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	<title>femme infâme</title>
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	<description>desculpe aturá-la</description>
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		<title>fixar pensamentos na vida offline</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Jan 2010 16:26:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorelei Lee</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há 13 dias perdi parte do que fui. Havia um pequeno arquivo na tela do meu computador chamado &#8220;laureografia&#8221;: era uma quarentena de textos. Não devia ter mais que 20KB. Caberia em um disquete de 3&#8242; 1/2. Tão importante era este arquivo e tão intimo que eu nunca quis fazer copia. Pensei em salvá-lo no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há 13 dias perdi parte do que fui. Havia um pequeno arquivo na tela do meu computador chamado &#8220;laureografia&#8221;: era uma quarentena de textos. Não devia ter mais que 20KB. Caberia em um disquete de 3&#8242; 1/2. Tão importante era este arquivo e tão intimo que eu nunca quis fazer copia. Pensei em salvá-lo no meu e-mail, mas não o fiz, pois &#8216;e se alguém entra no meu e-mail?&#8217;.</p>
<p>Mas há 13 dias eu cheguei em casa e alguém tinha passado por lá. Invadir o e-mail parecia tao mais provavel&#8230; e engraçado, quando a gente mora sozinho, inho-inho-inho, às vezes tem uma fita de cetim (eu tenho muitas fitas de cetim, de varias cores) fora do lugar e a gente pensa &#8220;caramba, fui eu mesma que coloquei aquilo ali? Em plena consciência, eu jamais faria isso&#8221;. E por um lapso infimo de tempo, os olhos reviram imaginando que talvez não tenha sido você, mas alguém que passou por ali enquanto você não estava olhando (por isso é sempre a empregada que se fode). Mas isso nao é possivel, não é mesmo? As portas estavam trancadas, a janela travada e aqui ninguém tem empregada, muito menos eu. Ninguém esteve ali, isto é certo. A não ser que possamos considerar gnomos e toda a máfia de São Longuinho.</p>
<p>Mas há 13 dias eu soube que alguém tinha estado lá. Essa certeza é exatamente o contrário daquele lapso infimo de tempo. Principalmente por durar bastante. Ela permanece. Antes, se eu pensasse, por exemplo, &#8220;por que o cumaru (também conhecido como<em> tonka bean</em>), nativo da floresta amazônica, que tem um cheiro tao gostoso e parecido com a baunilha, é proibido nos EUA&#8221;, eu abriria meu computador na minha casa e descobriria apos consulta gratuita com o deus Google que a razao disso é a forte presença de coumarina, uma substância quimica natural, que em grandes doses pode ser muito toxica. Mas, até ai, noz-moscada também é muito toxica e a gente nunca ouve falar de overdose de noz-moscada. E então eu pensaria sobre a influência do Estado na vida intima das pessoas, na necessidade idiota de criar leis sobre coisas minusculas e desimportantes e no fato de eu ter nascido no planeta Terra mas nao poder morar em qualquer pedaço de terra dentro dele simplesmente porque alguém chegou lá antes. Em seguida eu ficaria assustada imaginando como devia ser desesperador para os indios a ideia de que precisavam de um papel chamado escritura para provar que eram eles os donos da terra, se eles sempre estiveram lá, isso era logico. E talvez, logo apos, eu lembraria de reunir os documentos necessários para minha entrevista com as autoridades francesas para renovar meu visto e fecharia meu computador, desejando entretanto que toda a burocracia do mundo explodisse. Mas em nenhum momento eu pensaria no meu computador. Ele estar ali era certo, obvio, normal.</p>
<p>Mas agora eu não tenho mais computador. Tenho, por outro lado, uma fechadura nova, mais potente e muito mais cara. E cada pergunta que me surge na cabeça, eu tenho que pensar mais sobre o que fazer para respondê-la. Se ela é mesmo interessante, devo anota-la. Nao em qualquer lugar, porque pior que esquecer um pensamento é esquecer onde ele foi anotado. Para isso, cria-se a necessidade de uma caderneta que esteja sempre comigo e que sirva somente para isso, como um arquivo movel chamado &#8220;duvidas.txt&#8221;. No caso do <em>tonka bean</em>, a resposta podia ser encontrada numa enciclopédia de gastronomia que estava servindo mais como apoio de badulaques na minha prateleira que como livro.</p>
<p>E quando o verbete acaba, eu posso continuar lendo sobre a fermentação do chocolate e do porquê do chocolate branco nao ser um chocolate. Ou eu posso olhar para o teto e lembrar que, desde que eu tirei o papel de parede horroroso que cobria a superficie da minha mansarda recém-invadida não coloquei o acabamento dos frisos no teto, e que aqui a gente tem que aprender a fazer tudo sozinho.</p>
<p>E a verdade é que eu nao tô sentindo muita falta do computador.</p>
<p>Ao contrario, mesmo. Tô sentindo um alivio. É como se eu tivesse reencontrado o ritmo temporal para o qual eu fui feita.</p>
<p>Voltar a escrever com papel e caneta é mais dificil do que eu imaginava. O ritmo é completamente outro. Mas sobre isso eu falo depois.</p>
<p>Entao o computador era um habito. Mas nao um vicio. Espero conseguir lembrar desses dias quando outro computador ocupar minha mesa.</p>
<p>Mas ai, aquele arquivo&#8230;</p>
<p>Entao eu lembrei que, apesar de tudo, os textos que estao aqui neste endereço se salvaram. E dei um suspiro.</p>
<p>(desculpem-me pelos acentos, estou num teclado francês. Ele possui uma logica que escapa  à minha compreensao: tem que apertar shift para fazer ponto final, entre outras coisas)</p>
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		<title>tentativa de avaliação sociológica do amor contemporâneo</title>
		<link>http://anivelde.org/femmeinfame/2009/12/20/tentativa-de-avaliacao-sociologica-do-amor-contemporaneo.htm</link>
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		<pubDate>Sun, 20 Dec 2009 17:15:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorelei Lee</dc:creator>
				<category><![CDATA[cogitabunda]]></category>

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		<description><![CDATA[Ignorance is Bliss

Era uma vez, num reino não muito distante, a palavra divórcio não existia do vocabulário jurídico e as mulheres geralmente casavam virgens. Não podiam sair beijando por aí e muito menos dar pra quem desse na telha, porque a crença geral era de que a fina flor borbuceteante era frágil e quanto mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><strong>Ignorance is Bliss</strong></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Era uma vez, num reino não muito distante, a palavra divórcio não existia do vocabulário jurídico e as mulheres geralmente casavam virgens. Não podiam sair beijando por aí e muito menos dar pra quem desse na telha, porque a crença geral era de que a fina flor borbuceteante era frágil e quanto mais manipulada, menos valor tinha. O eleito ao posto de cara-metade, cônjuge (com quem se divide o jugo, a pena &#8211;a etimologia é sempre reveladora!) ou consorte &#8211;como preferir&#8211; via-se na situação confortável de única (presumia-se!) referência emocional-sexual na vida da donzela a ele prometida. Se o cara beijava mal, se roncava, tinha chulé, se só-dava-três-gozava-e-virava-pro-lado, a tendência da jovem esposa era crer que, bem, a vida é assim mesmo&#8230; pois como imaginar que poderia ser diferente se não havia com o que comparar? Não é à tôa que se casava cedo, pois só assim adquiria-se acesso aos mistérios gozosos, lícitos &#8211;na cama conjugal&#8211; ou ilícitos&#8230; em qualquer lugar.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Ao menos, imagino eu que era assim. Pelos filmes, pelos livros, pelos relatos.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><strong>Festa do Cabide</strong></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Mas já faz tempo que temos pílula, ganhamos dinheiro e&#8230; damos pra quem bem entender. Já faz algum tempo. No começo o pessoal se empolgou. Quem leu &#8220;A Mulher do Próximo&#8221;, do Gay Talese, <em>got the picture</em> da coisa nos EUA &#8211;embora a abstinência seja levada muito a sério em nossos dias, vide política de educação sexual do governo Bush. Aqui na França não sei bem ainda como se deu&#8230; afinal, romances pornográficos já serviam de sátira política e social antes mesmo da revolução de 1789, ou seja, embora à boca pequena, todo mundo (que sabia ler, não era a maioria) sabia bem o que acontecia na alcova alheia. Por outro lado, conheço a história de uma mulher que, ao divorciar-se nos idos dos anos 1980 em uma cidade pequena da <em>campagne française</em>, foi escorraçada pela família. Afinal, se o marido tinha arranjado uma amante, a culpa só podia ser dela, a esposa. Divorciar-se era falta de vergonha na cara.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">(Parênteses: quando fala-se de tendências quaisquer no mundo, fala-se sempre de uma minoria. É um quero-ser exercício de previsão do futuro, de identificação de epidemia cultural. Entretanto, a maioria dos 6,5 bilhões de seres humanos parece estar quase sempre de fora &#8211;talvez porque seja tão difícil incluir culturas tão díspares quanto da China e da Índia na nossa descendência católica romana? Fala-se da perspectiva do umbigo, portanto, ressalvas a fazer. Fecha parênteses:)</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">No Brasil, que já é tão grande e tão díspare dentro dos próprios limites, talvez possamos identificar uma empolgação importada dos EUA nuançada pela &#8220;feérica, irisada, multicolorida variedade&#8221; do machismo tropical. Pornochanchada com ditadura militar, Dancin&#8217; Days e TV Mulher.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">O HIV foi uma banho de água fria, maldição contedora dos ânimos exaltados da liberdade sexual. Mas me parece que desde o milagre de Magic Johnson, a coisa perdeu parte do seu poder aterrador.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><strong>Le Mal du Temps</strong></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Outro dia, conversando com uma das minhas professoras preferidas na faculdade, uma senhora muito sábia e simpática de uns 50-60 anos, com quem tenho aula de árabe e antropologia da comunicação, o assunto virou para &#8216;as linguagens amorosas&#8217; de cada cultura. Eu comentei que não me entendia e nem tenho vontade de me adaptar ao que me parece ser o modo francês de &#8216;fazer a corte&#8217; &#8211;um joguinho de gato e rato, no qual a mulher é tanto mais desejada quanto mais se mostra maquiavélica, manipuladora e insensível. Ela, após perguntar se eu já tinha lido &#8220;Fragmentos de um Discurso Amoroso&#8221;, me disse uma frase que está na minha cabeca até agora: <em>&#8220;la liberté sexuelle a tué l&#8217;amour&#8221;</em> (&#8221;a liberdade sexual matou o amor&#8221;). A hipótese dela é mais ou menos assim: com a liberdade sexual, os rituais perderam significado, os símbolos morreram. E sem símbolos, o Homem morre.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Há muitas questões a considerar nessa história, mas acho que ela tem razão, em parte.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Peguemos como objeto de análise a festa de casamento (embora na prática a teoria seja bem outra, tento seguir algum método para expor um ponto de vista). Festa de casamento é sempre divertida, momento inesquecível da vida do casal, todo mundo dança até o amanhecer. É bom mandar o convite com bastante antecedência para dar tempo de todas as listas de casamento online em quatro lojas diferentes ser comprada. Pois que outra finalidade tem casamento hoje, senão mobiliar e equipar a casa do casal? Isso quando a dupla já não mora junto. É uma troca: eu te convido para minha festa, te ofereço comida e diversão, você me dá um presentão. Tudo muito útil e conveniente. E sempre vai ter gente que vai reclamar da comida.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">E hoje parece que as festas são todas iguais, porque as empresas que se ocupam de tudo apostam na mesma fórmula (a não ser que você tenha muito dinheiro pra gastar). E às vezes parece que o mais importante da festa toda são os fotógrafos. Lembro do causo contado durante uma aula de fotografia: quando ainda não tinha foto digital (nem faz tanto tempo assim!), a equipe encarregada de registrar o casamento teve um problema na hora da revelação e TODOS os filmes queimaram. Não sobrou uma fotinho só. A noiva teve um xilique e só sossegou quando fez a festa de casamento DE NOVO. Com a mesma equipe de fotógrafos. Que então entregaram o álbum direitinho, sem cobrar duas vezes pelo serviço.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Apesar de tudo, quem é louco de dizer que antes era melhor? Principalmente para as mulheres. Se fosse pra casar, tinha que ter a ficha limpa, nada de fama de rosetar demais por aí. Isso quando não tinha que provar que era virgem, como ainda é comum em países da África árabe, nos quais cabe à sogra verificar com as próprias mãos que o selo da candidata está intacto. Se não casasse, restava cuidar dos pais velhos e doentes. Profissões decentes possíveis: professora de primário, enfermeira, secretária.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><strong>&#8220;He who works on a candy store has no desire for sweets&#8221;</strong></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Mas voltando à nossa pequena realidade. Depois da <em>ignorance is bliss</em> e da festa do cabide, chegamos num nem isso nem aquilo. Se por um lado a liberdade sexual satisfaz os desejos imediatos, por outro tudo ficou muito banal.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Identifico uma tendência que parece expressar uma tentativa (vã) de conciliar o melhor dos dois mundos: homens e mulheres experientes de casos e trepadas adotam comportamento de herói/heroína literária medieval: adoram os amores impossíveis. Se o(a) candidato(a) é legal, gente boa, disponível, com boa pegada, enfim, tudo o que se pedia de presente de Natal anos atrás, não serve. Não tem graça. Antítese da época precedente, a menina que hoje atormenta os corações é a que atiça o fogo dos moçoilos ao redor, mas fica de cuzinho doce, guardando a flor (isto é, recusa-a a ele e dá a outros).  O homem dos sonhos das mulheres acometidas é aquele que age como namorado, leva pra passear e come direitinho no fim da noite, mas não quer compromisso. Ou como identificou o grande pesquisador dos modos de macho e modinhas de fêmea <a href="http://carapuceiro.zip.net/">Xico Sá</a>, “antes mesmo um bom canalha, com pegada, do que um macho frouxo e vacilão”.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Ao lado disso, temos a outra solução vã, utilitária (muito comum por aqui): juntemos os trapinhos porque é mais barato, pagaremos menos impostos, teremos uma trepada fixa sem necessidade de camisinha, alguém para me esquentar durante o inverno. Além do mais, ele tem carro, máquina de lavar roupa e um emprego estável, no qual ganha razoavelmente bem. Ela é bonita, se veste bem, cozinha e, principalmente, não é complicada.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><strong>Sem Receita</strong></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Conclusão: só sei que, da metade masculina dos 6,791 bilhões de pessoas no mundo, ao menos um deve rolar. Fé na matemática das probabilidades. Como disse a Mari, &#8220;vambora que a vida é curta e a minha saia, menor ainda&#8221;.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 13.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Adendo importante: todo problema contém sua própria solução.</p>
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		<title>os peixes-dálmata e a declaração do batman</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Dec 2009 00:57:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorelei Lee</dc:creator>
				<category><![CDATA[ócio, cio e cia]]></category>

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		<description><![CDATA[Os peixes voavam fazendo lambança no chão de terra do largo na frente da porteira do sítio.

Eram brancos com umas manchas pretas, peixes-dálmata, lembravam linguados, mas meio felinos. Pululavam saltando os fios elétricos. Catei um e espetei com um pauzinho, pus em cima de umas brasas que estavam lá perto da touceira de mamona &#8211;sempre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Os peixes voavam fazendo lambança no chão de terra do largo na frente da porteira do sítio.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Eram brancos com umas manchas pretas, peixes-dálmata, lembravam linguados, mas meio felinos. Pululavam saltando os fios elétricos. Catei um e espetei com um pauzinho, pus em cima de umas brasas que estavam lá perto da touceira de mamona &#8211;sempre que tinha fogo na entrada da porteira eu sentia agulhada no peito, mas dessa vez pareceu normal. O homem desdentado na sombra do mercadinho da frente me dizia qualquer coisa, mas eu entendia lhufas. Tirei o peixe da brasa e provei. E não é que tava bão?</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Mas o que é que eu fazia ali na porteira, mesmo? Era cedo, mas chegava perto da hora da bóia. Já ia lavando o arroz.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Ali pro lado de dentro eu via um casal que se abraçava. Reconheci: Batman e a Mulher Gato. Ele tinha confessado todo o amor contido que sentia por ela, disse que queria morar junto, que nunca tinha estado tão certo de algo na vida. Segurava-a pelas cadeiras, trazendo-a para junto de si, seu uniforme de borracha preta lutrosa desenhava cada músculo do seu glúteo apaixonado. Terno, calmo, protetor, uma montanha de músculos pulsando benquerença, todo chaga, a insígnia amarela no peito um farol de declarações.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Ela colocava as mãos cheias de garras sobre o peito dele, delicada mas hesitante, desviava a cabeça para os lados. Enquanto ele procurava o olhar dela através dos buracos na máscara, ela fitava os papiros do lago e os tapetes de rãs atropeladas na estrada de terra empoeirada.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Gata desassossegada. Desejara aquilo tanto, tanto, quantas horas miando sobre os telhados à noite, ao luar, pensando nele, nele.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Estavam ali, sob um sol branco e frio de férias de julho. Com minhas botas vermelhas de borracha sete léguas, a barra da calça azul do uniforme do colégio pra dentro pra não entrar cobra, camiseta branca esgarçada, eu passei de lado buscando pelo vão das toras algum pedaço bonito de giz colorido no ladrão do lago que corria por baixo da estrada.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Olhei pros dois:</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">&#8211;Ih, agora ela num qué mais!</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">E senti um pingo de água babenta no nariz. Era um peixe que voava. Aí sim, fui correndo até a porteira.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">
]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;el falo era un símbolo apotropaico&#8221;</title>
		<link>http://anivelde.org/femmeinfame/2009/12/05/el-falo-era-un-simbolo-apotropaico.htm</link>
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		<pubDate>Sat, 05 Dec 2009 23:29:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorelei Lee</dc:creator>
				<category><![CDATA[ócio, cio e cia]]></category>

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		<description><![CDATA[Remexendo em e-mails antigos, encontrei uma carta do prof. Pedro Paulo Funari comentando um artigo sobre literatura pornográfica que publiquei no finado caderno Sinapse da Bolha de S.Paulo. Dizia ele: &#8220;&#8216;o gosto romano pelas imagens pornográficas’, como na chamada da página 20, apenas reforça um estereótipo sobre os romanos que, na verdade, viam no sexo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Remexendo em e-mails antigos, encontrei uma carta do prof. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Paulo_Funari">Pedro Paulo Funari</a> comentando um artigo sobre literatura pornográfica que publiquei no finado caderno Sinapse da Bolha de S.Paulo. Dizia ele: &#8220;&#8216;o gosto romano pelas imagens pornográficas’, como na chamada da página 20, apenas reforça um estereótipo sobre os romanos que, na verdade, viam no sexo um aspecto apotropaico&#8221;.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Pois hoje fui procurar de novo o significado de &#8220;apotropaico&#8221;. Diz lá o Houaiss: &#8220;que tem poder de afastar (influência maléfica, desgraça etc.); que os antigos invocavam para afastar malefícios e desgraças (diz-se de deuses)&#8221;.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">E achei uma série de quatro vídeos em espanhol bem interessantes sobre essa perspectiva do sexo, feitas por um <a href="http://www.youtube.com/user/hekatoncheiros#p/u">professor madrilenho</a>. Coloco-os aqui. Recomendo ler também o texto que acompanha cada um deles na página do Youtube.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">A série se chama &#8220;Hic Habitas Felicitas&#8221; &#8211;segundo o autor, a palavra <em>felicitas</em> era usada pelos romanos tanto no sentido de <em>felicidade</em> quando de <em>fertilidade</em>. Os vídeos explicam quais significados o falo tinha na Antiguidade e como tudo mudou com o Cristianismo.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">1a. parte:</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/_REje_rUSb4" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/_REje_rUSb4"></embed></object></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">2a. parte:</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/SyanEhPQQ0o" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/SyanEhPQQ0o"></embed></object></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">3a. parte:</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/8PQjSVbM-e0" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/8PQjSVbM-e0"></embed></object></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">4a. parte:</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/UJU4R1-65sY" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/UJU4R1-65sY"></embed></object></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">O que dirão os escafandristas daqui um milhar de anos da nossa atual perspectiva do sexo?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>próxima fase</title>
		<link>http://anivelde.org/femmeinfame/2009/11/27/proxima-fase.htm</link>
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		<pubDate>Fri, 27 Nov 2009 12:40:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorelei Lee</dc:creator>
				<category><![CDATA[cogitabunda]]></category>

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		<description><![CDATA[Então você já rosetou bastante por aí, já fez muita balada, já beijou tantos que nem se lembra quantos, já transou bêbada sem camisinha e deu aquele sorrisinho sincero de alívio ao pegar o teste de DST, já se apaixonou, já se perguntou &#8220;mas como eu pude gostar daquele idiota?&#8221;, já reclamou de homem que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Então você já rosetou bastante por aí, já fez muita balada, já beijou tantos que nem se lembra quantos, já transou bêbada sem camisinha e deu aquele sorrisinho sincero de alívio ao pegar o teste de DST, já se apaixonou, já se perguntou &#8220;mas como eu pude gostar daquele idiota?&#8221;, já reclamou de homem que não ligou, já deu e já levou pés-na-bunda, já encontrou um grande amor, já discutiu nomes que gostaria de dar aos filhos, talvez já tenha até morado junto com um namorado mais sério, talvez já tenha até separado trapinhos ao som de Chico Buarque (aquela aliança pode empenhar/ ou derreter). Então chega uma hora que bate um enfado, uma cara de &#8220;ai, que saco&#8221;: tá, já deu. Cadê o amor da minha vida, o pai dos meus filhos? Vamos logo com isso. Pode sair do esconderijo!</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Não sei se é meu instinto materno, borbulhando de hormônios. Ou se é conseqüência da perda de sensibilidade depois de tantos beijos descuidados como um dogão de barraquinha do centro da cidade. Se são os amigos que casam ou amigas que, de repente, mandam convite pra chá-de-bebê.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Mas como poderia ser esse homem tão esperado? Afinal, será que eu quero casar, mesmo? Se em um namoro de dois, três anos, o sexo já tá bem ruinzinho no final, como é possível alguém depois de cinco, dez anos, ainda me deixar com frio na barriga? Existe?</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">E depois que eu encontrar esse tal cidadão, vai ter que ficar só ele mesmo, até o fim dos dias? Não dá pra tirar umas férias com aquele amigo colorido das antigas que era super divertido? Ou sair pra um fim de semana com aquele colega novo do trabalho que está um perigo?</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Ih, tem que dormir na mesma cama todo dia? Dividir o mesmo quarto? Nunca mais vou poder soltar pum em paz embaixo das cobertas, nem cutucar o nariz e grudar a caquinha embaixo do estrado?</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">E ele vai ter que conhecer minha vida inteira? Vou ter que apresentá-lo a todos os meu amigos? Não posso ficar com uma parte da minha vida só pra mim? Porque eu sei que, quando acaba, parece que o outro levou toda a vida que você conhecia como sua embora junto com ele. E aí fica claro que aquilo não podia durar, mesmo.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Então acho que, antes de conhecer o pai dos meus filhos, eu tenho que estar é muito segura do que eu quero da minha vida e consciente do muito tempo que dedicarei a ela. Só a ela. Ele será uma parte muito importante, mas a mais importante será sempre eu. E muito de nossa felicidade mútua partirá desse desejo egoísta (meu e dele).</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">E quanto mais eu estiver satisfeita com minha vida, mais aquele com quem eu estou terá que me merecer. E vice-versa. E se por algum acaso eu mudar de idéia ou ver-me sem saber o que fazer dela daqui alguns anos, devo ter a coragem de admiti-lo, em respeito a mim e a ele. Porque muitas vezes as decisões chegam ao ponto do &#8220;ou eu ou ele, não há terceira via&#8221;.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Isso tudo sem nem considerar os filhos no meio do balaio. Põe a criançada ali e a coisa fica muito complexa. Como tanta gente pode ter filho? Aposto que mais da metade da humanidade é de pais incompetentes. Qual o percentual da humanidade que nasceu planejada?</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Considerando tudo isso, tô vendo mesmo é que a maior probabilidade é que ele não será nada como eu imaginei, que eu terei muitos percalços, que eu ficarei insegura muitas vezes&#8230; ou então, peraê, quem disse que esse cara existe? Talvez eu fique pra titia. Ou faça uma produção independente.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Não tenho mais tempo para perder com bobagens. Vamos à coisa séria.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>28 anos a partir de agora</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Nov 2009 12:36:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorelei Lee</dc:creator>
				<category><![CDATA[cogitabunda]]></category>

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		<description><![CDATA[A verdade é que, se a gente pensar bem, a existência é completamente inútil. Seja qual for nossa ocupação, nossos prazeres, tudo é vão, utterly senseless, vanitas vanitatum. Mas então tô fazendo o que aqui nesta Terra? Penso nisso todos os dias ao acordar: mas levantar pra quê? Estudar mais pra quê? Ganhar dinheiro pra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">A verdade é que, se a gente pensar bem, a existência é completamente inútil. Seja qual for nossa ocupação, nossos prazeres, tudo é vão, <em>utterly senseless</em>, <em>vanitas vanitatum</em>. Mas então tô fazendo o que aqui nesta Terra? Penso nisso todos os dias ao acordar: mas levantar pra quê? Estudar mais pra quê? Ganhar dinheiro pra quê? A única coisa que parece responder e se salvar nisso tudo é quando tocamos alguém no fundo, quando alguém muda um modo de ser, de fazer devido a uma ação, palavra nossa. Quando descobrimos algo através do outro. A troca: esse momento é crucial. As inutilidades se anulam. São os outros que realmente prezam estar conosco e que merecem nossa companhia. Que não nos tomam como anestésico ou como bibelô, mas que olham a gente no olho como igual e dizem &#8220;você é uma das coisas que fazem minha vida valer a pena ser vivida&#8221;. É coisa diária. Que leva tempo. Que se constrói com ações, e não só com palavras &#8212; porque qualquer coisa cabe numa palavra.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Por isso, meu obrigada por existir a todos os que passam por aqui, que dedicam seu tempo a ler o que eu escrevi. Aos amigos que o acaso ou a afinidade juntou e que ocupam meus pensamentos e meus dias, ao vivo, por skype, por e-mail ou só por telepatia, mesmo. Aos meus pais.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">É por vocês que eu me levanto.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>macho à la française</title>
		<link>http://anivelde.org/femmeinfame/2009/11/20/macho-a-la-francaise.htm</link>
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		<pubDate>Fri, 20 Nov 2009 20:53:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorelei Lee</dc:creator>
				<category><![CDATA[cogitabunda]]></category>
		<category><![CDATA[douce france]]></category>

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		<description><![CDATA[Allons-y meter a mão no vespeiro. O assunto já foi mencionado ao falar de cachecóis. Mas chafurdemos na jaca direito. Em uma imagem:

Não, eu não acho que homem não possa usar camisa rosa. Mas peraê, esse rosa Hello Kitty!? Desculpe, meu etnocentrismo cultural esperneou. A primeira vez que vi no metrô um cartaz com o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;"><em>Allons-y</em> meter a mão no vespeiro. O assunto já foi mencionado ao falar de cachecóis. Mas chafurdemos na jaca direito. Em uma imagem:</p>
<div class="wp-caption alignnone" style="width: 390px"><img title="adivinhe qual é a cor do time de rugbi parisiense" src="http://www.rctoulon.com/files/news/sfgrand.jpg" alt="" width="380" height="363" /><p class="wp-caption-text">adivinhe qual é a cor do time de rugbi parisiense</p></div>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Não, eu não acho que homem não possa usar camisa rosa. Mas peraê, esse rosa Hello Kitty!? Desculpe, meu etnocentrismo cultural esperneou. A primeira vez que vi no metrô um cartaz com o time parisiense de rugbi, o <a href="http://www.stade.fr/">Stade Français Paris</a>, pasmei por alguns segundos. Veja bem, é de rugbi, e não de badminton. &#8220;Mas eles devem ter um patrocinador <em>gay</em> <em>friendly</em>. Ou então todos os jogadores são gays estilo Barbie e eles usam isso como uma bandeira pela luta dos direitos dos homossexuais&#8221;. Veja você mesmo <a href="http://www.bkrw.com/news/new-jersey-x-stade-francais-x-paris-x-adidas.html">as camisas oficiais</a> e o <a href="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3b/Paris_rugby_fans.jpg">estádio lotado de torcedores</a>.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">É só a ponta do iceberg. Calma, que a coisa vai além. Mocinha que pensa em procurar marido parisiense, leia bem antes de usar:</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">No Brasil, quando a menina dá selinho na boca da amiga, ou é lésbica, ou é muderrrna. Se for no sofá da Hebe, é chique. Já aqui, descolê é o ra-paz tascar beijocas na boca dos amigos após vários copos. Alguns vão além do selinho e lambuzam a boca do bruóder. Então é festa do cabide, todo mundo beija todo mundo? Às vezes você pode até ter essa sorte, mas cadê as meninas que dão selinho? Até agora, não vi&#8230; fico com a impressão que as moçoilas são mais competitivas. As comprometidas fazem amigas com maior facilidade. Já as solteiras são ameaçadoras, andam em bando, riem, se coçam com as patas traseiras&#8230;</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Mas voltando aos amigos que se amam&#8230; aí eu chego no cidadão e pergunto:</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">- Você é gay?</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">- <em>Non, c&#8217;est un bisou amicale</em> (&#8221;não, é um beijo de amigo&#8221;).</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Quem acreditou aí, levanta a mão.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Nem eu. Mas comecei a compor o quadro.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Os gauleses parisienses, em geral (ah, as generalizações&#8230;), são muito mais ambíguos sexualmente que os tupiniquins. Nesta terra onde há mais queijos que dias no ano, pegar na bunda do camarada pra fazer piada é admissível. Na hora de dar oi para um amigo que chega, é beijinho pra cá, beijinho pra lá. Para piorar o estereótipo, há aquela cara européia de neném, toda branquinha, lisinha e de bochechas rosadas. Bem difícil encontrar um homem peludo e cabeludo, aquele charme Los Hermanos &#8211;muito mais numerosos são os cabeças lisinhas de gilete (e não é só a cabeça, como comprovei numa pequena pesquisa de campo). E para finalizar, vestem-se bem &#8211;vá um sábado à tarde na sessão masculina da H&amp;M, a maior loja de moda razoável e acessível&#8230; a fila do provador masculino é quase tão grande quanto da sessão feminina.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Conclusão: é claro que os manos brasileiros vão dizer que francês &#8220;é tudo bichona&#8221;.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Imaginem a situação, portanto, do amigo paraibano da V. Estava na festinha, muito vinho, olerê, olará, o <em>copain français</em> engraçadinho vem dar um apertãozinho na bunda do cabra no meio da música&#8230; oxe, faltou só sacar a peixeira.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Mas se mulher pode abraçar, beijar, segurar no braço sem ser chamada de sapatão, porque homem também não pode? Melhor do que ficar brigando de se dar soco, que me parece uma das únicas modalidades de contato físico afetivo entre heterossexuais brasileiros. Além do futebol, claro. Opa! melhor parar por aqui&#8230;</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Quem mais sofre com essa confusão são os gays brasileiros. Começa na hora de identificar o alvo: quem é gay, quem não é?</p>
]]></content:encoded>
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		<title>baby, it&#8217;s cold outside</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 21:28:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorelei Lee</dc:creator>
				<category><![CDATA[douce france]]></category>
		<category><![CDATA[jardin d'acclimatation]]></category>
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		<description><![CDATA[Eu sei que a maioria dos meus queridíssimos, caríssimos, preciosíssimos leitores está na Paulicéia Desvairada onde agora faz sol e calor. Mas como a Terra é redonda e, ainda por cima, inclinada, calhou que por aqui é o contrário e tudo a minha volta grita FRI-O-O-WOW. Então vou falar do frio. De novo. Porque de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">Eu sei que a maioria dos meus queridíssimos, caríssimos, preciosíssimos leitores está na Paulicéia Desvairada onde agora faz sol e calor. Mas como a Terra é redonda e, ainda por cima, inclinada, calhou que por aqui é o contrário e tudo a minha volta grita FRI-O-O-WOW. Então vou falar do frio. De novo. Porque de calor a gente entende e não precisa falar nada, basta balançar na rede com um coco verde apoiado na barriga (sem esquecer do repelente). Quem sabe não refresca?</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Conheci por aqui um rapaz que gostava muito do frio. Na grande metrópole de 1500 habitantes em que ele nasceu e viveu até os 21 anos, onde é desaconselhável perder-se na estrada sem saber falar alemão (fica em território francês, a 10km da fronteira leste), todos estão acostumados a ver o mundo se cobrir de branco no inverno. Natal sem boneco de neve não é Natal. Férias de inverno sem temporada de esqui não são férias.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Fui visitar a tal metrópole. Primeira experiência memorável, claro: a culinária local. Enquanto nós, brasileiros, comemos arroz e feijão diariamente, eles comem batata, salsicha, batata, repolho, batata e, de vez em quando, estômago de porco recheado. Ah, esqueci: e queijos <em>très odorants</em>. Com tudo isso não é à tôa que tomei lá, também, o melhor digestivo que já experimentei na vida: quando eu já quase morria de indigestão na estréia, a sorridente avó do rapaz me ofereceu um copinho de um licor caseiro, uma dose que nem de cachaça. Virei duma vez e imediatamente senti como se Moisés agisse via <em>schnapps</em> e abrisse caminho pelo meu estômago dolorido num milagre, fazendo toda aquela carne mergulhada em molho branco seguir seu rumo natural (hm, essa metáfora é muito <em>kosher</em> para esse prato).</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Desde que morava em Paris, o rapaz acompanhava a metereologia apaixonadamente, esperando a moça do tempo anunciar neve para o dia seguinte como quem olha para o sorteio da Megasena ou aguarda indenização econômica do plano Collor. É verdade que em Paris neve é coisa rara. Mas ano passado nevou três vezes, quase um milagre. E eu, brasileira que só tinha visto neve em Bariloche lá na montanha, bem ao longe, porque era verão (tentei outra vez em São Joaquim. Não rolou.) parava tudo e corria pra frente da TV no intervalo da météo. Pois finalmente sopraram os ventos siberianos e veio a neve.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Ah! A neve&#8230; dá até pra esquecer que faz frio!</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Enquanto a neve cai, parece que tudo é silêncio. Que o mundo está se cobrindo para ir dormir, todo puro e branco.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Até alguém escorregar. Ou tudo virar lama. Se você estava postergando a ida ao sapateiro para arrumar aquele furo na sola da bota velha, rapaz, o sapateiro vai receber visita sua hoje mesmo. Mas só depois que você passar em casa, fizer um escalda-pés e colocar as meias em cima do aquecedor para secar.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Mas o rapaz fã do Homem de Gelo não estava nem aí para isso. Enquanto eu me escondia embaixo do acolchoado esfregando os pés tentando esquentá-los, ele escancarava a janela e respirava fundo aquele ar glacial possuído por uma felicidade tão infantil que eu não achava justo reclamar. Ele percebia meu descontentamento e atirava um argumento para me converter: &#8220;olha só que ar mais puro!&#8221;. Nunca tinha pensado nisso, mas faz sentido. Quando a temperatura cai abaixo de zero o ar fica seco. Não dá pra sentir cheiro de nada. Não se vê uma mosquinha, um pernilonguinho, uma formiguinha. Ar puríssimo, sim. Mas de manhã eu preferia correr para dentro do carro e ligar o aquecedor, enquanto ele raspava a camada de gelo endurecida sobre o pára-brisa como se aquela fosse a mais recompensadora das atividades físicas deste mundo.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Enquanto eu o olhava pelo vidro indo e vindo com a espátula de plástico, sentia até uma certa inveja por me saber incapaz de ter tanto prazer com algo tão simples.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Mas meus prazeres simples são outros.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">&gt;<object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/szrqtgAd3h0" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/szrqtgAd3h0"></embed></object></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">
]]></content:encoded>
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		<title>jardin d&#8217;acclimatation</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Nov 2009 23:31:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorelei Lee</dc:creator>
				<category><![CDATA[jardin d'acclimatation]]></category>
		<category><![CDATA[pappa col pomodoro]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando cheguei aqui ano passado, as estações do ano eram, para mim, o que é para todo paulistano: um ritmo vago escondido por trás das loucuras meteorológicas que caracterizam a cidade da garoa. Lembro de ter lido uma vez em uma dessas revistas femininas que uma solução para organizar o armário e dar mais espaço [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Quando cheguei aqui ano passado, as estações do ano eram, para mim, o que é para todo paulistano: um ritmo vago escondido por trás das loucuras meteorológicas que caracterizam a cidade da garoa. Lembro de ter lido uma vez em uma dessas revistas femininas que uma solução para organizar o armário e dar mais espaço era, em meados da primavera, guardar os casacos na parte superior ou numa mala. Achei o conselho absolutamente estúpido: em São Paulo, é normal ter que usar casaco de lã em um dia e morrer de calor no outro. Ou até em um mesmo dia: de manhã, aquele frio de rachar. Meio-dia, arranca tudo, o pessoal carregando casacos na mão no caminho do almoço na Paulista. Fim da tarde, tremedeira de frio enquanto espera o ônibus no ponto.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Outra vaga sensação de ritmo são as épocas das frutas e legumes, embora isso esteja cada vez mais diluído com as importações. Quando é época de jabuticaba? Não sei, e olha que eu morei em sítio até os dez anos. Outra referência são as árvores floridas: como passar incólume por uma calçada coberta de ipês-amarelos, como não suspirar? (Parênteses: ipê-amarelo me faz lembrar de quando eu ia com minha mãe de caminhonete pela estrada de terra até a cidade mais próxima do sítio, Jordanésia &#8211;do lado de <a href="http://anivelde.org/sorryperiferia/">Jundiaí</a> e <a href="http://anivelde.org/thepompeiatimes/">Caieiras</a>&#8211;, comprar carne para o dia seguinte &#8211;minha mãe não gosta de carne congelada e eu acho que ela está muito certa. Um dia vi que todas aquelas pequenas árvores que tinham sido plantadas nas calçadas ao lado do supermercado à beira da Anhanguera eram ipês &#8211;pequenininhos, um pouco mais altos que um homem adulto, já estavam carregados de flores. Eu, que achava Jordanésia tão feia, mudei de idéia naquele dia.) Ou ao virar uma esquina e dar de cara com um ipê-roxo enorme e pesado de bolotas de flor? Mas mesmo ipê, cada um dá flor na hora que quer. Tem uns que dão em abril, outros em setembro. E o cheiro de uma flor branca de jasmim-manga? Mas essas também, às vezes ainda é inverno e elas já estão lá.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Pois então, tudo isso pra dizer que estações do ano, em São Paulo, é algo que não influi muito na vida da gente. Melhor falar em estações de chuva &#8211;o trânsito em março, com aquele toró todo dia ao final da tarde, por exemplo, afeta muito a vida de todo mundo&#8230;</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Pois então. <em>À Paris</em> as estações são bem marcadas. Sim, isso eu e você já sabíamos, mas viver as tais estações&#8230; é incrível.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">No começo da primavera, em abril, há uma semana mágica. As árvores, já há muito peladas, com aquela cara de morte retorcida pelo frio do inverno, nodosas de tanta poda, soltam botões na ponta dos galhos. Pequenininhos, crescem rápido. Dá até ansiedade ao passar pelas árvores da vizinhança e ver cada dia aqueles botões mais gordos. E um dia, ao sair na rua, todos os plátanos da cidade estão balançando com folhas verdinhas e molinhas, aquele verdinho de maçã-verde, quase amarelo, de um frescor sem tamanho. Ainda não dá para sair sem casaco, mas é uma semana de felicidade que só vendo.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Só aí músicas como &#8220;<a href="http://anivelde.org/femmeinfame/wp-content/uploads/2009/11/14-April-In-Paris.mp3">April in Paris</a>&#8221; passam a significar alguma coisa. Ou ainda aquele trecho de La Bohème, ainda mais para esta que vos escreve, habitante de uma minúscula mansarda com varanda:</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><em>Vivo sola, soletta<br />
là in una bianca cameretta:<br />
guardo sui tetti e in cielo;<br />
ma quando vien lo sgelo<br />
il primo sole è mio<br />
il primo bacio dell&#8217;aprile è mio!</em></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;"><em> </em></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><em>(Vivo só, sozinha</em></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><em>Do meu quarto branco</em></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><em>Vejo os telhados e o céu</em></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><em>Mas quando vem o degelo</em></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><em>o primeiro sol é meu</em></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><em>o primeiro beijo de abril é meu!)</em></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;"><em> </em></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/7c7aH5NZ7uY" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/7c7aH5NZ7uY"></embed></object></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Mas eu queria falar de algo típico do outono, que reina por aqui.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Ao chegar em Paris, começo de setembro, vi aquelas montanhas de cogumelos expostos nas prateleiras dos <em>primeurs</em>, pequenos horti-frutis espalhados pela cidade. Mas como eram em geral bem caros &#8211;15 euros o quilo ou mais&#8211; e sempre pareciam meio atropelados, com cara de não muitos amigos, eu não me animava (outro dia vi uns que pareciam fresquinhos, mas eram azuis! Não me apeteceram). Então li num site: &#8220;época de cogumelos &#8211; como identificá-los&#8221;. Pois ora vejam só, a gente aqui pode caçar cogumelos na floresta.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Isso me parecia programa de gnomo ou de maluco atrás de alucinógeno barato, que no amanhecer da balada em cidade do interior sai pelos pastos atrás de cocô de vaca e sempre corre risco de levar uma chifrada. Mas seja para dar barato ou só encher a pança, precisa saber bem o que está fazendo porque a maioria dos cogumelos é venenosa. Quem mora no campo sabe onde procurar e volta com <a href="http://anivelde.org/femmeinfame/wp-content/uploads/2009/11/P1010003.JPG">cestas carregadas</a>. Pelo o que eu entendi, perto de cada espécie de árvore tem uma espécie de cogumelo. Alguns cogumelos aparecem em forma de círculo &#8211;a explicação para isso era que, se você tivesse chegado um pouco antes, teria visto naquele mesmo lugar fadas (ou bruxas) <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Fairy_ring">dançando em roda</a>&#8230;</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Esse ano lembrei dos cogumelos. Mas já está meio tarde. Uma menina da faculdade me explicou: &#8220;depois da primeira chuva do fim do verão, tem que contar três semanas. A melhor época é até quando as folhas das árvores começam a cair&#8221;. Bem, já tem muita folha na rua. Naquelas meio esquecidas, onde a prefeitura não varre, até dá para brincar de criança e andar chutando folhas de plátano secas. Será que terei que dizer adeus aos cogumelos e esperar o ano que vem?</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">A mesma coisa aconteceu com as castanhas portuguesas, os <em>marrons</em> &#8211;têm época bem definida e já tá quase no fim. Os parisienses vão nas florestas próximas à cidade e voltam com sacos cheios.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Mas a questão é: como chegar em floresta de <em>marron</em> ou em floresta onde tem cogumelo de RER (o trem que liga Paris à periferia)? Alguém aí tem experiência como caçador de cogumelo?</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; line-height: 19.0px; font: 13.0px Georgia;">Porque a minha experiência se restringe a borboletas, vagalumes e pinhões de araucária&#8230;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>gainsbourg &amp; lolitas</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 02:16:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lorelei Lee</dc:creator>
				<category><![CDATA[cogitabunda]]></category>
		<category><![CDATA[douce france]]></category>
		<category><![CDATA[ócio, cio e cia]]></category>

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		<description><![CDATA[As lolitas são fartas na música de Gainsbourg. Já mencionei a idolatria que ele tinha pelo livro de Nabokov em &#8220;Jane B&#8221;.

Em &#8220;Chez Les Yé-Yé&#8221;, 1963, rendição ao ritmo contagiante dos anos 60, ele dizia non rien n’aura raison de moi/ j’irai t’ chercher ma Lolita/ chez les yé-yé (não, nada decidirá por mim/ eu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">As lolitas são fartas na música de Gainsbourg. Já mencionei a idolatria que ele tinha pelo livro de Nabokov em &#8220;Jane B&#8221;.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">Em &#8220;Chez Les Yé-Yé&#8221;, 1963, rendição ao ritmo contagiante dos anos 60, ele dizia <em>no</em><em>n rien n’aura raison de moi/ j’irai t’ chercher ma Lolita/ chez les yé-yé</em> (não, nada decidirá por mim/ eu vou te procurar minha Lolita/ no ié-ié). Até aí, nada que a moral francesa ache condenável.</p>
<div id="_mcePaste" style="overflow: hidden; position: absolute; left: -10000px; top: 7px; width: 1px; height: 1px;">Non rien n’aura raison de moi</div>
<div id="_mcePaste" style="overflow: hidden; position: absolute; left: -10000px; top: 7px; width: 1px; height: 1px;">J’irai t’ chercher ma Lolita</div>
<div id="_mcePaste" style="overflow: hidden; position: absolute; left: -10000px; top: 7px; width: 1px; height: 1px;">Chez</div>
<div id="_mcePaste" style="overflow: hidden; position: absolute; left: -10000px; top: 7px; width: 1px; height: 1px;">Les</div>
<div id="_mcePaste" style="overflow: hidden; position: absolute; left: -10000px; top: 7px; width: 1px; height: 1px;">Yé-yé</div>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">Mas com &#8220;Les Sucettes&#8221; foi diferente:  houve barulho, sim&#8230; uma grande tiração de sarro com a coitada da intérprete, a loirinha-cara-de-santinha France Gall (dona das risadas de &#8220;Pauvre Lola&#8221;), na época com 17 anos, ícone infantil/adolescente. Ela jurava não ter se tocado dos <em>double senses</em> da canção de Gainsbourg, em cuja letra um pirulito de anis mais-que-sugere felação e, principalmente, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Spermophagia#Semen_Ingestion">seminofagia</a>. Tempos depois alguém explicou e ela ficou profundamente ofendida &#8211;além de loira, ela tinha fama de não ser uma inteligência lá muito brilhante.</p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; min-height: 15px; margin: 0px;">
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;"><em>Annie aime les sucettes</em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;"><em>Les sucettes à l’anis</em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;"><em>Les sucettes à l’anis d’Annie</em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;"><em>Donnent à ses baisers</em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;"><em>Un goût anisé</em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; min-height: 15px; margin: 0px;"><em> </em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;"><em>Lorsque le sucre d’orge</em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;"><em>Parfumé à l’anis</em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;"><em>Coule dans la gorge d’Annie</em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;"><em>Elle est au paradis</em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; min-height: 15px; margin: 0px;">
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;"><em>en portugais:</em></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">Annie gosta de pirulito</p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">Pirulito de anis</p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">Os pirulitos de anis de Annie</p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">Dão a seus beijos</p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">Um gosto anisado</p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; min-height: 15px; margin: 0px;">
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">Quando o açúcar de cevada</p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">Perfumado de anis</p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">Escorre pela garganta de Annie</p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">Ela está no paraíso</p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; min-height: 15px; margin: 0px;">
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; min-height: 15px; margin: 0px;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/PUsyyxZyDQc" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/PUsyyxZyDQc"></embed></object></p>
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; min-height: 15px; margin: 0px;">
<p style="font: normal normal normal 13px/normal Georgia; margin: 0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Sua obra mais influente, a ópera-rock lírico-erótica &#8220;Histoire de Melody Nelson&#8221; (1971), cujas sete peças não completam nem 30 minutos, é a helegia máxima da lolitofilia (<a href="http://www.indavideo.hu/video/SERGE_GAINSBOURG_-_HISTOIRE_DE_MELODY_NELSON_PAR_JEAN-CHRISTOPHE_AVERTY_1971_2?action=video_site&amp;video_title=SERGE_GAINSBOURG_-_HISTOIRE_DE_MELODY_NELSON_PAR_JEAN-CHRISTOPHE_AVERTY_1971_2%3Ftoken%3D8057087e878adbacb698028a1fecf81b">neste link húngaro</a> dá pra ver o videoclip da ópera inteira com Serge e Jane).</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Começa assim: um homem passeia por uma estrada embalado por delírios eróticos com a &#8220;Vênus argêntea do radiador&#8221;, símbolo do carro que dirige, um Rolls Royce Silver Ghost 1919 &#8211;a escultura era apelidada &#8220;Spirit of Ectasy&#8221;. Um barulho e o motorista é trazido de volta ao mundo real por uma roda de bicicleta que gira em falso em frente ao carro. Ao lado, como uma &#8220;boneca que perdera o equilíbrio&#8221;, &#8220;a saia para cima mostrando a calcinha branca&#8221;, está Melody Nelson, ruiva, &#8220;14 outonos e 15 verões&#8221; de idade. Eles vão para um hotel, transam, ele se apaixona, ela morre num acidente logo em seguida.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">Resumindo assim parece tudo muito banal. Mas é meio como naquelas egotrips fellinianas: o cara é claramente tão bom no que faz que você não só desculpa, como admira. E afinal, o que há de mais interessante no mundo do que pessoas que mergulham na vida de cabeça? Em poucas linhas, Gainsbourg consegue transmitir o sentimento obsessivo do homem pela mocinha (&#8221;ah, Melody, se você mentir pra mim eu fico doente, não sei o que poderia te fazer&#8221;), o que nos lembra mais uma vez Humbert Humbert e sua Dolores Haze. Mas se o personagem de Nabokov é muito discreto e cheio de eufemismos ao falar do que acontecia entre quatro paredes, o de Gainsbourg é mais hardcore:  na última estrofe de &#8220;Ballade de Melody Nelson&#8221;, ele ronrona <em>ma Melody Nelson/ aimable petite conne/ tu étais la condition/ sine qua non de ma raison</em> (o que poderiamos traduzir como &#8220;minha Melody Nelson/adorável xoxotinha [<strong>ou idiotinha, como bem apontou meu caro leitor lá nos comentários</strong>]/ você era a condição/ sine qua non da minha razão&#8221;).</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">O amor com grande diferença de idade tem inspiração autobiogáfica, pois Gainsbourg (cujo verdadeiro nome não era Serge, vejam só!, mas Lucien) conheceu Jane Birkin em maio de 1968, quando ele tinha 40 anos e ela 21, durante a produção do filme <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Qqfd5xZZ30E">Slogan</a>.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">Birkin já era sim maior de idade, mas parecia mais um efebo desleixado. Esse jeito <em>à la garçonne</em> da inglesa inspirará Gainsbourg para o filme &#8220;Je T&#8217;Aime, Moi Non Plus&#8221;, de 1973, o primeiro que ele dirigiu, no qual a personagem de Jane, &#8220;Johnny&#8221;, desperta os olhares de um caminhoneiro gay (vivido pelo ícone Joe Dalessandro, muso da Factory de Warhol, o Little Joe citado em &#8220;Walk on The Wild Side&#8221; e recheio da calça de zíper aberto da capa de <a href="http://geeks.blog.lemonde.fr/files/2009/02/stickyfingers.1235589479.jpg">Sticky Fingers</a>, dos Rolling Stones) e a ira do namorado ciumento deste. O filme, lançado em 1976, tem cenas (simuladas) de sexo anal de fazer &#8220;O Último Tango em Paris&#8221; parecer sessão da tarde.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/kQ6TsJXR1TE" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/kQ6TsJXR1TE"></embed></object></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">Os seios de Jane eram quase inexistentes. Num filme que Agnès Varda fez sobre a cantora em 1986, &#8220;Jane B. par Agnès V.&#8221;, Jane comenta que Serge gostava que seus seios não fossem muito volumosos &#8211;segundo ela, ele achava seios fartos de uma &#8220;feminilidade muito ameaçadora&#8221;.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">Talvez esteja aí a chave para compreender sua atração pelas lolitas.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">É interessante notar que o padrão de beleza da mulher francesa é de fato bem infantil. Perna fina, pouca bunda, pouco peito, rostinho de bebê&#8230; mas super maquiada. E o que eu mais vejo no metrô é menina vestida como se já fosse mulher, com sombra, bolsinha da Louis Vutton, brincão e saltinho. Por outro lado, converse com qualquer menina francesa recém-ingressa na faculdade, com seus 18, 19, 20 anos&#8230; salvo exceções, são zero de malandragem, mais cruas que vara verde.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">&#8220;Lemon Incest&#8221;, o que suscitou esse post, também se encaixa na modalidade (com outros agravantes), ainda mais nessa sociedade paranóica e mal-resolvida com a sexualidade infantil. Difícil esconder o desconforto quando vemos no videoclip pai e filha deitados na cama de um quarto todo negro envolto por aquela fumaça que era epidemia nas pistas de dança dos anos 80, ele sem camisa, ela só com a calcinha e uma camisa de homem fechada por poucos botões, miando.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">A última Lolita de Gainsbourg foi Vanessa Paradis (mais conhecida para nós, brasileiros, como mulher de Johnny Depp). Foi na voz dela que surgiu aquele hit da Angélica, o &#8220;Vou de Táxi&#8221;. Eu sempre achei a frase &#8220;vou de táxi, cê sabe&#8221; totalmente sem sentido. Pois então, voilà que os horizontes se escancararam quando eu descobri o original!</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="350" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/RK83Ks8xh5M" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="350" src="http://www.youtube.com/v/RK83Ks8xh5M"></embed></object></p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia; min-height: 15.0px;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">A frase em questão é <em>Joe le taxi, c&#8217;est sa vie</em> (&#8221;Joe o taxista/ essa é sua vida&#8221;). Essa música, do primeiro disco de Paradis, virou uma febre (a ponto de ser traduzida e chegar no Brasil, que nem a &#8220;Festa do Apê&#8221; do Latino). O interesse de Gainsbourg em Paradis resultou no segundo álbum da ninfeta e último escrito pelo <em>enfant terrible</em>, que morreria nove meses depois, em 1991.</p>
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">
<p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 13.0px Georgia;">
]]></content:encoded>
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