Spaghetti à Tarantino

“Django Livre” tem todo o vigor e o rigor dos filmes de Quentin Tarantino. Sem abrir mão do apelo pop e da violência que marcam a sua obra, o diretor segue pelo caminho épico aberto pelo brilhante “Bastardos Inglórios”.

Em “Django”, Tarantino deixa a sua impressão digital sem precisar apelar para seus próprios clichês. Não há preguiça. O diretor coloca o seu estilo a serviço de uma homenagem ao filmes de spaghetti western, equilibrando a sua visão particular do mundo com uma história de vingança e amizade que merece ser contada com toda a pompa.

A escravidão e as histórias do velho oeste norte-americano possuem códigos de violência consolidados em nosso imaginário. O que Tarantino traz é uma visão explícita e irônica sobre esse período, nunca vista antes. Spike Lee foi um dos que denunciaram um eventual teor racista no filme, pelo uso indiscriminado da paravra “nigger” (crioulo) e da visão estetizada da escravidão. Pois penso um pouco diferente: ao trazer uma estética que remete aos filmes blaxploitation dos dos anos 70 e uma trilha sonora contemporânea, com funk, rap e R&B, o diretor quis justamente provocar o estranhamento e a reflexão sobre o absurdo que a escravidão representa e as suas nefastas consequências.

Como em todo filme de Tarantino, a escolha do elenco é primorosa: Jamie Foxx traz a altivez, marra e sagacidade que caracterizam os protagonistas tarantinescos. Christoph Waltz apaga qualquer comparação que poderia ser feita com seu papel marcante em “Bastardos Inglórios”, e faz com primor um europeu carismático e cerimonioso. Leonardo di Caprio e Samuel L. Jackson também estão memoráveis.

Difícil sair da sala de cinema sem sentir pelo menos um ou dois arrepios na espinha. Não pela violência em si, mas pela inteligência e pelo olhar inusitado que o diretor lança sobre algumas situações. A rapidez e a naturalidade dos diálogos e a incrível fotografia nos colocam em pontos privilegiados da História onde não costumamos estar. Vejo “Django” não como uma sátira, mas como uma reverência aos filmes de faroeste e spaghetti western. É um filme grandioso, daqueles que nos deixam de alma lavada no final.

Comente

Seu email não será exibido. * Campos obrigatórios

*
*
*