foi assim que H soube de Deus,
concluiu que a sua existência era duvidosa e deduziu a solução para o problema resultante:

(trecho daquele mesmo algo futuramente maior)

Acordou no meio da noite assustado, preso nos lençóis. Esbaforido, chutou os panos de algodão branco e grosso com toda a força, acabou tirando junto a calça do pijama. Estava tudo escuro, nenhum barulho de grilo nem de sapo, todos na casa dormindo. Teve medo de existir somente assim, pra sempre no escuro. Preso nos lençóis. Se ele fosse enterrado vivo como naquela história que a mãe contara antes de dormir, não seria assim? Sentiu um aperto no peito insuportável e desconhecido. Começou a chorar, a soluçar. Estava com muito medo. Não queria incomodar a mãe no meio da noite, mas não se agüentou.

- mãe… ô mãe…
- que foi?
(Acendeu o abajur, olhou pra cara do filho e se assustou)
- o que você tem? por que está chorando?
(tinha vergonha de dizer, parecia muito besta)
- não quero morrer.
(a mãe, que sabia a resposta de tudo, pareceu titubear. Seria porque estava grogue de sono?)
- medo do escuro?
(mas que pergunta. Ele já tinha passado a fase de medo do escuro. Isso era muito mais sério, poxa)
- não. de morrer.
- mas ainda demora muito pra você morrer.
- mas eu não quero morrer nunca.
- mas todo mundo morre um dia.
- mas eu não quero.
- tenta não pensar nisso agora, filho. Vai dormir. Você não vai morrer agora.

Noutra noite, o mesmo medo voltou. Pensou na conversa que teve com a mãe da outra vez. Mas aquilo não o reconfortou. Voltou ao quarto dos pais.

- mãe…
- que foi, filho.
- não quero morrer.
(ela tinha se informado)
- mas não precisa ficar com medo disso, filho. Quando a gente morre, a gente vai pra junto do Papai do Céu, num lugar muito bonito.
- onde fica?
- no céu, filho.
- como você sabe que é bonito mesmo? Você já foi lá?
- não, filho. A gente só vai pra lá quando morre, não pode querer ir antes. Agora vai dormir.

Não tinha coragem de conversar com a mãe sobre o medo que o acordava à noite, era segredo, ninguém podia saber que ele tinha medo daquilo, todo mundo ia rir da cara dele, certeza.

Mas um dia, a sós com a mãe no carro, ele perguntou.

- mãe, onde mora o Papai do Céu?
- ué. No céu.
- mas aonde? Sentado?
- como, sentado?
- o céu não é uma tampa de vidro redonda que cobre a terra? Então ele tá sentado em cima.
- quem te disse que o céu tem uma tampa de vidro?
- eu vi no desenho na televisão.
- não, filho. A Terra é redonda e não tem tampa de vidro nenhuma.
- mas então a gente tá em cima?
- não, a Terra é uma bola e tem gente em todo lugar.
- mas como é que quem está embaixo não cai!?
- isso você vai aprender na escola mais tarde.

Alguns dias depois, durante o banho, quando o irmão já tinha ido pro quarto e a mãe estava lá dentro com ele pegando as roupas sujas do cesto, ele se sentiu à vontade para continuar a conversa.

- mãe, em que parte do céu fica o Papai do Céu?
- não sei filho, não dá pra ver.
- por quê?
- porque ele é invisível.
- então como você sabe que ele está lá?
(titubeou. Ia responder ‘não sei’, mas mudou de idéia)
- sabendo.
- como você descobriu?
- isso você vai descobrir também quando for maior.
- mas eu quero saber agora!
- vai ter que esperar.

No Natal daquele ano, seu pai apontou para o céu escuro e nublado e disse.

- ali, olha ele ali, não está vendo?
- onde?
- ali! O trenó, as renas na frente…
- quantas?
(silêncio)
- hm… acho que umas oito. Não sei, elas estão indo muito rápido, estão cada vez mais longe…
E quando a porta da varanda se abriu atrás dele, lá estava a árvore agora rodeada de presentes.
Então Papai Noel é invisível. Que nem o Papai do Céu.

Depois de abrir os presentes, já subindo as escadas para o quarto para ir dormir, o pai ia na frente, ele perguntou.

- pai, o Papai Noel é o Papai do Céu?
- não, filho. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
- mas eles se conhecem?
- claro, filho. É o Papai do Céu que diz pro Papai Noel quem ganha presente e quem não ganha.
- e pai, por que você vê o Papai Noel e eu não?
- quando você for mais velho, vai ver também. Boa noite.
(odeio ser criança, pensou. Quero ser adulto e poder saber e ver tudo.)

Fazia já um tempo que ele não acordava mais com medo de morrer.

Chegando a época da Páscoa, foi um dia com a mãe no supermercado. Estava tudo lindo, os corredores todos cobertos de ovos de chocolate pendurados por todos os cantos. Ele ia empurrando o carrinho olhando pra cima, até que a mãe tomou o carrinho dizendo que se ele não olhasse pra frente, ia atropelar alguém. Ele gostava de olhar os ovos porque eles tinham embalagens coloridas e brilhantes, mas olhava-os também com um certo desprezo, porque sabia que os ovos que ele ganhava eram muito melhores que os do supermercado.

- mãe, porque o supermercado vende ovo de Páscoa se o coelhinho já traz?
- não entendi, filho.
- o ovo do coelhinho é o mesmo do supermercado?
- não, filho. O ovo do coelhinho é ele quem faz.
- então por que vende ovo de chocolate no supermercado?
- ah, esses ovos são pra quem quer dar de presente. A sua avó não traz ovo pra vocês também? Então, ela compra no supermercado.

A Páscoa daquele ano foi linda. Na tarde de sábado, foram cortar galhos de um pinheiro para fazer o ninho para os ovos do coelhinho. Pegaram também umas folhas de plátano secas, umas cascas de árvore e umas pinhas. Armaram o ninho na sala, deixaram tudo bem bonito e preparado à noite antes de dormir. Ao acordar na manhã de domingo, saíram já correndo ele e o irmão pra sala, e encontraram o ninho coberto de ovos de vários tamanhos, cada um coberto com um papel de alumínio de cor diferente (essa era a embalagem do coelhinho). Ao lado, os dois ovos Serenata de Amor (esses eram da avó).

Na semana seguinte, ao entrar em casa no final do dia após passar toda a tarde brincando, foi jogar fora a casca de banana do lanche e, ao abrir a tampa do lixo, viu lá dentro várias embalagens de ovos de Páscoa que nem do supermercado. Ficou ali com a tampa numa mão e a casca na outra, sem saber o que fazer. A mãe estava do lado, na cozinha.

- mãe.
- quê.
- o ovo que eu ganhei… é do coelhinho ou você comprou no supermercado?
Ela tirou os olhos do que estava fazendo, virou-se para o garoto e viu-o com a tampa do lixo aberto. Fez uma cara. Olhou pro pai, ali do lado, e fez outra cara que ele, H, não entendeu.
- é, é do supermercado, filho.
- então o coelhinho não existe?
- não.
- e Papai Noel, também não existe?
(silêncio)
- também não, filho.

Ele jogou a casca de banana em cima das embalagens brilhantes, atirou a tampa em cima do cesto com raiva e foi pisando duro em direção ao quarto. Mas ao passar pela mãe, gritou

- MENTIR É ERRADO!

Dali alguns dias, uma noite o medo voltou. Tentou não pensar naquilo, tentou pensar que ainda demorava muito, tentou pensar no lugar bonito pra onde a gente vai depois que morre… mas se o coelhinho não existia, nem o Papai Noel, e a mãe tinha dito que existiam, era bem provável que o tal lugar também não existisse. E Papai do Céu, existe? Mas era verdade que ela não tinha morrido já pra poder dizer. Vai ver, só quando a gente morre, descobre. Melhor era então não conversar mais dessas coisas com a mãe. O pai tampouco parecia confiável nesse quesito, fora que o medo de acordar o pai era bem maior que o de acordar a mãe. E o medo da morte continuava ali, atazanando. Então ele ia até o quarto dos pais chorar para a mãe, mesmo sabendo que ela não tinha a resposta, mas receber um cafuné e atenção dela ao menos o acalmava.

Até que um dia, anos depois, o casamento dos pais entrou em crise. A mãe foi pra uma clínica descansar. Ele acordou com um medo de morrer muito, mas muito forte, e só estava o pai ali no quarto, dormindo. O medo de acordar o pai era maior que o de morrer? Pensou um pouco. Não, o de morrer era maior. Foi até o quarto sentindo o coração bater na garganta, agachou do lado da cama e sacudiu o braço do pai.

- pai… pai…
- ahn?
- pai… não quero morrer.

O pai acendeu a luz. Levantou, sentou na cadeira do lado da cama.

- quem devia ter medo de morrer sou eu, que sou velho e estou muito mais perto da morte que você. Você ainda é tão pequeno, tem tanta estrada pela frente. Eu tenho só medo de sentir dor na hora da morte, mas de morrer, não. Porque eu vou continuar vivendo. Em você, no seu irmão. E você também vai continuar vivendo nos seus filhos, quando você os tiver. Mas ainda é muito cedo pra pensar nisso. Não tenha pressa, porque passa muito rápido.
- eu tenho a sensação que demora demais.
- ah, como eu queria sentir isso!

Voltou pra cama pensando no medo que tinha há pouco de acordar o pai, de deixá-lo bravo. Ele ainda não entendia muito bem como o pai vivia nele, mas o importante é que, afinal, ele não ia morrer. Desde que tivesse filhos. E para ter filhos, tinha que casar com alguém, que nem seus pais casaram. E para casar com alguém, tinha que achar alguém de quem gostasse muito. Pensou na menina bonita da sua classe. Seria ela?

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  • (ou como disse João Cabral de Melo Neto, meu medo da morte o amor comeu.)

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