inverso. Sally Field, Charlie Sheen, Jennifer Love Hewitt e Patricia Arquette são alguns dos que estão bombando na TV o que nunca bombaram no cinema. Veja o caso de Alec Baldwin. Com quase 50 anos, o péssimo ator desisitiu dos papéis sérios e se achou por completo em Jack Donaghy, de “30 Rock”.

Cinema e TV se fundiram para criar uma terceira linguagem, que é a que vemos em séries de roteio absurdamente bons, como “House”, “Big Bang Theory” e “30 Rock”. Quatro episódios seguidos (ou dois, dependendo do tempo de duração) dessas séries têm mais ritmo do que muito longa-metragem que está em cartaz.

Grandes trilhas – La chica, the girl, a garota de Ipanema

Pois que uma das mais sofisticadas e perenes canções da série de músicas que mais tocam em filmes é brasileira. “Garota de Ipanema” é eterna e chique, o tipo de música que qualquer compositor gostaria de ter feito.
Não é toa que os estrangeiros têm verdadeira adoração pela Bossa Nova e por essa música em especial. Pense em um ator baba de Hollywood. Ele já terá aparecido na telona com o hino de Tom e Vinícius. Tom Hanks e Leonardo DiCaprio? “Prenda-me se for capaz”. Angelina Jolie e Brad Pitt? “Mr. and Mrs. Smith”. Charlize Theron, Bruce Willis, Nicole Kidman, Jim Carrey, Michael Douglas, Charlie Sheen e Winona Ryder também.
Woody Allen (“Desconstruindo Harry”) e Scorsese (“A Cor do Dinheiro”) também apostaram nesta canção. Um música qualquer entraria na trilha de “The Blues Brothers”? Pois “Garota” está lá, ao lado de clássicos como “Sweet Home Chicago” e “Jailhouse Rock”.
E para não dizer que eu apenas dou valor por que a canção é reconhecida lá fora, a moça de corpo dourado também dá o ar de sua graça em “Bossa Nova” (Bruno Barreto) e no filme homônimo, de 1967. A ambição deste projeto, um musical, pode ser medida pelos medalhões que o realizaram: Leon Hirszman na direção, com roteiro de Eduardo Coutinho, Vinicius e Glauber Rocha. No elenco, Fernando Sabino, Chico Buarque e Rubem Braga fazem uma ponta de luxo. Todos arrebatados pela musa.

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