uma mulher que imagina um homem que imagina uma mulher

(trecho de algo futuramente maior)

H gostava muito de dormir. Mas não gostava da hora de deitar-se. Ficava impaciente e o sono sempre lhe fugia chegando a noite. Talvez daí seu gosto por corujas e por asas de mariposas com desenhos que lembravam olhos de corujas. Preferia as sonecas pesadas do meio da tarde. Mas se tinha mesmo que dormir, o melhor sonífero era masturbar-se. Era isso o orgasmo para H: passaporte para o inconsciente. Para o mundo dos sonhos. Uma chave. Um ritual de “abra-te sésamo”. Só gozar e o bocejo vinha, pavlovianamente.

Às vezes o orgasmo vinha rápido. Em outras, ele se desviava tanto nos pensamentos excitados que cansava-se e virava para o lado enquanto esperava o pau amolecer. Muito frustrantes, esses dias.

Mas quando estava com vontade de ficar longo tempo massageando o toco quente com a mão, imaginava poder sentir com dois corpos ao mesmo tempo: o que penetrava e o que era penetrado. Como ele era homem, penetrar era conhecido. Era aquele pedaço de carne fora dele, de vida independente, mas ligado a ele, que mergulhava num buraco apertado (de preferência), quente e escorregadio. Isso era conhecido. O vácuo da retirada. Poder ver o ponto de contato onde um se perdia no outro. Alternar o ritmo, para que nunca ficasse mecânico (lição importante). Só no fim, aí tudo bem.

Imaginar o prazer do corpo penetrado era obviamente mais difícil. Não havia um ponto de referência, i.e. a cabeça do pau. Depois da entrada, aquele túnel era invisível. Seu pau era um verme cego das cavernas.

Ele tinha lido que as mulheres nãos sentem nada lá no fundo, e daí poderem usar absorventes internos confortavelmente. Se sentissem, pensariam no absorvente a cada cruzada de pernas, não? Será que quando usam calcinha fio dental, elas pensam muito naquele negócio enfiado no meio da bunda? Mas se não sentiam nada lá fundo, sentiam aonde, catzo? Era muito difuso para imaginar. Ele perguntava isso para as mulheres com quem tinha estado e elas não sabiam explicar. Isso o deixava desesperado, pois via aquele mistério como uma barreira intransponível para entender uma mulher. Ele tinha a chave colada entre as pernas, mas parecia que por mais que ele abrisse as portas, o diálogo sempre se dava na sala ao lado. O que reforçava a idéia de que seu pau era mesmo um ser independente e intrépido. Como assim, não sabiam? Se nem elas sabiam, como poderia ele, então? Era muito aleatório. Às vezes elas gozavam, às vezes não, e ele não sabia por que. Não dependia dele, era ESSA a dolorosa realidade. Às vezes elas diziam que ele era incrível, às vezes não diziam nada. Sim, tem aquele botãozinho do lado de fora, mas aquilo era uma pegadinha, não era assim tão simples. Afinal, não é isso mesmo que diferencia homens e mulheres? Homens são simples. Mulheres são complicadas. E homens gostam de mulheres porque elas são complicadas, e mulheres gostam de homens porque eles são simples (e por isso mesmo todo homem deve esconder sua complexidade atrás da cafajestice e da covardia). E os tais orgasmos múltiplos? Uma delas contou que, quando gozava, sentia o sangue jorrar nas veias grossas do peito do pé. Outra, aconteceu uma vez, parecia um encanamento que estoura com uma furadeira, jorrava água pelas pernas, uma água cristalina com um cheiro doce, a cama ficou toda molhada e ela ria sem parar, ele olhava fascinado e perturbado, sem saber se deveria ou não se sentir orgulhoso. Algumas gemiam só de serem penetradas, outras precisavam sentir a dor no útero das estocadas para deixar escapar um som da garganta. Qual era a constante, qual era a fórmula, o que faria com que todas as mulheres do mundo quisessem sentar no seu pau?

2 Comentários

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  • Lorelei,
    Não imagino teu perfil, nem tua idade. Gostei do teu conto porque além de revelar tua grande imaginação testemunha uma redação forte e expressiva. Isso é um caso raro nos dias atuais, principalmente entre os jóvens assim ditos modernos ou contemporâneos; eles se limitam ao uso de linguagem coloquial de frases feitas aprendidas na Globo. Aqueles jóvens, quando escrevem, desconhecem o vocabulário e as regras gramaticais; escrevem em internetês.
    Continua escrevendo; foi bom ter lido. Comunique tuas novas criações literárias.

  • Eu gostei mto disso!!!

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