jardin d’acclimatation
Quando cheguei aqui ano passado, as estações do ano eram, para mim, o que é para todo paulistano: um ritmo vago escondido por trás das loucuras meteorológicas que caracterizam a cidade da garoa. Lembro de ter lido uma vez em uma dessas revistas femininas que uma solução para organizar o armário e dar mais espaço era, em meados da primavera, guardar os casacos na parte superior ou numa mala. Achei o conselho absolutamente estúpido: em São Paulo, é normal ter que usar casaco de lã em um dia e morrer de calor no outro. Ou até em um mesmo dia: de manhã, aquele frio de rachar. Meio-dia, arranca tudo, o pessoal carregando casacos na mão no caminho do almoço na Paulista. Fim da tarde, tremedeira de frio enquanto espera o ônibus no ponto.
Outra vaga sensação de ritmo são as épocas das frutas e legumes, embora isso esteja cada vez mais diluído com as importações. Quando é época de jabuticaba? Não sei, e olha que eu morei em sítio até os dez anos. Outra referência são as árvores floridas: como passar incólume por uma calçada coberta de ipês-amarelos, como não suspirar? (Parênteses: ipê-amarelo me faz lembrar de quando eu ia com minha mãe de caminhonete pela estrada de terra até a cidade mais próxima do sítio, Jordanésia –do lado de Jundiaí e Caieiras–, comprar carne para o dia seguinte –minha mãe não gosta de carne congelada e eu acho que ela está muito certa. Um dia vi que todas aquelas pequenas árvores que tinham sido plantadas nas calçadas ao lado do supermercado à beira da Anhanguera eram ipês –pequenininhos, um pouco mais altos que um homem adulto, já estavam carregados de flores. Eu, que achava Jordanésia tão feia, mudei de idéia naquele dia.) Ou ao virar uma esquina e dar de cara com um ipê-roxo enorme e pesado de bolotas de flor? Mas mesmo ipê, cada um dá flor na hora que quer. Tem uns que dão em abril, outros em setembro. E o cheiro de uma flor branca de jasmim-manga? Mas essas também, às vezes ainda é inverno e elas já estão lá.
Pois então, tudo isso pra dizer que estações do ano, em São Paulo, é algo que não influi muito na vida da gente. Melhor falar em estações de chuva –o trânsito em março, com aquele toró todo dia ao final da tarde, por exemplo, afeta muito a vida de todo mundo…
Pois então. À Paris as estações são bem marcadas. Sim, isso eu e você já sabíamos, mas viver as tais estações… é incrível.
No começo da primavera, em abril, há uma semana mágica. As árvores, já há muito peladas, com aquela cara de morte retorcida pelo frio do inverno, nodosas de tanta poda, soltam botões na ponta dos galhos. Pequenininhos, crescem rápido. Dá até ansiedade ao passar pelas árvores da vizinhança e ver cada dia aqueles botões mais gordos. E um dia, ao sair na rua, todos os plátanos da cidade estão balançando com folhas verdinhas e molinhas, aquele verdinho de maçã-verde, quase amarelo, de um frescor sem tamanho. Ainda não dá para sair sem casaco, mas é uma semana de felicidade que só vendo.
Só aí músicas como “April in Paris” passam a significar alguma coisa. Ou ainda aquele trecho de La Bohème, ainda mais para esta que vos escreve, habitante de uma minúscula mansarda com varanda:
Vivo sola, soletta
là in una bianca cameretta:
guardo sui tetti e in cielo;
ma quando vien lo sgelo
il primo sole è mio
il primo bacio dell’aprile è mio!
(Vivo só, sozinha
Do meu quarto branco
Vejo os telhados e o céu
Mas quando vem o degelo
o primeiro sol é meu
o primeiro beijo de abril é meu!)
Mas eu queria falar de algo típico do outono, que reina por aqui.
Ao chegar em Paris, começo de setembro, vi aquelas montanhas de cogumelos expostos nas prateleiras dos primeurs, pequenos horti-frutis espalhados pela cidade. Mas como eram em geral bem caros –15 euros o quilo ou mais– e sempre pareciam meio atropelados, com cara de não muitos amigos, eu não me animava (outro dia vi uns que pareciam fresquinhos, mas eram azuis! Não me apeteceram). Então li num site: “época de cogumelos – como identificá-los”. Pois ora vejam só, a gente aqui pode caçar cogumelos na floresta.
Isso me parecia programa de gnomo ou de maluco atrás de alucinógeno barato, que no amanhecer da balada em cidade do interior sai pelos pastos atrás de cocô de vaca e sempre corre risco de levar uma chifrada. Mas seja para dar barato ou só encher a pança, precisa saber bem o que está fazendo porque a maioria dos cogumelos é venenosa. Quem mora no campo sabe onde procurar e volta com cestas carregadas. Pelo o que eu entendi, perto de cada espécie de árvore tem uma espécie de cogumelo. Alguns cogumelos aparecem em forma de círculo –a explicação para isso era que, se você tivesse chegado um pouco antes, teria visto naquele mesmo lugar fadas (ou bruxas) dançando em roda…
Esse ano lembrei dos cogumelos. Mas já está meio tarde. Uma menina da faculdade me explicou: “depois da primeira chuva do fim do verão, tem que contar três semanas. A melhor época é até quando as folhas das árvores começam a cair”. Bem, já tem muita folha na rua. Naquelas meio esquecidas, onde a prefeitura não varre, até dá para brincar de criança e andar chutando folhas de plátano secas. Será que terei que dizer adeus aos cogumelos e esperar o ano que vem?
A mesma coisa aconteceu com as castanhas portuguesas, os marrons –têm época bem definida e já tá quase no fim. Os parisienses vão nas florestas próximas à cidade e voltam com sacos cheios.
Mas a questão é: como chegar em floresta de marron ou em floresta onde tem cogumelo de RER (o trem que liga Paris à periferia)? Alguém aí tem experiência como caçador de cogumelo?
Porque a minha experiência se restringe a borboletas, vagalumes e pinhões de araucária…
Jabuticaba? Se bobear foi mês passado por aqui….e falo do alto de meu achismo………
Fiquei namorando os brotinhos do pé de caqui aqui de casa tb, essas folhinhas novas são quase um antidepressivo mesmo…rs….delícia!
Sobre caçar cogumelos…bem…me lembro do Doidinho fazer isso lá em Sarapa, pergunte pra ele! hahahahahahahahah!!!!!! :) Beijocas com muitas saudades!