baby, it’s cold outside

Eu sei que a maioria dos meus queridíssimos, caríssimos, preciosíssimos leitores está na Paulicéia Desvairada onde agora faz sol e calor. Mas como a Terra é redonda e, ainda por cima, inclinada, calhou que por aqui é o contrário e tudo a minha volta grita FRI-O-O-WOW. Então vou falar do frio. De novo. Porque de calor a gente entende e não precisa falar nada, basta balançar na rede com um coco verde apoiado na barriga (sem esquecer do repelente). Quem sabe não refresca?

Conheci por aqui um rapaz que gostava muito do frio. Na grande metrópole de 1500 habitantes em que ele nasceu e viveu até os 21 anos, onde é desaconselhável perder-se na estrada sem saber falar alemão (fica em território francês, a 10km da fronteira leste), todos estão acostumados a ver o mundo se cobrir de branco no inverno. Natal sem boneco de neve não é Natal. Férias de inverno sem temporada de esqui não são férias.

Fui visitar a tal metrópole. Primeira experiência memorável, claro: a culinária local. Enquanto nós, brasileiros, comemos arroz e feijão diariamente, eles comem batata, salsicha, batata, repolho, batata e, de vez em quando, estômago de porco recheado. Ah, esqueci: e queijos très odorants. Com tudo isso não é à tôa que tomei lá, também, o melhor digestivo que já experimentei na vida: quando eu já quase morria de indigestão na estréia, a sorridente avó do rapaz me ofereceu um copinho de um licor caseiro, uma dose que nem de cachaça. Virei duma vez e imediatamente senti como se Moisés agisse via schnapps e abrisse caminho pelo meu estômago dolorido num milagre, fazendo toda aquela carne mergulhada em molho branco seguir seu rumo natural (hm, essa metáfora é muito kosher para esse prato).

Desde que morava em Paris, o rapaz acompanhava a metereologia apaixonadamente, esperando a moça do tempo anunciar neve para o dia seguinte como quem olha para o sorteio da Megasena ou aguarda indenização econômica do plano Collor. É verdade que em Paris neve é coisa rara. Mas ano passado nevou três vezes, quase um milagre. E eu, brasileira que só tinha visto neve em Bariloche lá na montanha, bem ao longe, porque era verão (tentei outra vez em São Joaquim. Não rolou.) parava tudo e corria pra frente da TV no intervalo da météo. Pois finalmente sopraram os ventos siberianos e veio a neve.

Ah! A neve… dá até pra esquecer que faz frio!

Enquanto a neve cai, parece que tudo é silêncio. Que o mundo está se cobrindo para ir dormir, todo puro e branco.

Até alguém escorregar. Ou tudo virar lama. Se você estava postergando a ida ao sapateiro para arrumar aquele furo na sola da bota velha, rapaz, o sapateiro vai receber visita sua hoje mesmo. Mas só depois que você passar em casa, fizer um escalda-pés e colocar as meias em cima do aquecedor para secar.

Mas o rapaz fã do Homem de Gelo não estava nem aí para isso. Enquanto eu me escondia embaixo do acolchoado esfregando os pés tentando esquentá-los, ele escancarava a janela e respirava fundo aquele ar glacial possuído por uma felicidade tão infantil que eu não achava justo reclamar. Ele percebia meu descontentamento e atirava um argumento para me converter: “olha só que ar mais puro!”. Nunca tinha pensado nisso, mas faz sentido. Quando a temperatura cai abaixo de zero o ar fica seco. Não dá pra sentir cheiro de nada. Não se vê uma mosquinha, um pernilonguinho, uma formiguinha. Ar puríssimo, sim. Mas de manhã eu preferia correr para dentro do carro e ligar o aquecedor, enquanto ele raspava a camada de gelo endurecida sobre o pára-brisa como se aquela fosse a mais recompensadora das atividades físicas deste mundo.

Enquanto eu o olhava pelo vidro indo e vindo com a espátula de plástico, sentia até uma certa inveja por me saber incapaz de ter tanto prazer com algo tão simples.

Mas meus prazeres simples são outros.

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3 Comentários

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  • Realmente, com o frio que faz na Alemanha, se eles se dedicassem a cozinhar com coisas frescas, morreriam todos de fome. Ir a um restaurante alemão no verão é garantia de pesadelos estomacais por hora.
    Muito gostoso esse seu texto, Laureta.

  • Fale de frio, fale de calor, fale de moscas ao redor da rede, fale de neve…só não deixe de falar porque um dos meus prazeres simples é ler você!

  • Rio de Janeiro marcando presença no blog!

    Achava o frio bem atraente, mas tinha a mentalidade carioca, de que 15º C é inverno. Depois da experiência de -10º C no deserto na Bolívia, agradeço por morar no trópico. Camisa encharcada de suor é melhor que perder a sensibilidade nos dedos, ver os lábios rachados e sentir as narinas queimarem a cada respiração.

    Ah, mas é verdade, a neve é bem legal!

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