(este assunto mereceria um texto mais sério) O Facebook é um lugar. Tal como ler uma revista de celebridades, a gente entra nesse lugar para saber as novidades da vizinhança –ou, no caso, do universo de pessoas conhecidas, ali denominadas “amigos”. Se todos merecem ou não o epíteto, acho que há consenso: é claro que não. [...]
Por que Proust? Porque Proust tem a capacidade de dizer coisas que qualquer um já pensou e já sentiu antes, e ele diz como se fosse o meu (o seu) próprio pensamento quem o dissesse. Sur la Lecture é um prefácio para a tradução que Proust fez em 1906 de duas conferências do crítico de [...]
Pegar ônibus em São Paulo era coisa cotidiana. Teve a época do 428-P: elétrico, qualquer buraco fazia aquela antena que liga no fio sacudir e cair (aliás, alguém mais aí é fascinado por aquelas ondas que se formam no asfalto na faixa do ônibus?) . Quando eu era criança e morava no sítio, tinha fascínio [...]
Há 13 dias perdi parte do que fui. Havia um pequeno arquivo na tela do meu computador chamado “laureografia”: era uma quarentena de textos. Não devia ter mais que 20KB. Caberia em um disquete de 3′ 1/2. Tão importante era este arquivo e tão intimo que eu nunca quis fazer copia. Pensei em salvá-lo no [...]
Ignorance is Bliss Era uma vez, num reino não muito distante, a palavra divórcio não existia do vocabulário jurídico e as mulheres geralmente casavam virgens. Não podiam sair beijando por aí e muito menos dar pra quem desse na telha, porque a crença geral era de que a fina flor borbuceteante era frágil e quanto [...]
Então você já rosetou bastante por aí, já fez muita balada, já beijou tantos que nem se lembra quantos, já transou bêbada sem camisinha e deu aquele sorrisinho sincero de alívio ao pegar o teste de DST, já se apaixonou, já se perguntou “mas como eu pude gostar daquele idiota?”, já reclamou de homem que [...]
A verdade é que, se a gente pensar bem, a existência é completamente inútil. Seja qual for nossa ocupação, nossos prazeres, tudo é vão, utterly senseless, vanitas vanitatum. Mas então tô fazendo o que aqui nesta Terra? Penso nisso todos os dias ao acordar: mas levantar pra quê? Estudar mais pra quê? Ganhar dinheiro pra [...]
Allons-y meter a mão no vespeiro. O assunto já foi mencionado ao falar de cachecóis. Mas chafurdemos na jaca direito. Em uma imagem: Não, eu não acho que homem não possa usar camisa rosa. Mas peraê, esse rosa Hello Kitty!? Desculpe, meu etnocentrismo cultural esperneou. A primeira vez que vi no metrô um cartaz com [...]
As lolitas são fartas na música de Gainsbourg. Já mencionei a idolatria que ele tinha pelo livro de Nabokov em “Jane B”. Em “Chez Les Yé-Yé”, 1963, rendição ao ritmo contagiante dos anos 60, ele dizia non rien n’aura raison de moi/ j’irai t’ chercher ma Lolita/ chez les yé-yé (não, nada decidirá por mim/ [...]
Há tempos eu queria fazer um apanhado de expressões em português brasileiro que dá gosto de ouvir. Aquele tipo de coisa que estrangeiro não consegue entender quando você tenta traduzir, porque não faz muito sentido e em geral tem apenas um prazer onomatopéico. Aquelas que dá uma sensação boa quando o outro diz, porque você [...]
Quando leio a biografia de alguém que ficou conhecido por um talento espantoso, com raras exceções, vejo que o presente divino manifestava-se já na infância, como se fosse um dom vindo junto com o corpo, na sua concepção, algo intrinsicamente ligado à própria noção de existência como indivíduo. Todos manifestavam um desejo incontrolável e espontâneo [...]
Ok, então vou contar: desde a primavera daqui, não sei exatamente porque, mas a Itália e os italianos cruzam meu caminho a torto e a direito. Já mencionei minha atração pelas cantoras daquele país. Até aí, a Itália é aqui do lado e italiano tem em tudo quanto é canto (por que?). Mas parece mais [...]
Este é um post que eu espero que a minha mãe não leia. Porque, afinal, o que será mais doloroso? A filha, quando se pergunta se aqueles barulhos que a mãe faz no quarto à noite poderiam não ser de dor? Ou a mãe, quando, ao espiar pela janela que dá pra rua, vê [...]
“l’amour est aveugle et sa canne est rose” (o amor é cego e sua bengala é rosa) S.G. Os primeiros contatos que tive com a chanson française devem ter sido com o CD duplo da Edith Piaf que minha irmã mais velha ouvia no volume máximo em seu aparelho estéreo enorme. Seu quarto sempre [...]
Já falava francês razoavelmente, eu achava, após alguns meses de estudo intensivo e de resistir bravamente até a metade de “O Vermelho e o Negro” na sua língua original, passando por cima dos termos desconhecidos, das punhetagens sobre pega ou não pega na mão e de quase se acostumar com os verbos no passado perfeito, [...]