Lendo os sinais de “O Lado Bom da Vida”

Quando se conhecem, os protagonistas de “O Lado Bom da Vida” já passaram pelo pior. Pat Solitano, interpretado por Bradley Cooper, amargou um período em um hospital psiquiátrico após surtar por flagrar sua mulher com outro. Tiffany, vivida pela futura vencedora do Oscar, Jennifer Lawrence, perdeu o marido em um acidente e tem seu comportamento julgado por todos à sua volta.

O que tinha para acontecer de ruim já aconteceu, mas é preciso agora juntar os cacos. Jovens, belos e loucos, os protagonistas percebem juntos e aos poucos o esforço que precisam fazer para se adaptarem novamente à vida cotidiana. Um desafiador concurso de dança se coloca como o horizonte que eles haviam perdido, e é nesse processo que a química entre o casal se desenvolve.

Por maior que seja o amadorismo de Pat e Tiffany na dança, o concurso representa para eles o resgate de aspectos como compromisso, interação social, preparo físico e sensibilidade artística. E, não menos importante, a dança dá vazão à tensão sexual entre eles.

Se há muita expectativa dos outros em relação ao casal, é no objetivo que eles mesmos se propuseram que reside o seu maior desafio. Na busca por uma aparente normalidade está tudo aquilo que lembra o quão ricas e complexas podem ser as relações humanas. A loucura não é tratada como algo binário, mas como uma herança particular com a qual cada um tem que lidar – seja consigo mesmo, seja com as pessoas ao seu redor.

O supersticioso pai de Pat (um Robert De Niro humano como há muito tempo não se via) pode nos fazer acreditar que pequenos e desconexos atos podem interferir em um destino. Mas, como aponta Tiffany, é também preciso ler os sinais para perceber que as respostas podem estar mais próximas do que parecem. Muitas coisas aparentemente desconexas aconteceram para que Pat e Tiffany se encontrassem. A partir de então a bola está com eles.

“O Lado Bom da Vida” arrebatou indicações nas categorias mais importantes para o Oscar deste ano – filme, diretor, roteiro adaptado, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante e montagem. Bradley Cooper constrói o personagem com carisma e mostra a dignidade por trás de uma mente perturbada. Mas não convence totalmente, talvez até bela sua beleza. Por exemplo, é difícil acreditar que ele tenha sido obeso, como indica o filme. E mais ainda é difícil acreditar que uma mulher o trairia com alguém tão mais velho. Perto do furação J. Law – de movimentos comedidos, mas com uma fúria genuína no olhar e no tom de voz – isso fica ainda mais evidente.

O filme passeia por entre o que está dado pelo cenário traumático colocado aos protagonistas e a limonada eles fazem com esses limões. Enquanto insistem em um comportamentos de negação e autoboicote, eles sofrem. Apegar-se a um relacionamento falido, como faz Pat, é claramente o pior caminho, mas é mais fácil falar do que fazer. A agressividade de Tiffany parece infantil, e a faz se afastar das pessoas. Mas é da faísca do encontro dessas pertubaçãoes que a relação entre eles vai florescer.

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