A humanidade caminha no ritmo de “Boyhood”

A cada dia, acontecem pequenos e grandes fatos em nossa vida que vão forjando a nossa identidade e a nossa história. Por mais importantes que alguns deles sejam, às vezes é até difícil de pontuá-los no tempo. Quando você escolheu a sua profissão? Quando você se apaixonou – ou decidiu se separar? Que mudanças determinada pessoa provocou em sua vida?

“Boyhood” parte desta dimensão cotidiana dos acontecimentos, mas não se limita a ela. Não há episódios, grandes marcos ou arroubos. O filme não enfoca eventos que costumam ser registrados em fotos, vídeos ou nas redes sociais, como festas e viagens. Esses acontecimentos são elipsados por fatos que revelam mais sobre as pessoas do que os momentos solenes, nos quais elas se armam. É uma pergunta difícil que tem de ser respondida de forma franca. Uma decisão que tem de ser tomada. Uma coisa chata que precisa ser feita para que se possa seguir em frente. Isolados, os acontecimentos do filme podem parecer ordinários e superficiais. Em conjunto, porém, ganham a dimensão de uma vida.

O efeito de ver os personagens envelhecendo 12 anos em três horas impressiona. E é muito bom constatar que este recurso precioso não é um fetiche, mas um trunfo que está a serviço do naturalismo da história. A amarração precisa do roteiro e o notório envolvimento dos atores no projeto fazem com o filme seja muito mais do que uma retrospectiva de festa de aniversário.

Além da metamorfose pela qual passa o garoto, o filme também acompanha a evolução de sua família ao longo dos anos, o que lembra que ninguém é uma ilha e que tudo caminha ao mesmo tempo, mesmo que em direções e ritmos diferentes. A juventude é um momento rico para pontuar essas mudanças, pois elas são marcantes na busca por uma identidade. Mas é interessante notar como essa transformação opera, de forma mais sutil, nos pais do garoto, por exemplo.

Do diretor Richard Linklater se espera uma mistura de sensibilidade e inteligência, e “Boyhood” não fica nada a dever nesse quesito à consagrada trilogia “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr do Sol” e “Antes da Meia Noite”. Esta trilogia, por sinal, foi uma precursora na ideia de acompanhar os personagens ao longo do tempo – com a diferença de que o casal é acompanhado em três obras diferentes. O público que se apaixonou por Jesse e Celine no filme de 1995 não deixaria por nada de ver o que acontece quando eles já têm seus bons anos de casados em 2013.

“Boyhood” também engaja, e dá margem a pensar o que acontece com os personagens no futuro. Mas isso não significa que seja uma obra incompleta. A juventude pode ser definidora do que se será quando adulto, mas é complexa em si mesma. Entre dúvidas, insegurança e impetuosidade reside um ser pleno, que vai compreendendo aos poucos o mundo à sua volta, e aprendendo a lidar com ele. O que “Boyhood” nos dá é o privilégio participar juntos deste processo.

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