tentativa de avaliação sociológica do amor contemporâneo

Ignorance is Bliss

Era uma vez, num reino não muito distante, a palavra divórcio não existia do vocabulário jurídico e as mulheres geralmente casavam virgens. Não podiam sair beijando por aí e muito menos dar pra quem desse na telha, porque a crença geral era de que a fina flor borbuceteante era frágil e quanto mais manipulada, menos valor tinha. O eleito ao posto de cara-metade, cônjuge (com quem se divide o jugo, a pena –a etimologia é sempre reveladora!) ou consorte –como preferir– via-se na situação confortável de única (presumia-se!) referência emocional-sexual na vida da donzela a ele prometida. Se o cara beijava mal, se roncava, tinha chulé, se só-dava-três-gozava-e-virava-pro-lado, a tendência da jovem esposa era crer que, bem, a vida é assim mesmo… pois como imaginar que poderia ser diferente se não havia com o que comparar? Não é à tôa que se casava cedo, pois só assim adquiria-se acesso aos mistérios gozosos, lícitos –na cama conjugal– ou ilícitos… em qualquer lugar.

Ao menos, imagino eu que era assim. Pelos filmes, pelos livros, pelos relatos.

Festa do Cabide

Mas já faz tempo que temos pílula, ganhamos dinheiro e… damos pra quem bem entender. Já faz algum tempo. No começo o pessoal se empolgou. Quem leu “A Mulher do Próximo”, do Gay Talese, got the picture da coisa nos EUA –embora a abstinência seja levada muito a sério em nossos dias, vide política de educação sexual do governo Bush. Aqui na França não sei bem ainda como se deu… afinal, romances pornográficos já serviam de sátira política e social antes mesmo da revolução de 1789, ou seja, embora à boca pequena, todo mundo (que sabia ler, não era a maioria) sabia bem o que acontecia na alcova alheia. Por outro lado, conheço a história de uma mulher que, ao divorciar-se nos idos dos anos 1980 em uma cidade pequena da campagne française, foi escorraçada pela família. Afinal, se o marido tinha arranjado uma amante, a culpa só podia ser dela, a esposa. Divorciar-se era falta de vergonha na cara.

(Parênteses: quando fala-se de tendências quaisquer no mundo, fala-se sempre de uma minoria. É um quero-ser exercício de previsão do futuro, de identificação de epidemia cultural. Entretanto, a maioria dos 6,5 bilhões de seres humanos parece estar quase sempre de fora –talvez porque seja tão difícil incluir culturas tão díspares quanto da China e da Índia na nossa descendência católica romana? Fala-se da perspectiva do umbigo, portanto, ressalvas a fazer. Fecha parênteses:)

No Brasil, que já é tão grande e tão díspare dentro dos próprios limites, talvez possamos identificar uma empolgação importada dos EUA nuançada pela “feérica, irisada, multicolorida variedade” do machismo tropical. Pornochanchada com ditadura militar, Dancin’ Days e TV Mulher.

O HIV foi uma banho de água fria, maldição contedora dos ânimos exaltados da liberdade sexual. Mas me parece que desde o milagre de Magic Johnson, a coisa perdeu parte do seu poder aterrador.

Le Mal du Temps

Outro dia, conversando com uma das minhas professoras preferidas na faculdade, uma senhora muito sábia e simpática de uns 50-60 anos, com quem tenho aula de árabe e antropologia da comunicação, o assunto virou para ‘as linguagens amorosas’ de cada cultura. Eu comentei que não me entendia e nem tenho vontade de me adaptar ao que me parece ser o modo francês de ‘fazer a corte’ –um joguinho de gato e rato, no qual a mulher é tanto mais desejada quanto mais se mostra maquiavélica, manipuladora e insensível. Ela, após perguntar se eu já tinha lido “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, me disse uma frase que está na minha cabeca até agora: “la liberté sexuelle a tué l’amour” (”a liberdade sexual matou o amor”). A hipótese dela é mais ou menos assim: com a liberdade sexual, os rituais perderam significado, os símbolos morreram. E sem símbolos, o Homem morre.

Há muitas questões a considerar nessa história, mas acho que ela tem razão, em parte.

Peguemos como objeto de análise a festa de casamento (embora na prática a teoria seja bem outra, tento seguir algum método para expor um ponto de vista). Festa de casamento é sempre divertida, momento inesquecível da vida do casal, todo mundo dança até o amanhecer. É bom mandar o convite com bastante antecedência para dar tempo de todas as listas de casamento online em quatro lojas diferentes ser comprada. Pois que outra finalidade tem casamento hoje, senão mobiliar e equipar a casa do casal? Isso quando a dupla já não mora junto. É uma troca: eu te convido para minha festa, te ofereço comida e diversão, você me dá um presentão. Tudo muito útil e conveniente. E sempre vai ter gente que vai reclamar da comida.

E hoje parece que as festas são todas iguais, porque as empresas que se ocupam de tudo apostam na mesma fórmula (a não ser que você tenha muito dinheiro pra gastar). E às vezes parece que o mais importante da festa toda são os fotógrafos. Lembro do causo contado durante uma aula de fotografia: quando ainda não tinha foto digital (nem faz tanto tempo assim!), a equipe encarregada de registrar o casamento teve um problema na hora da revelação e TODOS os filmes queimaram. Não sobrou uma fotinho só. A noiva teve um xilique e só sossegou quando fez a festa de casamento DE NOVO. Com a mesma equipe de fotógrafos. Que então entregaram o álbum direitinho, sem cobrar duas vezes pelo serviço.

Apesar de tudo, quem é louco de dizer que antes era melhor? Principalmente para as mulheres. Se fosse pra casar, tinha que ter a ficha limpa, nada de fama de rosetar demais por aí. Isso quando não tinha que provar que era virgem, como ainda é comum em países da África árabe, nos quais cabe à sogra verificar com as próprias mãos que o selo da candidata está intacto. Se não casasse, restava cuidar dos pais velhos e doentes. Profissões decentes possíveis: professora de primário, enfermeira, secretária.

“He who works on a candy store has no desire for sweets”

Mas voltando à nossa pequena realidade. Depois da ignorance is bliss e da festa do cabide, chegamos num nem isso nem aquilo. Se por um lado a liberdade sexual satisfaz os desejos imediatos, por outro tudo ficou muito banal.

Identifico uma tendência que parece expressar uma tentativa (vã) de conciliar o melhor dos dois mundos: homens e mulheres experientes de casos e trepadas adotam comportamento de herói/heroína literária medieval: adoram os amores impossíveis. Se o(a) candidato(a) é legal, gente boa, disponível, com boa pegada, enfim, tudo o que se pedia de presente de Natal anos atrás, não serve. Não tem graça. Antítese da época precedente, a menina que hoje atormenta os corações é a que atiça o fogo dos moçoilos ao redor, mas fica de cuzinho doce, guardando a flor (isto é, recusa-a a ele e dá a outros).  O homem dos sonhos das mulheres acometidas é aquele que age como namorado, leva pra passear e come direitinho no fim da noite, mas não quer compromisso. Ou como identificou o grande pesquisador dos modos de macho e modinhas de fêmea Xico Sá, “antes mesmo um bom canalha, com pegada, do que um macho frouxo e vacilão”.

Ao lado disso, temos a outra solução vã, utilitária (muito comum por aqui): juntemos os trapinhos porque é mais barato, pagaremos menos impostos, teremos uma trepada fixa sem necessidade de camisinha, alguém para me esquentar durante o inverno. Além do mais, ele tem carro, máquina de lavar roupa e um emprego estável, no qual ganha razoavelmente bem. Ela é bonita, se veste bem, cozinha e, principalmente, não é complicada.

Sem Receita

Conclusão: só sei que, da metade masculina dos 6,791 bilhões de pessoas no mundo, ao menos um deve rolar. Fé na matemática das probabilidades. Como disse a Mari, “vambora que a vida é curta e a minha saia, menor ainda”.

Adendo importante: todo problema contém sua própria solução.

6 Comentários

Assine o feed RSS dos comentários deste post.
  • Eu li “Fragmentos do Discurso Amoroso”. Não lembro dessa frase, sinal de que preciso relê-lo. Mas lembro que ele me ajudou muito na minha fase de luto pós-término de namoro. Lembrei de outra frase, que eu li em algum outro lugar: “Só o amor não realizado é romântico”. E, por mais que eu não queira, eu tenho que concordar…

  • Acho q essa frase não faz parte do “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, é da professora, mesmo. Ou de algum outro lugar. E essa do amor não realizado, lembro dela do Vicky Cristina Barcelona… referências…

  • Melhor “avaliação sociológica do amor contemporâneo” (categoria audiovisual):

    http://www.youtube.com/watch?v=iaN4CnS6Wc0

  • O sexo e os relacionamentos, consequentemente, sempre estarão entre as grandes discussões humanas. Explicação genética: você nasce, cresce, reproduz e morre.

    Imagino uma jovem mulher de 28 ou 29 anos, escrevendo em seu diário, em 1930, o quanto era difícil a situação para ela, que não podia conhecer os homens até escolher o amor da sua vida, além do risco de chegar aos 30 ainda solteira. Hoje, pode não ser mais fácil encontrar esse amor, mas as formas de pensar e encarar um relacionamento nunca foram tão plurais. É claro que isso deixa todos desnorteados. Não há um roteiro básico para ajudar. Eu vejo, entretanto, uma evolução na forma de agir e pensar. Quem sabe não podemos encarar essas dificuldades como algum tipo de seleção natural.

  • Flagrado reciclando piada velha, que vergonha. Mas sim, soy yo, e que coincidência incrível você conhecer o Documento Cásper – não tenho ideia de quem você é, e acho que cheguei no seu (ótimo) blog a primeira vez pelo Allan Sieber. Coincidência mesmo.

  • E desde quando eu uso saia curta?! Que absurdo! Hahahahahahahahhahaa!!!!!!!!!!
    Me desagrada profundamente a pouca ou nenhuma experiência antes de um compromisso. Mas é fato que estar numa loja de doces nos faz ter vontade de comer um pão de queijo. Disso eu já sabia. Por isso faço graça mas me mantenho longe das prateleiras e das saias curtas. 98% do tempo, pelo menos. rs……….

Comente

Seu email não será exibido. * Campos obrigatórios

*
*
*