Categoria: cogitabunda

a voz que canta ao fundo

Tenho duas questões breves a tratar aqui. Breves pois minha eloquência transmutou-se em algo ainda ignoto. Subiu no telhado. Só espero não ter batido com as botas. A primeira é que (eu espero não ter falado disso aqui antes) há muitas vantagens em chegar aos umbrais dos 30 anos, e uma delas é conhecer com [...]

Michel Leiris, toro & toreador

(antes de continuar pelos meandros literário-espumantes de Vian, pulo uma casa para falar já de Michel Leiris. Depois eu volto.) Michel Leiris casou-se aos 26 anos com uma mulher da família Kahnweiler, rica e bem-relacionada —donos da galeria em torno da qual orbitavam cubistas, surrealistas e companhia limitada. Ele mesmo era amigo de Picasso, Apollinaire, [...]

cras amet qui nunquam amavit;
quique amavit, cras amet *

O que ela, X, queria do amor?, perguntaram-lhe um dia. Ninguém nunca tinha lhe perguntado isso antes, embora fosse uma pergunta óbvia, embora fosse algo no qual ela pensava todo dia, toda hora, enquanto fervia a água para o chá do café da manhã, enquanto olhava os doces na máquina de moeda na plataforma do [...]

de divinatione per somnum

“¿Pero cómo, entre los seres animados, unos son llamados mortales y otros inmortales? Esto es lo que conviene esclarecer. El alma universal rige la materia inanimada, y hace su evolución en el universo, manifestándose bajo mil formas diversas. Cuando es perfecta y alada, campea en lo más alto de los cielos, y gobierna el orden [...]

being blonde

“Fascínio tenho eu por falsas louras (ai, a negra lingerie) Com sardas, sobrancelha feita a lápis e perfume da Coty” (“Miss Suéter”, João Bosco) Faz mais ou menos um ano: entrei no salão do cabeleireiro e disse: – Quero loiro platinado, Agyness Deyn style. A colorista e o cabeleireiro entreolham-se aterrorizados. ‘Voilà, uma louca’, estampava-se [...]

“Sobre a Leitura”, de Marcel Proust

Por que Proust? Porque Proust tem a capacidade de dizer coisas que qualquer um já pensou e já sentiu antes, e ele diz como se fosse o meu (o seu) próprio pensamento quem o dissesse. Sur la Lecture é um prefácio para a tradução que Proust fez em 1906 de duas conferências do crítico de [...]

proxêmica do transporte público

Pegar ônibus em São Paulo era coisa cotidiana. Teve a época do 428-P: elétrico, qualquer buraco fazia aquela antena que liga no fio sacudir e cair (aliás, alguém mais aí é fascinado por aquelas ondas que se formam no asfalto na faixa do ônibus?) . Quando eu era criança e morava no sítio, tinha fascínio [...]

fixar pensamentos na vida offline

Há 13 dias perdi parte do que fui. Havia um pequeno arquivo na tela do meu computador chamado “laureografia”: era uma quarentena de textos. Não devia ter mais que 20KB. Caberia em um disquete de 3′ 1/2. Tão importante era este arquivo e tão intimo que eu nunca quis fazer copia. Pensei em salvá-lo no [...]

gainsbourg & lolitas

As lolitas são fartas na música de Gainsbourg. Já mencionei a idolatria que ele tinha pelo livro de Nabokov em “Jane B”. Em “Chez Les Yé-Yé”, 1963, rendição ao ritmo contagiante dos anos 60, ele dizia non rien n’aura raison de moi/ j’irai t’ chercher ma Lolita/ chez les yé-yé (não, nada decidirá por mim/ [...]

meu Brazil é com S

Há tempos eu queria fazer um apanhado de expressões em português brasileiro que dá gosto de ouvir. Aquele tipo de coisa que estrangeiro não consegue entender quando você tenta traduzir, porque não faz muito sentido e em geral tem apenas um prazer onomatopéico. Aquelas que dá uma sensação boa quando o outro diz, porque você [...]

why was I born, why am I living

Quando leio a biografia de alguém que ficou conhecido por um talento espantoso, com raras exceções, vejo que o presente divino manifestava-se já na infância, como se fosse um dom vindo junto com o corpo, na sua concepção, algo intrinsicamente ligado à própria noção de existência como indivíduo. Todos manifestavam um desejo incontrolável e espontâneo [...]

Va Pensiero

Ok, então vou contar: desde a primavera daqui, não sei exatamente porque, mas a Itália e os italianos cruzam meu caminho a torto e a direito. Já mencionei minha atração pelas cantoras daquele país. Até aí, a Itália é aqui do lado e italiano tem em tudo quanto é canto (por que?). Mas parece mais [...]

gainsbourg & music kitchen

“l’amour est aveugle et sa canne est rose” (o amor é cego e sua bengala é rosa) S.G.   Os primeiros contatos que tive com a chanson française devem ter sido com o CD duplo da Edith Piaf que minha irmã mais velha ouvia no volume máximo em seu aparelho estéreo enorme. Seu quarto sempre [...]

je parle, tu parles, il parle

Já falava francês razoavelmente, eu achava, após alguns meses de estudo intensivo e de resistir bravamente até a metade de “O Vermelho e o Negro” na sua língua original, passando por cima dos termos desconhecidos, das punhetagens sobre pega ou não pega na mão e de quase se acostumar com os verbos no passado perfeito, [...]

lost in translation

“Moi, je comprends français,  mais je ne comprends pas trop les français.”   Eu não lembro mais aquelas classificações de sintaxe “oração direta interrogativa” sei-lá-o-que. Sei que devo cometer vários pequenos erros, principalmente quando é pra colocar a partícula reflexiva antes ou depois, “me”, “se”… nunca sei. Até a última modificação ortográfica, eu sabia recitar [...]

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