os peixes-dálmata e a declaração do batman

Os peixes voavam fazendo lambança no chão de terra do largo na frente da porteira do sítio.

Eram brancos com umas manchas pretas, peixes-dálmata, lembravam linguados, mas meio felinos. Pululavam saltando os fios elétricos. Catei um e espetei com um pauzinho, pus em cima de umas brasas que estavam lá perto da touceira de mamona –sempre que tinha fogo na entrada da porteira eu sentia agulhada no peito, mas dessa vez pareceu normal. O homem desdentado na sombra do mercadinho da frente me dizia qualquer coisa, mas eu entendia lhufas. Tirei o peixe da brasa e provei. E não é que tava bão?

Mas o que é que eu fazia ali na porteira, mesmo? Era cedo, mas chegava perto da hora da bóia. Já ia lavando o arroz.

Ali pro lado de dentro eu via um casal que se abraçava. Reconheci: Batman e a Mulher Gato. Ele tinha confessado todo o amor contido que sentia por ela, disse que queria morar junto, que nunca tinha estado tão certo de algo na vida. Segurava-a pelas cadeiras, trazendo-a para junto de si, seu uniforme de borracha preta lutrosa desenhava cada músculo do seu glúteo apaixonado. Terno, calmo, protetor, uma montanha de músculos pulsando benquerença, todo chaga, a insígnia amarela no peito um farol de declarações.

Ela colocava as mãos cheias de garras sobre o peito dele, delicada mas hesitante, desviava a cabeça para os lados. Enquanto ele procurava o olhar dela através dos buracos na máscara, ela fitava os papiros do lago e os tapetes de rãs atropeladas na estrada de terra empoeirada.

Gata desassossegada. Desejara aquilo tanto, tanto, quantas horas miando sobre os telhados à noite, ao luar, pensando nele, nele.

Estavam ali, sob um sol branco e frio de férias de julho. Com minhas botas vermelhas de borracha sete léguas, a barra da calça azul do uniforme do colégio pra dentro pra não entrar cobra, camiseta branca esgarçada, eu passei de lado buscando pelo vão das toras algum pedaço bonito de giz colorido no ladrão do lago que corria por baixo da estrada.

Olhei pros dois:

–Ih, agora ela num qué mais!

E senti um pingo de água babenta no nariz. Era um peixe que voava. Aí sim, fui correndo até a porteira.

2 Comentários

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  • Cadê mais? rs……. Mais, mais, mais!

  • elas sempre não querem mais.

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