O austero Tarantino

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“À Prova de Morte” é uma saga tarantinesca clássica. Mas, por outro lado, é possível observar uma diferença entre esta e as outras obras de Quentin Tarantino: a ausência do apelo pop. Apesar de conter doses generosas de música, violência e ironia, o filme carece daquilo que transformou “Kill Bill” e “Pulp Fiction” em verdadeiros tratados pop. “À Prova …” é mais próximo de “Jackie Brown” – e quase austero, eu diria.

Gosto de pensar que este é um mecanismo que Tarantino encontra para se reinventar. “Bastardos Inglórios” é um filme também rigoroso, mas por conta de sua abordagem histórica essa severidade está dentro de um contexto. Em “À Prova…”, uma história banal vem em uma embalagem de luxo, com referências à arte e aquela fotografia meio suja – e linda – de sempre.

Gostei, mas acho que poderia ter um pouco menos de conversa. São dois blocos, intermináveis. Aquele papo meio besta que Tarantino adora colocar é genial, faz parte de seu estilo, mas só tem impacto quando é mais curto. A metalinguagem do cinema como máquina letal se faz presente mais uma vez. Afinal, o carro e o motorista-dublê assassinos são frutos de um recurso real criado para conferir o fator mágica ao cinema. O filme abusa dessa dualidade entre o real e o imaginário (uma das mocinhas é DJ e modelo); entre a vilania e a pura curtição da vida.

Tirem Pirituba dessa patuscada

Que preço estamos dispostos a pagar para ter o orgulho de ostentar uma partida inaugural de Copa do Mundo? Não pergunto isso porque acho que não vale a pena investir em equipamentos esportivos de qualidade. Basta ver os CEUs e o impacto social e cultural que eles provocaram nas regiões mais pobres da cidade. Pergunto pois sou cética quanto ao legado que um elefante branco como esse pode deixar.

O Brasil tem capacidade técnica, urbanística e esportiva para aproveitar a oportunidade que a Copa do Mundo oferece para repensar as suas cidades e a sua sociedade. O que enfrentamos é um problema de escala: ou pensamos pequeno ou pensamos grande demais. Levar a cabo um projeto desse só realça os problemas oriundos de uma cidade de crescimento desordenado, que joga para a periferia tudo o que não consegue resolver nas zonas mais nobres e centrais.

Construir um estádio é muito mais do que construir um estádio. É pensar a mobilidade, a infra-estrutura, os serviços. No longo prazo, acredito que essa arena não representará absolutamente nada para o bairro; não trará nenhuma melhoria para a região. Voltando a falar dos CEUs, eles deram certo porque seu conceito gira em torno da escola, que funciona praticamente o ano todo. E, para além do período da aula, há uma gestão séria e um forte envolvimento da comunidade do entorno em sua programação. É possível que isso aconteça com um estádio deste porte? Ou é mais provável que ele seja (mal)feito a toque de caixa em pouco mais de dois anos e fique largado às moscas depois?

Guardadas as devidas proporções, basta ver o estado atual da Cidade do Rock. Com o mato chegando à altura do joelho, ela pouco guarda dos shows inesquecíveis que vi no Rock in Rio de 2001.

Cidade do Rock

Lembrando que a Cidade do Rock foi uma iniciativa privada, uma egotrip do Roberto Medina.

O Brasil já conta com uma importante “malha esportiva”, e o desafio para 2014 não é apenas aumentá-la, mas melhorá-la. Quando a Copa acabar, que time pagará aluguel para jogar em outro estádio quando já tem um?

Tenho medo do quanto custará esses 90 minutos de fama de Pirituba.

A TV é o novo cinema

Há bem pouco tempo, em 2006, Felicity Huffman perdeu uma merecida estatueta do Oscar de melhor atriz por sua atuação em “Transamerica”. Reese Witherspoon, de “Johnny e June”, levou. Um dos motivos para que Felicity não vencesse foi o preconceito da academia – e da indústria cinematográfica em geral – por atores vindos da televisão.

Em quatro anos muita coisa mudou. Se antes havia um choque dos mundos quando Al Bandy aparecia surdinamente como coadjuvante em um filme como “O Colecionador de Ossos”, hoje o caminho é inverso. Sally Field, Charlie Sheen, Jennifer Love Hewitt e Patricia Arquette são alguns dos que estão bombando na TV o que nunca bombaram no cinema. Veja o caso de Alec Baldwin. Com quase 50 anos, o péssimo ator desisitiu dos papéis sérios e se achou por completo em Jack Donaghy, de “30 Rock”.

Cinema e TV se fundiram para criar uma terceira linguagem, que é a que vemos em séries de roteio absurdamente bons, como “House”, “Big Bang Theory” e “30 Rock”. Quatro episódios seguidos (ou dois, dependendo do tempo de duração) dessas séries têm mais ritmo do que muito longa-metragem que está em cartaz.

Grandes trilhas – La chica, the girl, a garota de Ipanema

Pois que uma das mais sofisticadas e perenes canções da série de músicas que mais tocam em filmes é brasileira. “Garota de Ipanema” é eterna e chique, o tipo de música que qualquer compositor gostaria de ter feito.
Não é toa que os estrangeiros têm verdadeira adoração pela Bossa Nova e por essa música em especial. Pense em um ator baba de Hollywood. Ele já terá aparecido na telona com o hino de Tom e Vinícius. Tom Hanks e Leonardo DiCaprio? “Prenda-me se for capaz”. Angelina Jolie e Brad Pitt? “Mr. and Mrs. Smith”. Charlize Theron, Bruce Willis, Nicole Kidman, Jim Carrey, Michael Douglas, Charlie Sheen e Winona Ryder também.
Woody Allen (”Desconstruindo Harry”) e Scorsese (”A Cor do Dinheiro”) também apostaram nesta canção. Um música qualquer entraria na trilha de “The Blues Brothers”? Pois “Garota” está lá, ao lado de clássicos como “Sweet Home Chicago” e “Jailhouse Rock”.
E para não dizer que eu apenas dou valor por que a canção é reconhecida lá fora, a moça de corpo dourado também dá o ar de sua graça em “Bossa Nova” (Bruno Barreto) e no filme homônimo, de 1967. A ambição deste projeto, um musical, pode ser medida pelos medalhões que o realizaram: Leon Hirszman na direção, com roteiro de Eduardo Coutinho, Vinicius e Glauber Rocha. No elenco, Fernando Sabino, Chico Buarque e Rubem Braga fazem uma ponta de luxo. Todos arrebatados pela musa.

Grandes Trilhas – “Raindrops Keep Falling on My Head”

Não é o número que impressiona – são nove ocorrências no IMDB – mas sim a diversidade de filmes no qual o one-hit-wonder de B.J. Thomas se encaixa. Começemos com o grande “Forrest Gump”, um filme espetacular com uma trilha sonora à altura. A música toca também em “Homem-Aranha 2″, reforçando a cara de bobo de Peter Parker e “As Panteras Detonando”. Lembro de a ter ouvido ainda na minissérie “O Quinto dos Infernos”. Ou seja, “Raindrops” cabe até em comédias de época sobre a história do Brasil!
Mais uma vez, o que garantiu a popularidade dessa música é a sua capacidade de transmitir um clima. No caso, o frescor e a inofensividade de pingos de chuva.
Raindrops Keep Falling on my Head

Grandes trilhas – “Kung Fu Fighting” diz o que você quiser

Uma música sobre kung fu cantada por um jamaicano num ritmo disco dos anos 70? Com essa mistura improvável, “Kung Fu Fighting”, de Carl Douglas, é uma das canções mais exploradas pelo cinema.

Segundo o IMDB, pelo menos 19 filmes têm a música em sua trilha sonora. Entre eles obras tão diferentes como “A Hora do Rush 3″, “ABC do Amor”, “Pensamentos Mortais” e até o brasileiro “Cidade de Deus”. Isso além de comédias-baba, como “A Creche do Papai”, “Deu a Louca em Hollywood” e “Os Picaretas”. Programas de TV são cinco, incluindo “My Name Is Earl”, “That ’70s Show” e “Dancing With Stars”.

“Kung Fu Fighting” tem uma energia que parece caber em qualquer tipo de filme. Como se diz no jargão empresarial, ela “agrega valores” de concentração, garra, superação e fair-play. Em certos filmes ela é utilizada de forma pontual e reforça o clichê da luta oriental. Em outros vem para lembrar que as coisas não devem ser levadas tão a sério assim. Afinal, transformar uma arte marcial secular em dança comercial é por si só uma ousadia.

E o clipe da música é praticamente um curta:

Carl Douglas – Kung Fu fighting, 1974

O carisma às avessas de Paulo Francis

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Paulo Francis criou para si um personagem tão forte que fica difícil fugir dos chavões que se falam dele há tantos anos. O documentário “Caro Francis”, no entanto, mostra que talvez não conheçamos assim tão bem este que foi um dos mais famosos jornalistas brasileiros das décadas de 70, 80 e 90. Eu não sabia, por exemplo, que ele tinha sido trotskista. Nem que tinha começado a carreira no teatro amador.

Entre as besteiras e genialidades que proferiu, Francis se consagrou por uma coisa que perseguimos muito no jornalismo: o estilo. E o filme mostra a construção minunciosa deste estilo. Seu modo de falar tão característico, por exemplo, foi inventado. Sua capacidade de gerar polêmicas era seu marketing, o que valorizou o seu passe pelos grandes veículos em que trabalhou.

Respeito Nelson Hoineff por ter realizado dois filmes em menos de um ano – “Alô, Alô Terezinha!”, sobre Chacrinha, foi lançado há menos de três meses. Detalhe: nenhum dos dois conta com patrocínio governamental. É verdade que “Caro Francis” é um filme enxuto. Calcado em depoimentos, tem um quê de programa de TV educativa. Mas nem por isso deixa de ser um registro relevante, que conta muito bem a história de alguém que tanto mobilizou a opinião pública brasileira.

Os alienígenas hippies de “Avatar”

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“Avatar” é um filme muito signficativo de como as mudanças aventadas pela Era Obama podem ser mais sutis e vagarosas do que pensamos.

O filme explicitamente discute a ocupação do Iraque e a preocupação com a tal da “sustentabilidade”, mas não avança muito sobre como entendemos a questão da tolerância e da utilização responsável dos recursos naturais.

A missão das tropas terrestres encabeçadas pelos EUA é explorar um planeta exótico em busca de um mineral que vale 20 bilhões de dólares o quilo, mas o próprio filme não diz para que serve (petróleo?). No começo, até me surpreendi com alguns detalhes que enriqueceram o argumento. Um ex-combatente militar assume a posição de seu irmão gêmeo, cientista morto em um assalto. Ele é paraplégico. Promissor, não?

Mas daí a coisa degringola para a pieguice e para o politicamente correte. E para se ter uma noção de como o preconceito está introjetado, em um dado momento um general envolvido na tarefa diz que a missão em Pandora (o planeta exótico) seria pior do que a que o marine e cientista acidental enfrentara na Venezuela. Que tipo de comparação é essa?

Problemas de aculturação decorrentes desse choque, uma nação de bons selvagens que têm uma “conexão bioquímica” com a natureza… Parece que ainda estamos falando dos hippies das décadas de 60 e 70. É triste ver que ainda precisamos de analogias para compreender os nossos próprios problemas. Não muito longe daqui há enchentes que colocam pessoas em condições subumanas, uma crosta nojenta de poluição no horizonte, gelo que não deveria derreter se desfazendo em água com a elevação da temperatura global. Um rinoceronte com quatros olhos em uma floresta fluorescente não me impressiona muito mais que isso.

E há o 3D, que está mais a serviço da salvação das salas de cinema em tempos de pirataria do que da história contada pelo filme.

De volta à Federal

Cheguei ao portão da Federal na hora certa, bem quando a velha fábrica e biscoitos da rua Doutor Pedro Vicente baforava aquele cheiro doce. Fiquei surpresa por ainda existir a fábrica ali, naquele canto entre o Pari e o Canindé que eu vi sendo abandonado há mais de dez anos, desde quando estudava por lá.

Dentro da Federal, as coisas mudaram um pouco mais. Primeiro foi o nome. Ingressei na Escola Técnica Federal, me formei pelo Centro Federal de Educação Tecnológica e farei um breve estágio no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. Na esteira disso vieram os cursos. Antes eram apenas seis tradicionais, entre técnicos e tecnológicos. Enquanto eu estava lá implantaram Turismo e Licenciatura em Física. Agora já perdi a conta.

Mas o que mais me marcou foi a reforma do “prédio de Edi”. Ele agora é chamado de “Construção Civil” e cresceu muito; um reflexo do boom deste setor no país. Ainda não tive estômago para entrar lá no primeiro dia, mas estou curiosa. Não deve haver mais pranchetas. Os canteiros de alvenaria, hidráulica e elétrica devem ter sido reconfigurados e ele deve ter pedido o charmoso mezanino.

Ao mesmo tempo em que me lembrei da primeira vez que estive ali me senti de certa forma novamente em casa. No bom e velho saguão nada mudou. Passei tanto tempo ali que aquele piso de plurigoma e aqueles bancos de praça estão impecavelmente impregnados na minha memória, como se eu ainda os frequentasse. A Federal foi a minha primeira referência de conquista, frustração, amizade, amor e trabalho. Irei explorá-la um pouco mais, por uma semana, para que em algum momento eu possa devolver a ela uma pequena fração de tudo o que ela me proporcionou.

Enfim, a ação no cinema nacional

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Estou gostando desta história da Andréa Beltrão se achar o Bruce Willis brasileiro. Depois do ótimo “Verônica”, ela volta em “Salve Geral”; um filme mais ambicioso, mas que mesmo em suas limitações mostra um cenário otimista para o cinema nacional.

O que me animou em “Verônica” foi ver um filme brasileiro de ação extremamente bem realizado. Com um argumento enxuto e envolvente, tem um “tamanho”, se posso assim dizer, que até pouco tempo não havia em nosso cinema. Nem grande nem pequeno; nem blockbuster nem independente. Ter um filme com este padrão, e bem feito, é sinal de um cenário maduro e promissor.

“Salve Geral” tem uma proposta diferente, se assemelha em seus defeitos e qualidades a filmes maiores como “Sequêstro do Ônibus 174″ e “Carandiru”. Como ambos, tem bons atores e um bom roteiro, mas por vezes escorrega na pieguiçe e na empatia exagerada com os bandidos. O grande ponto de “Salve Geral”, no entanto, é ir um pouco além ao colocar a classe média em uma sinuca de bico. Aos poucos o presidiário acidental e sua mãe vão se envolvendo com o crime, o que mostra que, muitas vezes, a questão da violência não é dada a maniqueísmos e obviedades. E é na sua habilidade em retratar estas nuances que o filme agrega.

Obviamente, alguém vai reclamar que este é mais um retrato da violência no Brasil. Pois eu digo que, enquanto a desigualdade e a violência existirem e estiverem presente em nosso cotidiano elas servirão de inspiração para o cinema e qualquer outro tipo de arte. E já que é assim, que se aprimorem as formas e se aprofundem as discussões, como já é possível ver em “Salve Geral”.

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