“Sobre a Leitura”, de Marcel Proust
Por que Proust?
Porque Proust tem a capacidade de dizer coisas que qualquer um já pensou e já sentiu antes, e ele diz como se fosse o meu (o seu) próprio pensamento quem o dissesse.
Sur la Lecture é um prefácio para a tradução que Proust fez em 1906 de duas conferências do crítico de arte inglês John Ruskin, reunidas sob o título Sésame et le Lys. Para Ruskin, ler é como conversar com um grande personagem, daqueles que não se encontram à torto e à direito por aí e ao qual dificilmente teríamos acesso rotineiro. Abrir um livro de um grande autor é ter acesso à genialidade e sair da banalidade cotidiana.
Proust tem uma perspectiva bastante diferente do ato de leitura, que lhe é bem caro. O texto do prefácio começa com reminiscências da infância do narrador em torno dos livros que encantavam suas férias de verão –em especial Le Capitaine Fracasse, de Théophile Gautier, romance de capa e espada. Certas frases de Gautier geram deleite no jovem leitor, tal como: “Le rire n’est point cruel de sa nature ; il distingue l’homme de la bête, et il est, ainsi qu’il appert en l’Odyssée d’Homerus, poète grégeois, l’apanage des dieux immortels et bienheureux qui rient olympiennement tout leur saoul durant les loisirs de l’éternité” (1). Proust comenta a sensação de que apenas Gautier poderia revelá-lo essa antiguidade fascinante –mesmo que o preço por tais frases deleitosas fossem longos trechos permeados de descrições entediantes sobre, por exemplo, a quantidade de poeira sobre um móvel e outros detalhes que lhe pareciam absolutamente irrelevantes.
Tais revelações seriam, para utilizar os termos empregados pelo próprio Proust, mais “incitações” que “conclusões”, como quereria Ruskin. A idéia central do prefácio é exatamente essa: a leitura dá acesso a verdades, mas não as entrega inteiras e completas: “(…) ce qui est le terme de leur sagesse ne nous apparaît que comme le commencement de la nôtre (…) (2)”. Daí a legitimidade de ler um grande escritor ou observar uma bela pintura antes de meter-se ao trabalho criativo –o que poderia ser visto como um subterfúgio a quem falta criatividade. “La lecture est le seuil de la vie spirituelle ; elle peut nous y introduire : elle ne la constitue pas.” (3)
Então Proust propõe uma perspectiva quase médica da leitura, como se esta fosse um remédio espiritual. Mas Proust como médico é bem mais ponderado que Ruskin como conferencista moralizador. “De ce que les hommes médiocres sont souvent travailleurs et les intelligents souvent paresseux, on ne peut pas conclure que le travail n’est pas pour l’esprit une meilleure discipline que la paresse” (4). A tolerância dedicada em sua exegese àqueles atacados pela “impossibilidade de querer” é tão sensível que me pergunto se não se trata de auto-comiseração, embora não caia em exageros de condescendência. Enxergo neste momento uma prova de que Proust era bem consciente de seu talento e da própria frustração em não tê-lo feito ainda visível ao mundo –até aquele momento, ele era um rico herdeiro com uma coletânea de pequenos textos desapercebida pela crítica (Les Plaisirs et les Jours) e uma tentativa de romance não publicada (Jean Santeuil). Ele cita o caso de Coleridge nas notas ao fim do prefácio: “il n’y a personne qui, étant doué d’aussi remarquables talents, en ait tiré si peu (…) si bien qu’ayant toujours flottant dans l’esprit de gigantesques projets, il n’a jamais essayé sérieusement d’en exécuter un seul” (5). A posterior dedicação à escrita de À la Recherche du Temps Perdu seria, a meu ver, a tomada de consciência de que seu talento demandaria esforço à altura para concretizar algo de valor.
Conheci um pianista no verão de 2009, aluno preferido de Nino Rota, que era capaz de decorar, ouvindo uma só vez, o concerto que deveria tocar dali a algumas horas em uma fita cassete no toca-fitas do carro enquanto se dirigia ao local da apresentação. Confiando tanto na facilidade que a natureza lhe deu, faltou-lhe a disciplina necessária para virar um grande concertista. Segundo pessoas que o conheceram, ele poderia ter sido tão grande quanto Rubinstein ou Horowitz, dos maiores do século 20 –aos 80 anos, vestido com um terno de bolsos puídos, ele ganhava mal a vida dando aula em um conservatório de música em Pescara. Disse-me uma frase que tenho guardada como algo que deveria estar escrito em letras garrafais na entrada de um portal: “você deve fazer por merecer o talento que lhe foi dado”.
Proust precisou de 15 anos.
*tradução dos trechos em francês, embora traduzir Proust dê medo. Está longe do razoável. Se eu cometer algum erro crasso, por favor, francófonos, aidez-moi:
(1) “O riso não é cruel por natureza; ele distingue o homem do animal e é, tal como aparece na Odisséia de Homero, poeta helênico, o apanágio dos deuses imortais e bem-aventurados que riem olimpicamente toda sua embriaguez durante os lazeres da eternidade”
(2) o término de sua sabedoria é-nos apresentado como o início da nossa
(3) A leitura é a entrada para a vida espiritual; ela pode lá nos introduzir: ela não a constitui.
(4) Do fato dos homens medíocres serem geralmente trabalhadores e os inteligentes geralmente preguiçosos não podemos concluir que o trabalho não seja, para o espírito, melhor disciplina que a preguiça
(5) não há ninguém que, sendo tão dotado de talentos notáveis, tenha-os aproveitado tão pouco (…) que tendo sempre passeado o espírito por grandes projetos, não tenha jamais tentado executar seriamente nem um só

Laurinha, belo texto, um dos melhores que eu já li da sua lavra. Mas queria pedir uma concessão: rola uma tradução dos trechos em francês para este tupinambá de Caieiras?
é pra já!
“Você deve fazer por merecer o talento que lhe foi dado”. Genial isso. Um tosco viver toscamente é o que dele se espera. Um gênio viver toscamente entristece um pouco.
e engraçado que ontem assisti, por acaso, aquele filme “Gênio Indomável”, q tb fala disso.
Lauritcha….
é vc mesmo?
do Mack???
menina penso muito em vc…. escreve pra mim por favor…..
é a Fabiola…. te mato se nao lembrar de mim, rsrsrs
bjs
fabioladeus@gmail.com