fixar pensamentos na vida offline

Há 13 dias perdi parte do que fui. Havia um pequeno arquivo na tela do meu computador chamado “laureografia”: era uma quarentena de textos. Não devia ter mais que 20KB. Caberia em um disquete de 3′ 1/2. Tão importante era este arquivo e tão intimo que eu nunca quis fazer copia. Pensei em salvá-lo no meu e-mail, mas não o fiz, pois ‘e se alguém entra no meu e-mail?’.

Mas há 13 dias eu cheguei em casa e alguém tinha passado por lá. Invadir o e-mail parecia tao mais provavel… e engraçado, quando a gente mora sozinho, inho-inho-inho, às vezes tem uma fita de cetim (eu tenho muitas fitas de cetim, de varias cores) fora do lugar e a gente pensa “caramba, fui eu mesma que coloquei aquilo ali? Em plena consciência, eu jamais faria isso”. E por um lapso infimo de tempo, os olhos reviram imaginando que talvez não tenha sido você, mas alguém que passou por ali enquanto você não estava olhando (por isso é sempre a empregada que se fode). Mas isso nao é possivel, não é mesmo? As portas estavam trancadas, a janela travada e aqui ninguém tem empregada, muito menos eu. Ninguém esteve ali, isto é certo. A não ser que possamos considerar gnomos e toda a máfia de São Longuinho.

Mas há 13 dias eu soube que alguém tinha estado lá. Essa certeza é exatamente o contrário daquele lapso infimo de tempo. Principalmente por durar bastante. Ela permanece. Antes, se eu pensasse, por exemplo, “por que o cumaru (também conhecido como tonka bean), nativo da floresta amazônica, que tem um cheiro tao gostoso e parecido com a baunilha, é proibido nos EUA”, eu abriria meu computador na minha casa e descobriria apos consulta gratuita com o deus Google que a razao disso é a forte presença de coumarina, uma substância quimica natural, que em grandes doses pode ser muito toxica. Mas, até ai, noz-moscada também é muito toxica e a gente nunca ouve falar de overdose de noz-moscada. E então eu pensaria sobre a influência do Estado na vida intima das pessoas, na necessidade idiota de criar leis sobre coisas minusculas e desimportantes e no fato de eu ter nascido no planeta Terra mas nao poder morar em qualquer pedaço de terra dentro dele simplesmente porque alguém chegou lá antes. Em seguida eu ficaria assustada imaginando como devia ser desesperador para os indios a ideia de que precisavam de um papel chamado escritura para provar que eram eles os donos da terra, se eles sempre estiveram lá, isso era logico. E talvez, logo apos, eu lembraria de reunir os documentos necessários para minha entrevista com as autoridades francesas para renovar meu visto e fecharia meu computador, desejando entretanto que toda a burocracia do mundo explodisse. Mas em nenhum momento eu pensaria no meu computador. Ele estar ali era certo, obvio, normal.

Mas agora eu não tenho mais computador. Tenho, por outro lado, uma fechadura nova, mais potente e muito mais cara. E cada pergunta que me surge na cabeça, eu tenho que pensar mais sobre o que fazer para respondê-la. Se ela é mesmo interessante, devo anota-la. Nao em qualquer lugar, porque pior que esquecer um pensamento é esquecer onde ele foi anotado. Para isso, cria-se a necessidade de uma caderneta que esteja sempre comigo e que sirva somente para isso, como um arquivo movel chamado “duvidas.txt”. No caso do tonka bean, a resposta podia ser encontrada numa enciclopédia de gastronomia que estava servindo mais como apoio de badulaques na minha prateleira que como livro.

E quando o verbete acaba, eu posso continuar lendo sobre a fermentação do chocolate e do porquê do chocolate branco nao ser um chocolate. Ou eu posso olhar para o teto e lembrar que, desde que eu tirei o papel de parede horroroso que cobria a superficie da minha mansarda recém-invadida não coloquei o acabamento dos frisos no teto, e que aqui a gente tem que aprender a fazer tudo sozinho.

E a verdade é que eu nao tô sentindo muita falta do computador.

Ao contrario, mesmo. Tô sentindo um alivio. É como se eu tivesse reencontrado o ritmo temporal para o qual eu fui feita.

Voltar a escrever com papel e caneta é mais dificil do que eu imaginava. O ritmo é completamente outro. Mas sobre isso eu falo depois.

Entao o computador era um habito. Mas nao um vicio. Espero conseguir lembrar desses dias quando outro computador ocupar minha mesa.

Mas ai, aquele arquivo…

Entao eu lembrei que, apesar de tudo, os textos que estao aqui neste endereço se salvaram. E dei um suspiro.

(desculpem-me pelos acentos, estou num teclado francês. Ele possui uma logica que escapa  à minha compreensao: tem que apertar shift para fazer ponto final, entre outras coisas)

3 Comentários

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  • agradecimentos a mr. vinicius pela inspiraçao para o titulo.

  • Como é que diz mesmo no mundo offline. Não se diz: Clap! Clap! Clap!

  • Manu e eu lemos e gostamos! :)
    Seus textos são gostosos de ler e sempre acabam rápido……….
    Consegui enxergar suas fitas coloridas e todos os seus pensamentos. Vc pensa pra cacete, hein? rs…. Mas disso eu já sabia e sempre me orgulhei.
    Tenho a oportunidade de entrar no ritmo normal da vida e suas demandas sem computador quando estou no sítio e é ótimo poder viver um tempinho longe dele. Mas como nos traz segurança encontrá-lo na volta, né? Dependência feia………

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