gainsbourg & lolitas

As lolitas são fartas na música de Gainsbourg. Já mencionei a idolatria que ele tinha pelo livro de Nabokov em “Jane B”.

Em “Chez Les Yé-Yé”, 1963, rendição ao ritmo contagiante dos anos 60, ele dizia non rien n’aura raison de moi/ j’irai t’ chercher ma Lolita/ chez les yé-yé (não, nada decidirá por mim/ eu vou te procurar minha Lolita/ no ié-ié). Até aí, nada que a moral francesa ache condenável.

Non rien n’aura raison de moi
J’irai t’ chercher ma Lolita
Chez
Les
Yé-yé

Mas com “Les Sucettes” foi diferente:  houve barulho, sim… uma grande tiração de sarro com a coitada da intérprete, a loirinha-cara-de-santinha France Gall (dona das risadas de “Pauvre Lola”), na época com 17 anos, ícone infantil/adolescente. Ela jurava não ter se tocado dos double senses da canção de Gainsbourg, em cuja letra um pirulito de anis mais-que-sugere felação e, principalmente, seminofagia. Tempos depois alguém explicou e ela ficou profundamente ofendida –além de loira, ela tinha fama de não ser uma inteligência lá muito brilhante.

Annie aime les sucettes

Les sucettes à l’anis

Les sucettes à l’anis d’Annie

Donnent à ses baisers

Un goût anisé

Lorsque le sucre d’orge

Parfumé à l’anis

Coule dans la gorge d’Annie

Elle est au paradis

en portugais:

Annie gosta de pirulito

Pirulito de anis

Os pirulitos de anis de Annie

Dão a seus beijos

Um gosto anisado

Quando o açúcar de cevada

Perfumado de anis

Escorre pela garganta de Annie

Ela está no paraíso

Sua obra mais influente, a ópera-rock lírico-erótica “Histoire de Melody Nelson” (1971), cujas sete peças não completam nem 30 minutos, é a helegia máxima da lolitofilia (neste link húngaro dá pra ver o videoclip da ópera inteira com Serge e Jane).

Começa assim: um homem passeia por uma estrada embalado por delírios eróticos com a “Vênus argêntea do radiador”, símbolo do carro que dirige, um Rolls Royce Silver Ghost 1919 –a escultura era apelidada “Spirit of Ectasy”. Um barulho e o motorista é trazido de volta ao mundo real por uma roda de bicicleta que gira em falso em frente ao carro. Ao lado, como uma “boneca que perdera o equilíbrio”, “a saia para cima mostrando a calcinha branca”, está Melody Nelson, ruiva, “14 outonos e 15 verões” de idade. Eles vão para um hotel, transam, ele se apaixona, ela morre num acidente logo em seguida.

Resumindo assim parece tudo muito banal. Mas é meio como naquelas egotrips fellinianas: o cara é claramente tão bom no que faz que você não só desculpa, como admira. E afinal, o que há de mais interessante no mundo do que pessoas que mergulham na vida de cabeça? Em poucas linhas, Gainsbourg consegue transmitir o sentimento obsessivo do homem pela mocinha (“ah, Melody, se você mentir pra mim eu fico doente, não sei o que poderia te fazer”), o que nos lembra mais uma vez Humbert Humbert e sua Dolores Haze. Mas se o personagem de Nabokov é muito discreto e cheio de eufemismos ao falar do que acontecia entre quatro paredes, o de Gainsbourg é mais hardcore:  na última estrofe de “Ballade de Melody Nelson”, ele ronrona ma Melody Nelson/ aimable petite conne/ tu étais la condition/ sine qua non de ma raison (o que poderiamos traduzir como “minha Melody Nelson/adorável xoxotinha [ou idiotinha, como bem apontou meu caro leitor lá nos comentários]/ você era a condição/ sine qua non da minha razão”).

O amor com grande diferença de idade tem inspiração autobiogáfica, pois Gainsbourg (cujo verdadeiro nome não era Serge, vejam só!, mas Lucien) conheceu Jane Birkin em maio de 1968, quando ele tinha 40 anos e ela 21, durante a produção do filme Slogan.

Birkin já era sim maior de idade, mas parecia mais um efebo desleixado. Esse jeito à la garçonne da inglesa inspirará Gainsbourg para o filme “Je T’Aime, Moi Non Plus”, de 1973, o primeiro que ele dirigiu, no qual a personagem de Jane, “Johnny”, desperta os olhares de um caminhoneiro gay (vivido pelo ícone Joe Dalessandro, muso da Factory de Warhol, o Little Joe citado em “Walk on The Wild Side” e recheio da calça de zíper aberto da capa de Sticky Fingers, dos Rolling Stones) e a ira do namorado ciumento deste. O filme, lançado em 1976, tem cenas (simuladas) de sexo anal de fazer “O Último Tango em Paris” parecer sessão da tarde.

Os seios de Jane eram quase inexistentes. Num filme que Agnès Varda fez sobre a cantora em 1986, “Jane B. par Agnès V.”, Jane comenta que Serge gostava que seus seios não fossem muito volumosos –segundo ela, ele achava seios fartos de uma “feminilidade muito ameaçadora”.

Talvez esteja aí a chave para compreender sua atração pelas lolitas.

É interessante notar que o padrão de beleza da mulher francesa é de fato bem infantil. Perna fina, pouca bunda, pouco peito, rostinho de bebê… mas super maquiada. E o que eu mais vejo no metrô é menina vestida como se já fosse mulher, com sombra, bolsinha da Louis Vutton, brincão e saltinho. Por outro lado, converse com qualquer menina francesa recém-ingressa na faculdade, com seus 18, 19, 20 anos… salvo exceções, são zero de malandragem, mais cruas que vara verde.

“Lemon Incest”, o que suscitou esse post, também se encaixa na modalidade (com outros agravantes), ainda mais nessa sociedade paranóica e mal-resolvida com a sexualidade infantil. Difícil esconder o desconforto quando vemos no videoclip pai e filha deitados na cama de um quarto todo negro envolto por aquela fumaça que era epidemia nas pistas de dança dos anos 80, ele sem camisa, ela só com a calcinha e uma camisa de homem fechada por poucos botões, miando.

A última Lolita de Gainsbourg foi Vanessa Paradis (mais conhecida para nós, brasileiros, como mulher de Johnny Depp). Foi na voz dela que surgiu aquele hit da Angélica, o “Vou de Táxi”. Eu sempre achei a frase “vou de táxi, cê sabe” totalmente sem sentido. Pois então, voilà que os horizontes se escancararam quando eu descobri o original!

A frase em questão é Joe le taxi, c’est sa vie (“Joe o taxista/ essa é sua vida”). Essa música, do primeiro disco de Paradis, virou uma febre (a ponto de ser traduzida e chegar no Brasil, que nem a “Festa do Apê” do Latino). O interesse de Gainsbourg em Paradis resultou no segundo álbum da ninfeta e último escrito pelo enfant terrible, que morreria nove meses depois, em 1991.

4 Comentários

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  • Gente! Mas deixa o anis escorrer pela garganta de Annie em paz! Esse povo que…tipo assim….vê maldade em tudo também…..ai, credo. hahahahahahahaahahaha!!!!!
    Quase parei pra começar a fazer uma avalição à la psicologia de buteco de minha simpatia profunda pela Sandy, mas felizmente tenho matéria pra entregar e não vou poder me dar esse luxo! rs…..
    No mais me lembrei da vergonha que senti, pré adolesnete no cinema, vendo Je t’aime, moi non plus com minha mãe ao lado, cruzes! rs…….
    PS: ADORO o cachorro do filme….hahahahahahhahaha!!!!!!!

  • Ótimo post sobre o velho bandalho Gainsbourg (que era um letrista excepcional). Não tenho absoluta certeza, mas acho que há duplo sentido em “aimable petite conne” -pode ser tanto “adorável xoxotinha” como “adorável idiotinha”, já que “con” é também sinônimo de idiota. Na verdade, acho que a melhor tradução pra “con/conne” é “babaca” -é que em português o sentido sexual de “babaca”, que é o original, praticamente se perdeu.

    Enfim, peço que me corrijam se eu estiver errado. Descobri o blog faz pouco tempo (via Wagner & Beethoven, salvo engano) e estou gostando muitíssimo. Um abraço!

  • oi rogério! sim, vc está muito certo, conne tem duplo sentido sim, me escapou, vou corrigir! mil obrigadas pelo toque. que bom que gosta do blog! eu vivia entrando no seu, o pura goiaba, na época em q mantinha o santissima.

  • Olha só! Prazer em (re)conhecer, então. (= O puragoiaba se murió no ano passado, tenho exercido a goiabice só no Twitter agora. Um beijo.

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