presente

Papal Noel era um tirador de sarro sádico com humor de gosto meio duvidoso e resolveu que era hora de fazer com ela uma grande sacanagem. Aquela criança que acreditava em maravilhas mas não esperava por elas, sabe, aquela? Então, ele entregou na mão dela o presente dos sonhos. E disse: “mas tem data de validade”.
Ela aceitou. Talvez já tivesse idéia das conseqüências. Sempre tinha aquele sonho no qual encontrava a caixinha mágica de alguma fada perdida na grama e tomava-a entre os dedos, fascinada, deleitada por ter-la ao alcance das mãos, por poder tocá-la, e sorria muito ao abri-la, toda besta, mesmo que tivesse medo de ser descoberta, mesmo que aquilo que estava lá dentro, que ela nunca via no sonho o que era, nunca pudesse ser só dela.
Embora houvesse sempre uma tristeza arrebatadora ao acordar. Queria voltar a dormir para reencontrar o que fora perdido ao abrir os olhos. Desejava muito, mas esses sonhos só vinham quando ela menos esperava.
Pois aquele tal presente, dessa vez, era real. Real e prodigioso, muito, muito melhor que um sonho. E foi passando o tempo com ele, olhando para ele, contando histórias para ele, vendo-o ser. Toda besta.
Três dias ela acordou e, ao ver seu presente ao lado da cama, pensou “a realidade é melhor que o sonho”.
Isto é certo.
Fosso Papai Noel quem fosse.
Então o presente foi embora, para muito longe, um longe que ela conhecia bem. Um sótão translúcido do outro lado do mar com muitas lembranças, tantas lindas, outras tantas terríveis.
“Porra, Papai Noel”, pensava ela cada vez que a imagem do presente invadia seu olhar cegando-a do que estava à volta. Tinham sido só três dias, não dera tempo de enjoar, de descobrir defeitos de fabricação. Ela só o levara em seus esconderijos preferidos, mostrara-lhe apenas os caminhos e paisagens que mais a tocavam fundo na alma. E agora todo aquele universo particular era uma grande Ausência, pois aqueles lugares nunca tinham tão bonitos quanto quando ela foi visitá-los com ele.
Na primeira manhã em que acordou e olhou para o lado e ele não estava lá, abraçou o travesseiro e cutucou-o com o focinho como se quisesse acordá-lo. Depois escondeu nele o rosto como se quisesse sufocar e só o tirou quando a fronha já estava encharcada e os olhos inchados. Depois virou-se para o outro lado como se quisesse que ele estivesse ali, olhando para as sardinhas das costas dela, esperando que ela acordasse.
Talvez essa chaga demorasse também só três dias para cicatrizar, pensou.
No primeiro dia foi ocupar-se, passear por lugares desconhecidos, visitar amigos, mas era pegar-se distraída que a garganta apertava.
No segundo dia foi viver o luto com o mesmo apetite do apego, como se um pudesse anular o outro: não comeu; não saiu; não sentiu prazer. Mas ao fim daquele dia sentiu que se continuasse naquele ritmo, deixaria de ser aquela que ele conheceu, e isso não! Ela tinha que continuar sendo a mesma, era o que lhe restava, e… quem sabe um dia ela ainda não o reencontraria?
Mas nisso ela preferia não pensar. Parecia distante demais. E sabe lá por onde andaria ele. Sabe lá o quanto ela teria mudado até então, quantas coisas ambos teriam visto e vivido. Quem sabe ela não teria mais graça ao gosto dele. Quem sabe ela veria nele os defeitos que o idílio não permitiu. Quem sabe ele estivesse muito bem assim, obrigado. E quanto poderia doer uma segunda partida? No terceiro dia, apesar do longo preâmbulo para deixar a cama e por os pés no chão, foi resolver pendências que a esperavam longamente sobre a escrivaninha.
Ao fim daquele terceiro dia ocupado no piloto automático de trilha sonora inercial, sonhou que era um vulcão havaiano. Seu choro era matéria incandescente que escorria em formas redondas, pingava pesadão e escorria devagar, preto, laranja e prata. E criava paisagens novas, lunares, estrambóticas, invadia o mar.
O seu Papai Noel não dava nada de graça. Dava e tirava em seguida, como se dissesse “mas tem certeza que você agüenta essa, ô pirralha?”.
Dessa vez ela ia provar que merecia.

Papai Noel era um tirador de sarro sádico com humor de gosto meio duvidoso e resolveu que era hora de fazer com ela uma grande sacanagem. Aquela criança que acreditava em maravilhas mas não esperava por elas, sabe, aquela? Então, ele entregou na mão dela o presente dos sonhos. E disse: “mas tem data de validade”.

Ela aceitou. Talvez já tivesse idéia das conseqüências. Sempre tinha um sonho no qual encontrava a caixinha mágica de alguma fada perdida na grama e tomava-a entre os dedos, fascinada, deleitada por ter-la ao alcance das mãos, por poder tocá-la, e sorria muito ao abri-la, toda besta, mesmo que tivesse medo de ser descoberta, mesmo que aquilo que estava lá dentro, que ela nunca via no sonho o que era, nunca pudesse ser só dela.

Embora houvesse sempre uma tristeza arrebatadora ao acordar. Queria voltar a dormir para reencontrar o que fora perdido ao abrir os olhos. Desejava muito, mas esses sonhos só vinham quando ela menos esperava. E eram sonhos, afinal.

Pois aquele tal presente, desta vez, era real. Real e prodigioso, muito, muito melhor que um sonho, porque era real. E foi passando o tempo com ele, olhando para ele, contando histórias para ele, vendo-o ser. Toda besta.

Três dias ela acordou e, ao ver seu presente ao lado da cama, pensou “a realidade é melhor que o sonho”.

Isto é certo.

Fosse Papai Noel quem fosse.

Então o presente foi embora, para muito longe, um longe que ela conhecia bem. Um sótão translúcido do outro lado do mar com muitas lembranças, tantas lindas, outras tantas terríveis.

“Porra, Papai Noel”, pensava ela cada vez que a imagem do presente invadia seu olhar cegando-a do que estava à volta. Tinham sido só três dias, não dera tempo de enjoar, de descobrir defeitos de fabricação. Ela só o levara em seus esconderijos preferidos, mostrara-lhe apenas os caminhos e paisagens que mais a tocavam fundo na alma. E agora todo aquele universo particular era uma grande Ausência, pois aqueles lugares nunca tinham sido tão bonitos quanto quando ela fora visitá-los com ele.

Na primeira manhã em que acordou e olhou para o lado e ele não estava lá, abraçou o travesseiro e cutucou-o com o focinho como se quisesse acordá-lo. Depois escondeu nele o rosto como se quisesse sufocar e só o tirou quando a fronha já estava encharcada e os olhos inchados. Depois virou-se para o outro lado como se quisesse que ele estivesse ali, olhando para as sardinhas das costas dela, esperando que ela acordasse.

Talvez essa chaga demorasse também só três dias para cicatrizar, pensou.

No primeiro dia foi ocupar-se, passear por lugares desconhecidos, visitar amigos, mas era pegar-se distraída que a garganta apertava.

No segundo dia foi viver o luto com o mesmo apetite do apego, como se um pudesse anular o outro: não comeu; não saiu; não teve prazer. Mas ao fim daquele dia sentiu que se continuasse naquele ritmo, deixaria de ser aquela que ele conheceu, e isso não! Ela tinha que continuar sendo a mesma, era o que lhe restava, e… quem sabe um dia ela ainda não o reencontraria?

Mas nisso ela preferia não pensar. Parecia distante demais. E sabe lá por onde andaria ele. Sabe lá o quanto ela teria mudado até então, quantas coisas ambos teriam visto e vivido. Quem sabe ela não teria mais graça ao gosto dele. Quem sabe ela veria nele os defeitos que o idílio não permitiu. Quem sabe ele estivesse muito bem assim, obrigado. E quanto poderia doer uma segunda partida? No terceiro dia, apesar do longo preâmbulo para deixar a cama e por os pés no chão, foi resolver pendências que a esperavam longamente sobre a escrivaninha.

Ao fim daquele terceiro dia ocupado de piloto automático e trilha sonora inercial, sonhou que era um vulcão havaiano. Seu choro era matéria incandescente que escorria em formas redondas, pingava pesadão e escorria devagar, preto, laranja e prata. E criava paisagens novas, lunares, estrambóticas, invadia o mar.

Acordou. O seu Papai Noel não dava nada de graça, pensou. Dava e tirava em seguida, como se dissesse “mas tem certeza que você agüenta essa, ô pirralha?”.

Dessa vez ela ia provar que merecia.

2 Comentários

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  • claro que merece!!
    papai noel malvado…

  • Que saudade de me apaixonar!

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