a voz que canta ao fundo
Tenho duas questões breves a tratar aqui. Breves pois minha eloquência transmutou-se em algo ainda ignoto. Subiu no telhado. Só espero não ter batido com as botas.
A primeira é que (eu espero não ter falado disso aqui antes) há muitas vantagens em chegar aos umbrais dos 30 anos, e uma delas é conhecer com muito mais precisão do que aos 20 e poucos os meandros da própria psique. É possível prever melhor quais coisas vale a pena tentar e quais será uma perda de tempo pois você não foi feito pra isso.
Mas o que eu queria dizer é que, conhecendo bem os meandros da minha própria psique, quando uma canção gruda na minha cabeça e não sai por dias e dias, é sempre uma mensagem daquele meu eu mais sábio que eu gostaria de ser mais vezes, mas que se esconde no lago Ness da minha consciência. Mas que bom que ele me manda mensagens, isso me lembra que ele existe. E me lembra também que meu eu mais sábio é um grande melômano, com clara preferência por sambas.
Por exemplo, quando eu sabia que aquele namoro estava capenga mas me dizia que era apenas uma fase ruim… e meu elevador interno tocava no repeat havia dias,
pra que mentir se tu ainda não tens
esse dom de saber iludir
pra quê, pra que mentir
se não há necessidade de me trair
pra que mentir se tu ainda não tens
a malícia de toda mulher
pra que mentir
se eu sei que gostas de outro
que te diz que não te quer
pra que mentir tanto assim
se tu sabes que eu sei
que tu não gostas de mim
Ou quando interessei-me por um cidadão que tinha acabado de levar um pé na bunda depois de algo sério e longo,
se ela me deixou a dor,
é minha só, não é de mais ninguém
aos outros eu devolvo a dó
eu tenho a minha dor
se ela preferiu ficar sozinha,
ou já tem um outro bem
se ela me deixou,
a dor é minha,
a dor é de quem tem
E quando saí de um affair e queria desesperadamente entrar em outro que não me abria a porta,
disse alguém que há bem no coração
um salão onde o amor descansa
ai de mim que estou tão sozinho
vivo assim, sem esperança
a implorar alguém que não me quis
e feliz, bem feliz seria
coração meu, convém descansar
soluça, mas devagar
E quando eu finalmente estava pronta para colocar os pés no avião, tinha vendido tudo, me despedido de todos, e me dei conta que ficaria longe do Brasil e de tudo e todos por um bom tempo
adeus, adeus meu pandeiro do samba
tamborim de bamba já é de madrugada
vou-me embora chorando com meu coração sorrindo
e vou deixar todo mundo valorizando a batucada
em criança com samba eu vivia sonhando
acordava e estava tristonha chorando
jóia que se perde no mar só se encontra no fundo
samba mocidade sambando se goza nesse mundo
e do meu grande amor sempre eu me despedi sambando
mas da batucada agora me despeço chorando
e guardo no lenço esta lágrima sentida
adeus batucada adeus batucada querida
É claro que esse texto está aqui porque tem uma tocando no repeat agora nesse exato momento. Mas essa é daquelas passageiras.
Estou negociando com Nessie para trocar por essa aqui, ela continua irredutível, mas logo há de ceder:
Ok, agora o próximo assunto.
Alguém me explica o fascínio que existe em certas vozes que a gente não sabe dizer se são de homem ou mulher?
Alguns exemplos:
Little Jimmy Scott – I feel like a motherless child
Ney Matogrosso – Bandido Corazón
Wayne Newton – Danke Schoen
E um pseudo-exemplo, pois aqui a voz é efeito de computador e o ator é péssimo. Farinelli – Lascia ch’io pianga