O embate de valores em “Foxcatcher”

A luta, em suas mais diversas modalidades, já serviu de inspiração para diferentes filmes: da popularíssima série “Rocky”, passando pelo icônico “Touro Indomável” aos mais recentes “O Lutador”e “O Vencedor”. Em comum, a maioria se apoia no carisma do personagem principal para passar uma mensagem de superação e glórias ao final de uma jornada dolorosa.

“Foxcatcher” se diferencia um tanto desta linhagem. Nele, o esporte é o fio condutor de uma história muito particular e sombria, mas que de forma mais ampla trata de uma verdadeira crise de valores na sociedade americana moderna.

Mark Schultz, um medalhista de ouro olímpico vivido por Channing Tatum, é mostrado no início do filme de uma maneira digna de dar pena. Um atleta de ponta, com formação universitária, mas que parece mal ter condições de se alimentar direito. Desde o começo, portanto, o filme já nos coloca em uma situação de desconforto. Ao invés de nos identificarmos com o personagem principal, nos compadecemos dele.

Uma oportunidade surge a Mark quando um milionário misterioso se oferece para patrociná-lo, dentro de sua equipe particular de luta. Apesar de esperarmos que a situação de nosso herói melhore, ficamos com a impressão de que, quando a esmola é demais, o santo desconfia, e que algo pode dar errado a qualquer momento.

Steve Carell vive o milionário John Du Pont com uma entrega que pode lhe render o Oscar de melhor ator – embora, de tão inusitada, sua presença possa parecer um ruído. Carell demora alguns minutos do filme para começar a convencer. Na primeira cena, parece que a qualquer momento ele vai tirar o nariz postiço, olhar para a câmera e soltar um “that’s what she said!”, seu bordão em “The Office”. Mas, aos poucos, ele parece se beneficiar da faceta mais insana do personagem – aí sim um tipo que o comediante tem familiaridade em interpretar – e passa a convencer. E como.

De um lado, um atleta hermético. Quase uma máquina na luta, de boa índole, mas vulnerável com extrema dificuldade em demonstrar seus sentimentos. De outro, um milionário repulsivo, com quase nenhuma característica positiva aparente, e intenções obscuras. É nesse clima de tensão permanente que o filme se desenvolve.

A terceira ponta do enredo é o irmão mais velho e mentor de Mark. Dave Schultz. Interpretado por Mark Ruffalo, Dave também é um campeão de luta e tem forte influência sobre Mark. O irmão mais experiente não chega a o ofuscar o mais novo; pelo contrário, é nítida a sua obstinação em ajudá-lo a encontrar o seu potencial. No filme, fica claro que Dave é o oposto de Du Pont. Tem a liderança natural e a legitimidade que todo o dinheiro do milionário não pode comprar. O embate de valores – vitória, dinheiro, admiração, patriotismo e amizade – sai então do esporte para o contexto de uma América que não perdoa perdedores e que cobra um preço muito alto para quem não aceita as regras do seu jogo.

“Foxcatcher” é um excelente thriller psicológico, e aproveita bem a incrível história real na qual é inspirada. Vale pelo enredo e pelo envolvimento que provoca no espectador. Mas perde por tratar os personagens de forma binária. Os conflitos são todos explicitados, mostrados em imagens e diálogos. Um pouco mais de nuances aos personagens teria deixado este um filme ainda mais interessante do que já é.

A humanidade caminha no ritmo de “Boyhood”

A cada dia, acontecem pequenos e grandes fatos em nossa vida que vão forjando a nossa identidade e a nossa história. Por mais importantes que alguns deles sejam, às vezes é até difícil de pontuá-los no tempo. Quando você escolheu a sua profissão? Quando você se apaixonou – ou decidiu se separar? Que mudanças determinada pessoa provocou em sua vida?

“Boyhood” parte desta dimensão cotidiana dos acontecimentos, mas não se limita a ela. Não há episódios, grandes marcos ou arroubos. O filme não enfoca eventos que costumam ser registrados em fotos, vídeos ou nas redes sociais, como festas e viagens. Esses acontecimentos são elipsados por fatos que revelam mais sobre as pessoas do que os momentos solenes, nos quais elas se armam. É uma pergunta difícil que tem de ser respondida de forma franca. Uma decisão que tem de ser tomada. Uma coisa chata que precisa ser feita para que se possa seguir em frente. Isolados, os acontecimentos do filme podem parecer ordinários e superficiais. Em conjunto, porém, ganham a dimensão de uma vida.

O efeito de ver os personagens envelhecendo 12 anos em três horas impressiona. E é muito bom constatar que este recurso precioso não é um fetiche, mas um trunfo que está a serviço do naturalismo da história. A amarração precisa do roteiro e o notório envolvimento dos atores no projeto fazem com o filme seja muito mais do que uma retrospectiva de festa de aniversário.

Além da metamorfose pela qual passa o garoto, o filme também acompanha a evolução de sua família ao longo dos anos, o que lembra que ninguém é uma ilha e que tudo caminha ao mesmo tempo, mesmo que em direções e ritmos diferentes. A juventude é um momento rico para pontuar essas mudanças, pois elas são marcantes na busca por uma identidade. Mas é interessante notar como essa transformação opera, de forma mais sutil, nos pais do garoto, por exemplo.

Do diretor Richard Linklater se espera uma mistura de sensibilidade e inteligência, e “Boyhood” não fica nada a dever nesse quesito à consagrada trilogia “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr do Sol” e “Antes da Meia Noite”. Esta trilogia, por sinal, foi uma precursora na ideia de acompanhar os personagens ao longo do tempo – com a diferença de que o casal é acompanhado em três obras diferentes. O público que se apaixonou por Jesse e Celine no filme de 1995 não deixaria por nada de ver o que acontece quando eles já têm seus bons anos de casados em 2013.

“Boyhood” também engaja, e dá margem a pensar o que acontece com os personagens no futuro. Mas isso não significa que seja uma obra incompleta. A juventude pode ser definidora do que se será quando adulto, mas é complexa em si mesma. Entre dúvidas, insegurança e impetuosidade reside um ser pleno, que vai compreendendo aos poucos o mundo à sua volta, e aprendendo a lidar com ele. O que “Boyhood” nos dá é o privilégio participar juntos deste processo.

A América que não é para amadores

Filmes sobre o mercado financeiro são quase um gênero à parte do cinema, especialmente nos Estados Unidos. É até curioso pensar que um diretor como Martin Scorsese, que tanto se dedicou aos meandros da cultura norte-americana, ainda não tivesse feito um filme com este tema. Demorou, mas Scorsese fez. E fez de uma forma vigorosa e até surpreendente em “O Lobo de Wall Street”.

Quando se fala em um filme sobre dinheiro e poder, a primeira ideia que vem à cabeça é algo pesado e sisudo como “Wall Street”, de Oliver Stone, ou “Margin Call – O Dia Antes do Fim”, de J.C. Chandor. Scorsese vai por outro caminho, o do humor. É desconstruindo os pilares sérios normalmente atribuídos ao sucesso que ele mostra a picaretagem de Jordan Belfort, personagem encarnado por Leonardo DiCaprio, que fica rico vendendo ações de segunda classe para pessoas muito pobres e cometendo fraudes no mercado financeiro.

Não apenas Jordan Belfort é ganancioso. Seus corretores – a quem são prometidos mundos e fundos –, comparsas e até os clientes na ponta da linha o são. Todos esperam enriquecer muito, e rápido. A função de Belfort é basicamente orquestrar essa cadeia de ganância, e ganhar o máximo com ela. E o que fazer com todo esse dinheiro? Para ele, a resposta é óbvia: sexo e drogas. Parece haver uma carreira de cocaína, uma pílula, uma bebida ou uma mulher nua em cada frame do filme. O visual oitenta-noventista contribui para afastar uma eventual depressão e deixar tudo meio cafona e muito animado.

Scorsese tem uma forma muito peculiar de retratar o vazio que o dinheiro e o poder trazem. Belfort não é um cara mascarado e não parece ter vergonha de admitir, para os outros e sobretudo para si mesmo, a pessoa que se tornou. Esse vazio não tem nada de romantizado, mas se reflete em desapego e em uma perda perigosa de noção entre causa e consequência. São as famosas nuances, que tornam o que poderia ser uma caricatura em algo um tom acima da realidade, mas com feições humanas que sempre nos falam à alma.

Nesse sentido, a entrega de Leonadro DiCaprio é um assombro. O endiabrado Leo convence em cada segundo; acredita com fervor no que diz e no que faz. Isso até em momentos onde a dignidade do personagem chega ao abaixo de zero. Scorsese sempre acreditou em DiCaprio. Embora não dê para dizer que o ator não tenha dado conta do recado nos trabalhos anteriores que fizeram juntos (“Gangues de Nova York”, “O Aviador”, “Os Infiltrados” e “Ilha do Medo”), é em “O Lobo de Wall Street” que a parceria Marty & Leo atinge o mesmo patamar da parceria Marty & Bob DeNiro. Até um jovem Joe Pesci particular Leo ganhou – o carinhosamente chato Jonah Hill.

“O Lobo de Wall Street” é sexy, exuberante e histérico. Embora pareça ter menos do que suas três horas, poderia até ser mais curto. Mas perderíamos um tanto dos caprichos e viagens de Jordan Belfort – e talvez muito da riqueza desse retrato sobre a ganância humana.

“The Bling Ring” e o desalento de uma geração

Sofia Coppola chega ao seu quinto filme com “The Bling Ring” – uma cinematografia relativamente curta, mas extremamente consistente. Mais uma vez, a diretora se debruça sobre os dilemas da juventude, inspirada por uma matéria da Vanity Fair sobre jovens que invadiram e roubaram casas de artistas de Hollywood.

O tema parece fútil, mas o filme está bem longe disso. Roupas grifadas e baladas exclusivas são apenas o pretexto para tratar do vazio e da desolação de toda uma geração. Com delicadeza – e sem juízo de valor – o filme retrata as motivações desses atos. Os personagens não têm condições de comprar todas as peças de marca que desejam, mas o que os move não é apenas o fato de tê-las. O que está em jogo é atitude ligada a elas. Circular na casa de uma celebridade e sentir-se íntimo dela – mesmo que ela não esteja lá – vale mais do que qualquer peça comprada em uma loja.

Os garotos contam em festas e publicam seus feitos na internet – uma atitude que beira a ingenuidade, mas que na verdade reflete uma necessidade obsessiva por reconhecimento. Se antes da era das redes sociais as pessoas assim tendiam a se frustar na busca por serem populares, agora é mais fácil e controlável se expressar na internet. Quem é tímido encontra um espaço para se expor; quem é “esquisito” pode transformar isso em estilo. Há espaço para todos.

Esse sentimento de inadequação dos protagonistas é reforçado a todo momento. Entramos então em uma espécie de paradoxo: embora busquem a legitimidade em seus pares, o grupo parece bastar-se em si mesmo para se divertir. Sequer é preciso interagir de fato – basta publicar a coisa certa e esperar os louros (“likes”). A relação com os demais é apenas para construir o mito, o fetiche de ter o que todos querem ter e estar onde todos querem estar. A ideia é ser querido sem que as pessoas conheçam as suas nuances e os seus defeitos.

Em contraponto a um mundo tão calcado na força da imagem, o texto de “The Bling Ring” é sutil, complementando e nunca repetindo ou banalizando o que é visto na tela. Exemplo de uma ótima frase muito bem colocada é a entrevista da personagem de Emma Watson, quando ela diz que Lindsay Lohan (uma de suas vítimas, ironicamente presa na mesma cadeia que ela) vestia a mesma roupa laranja que as outras detentas. O ciclo se inverte e se fecha.

Os delinquentezinhos podem ter sido condenados a detenções e multas, mas ninguém pode dizer que não foram longe. Assim como ninguém menos que Maria Antonieta, ganharam um filme de Sofia Copolla. Não é pouca coisa.

Lendo os sinais de “O Lado Bom da Vida”

Quando se conhecem, os protagonistas de “O Lado Bom da Vida” já passaram pelo pior. Pat Solitano, interpretado por Bradley Cooper, amargou um período em um hospital psiquiátrico após surtar por flagrar sua mulher com outro. Tiffany, vivida pela futura vencedora do Oscar, Jennifer Lawrence, perdeu o marido em um acidente e tem seu comportamento julgado por todos à sua volta.

O que tinha para acontecer de ruim já aconteceu, mas é preciso agora juntar os cacos. Jovens, belos e loucos, os protagonistas percebem juntos e aos poucos o esforço que precisam fazer para se adaptarem novamente à vida cotidiana. Um desafiador concurso de dança se coloca como o horizonte que eles haviam perdido, e é nesse processo que a química entre o casal se desenvolve.

Por maior que seja o amadorismo de Pat e Tiffany na dança, o concurso representa para eles o resgate de aspectos como compromisso, interação social, preparo físico e sensibilidade artística. E, não menos importante, a dança dá vazão à tensão sexual entre eles.

Se há muita expectativa dos outros em relação ao casal, é no objetivo que eles mesmos se propuseram que reside o seu maior desafio. Na busca por uma aparente normalidade está tudo aquilo que lembra o quão ricas e complexas podem ser as relações humanas. A loucura não é tratada como algo binário, mas como uma herança particular com a qual cada um tem que lidar – seja consigo mesmo, seja com as pessoas ao seu redor.

O supersticioso pai de Pat (um Robert De Niro humano como há muito tempo não se via) pode nos fazer acreditar que pequenos e desconexos atos podem interferir em um destino. Mas, como aponta Tiffany, é também preciso ler os sinais para perceber que as respostas podem estar mais próximas do que parecem. Muitas coisas aparentemente desconexas aconteceram para que Pat e Tiffany se encontrassem. A partir de então a bola está com eles.

“O Lado Bom da Vida” arrebatou indicações nas categorias mais importantes para o Oscar deste ano – filme, diretor, roteiro adaptado, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante e montagem. Bradley Cooper constrói o personagem com carisma e mostra a dignidade por trás de uma mente perturbada. Mas não convence totalmente, talvez até bela sua beleza. Por exemplo, é difícil acreditar que ele tenha sido obeso, como indica o filme. E mais ainda é difícil acreditar que uma mulher o trairia com alguém tão mais velho. Perto do furação J. Law – de movimentos comedidos, mas com uma fúria genuína no olhar e no tom de voz – isso fica ainda mais evidente.

O filme passeia por entre o que está dado pelo cenário traumático colocado aos protagonistas e a limonada eles fazem com esses limões. Enquanto insistem em um comportamentos de negação e autoboicote, eles sofrem. Apegar-se a um relacionamento falido, como faz Pat, é claramente o pior caminho, mas é mais fácil falar do que fazer. A agressividade de Tiffany parece infantil, e a faz se afastar das pessoas. Mas é da faísca do encontro dessas pertubaçãoes que a relação entre eles vai florescer.

Spaghetti à Tarantino

“Django Livre” tem todo o vigor e o rigor dos filmes de Quentin Tarantino. Sem abrir mão do apelo pop e da violência que marcam a sua obra, o diretor segue pelo caminho épico aberto pelo brilhante “Bastardos Inglórios”.

Em “Django”, Tarantino deixa a sua impressão digital sem precisar apelar para seus próprios clichês. Não há preguiça. O diretor coloca o seu estilo a serviço de uma homenagem ao filmes de spaghetti western, equilibrando a sua visão particular do mundo com uma história de vingança e amizade que merece ser contada com toda a pompa.

A escravidão e as histórias do velho oeste norte-americano possuem códigos de violência consolidados em nosso imaginário. O que Tarantino traz é uma visão explícita e irônica sobre esse período, nunca vista antes. Spike Lee foi um dos que denunciaram um eventual teor racista no filme, pelo uso indiscriminado da paravra “nigger” (crioulo) e da visão estetizada da escravidão. Pois penso um pouco diferente: ao trazer uma estética que remete aos filmes blaxploitation dos dos anos 70 e uma trilha sonora contemporânea, com funk, rap e R&B, o diretor quis justamente provocar o estranhamento e a reflexão sobre o absurdo que a escravidão representa e as suas nefastas consequências.

Como em todo filme de Tarantino, a escolha do elenco é primorosa: Jamie Foxx traz a altivez, marra e sagacidade que caracterizam os protagonistas tarantinescos. Christoph Waltz apaga qualquer comparação que poderia ser feita com seu papel marcante em “Bastardos Inglórios”, e faz com primor um europeu carismático e cerimonioso. Leonardo di Caprio e Samuel L. Jackson também estão memoráveis.

Difícil sair da sala de cinema sem sentir pelo menos um ou dois arrepios na espinha. Não pela violência em si, mas pela inteligência e pelo olhar inusitado que o diretor lança sobre algumas situações. A rapidez e a naturalidade dos diálogos e a incrível fotografia nos colocam em pontos privilegiados da História onde não costumamos estar. Vejo “Django” não como uma sátira, mas como uma reverência aos filmes de faroeste e spaghetti western. É um filme grandioso, daqueles que nos deixam de alma lavada no final.

O menino e o tigre

O medo e a solidão são sentimentos que poderiam inspirar filmes tensos e obscuros. Não é o caso de “As Aventuras de Pi”, que traduz a intensidade da experiência do menino Pi Patel em uma viagem visualmente deslumbrante. Mesmo antes do naufrágio de um navio em que cruzava o Pacífico – quando o garoto indiano se vê a sós com um assustador tigre de Bengala – a trajetória de Pi já se mostra interessante. Afinal, nascer na Índia multicultural dos anos 60, chamar-se Piscine, ter três religões e ser criado em um zoológico não poderia deixar um ser humano impune.

“As Aventuras de Pi” está centrado na relação do garoto com o tigre Richard Parker durante a viagem de ambos. Temos então um animal com nome de gente, e uma pessoa com nome de coisa. Embora mostre a todo momento uma fé inabalável, nosso herói sabe muito bem como manipular as suas crenças para ter cada vez mais capacidade de sobreviver. Por trás de uma luta institiva e visceral, há mais racionalidade (e mais uma jogada com o nome Pi, que na matemática é um número irracional) do que se pode esperar.

“Pi” é menos indiano do que aparenta. Estar na maior parte do tempo em alto mar de certa forma o torna neutro, pronto a ganhar corações e mentes das mais diversas orientações. A jornada é, acima de tudo, bela e traz uma mensagem interessante sobre como as pessoas enfrentam situações-limite e lidam com seus próprios temores.

Mais da Mostra

O Peso da Culpa
Alemanha
Cotação: ***
A Alemanha é pródiga neste tipo de experimentação: em uma casa aberta, um casal de assistentes sociais recebe infratores em um sistema de controle mútuo. Todos têm voz para acusar, mas também devem assumir a responsabilidade por seus atos. Há um sistema de promoção similar ao dos escoteiros, no qual os mais “graduados” são responsáveis por acompanhar os novatos até no banho. Mas todo esse sistema heterodoxo de ressocialização é colocado à prova quando um dos infratores reconhece na assistente social uma de suas vítimas. O que se desencadeia daí é uma série de hesitações, que vão culminar em uma tensão quase insuportável para os envolvidos.

Satellite Boy
Austrália
Cotação: ***

Um garoto descendente de aborígenes sai dos rincões da Austrália e atravessa o deserto para salvar a terra de seu avô de uma gananciosa indústria de mineração. Em sua aventura, o garoto-satélite faz a ligação entre tradição, modernidade e seu território ancestral. Pelo deserto, encontra os restos da passagem dos homens que ali foram largados – construções, antenas, casas. O que faz pensar sobre como usamos e descartamos o que nos interessa de acordo com a conveniência. O menino não demora a perceber que sua cultura ancestral também faz parte desse jogo.

Metro
Brasil/França
Cotação: ***

Realizado por um brasileiro, então estudante de cinema e modelo vivo em Paris, este filme traça um retrato dos frequentadores do metro da capital francesa. Além dos passageiros, chama a atenção as entrevistas com os trabalhadores do metrô – especialmente a franqueza dos condutores em falar sobre a falta de perspectiva (quase que literalmente) de seu trabalho. Quem poderia imaginar que os instaladores de cartazes encarnam os movimentos rápidos de Bruce Lee para realizar o seu trabalho? No melhor estilo Eduardo Coutinho, a incrível história do mendigo que dirigia uma Maserati também comove.

“Aqui e Ali” e a continuação da jornada do herói

O que acontece com o herói quando a sua jornada acaba? Em “Aqui e Ali” (Espanha/México/EUA), vemos um homem batalhador retornar ao seu vilarejo no México, após uma temporada de trabalho em Nova York. Ao mesmo tempo em que está feliz ao ficar perto de sua família, sente na pele a falta de oportunidades para dar a ela uma melhor condição de vida.

“Aqui e Ali” não é um filme de tensões. Por mais dificuldades que o nosso herói enfrente, ele faz tudo parecer natural, encarando-as com muita hombridade e serenidade. Mais do que a capacidade de superação, a marca que fica é a de sua dignidade inata.

Ajuda nesta construção a sensibilidade de sua alma de artista. Pedro intercala os trabalhos mais braçais com a função de tecladista e vocalista em uma banda local. Sua mensagem e seu coração se traduzem tanto na sua música quanto nas suas ações.

Cotação: ***

“Tabu”: amor e reflexão entre Portugal e África

O cineasta português Miguel Gomes consagrou-se pela forma única e despudorada com que trata os conflitos da adolescência e da juventude. Assim foi com “Aquele Querido Mês de Agosto” e com muitos de seus curtas, que estão em exibição nesta edição da 36ª Mostra de Cinema de São Paulo.

No entanto, o filme que trouxe para a Apresentação Especial da Mostra deste ano, o premiado “Tabu”, é uma história de gente grande, que envolve reflexão e um amor mais maduro, mas não menos inconsequente.

Em uma investigação sobre o passado de sua temperamental vizinha idosa, uma mulher e a empregada dessa vizinha descobrem um amor de seu passado, vivido com pitadas de aventura e exotismo em uma África longínqua.

Menos visceral do que outras obras de Gomes, “Tabu” é elegante, todo filmado em preto e branco. A opção por centrar a história no passado dá um caráter extremamente reflexivo ao filme, embutindo o balanço e impacto desse relacionamento na vida dos envolvidos.

Miguel Gomes reverte algo tão clichê quanto um amor proibido em uma forma inovadora. Se tivesse sido feito nos Estados Unidos, esse filme seria como um “Titanic”, e seguiria as suas fórmulas. Mas Gomes não lança mão de fórmulas. A começar pela ordem narrativa, que começa pelo fim, passa para o começo e depois mostra o desenvolvimento da ação. Durante o flashback, por exemplo, não ouvimos a voz dos atores, apenas a narração. São soluções que transformam o que poderia ser uma história de amor antiquada em algo realmente vibrante.

“Tabu” traz na bagagem os prêmios Alfred Bauer de Inovação e da Crítica Internacional, conquistados no Festival de Berlim.

Cotação: ****

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