Os experimentais e melancólicos curtas de Miguel Gomes

O Programa de Curtas de Miguel Gomes traz um apanhado da obra deste jovem e importante cineasta português. Se em longas como “Aquele Querido Mês de Agosto”, Gomes já havia mostrado ousadia em romper com alguns limites da linguagem do cinema de fição, em seus curtas ele vai ainda além.

São cinco filmes, que têm como foco principalmente os conflitos da infância, adolescência e juventude. Os atores são praticamente os mesmos em todas as peças, o que ajuda a notar a evolução e a maturidade de Gomes como realizador ao longo dos anos.

A câmera do diretor parece penetrar a alma de seus atores. Aos poucos, vamos nos envolvendo com a sua espontaneidade, e nos deixamos levar até que perdemos um pouco a noção do que é realidade e do que é ficção. Assim são os filmes de Miguel Gomes: meio documentários, meio reality-shows. Parecem até meio amadores, até que ele surge com uma solução fílmica extremamente sofisticada e mostra que na verdade manipula muito bem essas ferramentas, e que está subvertendo-as.

E há a música, que tem papel fundamental nas narrativas. De cânticos religiosos a esta belíssima canção portuguesa, elas são descontruídas com recortes e sobreposições para servirem às histórias. Em mais um limite que se rompe, podemos dizer que os filmes são quase musicais. Mas a obra de Miguel Gomes não aceita rótulos.

Os curtas são “Trinta e Um” (2002), “Kalkitos” (2002), “Cântico Das Criaturas” (2006), “Entretanto” (1999) e “Inventário De Natal” (2000). O que mais gostei foi o singelo e esquisitíssimo “Kalkitos”, no qual adultos encarnam crianças de dez anos. Na sequência, o melancólico “Entretanto”, que mostra o despertar do amor em três adolescentes. A nova geração portuguesa do cinema tem um grande e representativo nome em Miguel Gomes.

Cotação: ****

A mãe que nasce e morre

Em exibição na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme alemão “Além do Horizonte” conta a história de uma jovem estudante de arquitetura que, após assumir uma gravidez não-planejada, perde o bebê.

Na primeira parte da obra temos a história clássica de uma mulher que engravida sem querer e enfrenta todos os conflitos internos e externos que a opção de ter essa criança acarreta. Quando perde o bebê, essa mulher tem que se reinventar novamente, como se tivesse que provar a si mesma que está viva apesar de tudo. Faz pensar sobre tudo o que poderia ter sido e não foi – tanto se tivesse tido o filho como se não tivesse engravidado.

A marca de “Além do Horizonte” é naturalidade com que trata de certos temas-tabu, como aborto e relação homossexual, entre outros. Tudo é mostrado com muito delicadeza, mas sem medo de tratar o assunto de forma direta.

Cotação: ***

“Estômago”, o “Taxi Driver” gastronômico

Logo pelo título, é de se esperar que “Estômago” não seja um filme convencional sobre gastronomia. A palavra já sugere o caminho visceral e quase fisiológico que a obra de Marcos Jorge vai tomar.

Raimundo Nonato (interpretado por João Miguel) é um migrante nordestino, que chega a São Paulo sem nenhuma perspectiva. Ao mesmo passo em que mostra como foi conquistando o seu espaço na cozinha de um boteco e, depois, de um restaurante italiano, o filme apresenta o personagem cozinhando para os seus colegas de cela na prisão. Fica então a pergunta: o que ele fez para parar na cadeia?

O sucesso de Nonato na cozinha pode ser explicado pelo seu requinte, e por aquele algo a mais que todo mundo que trabalha com arte precisa ter para arrebatar corações e mentes. Enquanto o seu chefe no restaurante italiano lhe explica as coisas de forma pedagógica, Nonato observa o que ninguém percebeu, e usa a intuição para conquistar poder e ascender socialmente. (Vale ressaltar que esse requinte e esse algo a mais se estendem para a interpretação precisa de João Miguel).

Guardada as devidas proporções, “Estômago” é como um “Taxi Driver” brasileiro, no qual o carro é substituído pela cozinha, e as armas pelas facas. Como no filme de Scorsese, Marcos Jorge não quer julgar se o mundo é justo ou injusto com Nonato ou com os outros personagens, mas sim contar uma história de como cada um pode utilizar os recursos que tem para sobreviver na selva urbana.

Quem trabalha com gastronomia sabe que a cozinha é um ambiente extremamente tenso, e que a comida é algo que mexe com as pessoas. Essa comoção em torno de quem “sabe cozinhar” é muito apropriada pelo filme, ainda mais quando associada à figura inusitada, ingênua e não muito sofisticada de Raimundo Nonato. O que alguém que tira de letra esta pressão – e que sabe manejar uma faca – é capaz de fazer?

“Estômago” tem um rico tempero psicológico ao que poderia ser apenas um suspense policial.

A velhice fantástica de “O Levante”

A primeira coisa importante a saber sobre “O Levante” é que o diretor é também um poeta. O brasileiro Raphael Aguinaga imprimiu esse lirismo em cada cena do filme, que tem um argumento meio estranho, mas que causa muita empatia.

Um grupo de velhinhos que vive em um asilo tem de enfrentar dois problemas ao mesmo tempo. O primeiro deles: a cuidadora do local sai de férias e quem assume é o seu jovem e cruel filho. O segundo: Jesus é clonado, desaparece e ressurge colaborando com pesquisas científicas para a cura do câncer.

Para ir do conflito mais íntimo ao puro delírio religioso e científico, Aguinaga traça caminhos sutis, onde diálogos podem soar sem sentido mas também carregam alguns significados mais profundos em suas entrelinhas. Realizado em parceria com a Argentina, “O Levante” tem um tempero agridoce mais portenho do que brasileiro.

Idosos são pessoas que têm uma bagagem de vida, e Aguinaga se aproveita desta característica para mostrar o mundo a partir do ponto de vista de quem já viu de tudo, mas ainda não perde a capacidade de se encantar com os milagres da vida.

“O Levante” (Brasil e Argentina)
Ainda vai passar: 31/10 – Cinemateca – 15h50

O que vi na Mostra

E chegamos à 35ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Por conta da falta de tempo, só pude ver três filmes até agora. São eles:

A Visita Maravilhosa (Itália)
Produzido pela amiga e vizinha de A Nível de Lorelei Lee, é uma viagem particular em busca da história do grande compositor Nino Rota, responsável pela trilha de diversos filmes de Fellini e do clássico “O Poderoso Chefão”. As paisagens e os personagens são poéticos e exuberantes e os entrevistados falam do maestro com aquela deliciosa franqueza que só os italianos têm. Embalado pela música vigorosa de Nino Rota, o filme é solar e afetuoso. Lorelei conta mais sobre esta experiência aqui.

Os Animais me Distraem (EUA)
Isabella Rossellini fala com bom humor de sua paixão pelos animais, todos eles. A diva não tem vergonha de pagar alguns micos vestida de Charles Darwin ou demodex (um ácaro que vive nos cílios) e traz alguns dados curiosos sobre o comportamento dos bichos.

Os Hipopótamos de Pablo Escobar (Colômbia)
Com a desculpa de contar a história dos hipopótamos trazidos da África para a Colômbia por Pablo Escolar, o documentário mostra o que há de mais selvagem no narcotráfico. Escobar é comparado a um macho alfa, em depoimentos que revelam desde sua “consciência ecológica e social” à sua crueldade na guerra pelo domínio do tráfico no país. Entre os testemunhos mais marcantes, o do chefe do grupo de extermínio do Cartel de Medelín, preso desde os anos 90.

“Polícia 24 Horas” e o que importa para as pessoas

Há um momento dramático na vida de uma pessoa em que ela se vê na necessidade de pegar o telefone e ligar para a polícia. Nunca precisei fazer isso, ainda bem, mas imagino que não deva ser fácil.

Em primeiro lugar porque ela deve ter esgotado uma série de tentativas para resolver o problema sem ter que chamar um policial para intermediar. Depois, esta não deixa de ser uma situação de fragilidade e exposição.

Imagine então se o atendimento a esta chamada vem acompanhado de uma câmera, como a que registra as ocorrências para o programa “Polícia 24 Horas”, da TV Bandeirantes. Está pronto, na minha opinião, o reality show mais contundente que já vi.

Em nenhum outro programa que se pretenda mostrar “a vida das pessoas como ela é” vi uma filha viciada em crack dando um tapa na cara da mãe. Ou um flagra do exato momento em que um garoto de 16 anos vê a sua juventude e o seu futuro escorrerem pelos dedos ao ser pego após se envolver com o crime e o tráfico. As cenas com menores me cortam a alma, como não poderia ser diferente para alguém envolvido com educação.

Tanto nessas cenas mais fortes como nas passagens mais rotineiras, a câmera é absolutamente invisível. Todos parecem tão envolvidos com a ocorrência que deixam transparecer as pequenas e grandes mesquinharias que formam todo e qualquer ser humano. Sim, pois acredito que podemos ser absolutamente abnegados com certas pessoas ou em certas situações, mas por vezes temos uma imensa dificuldade em ceder em algo muito simples.

Por isso, nem sempre fica claro quem está certo e quem está errado. Ao contrário de outros realities, que expõem para julgar, os policiais nos lembram que aquela velha história de que ouvir os dois lados pode ser surpreendente.

“Surfistinha” na corda bamba

É possível medir um filme pela relação entre a sua ambição e o seu resultado. Há filmes modestos nos dois sentidos, há os despretensiosos que vão muito além do que se propõem, os que querem abraçar o mundo com braços e pernas e não conseguem, etc.

“Bruna Surfistinha” não chega a ser ambicioso, mas tem uma proposta delicada: falar sobre a mais famosa garota de programa do país sem ser moralista por um lado e nem fazer apologia à prostituição por outro.

Pois Marcus Baldini se sai muito bem nesta corda bamba, com uma abordagem pop desta história. Roteiro, edição, fotografia, trilha sonora; tudo vai no sentido de dar nuances vívidas à personagem, interpretada com alma por Deborah Secco. O resultado é um filme com um bom ritmo, que se não se aprofunda muito no submundo da prostituição e das drogas, é capaz de retratá-lo de forma humana.

“Bruna Surfistinha” é um filme que assumiu – e cumpriu – o importante papel de tirar do escárnio coletivo a impactante história de vida de Raquel Pacheco. Não causa vergonha falar em uma roda de amigos que você o assistiu. Ouso dizer que talvez até dê para ver acompanhada dos pais sem maiores constrangimentos.

Deborah Secco certamente vislumbrou neste personagem um mar de possibilidades – da menina insegura no colégio à resoluta garota de programa de luxo. Ela não se dá bem em todas, mas explorou com sucesso algumas delas. O saldo foi positivo.

Não sonhei com Cisne Negro

Fiquei menos impressionada com “Cisne Negro” do que achei que ficaria. Acho que fui para o filme tão na defensiva, e preparada para embrulhar o meu estômago com aquela câmera trepidante e aqueles closes em feridas que o Darren Aronofsky tanto gosta, que não me choquei com a história da bailarina Nina.

Como o @leandrobeguoci e a @pesdeamora, vi nele uma metáfora do escritório.
Como o @antonioprata, fiquei procurando símbolos atrás da cama.
Como a @karencunsolo, achei que era um filme de susto.

Natalie Portman está realmente incrível. Vicent Cassel dá muita classe ao seu personagem, sem cair na vulgaridade. Um bom elenco, uma direção ousada e um argumento enxuto e aberto são os pontos fortes do filme.

Em tese, não é uma coisa ruim quando o jeito de contar a história (storytelling) é mais importante do que a história em si. No entanto, Cisne Negro é menos inovador do que parece. As boas soluções vão se repetindo e se desgastam.

Na filmografia de Aronofsky, eu o colocaria entre “A Fonte da Vida”, uma bomba colossal, e “O Lutador”, de que gostei muito. (Não vi “Réquiem para um Sonho”). No filme com Mickey Rourke, a opção é pelo realismo, mostrando como essas mutações de dão na escala do nosso cotidiano. Para mim, a cena mais memorável é a que o wrestler pinta os próprios cabelos em frente ao um espelho. Extremamente esquisito e singelo. A viagem vertiginosa pela mente de Nina é mais bela, mas menos original.

Quando o rei fala

“O Discurso do Rei” tem toda uma pinta de unanimidade. Não é tão simples que desaponte os amantes de um cinema mais artístico, nem tão hermético que não atinja o grande público. Talvez por isso sua candidatura ao Oscar de Melhor Filme tenha ganhado força nas últimas semanas.

O argumento é inusitado: mostra como um herdeiro da família real britânica tem que lidar com a sua gagueira, especialmente durante a sua condução ao trono de rei, que acontece às vésperas do início da Segunda Guerra Mundial. Digo que o argumento é inusitado pois não me lembro de nenhum outro filme que tenha dado um enfoque como este ao tratar da vida de uma pessoa pública.

Se nos dias de hoje a comunicação é vista como algo imprescindível para o “sucesso profissional”, na década de 30, quando o filme se passa, o rádio era o meio predominante e os poucos que podiam dominar essa linguagem eram os atores. No fundo, embora estejamos mais familiarizados com todo esse processo – principalmente por conta da internet – é interessante notar como não deixamos de ser atores quando temos que usar a comunicação para nos posicionar, seja no trabalho, com os amigos ou nas redes sociais.

Esse é o desafio que George VI (vivido por Colin Firth), terá que lidar. Para ele não basta ser um monarca justo e valoroso: há a pressão para que ele seja a voz do império britânico, o representando e o confortando quando necessário.

Pelo fato de entrar na intimidade da família real, logo relacionei “O Discurso do Rei” a “A Rainha”, de Stephen Frears. Mas “A Rainha” tem um quê de telefilme com seus planos americanos. “O Discurso” vai além, se aproximando mais de “Amadeus”, de Milos Forman. Tem ângulos incríveis, que mostram ao mesmo tempo toda a expressividade de Colin Firth e o ambiente que o oprime. Um Oscar em Fotografia ou Direção de Arte também seria mais do que merecido.

E há Helena Bonham Carter. Se a atriz não chega a roubar a cena dos grandes Firth e Geoffrey Rush (que interpreta o audacioso terapeuta de fala de George VI), é no mínimo curioso vê-la em papel contido e altivo.

Histórias garimpadas no lixo

Produção anglo-brasileira indicada ao Oscar 2011 de melhor documentário, “Lixo Extraordinário” mostra o trabalho do fotógrafo e artista plástico Vik Muniz junto a catadores de material reciclado do aterro de Jardim Gramacho, em Duque de Caixas (RJ).

Para começar, há algo neste filme que diz respeito a qualquer pessoa no mundo. Não importa a sua origem ou sua classe social: todos no planeta produzimos lixo. Essa universalidade, porém, não necessariamente nos traz familiaridade com o tema. A maioria das pessoas desconhece o que acontece com o lixo após ele ser descartado. Pois é nos aterros que um novo ciclo começa, e movimenta um mercado de catadores e indústrias que ditam a demanda por materiais. Mais ou menos como na Bolsa de Valores.

Vik é reconhecido por trabalhar com matérias-primas inusitadas, explorando as cores e as texturas desses materiais. Entre seus trabalhos estão retratos de crianças caribenhas, filhos de produtores de cana, feitos com açúcar. Outro exemplo é uma releitura da clássica foto de Che Guevara feita com feijões.

No Jardim Gramacho, seu desafio foi envolver os catadores em torno de mais um projeto: fazer fotos deles e redefini-las com materiais coletados por eles próprios. Com zero pieguice, é comovente para o espectador compreender, junto com os catadores, a complexidade e a escala do trabalho de Vik.

Vale ressaltar que o filme tem produção inglesa, mas foi feito com dinheiro brasileiro – Petrobras, Eletrobras e outros Bras que se beneficiaram com as leis de fomento à cultura e do audiovisual. Entre os diretores, além da inglesa Lucy Walker e da brasileira Karen Harley, está João Jardim, do imperdível “Pro Dia Nascer Feliz”, um excelente documentário sobre um tema espinhoso e inusitado: a educação.

É importante não confundir o brilhantismo do trabalho de Vik e dos catadores com a qualidade do documentário. Houve, por parte dos realizadores, muita sensibilidade e competência para retratar o tema. No entanto, nada no formato ou na estrutura do filme chama a atenção. (Não vi nenhum outro dos indicados para defender fervorosamente “Lixo Extraordinário”). Isso não diminui em nada a relevância do filme, mas talvez enfraqueça a sua candidatura ao Oscar. De qualquer forma, vestirei minha camiseta verde e amarela e torcerei por ele. Tenho certeza que Sebastião – o presidente da associação de catadores do aterro – não faria feio se subisse ao palco para receber a estatueta.

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