Categoria: cogitabunda

a voz que canta ao fundo

Tenho duas questões breves a tratar aqui. Breves pois minha eloquência transmutou-se em algo ainda ignoto. Subiu no telhado. Só espero não ter batido com as botas. A primeira é que (eu espero não ter falado disso aqui antes) há muitas vantagens em chegar aos umbrais dos 30 anos, e uma delas é conhecer com [...]

Michel Leiris, toro & toreador

(antes de continuar pelos meandros literário-espumantes de Vian, pulo uma casa para falar já de Michel Leiris. Depois eu volto.) Michel Leiris casou-se aos 26 anos com uma mulher da família Kahnweiler, rica e bem-relacionada —donos da galeria em torno da qual orbitavam cubistas, surrealistas e companhia limitada. Ele mesmo era amigo de Picasso, Apollinaire, [...]

cras amet qui nunquam amavit;
quique amavit, cras amet *

O que ela, X, queria do amor?, perguntaram-lhe um dia. Ninguém nunca tinha lhe perguntado isso antes, embora fosse uma pergunta óbvia, embora fosse algo no qual ela pensava todo dia, toda hora, enquanto fervia a água para o chá do café da manhã, enquanto olhava os doces na máquina de moeda na plataforma do [...]

de divinatione per somnum

“¿Pero cómo, entre los seres animados, unos son llamados mortales y otros inmortales? Esto es lo que conviene esclarecer. El alma universal rige la materia inanimada, y hace su evolución en el universo, manifestándose bajo mil formas diversas. Cuando es perfecta y alada, campea en lo más alto de los cielos, y gobierna el orden [...]

hormônios regovernados

Por preguiça e falta de vergonha na cara, re-publico um texto q estava aqui. Foi resultado de uma aposta com meu amigo-editor: “navegar com barco a vela e começar a tomar pílula… hm. Se você conseguir fazer um texto só ligando esses dois assuntos, te pago uma cerveja”. +++ Eu só me toquei como meu [...]

the green-ey’d monster

“
O, beware, my lord, of jealousy; It is the green-ey’d monster, which doth mock The meat it feeds on.” Othello, Act 3, scene 3, 165–171 Diz lá a Wikipédia: ciúme (português), jealousy (inglês), jalousie (francês), gelosia (italiano), celos (espanhol), todas derivam de zelo, do latim vulgar zelosus (zeloso), por sua vez derivado do grego ζήλος [...]

being blonde

“Fascínio tenho eu por falsas louras (ai, a negra lingerie) Com sardas, sobrancelha feita a lápis e perfume da Coty” (“Miss Suéter”, João Bosco) Faz mais ou menos um ano: entrei no salão do cabeleireiro e disse: – Quero loiro platinado, Agyness Deyn style. A colorista e o cabeleireiro entreolham-se aterrorizados. ‘Voilà, uma louca’, estampava-se [...]

edit friends

(este assunto mereceria um texto mais sério) O Facebook é um lugar. Tal como ler uma revista de celebridades, a gente entra nesse lugar para saber as novidades da vizinhança –ou, no caso, do universo de pessoas conhecidas, ali denominadas “amigos”. Se todos merecem ou não o epíteto, acho que há consenso: é claro que não. [...]

“Sobre a Leitura”, de Marcel Proust

Por que Proust? Porque Proust tem a capacidade de dizer coisas que qualquer um já pensou e já sentiu antes, e ele diz como se fosse o meu (o seu) próprio pensamento quem o dissesse. Sur la Lecture é um prefácio para a tradução que Proust fez em 1906 de duas conferências do crítico de [...]

proxêmica do transporte público

Pegar ônibus em São Paulo era coisa cotidiana. Teve a época do 428-P: elétrico, qualquer buraco fazia aquela antena que liga no fio sacudir e cair (aliás, alguém mais aí é fascinado por aquelas ondas que se formam no asfalto na faixa do ônibus?) . Quando eu era criança e morava no sítio, tinha fascínio [...]

fixar pensamentos na vida offline

Há 13 dias perdi parte do que fui. Havia um pequeno arquivo na tela do meu computador chamado “laureografia”: era uma quarentena de textos. Não devia ter mais que 20KB. Caberia em um disquete de 3′ 1/2. Tão importante era este arquivo e tão intimo que eu nunca quis fazer copia. Pensei em salvá-lo no [...]

tentativa de avaliação sociológica do amor contemporâneo

Ignorance is Bliss Era uma vez, num reino não muito distante, a palavra divórcio não existia do vocabulário jurídico e as mulheres geralmente casavam virgens. Não podiam sair beijando por aí e muito menos dar pra quem desse na telha, porque a crença geral era de que a fina flor borbuceteante era frágil e quanto [...]

próxima fase

Então você já rosetou bastante por aí, já fez muita balada, já beijou tantos que nem se lembra quantos, já transou bêbada sem camisinha e deu aquele sorrisinho sincero de alívio ao pegar o teste de DST, já se apaixonou, já se perguntou “mas como eu pude gostar daquele idiota?”, já reclamou de homem que [...]

28 anos a partir de agora

A verdade é que, se a gente pensar bem, a existência é completamente inútil. Seja qual for nossa ocupação, nossos prazeres, tudo é vão, utterly senseless, vanitas vanitatum. Mas então tô fazendo o que aqui nesta Terra? Penso nisso todos os dias ao acordar: mas levantar pra quê? Estudar mais pra quê? Ganhar dinheiro pra [...]

macho à la française

Allons-y meter a mão no vespeiro. O assunto já foi mencionado ao falar de cachecóis. Mas chafurdemos na jaca direito. Em uma imagem: Não, eu não acho que homem não possa usar camisa rosa. Mas peraê, esse rosa Hello Kitty!? Desculpe, meu etnocentrismo cultural esperneou. A primeira vez que vi no metrô um cartaz com [...]

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