why was I born, why am I living

Quando leio a biografia de alguém que ficou conhecido por um talento espantoso, com raras exceções, vejo que o presente divino manifestava-se já na infância, como se fosse um dom vindo junto com o corpo, na sua concepção, algo intrinsicamente ligado à própria noção de existência como indivíduo. Todos manifestavam um desejo incontrolável e espontâneo de fazer “aquilo”, fosse cantar, atuar, pintar, tocar piano.

Admiro muito pessoas que sabem o que querem fazer profissionalmente desde cedo. Que se dedicam de corpo e alma a um talento ou afinidade especial cuja origem está antes da educação, do ambiente, do status social.

Um dos talentos que não se manifestam logo na primeira infância é o apreço por escrever. Por razões óbvias, já que somos alfabetizados aos sete anos e só lá pelos nove seremos capazes de ler sozinhos.

Talvez o talento de escrever esteja de fato muito longe das pulsões primitivas. Não é um talento especialmente sensorial, embora possa apoiar-se imensamente nos sentidos. Não envolve a capacidade de distinguir sons, cheiros, sabores, cores, texturas. Envolve a capacidade de transformar as sensações em palavras, algo além do sentir (embora exista muito mais a se escrever além das sensações). E ainda, para escrever bem, para se falar bem de alguma coisa, é preciso ter sentido muito.

Eu fico me perguntando o que é que eu sempre soube fazer bem, muito bem, naturalmente, sem ninguém me ensinar.

Vejamos. Sempre trepei muito bem em árvore. E essa é sempre a primeira coisa que eu me lembro de fazer bem. Sei também desfazer nós de barbante.  Da minha vida pré-alfabetização, acho q era isso.

Depois eu virei aquela que gostava de ler. Lia um livro inteiro do Monteiro Lobato em um dia (foi meu primeiro feito hercúleo: “Viagem ao Céu” em um domingo). Ficava horas folheando as enciclopédias britâncias que meu pai tinha comprado. Na escola, era sempre uma das primeiras a terminar a prova.

Será que se alguém tivesse me colocado um piano na frente desde os três anos, eu teria virado uma boa pianista? Ou me inscrito num curso de balé, e hoje eu faria parte de um grupo de dança contemporânea? E se eu tivesse passado no curso de relações internacionais, estaria trabalhando no Itamaraty?

Mas o caminho que eu tomei não foi nenhum desses. Foi o de fazer jornalismo, depois morar no exterior, de querer ter uma vida aventureira, embora eu ainda não tenha coragem de fazê-la tão aventureira quanto eu imaginava.

***

VERVE s.f. 1. entusiasmo e inspiração que animam a criação e o desempenho do artista, do orador, do poeta; 2. graça ou vivacidade que caracterizam uma personalidade, ou o que ela produz; 3. sentimento de vida, vitalidade.  ETIM fr. verve (sXII) ‘provérbio’, depois ‘relato, narrativa’; de um lat. vulg. *verva, var. de verba, pl. de verbum ‘palavra’.

4 Comentários

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  • Como é difícil focar…….o resto já te mandei por e-mail. Hoje, só pq acordei com a inspiração de lavar roupa, o tempo fechou…hahahahahahahha!!!!! Desistiu de ontem? Beijocas!

  • Acho que está tudo muito longe das pulsões primitivas, viu? O problema das biografias (e das vidas com rumo certo sobre as quais elas discorrem) é a maldita narrativa. A gente sempre vai olhar para o passado com olhos do presente, procurando indícios que expliquem o que a gente é hoje. Até mesmo pra explicar essa sensação meio-intelectual meio-de-esquerda de sermos assim, meio perdidos…
    =*

  • acho q a sra. está muito certa.

  • Pronto! Tá explicado! rs……..

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