meu Brazil é com S
Há tempos eu queria fazer um apanhado de expressões em português brasileiro que dá gosto de ouvir. Aquele tipo de coisa que estrangeiro não consegue entender quando você tenta traduzir, porque não faz muito sentido e em geral tem apenas um prazer onomatopéico. Aquelas que dá uma sensação boa quando o outro diz, porque você sente que está entre gente que tem as mesmas referências que você… em suma, que é brasileiro. Então:
“necas de pitibiriba”
“é do balacobaco!”
“ripa na chulipa!”
“é assim assado”
“pirar na batatinha”
“ficar de lero-lero”
“é o ó do borogodó!”
“caramba caracoles!”
“apareceu a margarida!”
“supimpa!”
Quero contribuições. Vocês lembram de alguma?
Tudo isso é só um preâmbulo para um a(b)cesso momentâneo de patriotismo. Eu ando com um prazer enorme de dizer que eu sou brasileira quando alguém me pergunta de onde eu sou.
Antes de morar fora, eu dizia “sou brasileira” com uma cara de “bem, para esse cara eu imagino que a idéia de brasileiro é alguém ignorante, pobre, quando não selvagem, que sabe jogar futebol e dançar samba, que gosta do Ayrton Senna, mora na praia e desfila todo ano no Carnaval… e que está sempre MUITO FELIZ”. Essa cara geralmente lembrava um enfado, um “mal aê”, um “fazer o quê, eu não pude escolher”, como faz aquele pessoal que esconde o passaporte brasileiro na fila de chegada ao aeroporto… esperando ansiosos o olhar do policial da fronteira que diz “hm, temos aqui um potencial imigrante ilegal e traficante de drogas”.
E isso, talvez, seja porque eu não corresponda exatamente ao estereótipo. Ignorante eu não sou (ao menos sobre um bom bocado de coisas), não sou milionária mas também tá longe de passar fome, conheço regras de etiqueta, no futebol só sirvo pra goleira, meu samba no pé só não é ridículo aqui, eu nunca liguei muito pra Fórmula 1, nunca morei na praia, nunca desfilei… e tenho momentos BEM melancólicos. Muito cagona do poder da autoridade para se meter na ilegalidade. Pra concluir, muita gente no Brasil dizia que eu tenho cara de gringa.
Mas agora que eu já estou há um ano em terra estrangeira, construí uma idéia bem diferente dos brasileiros. Ao menos, dos brasileiros que moram fora. Ou talvez seja devido ao perfil de brasileiro que eu conheço que vem morar em Paris (em geral*, estudante ou jovem formado em busca de enriquecimento cultural e artístico). Ou talvez nem seja dos brasileiros, mas do Brasil como idéia –como consequência. Eu, na verdade, ainda não sei que idéia é essa… mas sei, sim, que é algo muito positivo. Não lembro se já falei aqui que todo estrangeiro é um pouco embaixador de seu país, isto é, o modo como você age no exterior vai ajudar a criar a imagem da sua nacionalidade aos outros. E eu sinto cada vez mais uma boa reação ao dizer “sou brasileira”: em geral, é de “puxa, vocês é que sabem como viver a vida!”. Por aqui, parece mesmo existir a sensação de que “o Brasil é o país do futuro”, como dizia o título do livro de Stefan Zweig. Principalmente nesses tempos pós-início de crise: por aqui o pessoal ainda tá sofrendo, reclamando, “daqui pra frente, só descida”, etc; no Brasil, a recuperação já parece a todo vapor.
Outra: fora a Argentina e os argentinos, parece que todo mundo gosta do Brasil (ok, fora talvez mais alguns gatos pingados em Honduras).
Entretanto, o amor-próprio patriótico ainda é frágil. Vide reações na imprensa àquela garota que se cortou na Suíça e escreveu a sigla do partido de direita xenófobo nas coxas. Ou então a crise interna quando aquele repórter do New York Times falou que o Lula gostava de mamar na marvada (ui, mais uma frase guoshtuósa). Bandeira verde-amarela na rua é só durante a Copa do Mundo. Será que Rio 2016 vai mudar alguma coisa?
Como de praxe, isso tudo é achismo, então não posso fundamentar com dados. Mas tá bem amarradinho, né? Dá pra pagar de pseudo-intelectual?
*claro, existe o grupo de brasileiros que vem para Paris e se acha o máximo só por causa disso… e se você “não é ninguém”, isto é, se não tem um super trabalho descolado que ganha super bem (ou que você faz crer que), eles nem se dão ao trabalho de lembrar o seu nome. Esses são filhos da pequena-burguesia paulistana falida cara-de-cheira-merda. Por esses, a gente passa reto. Além disso, tem aqueles que vieram na loucura e moram em squat (simpaticíssimos). Mas em Paris não me parecem muitos. Muito menos que na Espanha ou em Londres, por exemplo.
***
pra acabar, desdizendo tudo o que eu disse, aqui vai o desenho que praticamente apresentou ao mundo todos os estereótipos do que é “brasileiro”. Ele era mesmo engraçado. Quando que o Pato Donald ia ficar bêbado nesses nossos tempos de politicamente correto? Létis golcidetáum!
ah, mais uma, só pra não perder a oportunidade: se eu fosse travesti, seria a Carmen Miranda.
Hum…..
Acho pertinente a maior parte, com exceção do “argentinos não gostarem da gente”. Talvez tenha me escapado alguma ironia….
Não lembro onde vi isso pra citar a fonte, mas acho que faz muito sentido sobre nossa relação com os hermanitos: os argentinos odeiam amar os brasileiros e os brasileiros amam odiar os argentinos.
beijo
eheh, foi irônico sim! e mesmo que fosse verdade, eles têm alfajor… não dá pra viver sem.
nossa! era nisso que andava pensando esses dias! (mentira caba, vc bem sabe, mas…) semana passada fui tomar umas brejas num hostel (1 euro a caña, só lá mesmo) e tinha um quarto só de brazucas! era a festa do lugar, SENSACIONAL, em duas horas éramos todos melhores amigos: essa ilusão que só surge no Brasil, com brasileiros. e eu ficava observando aquele povo soltando gírias que não ouço há um ano… que delícia; dane-se o pa amb tomaquet e me dá um pãozinho de queeijo, purfavô! e ontem liguei pra um amigo que chegou faz poucos dias… ele disse “alô?”.. noooossa, que sensação boa, ahaha, que saudade….
Chica Chica Boom Chic! E haja bananas! hahahahahahhaha!!!!!!!!! Vou lembrar umas frases dessas e depois te falo. Beijoskas de boa noite! :)
Dia desses um cara perguntou alto a um amigo dele: “que foi que aconteceu, mané?”. Ao que o mané respondeu: “Eu *di* um *baragudégu* aí…”. Sim, entendemos que ele *deu* alguma coisa, apesar da conjugação equivocada… agora…. *baragudégu*?
Clássicas do popular é aqui mesmo.
Estou com saudades dos seus textos….manda mais! :)
O que mais me impressiona no nosso país é a capacidade de ser tão diferente, apesar de – e também por – ser uma mistura da porra toda. Sim, somos latinos, mas tão diferentes dos hermanos da América do Sul e da pureza, no mau sentido, latino-europeia. Terceiro mundo atrasado, mas capazes de nos desenvolver culturalmente como somente poucos países mais ao norte conseguem. Podemos ser o país das mulatas sambistas de bunda grande, porém as jovens garotas brancas que gostam de Gainsbourg, Led Zeppelin e pau grande também nos representam muito bem.
Que bom que você está percebendo o quanto nós somos fodas.
Teu blog está quase perfeito. Só precisa de periodicidade diária.
“juntar lé com cré”, “estar pra lá de Bagdá”…