Há 13 dias perdi parte do que fui. Havia um pequeno arquivo na tela do meu computador chamado “laureografia”: era uma quarentena de textos. Não devia ter mais que 20KB. Caberia em um disquete de 3′ 1/2. Tão importante era este arquivo e tão intimo que eu nunca quis fazer copia. Pensei em salvá-lo no meu e-mail, mas não o fiz, pois ‘e se alguém entra no meu e-mail?’.
Mas há 13 dias eu cheguei em casa e alguém tinha passado por lá. Invadir o e-mail parecia tao mais provavel… e engraçado, quando a gente mora sozinho, inho-inho-inho, às vezes tem uma fita de cetim (eu tenho muitas fitas de cetim, de varias cores) fora do lugar e a gente pensa “caramba, fui eu mesma que coloquei aquilo ali? Em plena consciência, eu jamais faria isso”. E por um lapso infimo de tempo, os olhos reviram imaginando que talvez não tenha sido você, mas alguém que passou por ali enquanto você não estava olhando (por isso é sempre a empregada que se fode). Mas isso nao é possivel, não é mesmo? As portas estavam trancadas, a janela travada e aqui ninguém tem empregada, muito menos eu. Ninguém esteve ali, isto é certo. A não ser que possamos considerar gnomos e toda a máfia de São Longuinho.
Mas há 13 dias eu soube que alguém tinha estado lá. Essa certeza é exatamente o contrário daquele lapso infimo de tempo. Principalmente por durar bastante. Ela permanece. Antes, se eu pensasse, por exemplo, “por que o cumaru (também conhecido como tonka bean), nativo da floresta amazônica, que tem um cheiro tao gostoso e parecido com a baunilha, é proibido nos EUA”, eu abriria meu computador na minha casa e descobriria apos consulta gratuita com o deus Google que a razao disso é a forte presença de coumarina, uma substância quimica natural, que em grandes doses pode ser muito toxica. Mas, até ai, noz-moscada também é muito toxica e a gente nunca ouve falar de overdose de noz-moscada. E então eu pensaria sobre a influência do Estado na vida intima das pessoas, na necessidade idiota de criar leis sobre coisas minusculas e desimportantes e no fato de eu ter nascido no planeta Terra mas nao poder morar em qualquer pedaço de terra dentro dele simplesmente porque alguém chegou lá antes. Em seguida eu ficaria assustada imaginando como devia ser desesperador para os indios a ideia de que precisavam de um papel chamado escritura para provar que eram eles os donos da terra, se eles sempre estiveram lá, isso era logico. E talvez, logo apos, eu lembraria de reunir os documentos necessários para minha entrevista com as autoridades francesas para renovar meu visto e fecharia meu computador, desejando entretanto que toda a burocracia do mundo explodisse. Mas em nenhum momento eu pensaria no meu computador. Ele estar ali era certo, obvio, normal.
Mas agora eu não tenho mais computador. Tenho, por outro lado, uma fechadura nova, mais potente e muito mais cara. E cada pergunta que me surge na cabeça, eu tenho que pensar mais sobre o que fazer para respondê-la. Se ela é mesmo interessante, devo anota-la. Nao em qualquer lugar, porque pior que esquecer um pensamento é esquecer onde ele foi anotado. Para isso, cria-se a necessidade de uma caderneta que esteja sempre comigo e que sirva somente para isso, como um arquivo movel chamado “duvidas.txt”. No caso do tonka bean, a resposta podia ser encontrada numa enciclopédia de gastronomia que estava servindo mais como apoio de badulaques na minha prateleira que como livro.
E quando o verbete acaba, eu posso continuar lendo sobre a fermentação do chocolate e do porquê do chocolate branco nao ser um chocolate. Ou eu posso olhar para o teto e lembrar que, desde que eu tirei o papel de parede horroroso que cobria a superficie da minha mansarda recém-invadida não coloquei o acabamento dos frisos no teto, e que aqui a gente tem que aprender a fazer tudo sozinho.
E a verdade é que eu nao tô sentindo muita falta do computador.
Ao contrario, mesmo. Tô sentindo um alivio. É como se eu tivesse reencontrado o ritmo temporal para o qual eu fui feita.
Voltar a escrever com papel e caneta é mais dificil do que eu imaginava. O ritmo é completamente outro. Mas sobre isso eu falo depois.
Entao o computador era um habito. Mas nao um vicio. Espero conseguir lembrar desses dias quando outro computador ocupar minha mesa.
Mas ai, aquele arquivo…
Entao eu lembrei que, apesar de tudo, os textos que estao aqui neste endereço se salvaram. E dei um suspiro.
(desculpem-me pelos acentos, estou num teclado francês. Ele possui uma logica que escapa à minha compreensao: tem que apertar shift para fazer ponto final, entre outras coisas)
Era uma vez, num reino não muito distante, a palavra divórcio não existia do vocabulário jurídico e as mulheres geralmente casavam virgens. Não podiam sair beijando por aí e muito menos dar pra quem desse na telha, porque a crença geral era de que a fina flor borbuceteante era frágil e quanto mais manipulada, menos valor tinha. O eleito ao posto de cara-metade, cônjuge (com quem se divide o jugo, a pena –a etimologia é sempre reveladora!) ou consorte –como preferir– via-se na situação confortável de única (presumia-se!) referência emocional-sexual na vida da donzela a ele prometida. Se o cara beijava mal, se roncava, tinha chulé, se só-dava-três-gozava-e-virava-pro-lado, a tendência da jovem esposa era crer que, bem, a vida é assim mesmo… pois como imaginar que poderia ser diferente se não havia com o que comparar? Não é à tôa que se casava cedo, pois só assim adquiria-se acesso aos mistérios gozosos, lícitos –na cama conjugal– ou ilícitos… em qualquer lugar.
Ao menos, imagino eu que era assim. Pelos filmes, pelos livros, pelos relatos.
Festa do Cabide
Mas já faz tempo que temos pílula, ganhamos dinheiro e… damos pra quem bem entender. Já faz algum tempo. No começo o pessoal se empolgou. Quem leu “A Mulher do Próximo”, do Gay Talese, got the picture da coisa nos EUA –embora a abstinência seja levada muito a sério em nossos dias, vide política de educação sexual do governo Bush. Aqui na França não sei bem ainda como se deu… afinal, romances pornográficos já serviam de sátira política e social antes mesmo da revolução de 1789, ou seja, embora à boca pequena, todo mundo (que sabia ler, não era a maioria) sabia bem o que acontecia na alcova alheia. Por outro lado, conheço a história de uma mulher que, ao divorciar-se nos idos dos anos 1980 em uma cidade pequena da campagne française, foi escorraçada pela família. Afinal, se o marido tinha arranjado uma amante, a culpa só podia ser dela, a esposa. Divorciar-se era falta de vergonha na cara.
(Parênteses: quando fala-se de tendências quaisquer no mundo, fala-se sempre de uma minoria. É um quero-ser exercício de previsão do futuro, de identificação de epidemia cultural. Entretanto, a maioria dos 6,5 bilhões de seres humanos parece estar quase sempre de fora –talvez porque seja tão difícil incluir culturas tão díspares quanto da China e da Índia na nossa descendência católica romana? Fala-se da perspectiva do umbigo, portanto, ressalvas a fazer. Fecha parênteses:)
No Brasil, que já é tão grande e tão díspare dentro dos próprios limites, talvez possamos identificar uma empolgação importada dos EUA nuançada pela “feérica, irisada, multicolorida variedade” do machismo tropical. Pornochanchada com ditadura militar, Dancin’ Days e TV Mulher.
O HIV foi uma banho de água fria, maldição contedora dos ânimos exaltados da liberdade sexual. Mas me parece que desde o milagre de Magic Johnson, a coisa perdeu parte do seu poder aterrador.
Le Mal du Temps
Outro dia, conversando com uma das minhas professoras preferidas na faculdade, uma senhora muito sábia e simpática de uns 50-60 anos, com quem tenho aula de árabe e antropologia da comunicação, o assunto virou para ‘as linguagens amorosas’ de cada cultura. Eu comentei que não me entendia e nem tenho vontade de me adaptar ao que me parece ser o modo francês de ‘fazer a corte’ –um joguinho de gato e rato, no qual a mulher é tanto mais desejada quanto mais se mostra maquiavélica, manipuladora e insensível. Ela, após perguntar se eu já tinha lido “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, me disse uma frase que está na minha cabeca até agora: “la liberté sexuelle a tué l’amour” (”a liberdade sexual matou o amor”). A hipótese dela é mais ou menos assim: com a liberdade sexual, os rituais perderam significado, os símbolos morreram. E sem símbolos, o Homem morre.
Há muitas questões a considerar nessa história, mas acho que ela tem razão, em parte.
Peguemos como objeto de análise a festa de casamento (embora na prática a teoria seja bem outra, tento seguir algum método para expor um ponto de vista). Festa de casamento é sempre divertida, momento inesquecível da vida do casal, todo mundo dança até o amanhecer. É bom mandar o convite com bastante antecedência para dar tempo de todas as listas de casamento online em quatro lojas diferentes ser comprada. Pois que outra finalidade tem casamento hoje, senão mobiliar e equipar a casa do casal? Isso quando a dupla já não mora junto. É uma troca: eu te convido para minha festa, te ofereço comida e diversão, você me dá um presentão. Tudo muito útil e conveniente. E sempre vai ter gente que vai reclamar da comida.
E hoje parece que as festas são todas iguais, porque as empresas que se ocupam de tudo apostam na mesma fórmula (a não ser que você tenha muito dinheiro pra gastar). E às vezes parece que o mais importante da festa toda são os fotógrafos. Lembro do causo contado durante uma aula de fotografia: quando ainda não tinha foto digital (nem faz tanto tempo assim!), a equipe encarregada de registrar o casamento teve um problema na hora da revelação e TODOS os filmes queimaram. Não sobrou uma fotinho só. A noiva teve um xilique e só sossegou quando fez a festa de casamento DE NOVO. Com a mesma equipe de fotógrafos. Que então entregaram o álbum direitinho, sem cobrar duas vezes pelo serviço.
Apesar de tudo, quem é louco de dizer que antes era melhor? Principalmente para as mulheres. Se fosse pra casar, tinha que ter a ficha limpa, nada de fama de rosetar demais por aí. Isso quando não tinha que provar que era virgem, como ainda é comum em países da África árabe, nos quais cabe à sogra verificar com as próprias mãos que o selo da candidata está intacto. Se não casasse, restava cuidar dos pais velhos e doentes. Profissões decentes possíveis: professora de primário, enfermeira, secretária.
“He who works on a candy store has no desire for sweets”
Mas voltando à nossa pequena realidade. Depois da ignorance is bliss e da festa do cabide, chegamos num nem isso nem aquilo. Se por um lado a liberdade sexual satisfaz os desejos imediatos, por outro tudo ficou muito banal.
Identifico uma tendência que parece expressar uma tentativa (vã) de conciliar o melhor dos dois mundos: homens e mulheres experientes de casos e trepadas adotam comportamento de herói/heroína literária medieval: adoram os amores impossíveis. Se o(a) candidato(a) é legal, gente boa, disponível, com boa pegada, enfim, tudo o que se pedia de presente de Natal anos atrás, não serve. Não tem graça. Antítese da época precedente, a menina que hoje atormenta os corações é a que atiça o fogo dos moçoilos ao redor, mas fica de cuzinho doce, guardando a flor (isto é, recusa-a a ele e dá a outros). O homem dos sonhos das mulheres acometidas é aquele que age como namorado, leva pra passear e come direitinho no fim da noite, mas não quer compromisso. Ou como identificou o grande pesquisador dos modos de macho e modinhas de fêmea Xico Sá, “antes mesmo um bom canalha, com pegada, do que um macho frouxo e vacilão”.
Ao lado disso, temos a outra solução vã, utilitária (muito comum por aqui): juntemos os trapinhos porque é mais barato, pagaremos menos impostos, teremos uma trepada fixa sem necessidade de camisinha, alguém para me esquentar durante o inverno. Além do mais, ele tem carro, máquina de lavar roupa e um emprego estável, no qual ganha razoavelmente bem. Ela é bonita, se veste bem, cozinha e, principalmente, não é complicada.
Sem Receita
Conclusão: só sei que, da metade masculina dos 6,791 bilhões de pessoas no mundo, ao menos um deve rolar. Fé na matemática das probabilidades. Como disse a Mari, “vambora que a vida é curta e a minha saia, menor ainda”.
Adendo importante: todo problema contém sua própria solução.
Os peixes voavam fazendo lambança no chão de terra do largo na frente da porteira do sítio.
Eram brancos com umas manchas pretas, peixes-dálmata, lembravam linguados, mas meio felinos. Pululavam saltando os fios elétricos. Catei um e espetei com um pauzinho, pus em cima de umas brasas que estavam lá perto da touceira de mamona –sempre que tinha fogo na entrada da porteira eu sentia agulhada no peito, mas dessa vez pareceu normal. O homem desdentado na sombra do mercadinho da frente me dizia qualquer coisa, mas eu entendia lhufas. Tirei o peixe da brasa e provei. E não é que tava bão?
Mas o que é que eu fazia ali na porteira, mesmo? Era cedo, mas chegava perto da hora da bóia. Já ia lavando o arroz.
Ali pro lado de dentro eu via um casal que se abraçava. Reconheci: Batman e a Mulher Gato. Ele tinha confessado todo o amor contido que sentia por ela, disse que queria morar junto, que nunca tinha estado tão certo de algo na vida. Segurava-a pelas cadeiras, trazendo-a para junto de si, seu uniforme de borracha preta lutrosa desenhava cada músculo do seu glúteo apaixonado. Terno, calmo, protetor, uma montanha de músculos pulsando benquerença, todo chaga, a insígnia amarela no peito um farol de declarações.
Ela colocava as mãos cheias de garras sobre o peito dele, delicada mas hesitante, desviava a cabeça para os lados. Enquanto ele procurava o olhar dela através dos buracos na máscara, ela fitava os papiros do lago e os tapetes de rãs atropeladas na estrada de terra empoeirada.
Gata desassossegada. Desejara aquilo tanto, tanto, quantas horas miando sobre os telhados à noite, ao luar, pensando nele, nele.
Estavam ali, sob um sol branco e frio de férias de julho. Com minhas botas vermelhas de borracha sete léguas, a barra da calça azul do uniforme do colégio pra dentro pra não entrar cobra, camiseta branca esgarçada, eu passei de lado buscando pelo vão das toras algum pedaço bonito de giz colorido no ladrão do lago que corria por baixo da estrada.
Olhei pros dois:
–Ih, agora ela num qué mais!
E senti um pingo de água babenta no nariz. Era um peixe que voava. Aí sim, fui correndo até a porteira.
Remexendo em e-mails antigos, encontrei uma carta do prof. Pedro Paulo Funari comentando um artigo sobre literatura pornográfica que publiquei no finado caderno Sinapse da Bolha de S.Paulo. Dizia ele: “‘o gosto romano pelas imagens pornográficas’, como na chamada da página 20, apenas reforça um estereótipo sobre os romanos que, na verdade, viam no sexo um aspecto apotropaico”.
Pois hoje fui procurar de novo o significado de “apotropaico”. Diz lá o Houaiss: “que tem poder de afastar (influência maléfica, desgraça etc.); que os antigos invocavam para afastar malefícios e desgraças (diz-se de deuses)”.
E achei uma série de quatro vídeos em espanhol bem interessantes sobre essa perspectiva do sexo, feitas por um professor madrilenho. Coloco-os aqui. Recomendo ler também o texto que acompanha cada um deles na página do Youtube.
A série se chama “Hic Habitas Felicitas” –segundo o autor, a palavra felicitas era usada pelos romanos tanto no sentido de felicidade quando de fertilidade. Os vídeos explicam quais significados o falo tinha na Antiguidade e como tudo mudou com o Cristianismo.
1a. parte:
2a. parte:
3a. parte:
4a. parte:
O que dirão os escafandristas daqui um milhar de anos da nossa atual perspectiva do sexo?
Então você já rosetou bastante por aí, já fez muita balada, já beijou tantos que nem se lembra quantos, já transou bêbada sem camisinha e deu aquele sorrisinho sincero de alívio ao pegar o teste de DST, já se apaixonou, já se perguntou “mas como eu pude gostar daquele idiota?”, já reclamou de homem que não ligou, já deu e já levou pés-na-bunda, já encontrou um grande amor, já discutiu nomes que gostaria de dar aos filhos, talvez já tenha até morado junto com um namorado mais sério, talvez já tenha até separado trapinhos ao som de Chico Buarque (aquela aliança pode empenhar/ ou derreter). Então chega uma hora que bate um enfado, uma cara de “ai, que saco”: tá, já deu. Cadê o amor da minha vida, o pai dos meus filhos? Vamos logo com isso. Pode sair do esconderijo!
Não sei se é meu instinto materno, borbulhando de hormônios. Ou se é conseqüência da perda de sensibilidade depois de tantos beijos descuidados como um dogão de barraquinha do centro da cidade. Se são os amigos que casam ou amigas que, de repente, mandam convite pra chá-de-bebê.
Mas como poderia ser esse homem tão esperado? Afinal, será que eu quero casar, mesmo? Se em um namoro de dois, três anos, o sexo já tá bem ruinzinho no final, como é possível alguém depois de cinco, dez anos, ainda me deixar com frio na barriga? Existe?
E depois que eu encontrar esse tal cidadão, vai ter que ficar só ele mesmo, até o fim dos dias? Não dá pra tirar umas férias com aquele amigo colorido das antigas que era super divertido? Ou sair pra um fim de semana com aquele colega novo do trabalho que está um perigo?
Ih, tem que dormir na mesma cama todo dia? Dividir o mesmo quarto? Nunca mais vou poder soltar pum em paz embaixo das cobertas, nem cutucar o nariz e grudar a caquinha embaixo do estrado?
E ele vai ter que conhecer minha vida inteira? Vou ter que apresentá-lo a todos os meu amigos? Não posso ficar com uma parte da minha vida só pra mim? Porque eu sei que, quando acaba, parece que o outro levou toda a vida que você conhecia como sua embora junto com ele. E aí fica claro que aquilo não podia durar, mesmo.
Então acho que, antes de conhecer o pai dos meus filhos, eu tenho que estar é muito segura do que eu quero da minha vida e consciente do muito tempo que dedicarei a ela. Só a ela. Ele será uma parte muito importante, mas a mais importante será sempre eu. E muito de nossa felicidade mútua partirá desse desejo egoísta (meu e dele).
E quanto mais eu estiver satisfeita com minha vida, mais aquele com quem eu estou terá que me merecer. E vice-versa. E se por algum acaso eu mudar de idéia ou ver-me sem saber o que fazer dela daqui alguns anos, devo ter a coragem de admiti-lo, em respeito a mim e a ele. Porque muitas vezes as decisões chegam ao ponto do “ou eu ou ele, não há terceira via”.
Isso tudo sem nem considerar os filhos no meio do balaio. Põe a criançada ali e a coisa fica muito complexa. Como tanta gente pode ter filho? Aposto que mais da metade da humanidade é de pais incompetentes. Qual o percentual da humanidade que nasceu planejada?
Considerando tudo isso, tô vendo mesmo é que a maior probabilidade é que ele não será nada como eu imaginei, que eu terei muitos percalços, que eu ficarei insegura muitas vezes… ou então, peraê, quem disse que esse cara existe? Talvez eu fique pra titia. Ou faça uma produção independente.
Não tenho mais tempo para perder com bobagens. Vamos à coisa séria.
A verdade é que, se a gente pensar bem, a existência é completamente inútil. Seja qual for nossa ocupação, nossos prazeres, tudo é vão, utterly senseless, vanitas vanitatum. Mas então tô fazendo o que aqui nesta Terra? Penso nisso todos os dias ao acordar: mas levantar pra quê? Estudar mais pra quê? Ganhar dinheiro pra quê? A única coisa que parece responder e se salvar nisso tudo é quando tocamos alguém no fundo, quando alguém muda um modo de ser, de fazer devido a uma ação, palavra nossa. Quando descobrimos algo através do outro. A troca: esse momento é crucial. As inutilidades se anulam. São os outros que realmente prezam estar conosco e que merecem nossa companhia. Que não nos tomam como anestésico ou como bibelô, mas que olham a gente no olho como igual e dizem “você é uma das coisas que fazem minha vida valer a pena ser vivida”. É coisa diária. Que leva tempo. Que se constrói com ações, e não só com palavras — porque qualquer coisa cabe numa palavra.
Por isso, meu obrigada por existir a todos os que passam por aqui, que dedicam seu tempo a ler o que eu escrevi. Aos amigos que o acaso ou a afinidade juntou e que ocupam meus pensamentos e meus dias, ao vivo, por skype, por e-mail ou só por telepatia, mesmo. Aos meus pais.
Allons-y meter a mão no vespeiro. O assunto já foi mencionado ao falar de cachecóis. Mas chafurdemos na jaca direito. Em uma imagem:
adivinhe qual é a cor do time de rugbi parisiense
Não, eu não acho que homem não possa usar camisa rosa. Mas peraê, esse rosa Hello Kitty!? Desculpe, meu etnocentrismo cultural esperneou. A primeira vez que vi no metrô um cartaz com o time parisiense de rugbi, o Stade Français Paris, pasmei por alguns segundos. Veja bem, é de rugbi, e não de badminton. “Mas eles devem ter um patrocinador gayfriendly. Ou então todos os jogadores são gays estilo Barbie e eles usam isso como uma bandeira pela luta dos direitos dos homossexuais”. Veja você mesmo as camisas oficiais e o estádio lotado de torcedores.
É só a ponta do iceberg. Calma, que a coisa vai além. Mocinha que pensa em procurar marido parisiense, leia bem antes de usar:
No Brasil, quando a menina dá selinho na boca da amiga, ou é lésbica, ou é muderrrna. Se for no sofá da Hebe, é chique. Já aqui, descolê é o ra-paz tascar beijocas na boca dos amigos após vários copos. Alguns vão além do selinho e lambuzam a boca do bruóder. Então é festa do cabide, todo mundo beija todo mundo? Às vezes você pode até ter essa sorte, mas cadê as meninas que dão selinho? Até agora, não vi… fico com a impressão que as moçoilas são mais competitivas. As comprometidas fazem amigas com maior facilidade. Já as solteiras são ameaçadoras, andam em bando, riem, se coçam com as patas traseiras…
Mas voltando aos amigos que se amam… aí eu chego no cidadão e pergunto:
- Você é gay?
- Non, c’est un bisou amicale (”não, é um beijo de amigo”).
Quem acreditou aí, levanta a mão.
Nem eu. Mas comecei a compor o quadro.
Os gauleses parisienses, em geral (ah, as generalizações…), são muito mais ambíguos sexualmente que os tupiniquins. Nesta terra onde há mais queijos que dias no ano, pegar na bunda do camarada pra fazer piada é admissível. Na hora de dar oi para um amigo que chega, é beijinho pra cá, beijinho pra lá. Para piorar o estereótipo, há aquela cara européia de neném, toda branquinha, lisinha e de bochechas rosadas. Bem difícil encontrar um homem peludo e cabeludo, aquele charme Los Hermanos –muito mais numerosos são os cabeças lisinhas de gilete (e não é só a cabeça, como comprovei numa pequena pesquisa de campo). E para finalizar, vestem-se bem –vá um sábado à tarde na sessão masculina da H&M, a maior loja de moda razoável e acessível… a fila do provador masculino é quase tão grande quanto da sessão feminina.
Conclusão: é claro que os manos brasileiros vão dizer que francês “é tudo bichona”.
Imaginem a situação, portanto, do amigo paraibano da V. Estava na festinha, muito vinho, olerê, olará, o copain français engraçadinho vem dar um apertãozinho na bunda do cabra no meio da música… oxe, faltou só sacar a peixeira.
Mas se mulher pode abraçar, beijar, segurar no braço sem ser chamada de sapatão, porque homem também não pode? Melhor do que ficar brigando de se dar soco, que me parece uma das únicas modalidades de contato físico afetivo entre heterossexuais brasileiros. Além do futebol, claro. Opa! melhor parar por aqui…
Quem mais sofre com essa confusão são os gays brasileiros. Começa na hora de identificar o alvo: quem é gay, quem não é?
Eu sei que a maioria dos meus queridíssimos, caríssimos, preciosíssimos leitores está na Paulicéia Desvairada onde agora faz sol e calor. Mas como a Terra é redonda e, ainda por cima, inclinada, calhou que por aqui é o contrário e tudo a minha volta grita FRI-O-O-WOW. Então vou falar do frio. De novo. Porque de calor a gente entende e não precisa falar nada, basta balançar na rede com um coco verde apoiado na barriga (sem esquecer do repelente). Quem sabe não refresca?
Conheci por aqui um rapaz que gostava muito do frio. Na grande metrópole de 1500 habitantes em que ele nasceu e viveu até os 21 anos, onde é desaconselhável perder-se na estrada sem saber falar alemão (fica em território francês, a 10km da fronteira leste), todos estão acostumados a ver o mundo se cobrir de branco no inverno. Natal sem boneco de neve não é Natal. Férias de inverno sem temporada de esqui não são férias.
Fui visitar a tal metrópole. Primeira experiência memorável, claro: a culinária local. Enquanto nós, brasileiros, comemos arroz e feijão diariamente, eles comem batata, salsicha, batata, repolho, batata e, de vez em quando, estômago de porco recheado. Ah, esqueci: e queijos très odorants. Com tudo isso não é à tôa que tomei lá, também, o melhor digestivo que já experimentei na vida: quando eu já quase morria de indigestão na estréia, a sorridente avó do rapaz me ofereceu um copinho de um licor caseiro, uma dose que nem de cachaça. Virei duma vez e imediatamente senti como se Moisés agisse via schnapps e abrisse caminho pelo meu estômago dolorido num milagre, fazendo toda aquela carne mergulhada em molho branco seguir seu rumo natural (hm, essa metáfora é muito kosher para esse prato).
Desde que morava em Paris, o rapaz acompanhava a metereologia apaixonadamente, esperando a moça do tempo anunciar neve para o dia seguinte como quem olha para o sorteio da Megasena ou aguarda indenização econômica do plano Collor. É verdade que em Paris neve é coisa rara. Mas ano passado nevou três vezes, quase um milagre. E eu, brasileira que só tinha visto neve em Bariloche lá na montanha, bem ao longe, porque era verão (tentei outra vez em São Joaquim. Não rolou.) parava tudo e corria pra frente da TV no intervalo da météo. Pois finalmente sopraram os ventos siberianos e veio a neve.
Ah! A neve… dá até pra esquecer que faz frio!
Enquanto a neve cai, parece que tudo é silêncio. Que o mundo está se cobrindo para ir dormir, todo puro e branco.
Até alguém escorregar. Ou tudo virar lama. Se você estava postergando a ida ao sapateiro para arrumar aquele furo na sola da bota velha, rapaz, o sapateiro vai receber visita sua hoje mesmo. Mas só depois que você passar em casa, fizer um escalda-pés e colocar as meias em cima do aquecedor para secar.
Mas o rapaz fã do Homem de Gelo não estava nem aí para isso. Enquanto eu me escondia embaixo do acolchoado esfregando os pés tentando esquentá-los, ele escancarava a janela e respirava fundo aquele ar glacial possuído por uma felicidade tão infantil que eu não achava justo reclamar. Ele percebia meu descontentamento e atirava um argumento para me converter: “olha só que ar mais puro!”. Nunca tinha pensado nisso, mas faz sentido. Quando a temperatura cai abaixo de zero o ar fica seco. Não dá pra sentir cheiro de nada. Não se vê uma mosquinha, um pernilonguinho, uma formiguinha. Ar puríssimo, sim. Mas de manhã eu preferia correr para dentro do carro e ligar o aquecedor, enquanto ele raspava a camada de gelo endurecida sobre o pára-brisa como se aquela fosse a mais recompensadora das atividades físicas deste mundo.
Enquanto eu o olhava pelo vidro indo e vindo com a espátula de plástico, sentia até uma certa inveja por me saber incapaz de ter tanto prazer com algo tão simples.
Quando cheguei aqui ano passado, as estações do ano eram, para mim, o que é para todo paulistano: um ritmo vago escondido por trás das loucuras meteorológicas que caracterizam a cidade da garoa. Lembro de ter lido uma vez em uma dessas revistas femininas que uma solução para organizar o armário e dar mais espaço era, em meados da primavera, guardar os casacos na parte superior ou numa mala. Achei o conselho absolutamente estúpido: em São Paulo, é normal ter que usar casaco de lã em um dia e morrer de calor no outro. Ou até em um mesmo dia: de manhã, aquele frio de rachar. Meio-dia, arranca tudo, o pessoal carregando casacos na mão no caminho do almoço na Paulista. Fim da tarde, tremedeira de frio enquanto espera o ônibus no ponto.
Outra vaga sensação de ritmo são as épocas das frutas e legumes, embora isso esteja cada vez mais diluído com as importações. Quando é época de jabuticaba? Não sei, e olha que eu morei em sítio até os dez anos. Outra referência são as árvores floridas: como passar incólume por uma calçada coberta de ipês-amarelos, como não suspirar? (Parênteses: ipê-amarelo me faz lembrar de quando eu ia com minha mãe de caminhonete pela estrada de terra até a cidade mais próxima do sítio, Jordanésia –do lado de Jundiaí e Caieiras–, comprar carne para o dia seguinte –minha mãe não gosta de carne congelada e eu acho que ela está muito certa. Um dia vi que todas aquelas pequenas árvores que tinham sido plantadas nas calçadas ao lado do supermercado à beira da Anhanguera eram ipês –pequenininhos, um pouco mais altos que um homem adulto, já estavam carregados de flores. Eu, que achava Jordanésia tão feia, mudei de idéia naquele dia.) Ou ao virar uma esquina e dar de cara com um ipê-roxo enorme e pesado de bolotas de flor? Mas mesmo ipê, cada um dá flor na hora que quer. Tem uns que dão em abril, outros em setembro. E o cheiro de uma flor branca de jasmim-manga? Mas essas também, às vezes ainda é inverno e elas já estão lá.
Pois então, tudo isso pra dizer que estações do ano, em São Paulo, é algo que não influi muito na vida da gente. Melhor falar em estações de chuva –o trânsito em março, com aquele toró todo dia ao final da tarde, por exemplo, afeta muito a vida de todo mundo…
Pois então. À Paris as estações são bem marcadas. Sim, isso eu e você já sabíamos, mas viver as tais estações… é incrível.
No começo da primavera, em abril, há uma semana mágica. As árvores, já há muito peladas, com aquela cara de morte retorcida pelo frio do inverno, nodosas de tanta poda, soltam botões na ponta dos galhos. Pequenininhos, crescem rápido. Dá até ansiedade ao passar pelas árvores da vizinhança e ver cada dia aqueles botões mais gordos. E um dia, ao sair na rua, todos os plátanos da cidade estão balançando com folhas verdinhas e molinhas, aquele verdinho de maçã-verde, quase amarelo, de um frescor sem tamanho. Ainda não dá para sair sem casaco, mas é uma semana de felicidade que só vendo.
Só aí músicas como “April in Paris” passam a significar alguma coisa. Ou ainda aquele trecho de La Bohème, ainda mais para esta que vos escreve, habitante de uma minúscula mansarda com varanda:
Vivo sola, soletta
là in una bianca cameretta:
guardo sui tetti e in cielo;
ma quando vien lo sgelo
il primo sole è mio
il primo bacio dell’aprile è mio!
(Vivo só, sozinha
Do meu quarto branco
Vejo os telhados e o céu
Mas quando vem o degelo
o primeiro sol é meu
o primeiro beijo de abril é meu!)
Mas eu queria falar de algo típico do outono, que reina por aqui.
Ao chegar em Paris, começo de setembro, vi aquelas montanhas de cogumelos expostos nas prateleiras dos primeurs, pequenos horti-frutis espalhados pela cidade. Mas como eram em geral bem caros –15 euros o quilo ou mais– e sempre pareciam meio atropelados, com cara de não muitos amigos, eu não me animava (outro dia vi uns que pareciam fresquinhos, mas eram azuis! Não me apeteceram). Então li num site: “época de cogumelos – como identificá-los”. Pois ora vejam só, a gente aqui pode caçar cogumelos na floresta.
Isso me parecia programa de gnomo ou de maluco atrás de alucinógeno barato, que no amanhecer da balada em cidade do interior sai pelos pastos atrás de cocô de vaca e sempre corre risco de levar uma chifrada. Mas seja para dar barato ou só encher a pança, precisa saber bem o que está fazendo porque a maioria dos cogumelos é venenosa. Quem mora no campo sabe onde procurar e volta com cestas carregadas. Pelo o que eu entendi, perto de cada espécie de árvore tem uma espécie de cogumelo. Alguns cogumelos aparecem em forma de círculo –a explicação para isso era que, se você tivesse chegado um pouco antes, teria visto naquele mesmo lugar fadas (ou bruxas) dançando em roda…
Esse ano lembrei dos cogumelos. Mas já está meio tarde. Uma menina da faculdade me explicou: “depois da primeira chuva do fim do verão, tem que contar três semanas. A melhor época é até quando as folhas das árvores começam a cair”. Bem, já tem muita folha na rua. Naquelas meio esquecidas, onde a prefeitura não varre, até dá para brincar de criança e andar chutando folhas de plátano secas. Será que terei que dizer adeus aos cogumelos e esperar o ano que vem?
A mesma coisa aconteceu com as castanhas portuguesas, os marrons –têm época bem definida e já tá quase no fim. Os parisienses vão nas florestas próximas à cidade e voltam com sacos cheios.
Mas a questão é: como chegar em floresta de marron ou em floresta onde tem cogumelo de RER (o trem que liga Paris à periferia)? Alguém aí tem experiência como caçador de cogumelo?
Porque a minha experiência se restringe a borboletas, vagalumes e pinhões de araucária…
As lolitas são fartas na música de Gainsbourg. Já mencionei a idolatria que ele tinha pelo livro de Nabokov em “Jane B”.
Em “Chez Les Yé-Yé”, 1963, rendição ao ritmo contagiante dos anos 60, ele dizia non rien n’aura raison de moi/ j’irai t’ chercher ma Lolita/ chez les yé-yé (não, nada decidirá por mim/ eu vou te procurar minha Lolita/ no ié-ié). Até aí, nada que a moral francesa ache condenável.
Non rien n’aura raison de moi
J’irai t’ chercher ma Lolita
Chez
Les
Yé-yé
Mas com “Les Sucettes” foi diferente: houve barulho, sim… uma grande tiração de sarro com a coitada da intérprete, a loirinha-cara-de-santinha France Gall (dona das risadas de “Pauvre Lola”), na época com 17 anos, ícone infantil/adolescente. Ela jurava não ter se tocado dos double senses da canção de Gainsbourg, em cuja letra um pirulito de anis mais-que-sugere felação e, principalmente, seminofagia. Tempos depois alguém explicou e ela ficou profundamente ofendida –além de loira, ela tinha fama de não ser uma inteligência lá muito brilhante.
Annie aime les sucettes
Les sucettes à l’anis
Les sucettes à l’anis d’Annie
Donnent à ses baisers
Un goût anisé
Lorsque le sucre d’orge
Parfumé à l’anis
Coule dans la gorge d’Annie
Elle est au paradis
en portugais:
Annie gosta de pirulito
Pirulito de anis
Os pirulitos de anis de Annie
Dão a seus beijos
Um gosto anisado
Quando o açúcar de cevada
Perfumado de anis
Escorre pela garganta de Annie
Ela está no paraíso
Sua obra mais influente, a ópera-rock lírico-erótica “Histoire de Melody Nelson” (1971), cujas sete peças não completam nem 30 minutos, é a helegia máxima da lolitofilia (neste link húngaro dá pra ver o videoclip da ópera inteira com Serge e Jane).
Começa assim: um homem passeia por uma estrada embalado por delírios eróticos com a “Vênus argêntea do radiador”, símbolo do carro que dirige, um Rolls Royce Silver Ghost 1919 –a escultura era apelidada “Spirit of Ectasy”. Um barulho e o motorista é trazido de volta ao mundo real por uma roda de bicicleta que gira em falso em frente ao carro. Ao lado, como uma “boneca que perdera o equilíbrio”, “a saia para cima mostrando a calcinha branca”, está Melody Nelson, ruiva, “14 outonos e 15 verões” de idade. Eles vão para um hotel, transam, ele se apaixona, ela morre num acidente logo em seguida.
Resumindo assim parece tudo muito banal. Mas é meio como naquelas egotrips fellinianas: o cara é claramente tão bom no que faz que você não só desculpa, como admira. E afinal, o que há de mais interessante no mundo do que pessoas que mergulham na vida de cabeça? Em poucas linhas, Gainsbourg consegue transmitir o sentimento obsessivo do homem pela mocinha (”ah, Melody, se você mentir pra mim eu fico doente, não sei o que poderia te fazer”), o que nos lembra mais uma vez Humbert Humbert e sua Dolores Haze. Mas se o personagem de Nabokov é muito discreto e cheio de eufemismos ao falar do que acontecia entre quatro paredes, o de Gainsbourg é mais hardcore: na última estrofe de “Ballade de Melody Nelson”, ele ronrona ma Melody Nelson/ aimable petite conne/ tu étais la condition/ sine qua non de ma raison (o que poderiamos traduzir como “minha Melody Nelson/adorável xoxotinha [ou idiotinha, como bem apontou meu caro leitor lá nos comentários]/ você era a condição/ sine qua non da minha razão”).
O amor com grande diferença de idade tem inspiração autobiogáfica, pois Gainsbourg (cujo verdadeiro nome não era Serge, vejam só!, mas Lucien) conheceu Jane Birkin em maio de 1968, quando ele tinha 40 anos e ela 21, durante a produção do filme Slogan.
Birkin já era sim maior de idade, mas parecia mais um efebo desleixado. Esse jeito à la garçonne da inglesa inspirará Gainsbourg para o filme “Je T’Aime, Moi Non Plus”, de 1973, o primeiro que ele dirigiu, no qual a personagem de Jane, “Johnny”, desperta os olhares de um caminhoneiro gay (vivido pelo ícone Joe Dalessandro, muso da Factory de Warhol, o Little Joe citado em “Walk on The Wild Side” e recheio da calça de zíper aberto da capa de Sticky Fingers, dos Rolling Stones) e a ira do namorado ciumento deste. O filme, lançado em 1976, tem cenas (simuladas) de sexo anal de fazer “O Último Tango em Paris” parecer sessão da tarde.
Os seios de Jane eram quase inexistentes. Num filme que Agnès Varda fez sobre a cantora em 1986, “Jane B. par Agnès V.”, Jane comenta que Serge gostava que seus seios não fossem muito volumosos –segundo ela, ele achava seios fartos de uma “feminilidade muito ameaçadora”.
Talvez esteja aí a chave para compreender sua atração pelas lolitas.
É interessante notar que o padrão de beleza da mulher francesa é de fato bem infantil. Perna fina, pouca bunda, pouco peito, rostinho de bebê… mas super maquiada. E o que eu mais vejo no metrô é menina vestida como se já fosse mulher, com sombra, bolsinha da Louis Vutton, brincão e saltinho. Por outro lado, converse com qualquer menina francesa recém-ingressa na faculdade, com seus 18, 19, 20 anos… salvo exceções, são zero de malandragem, mais cruas que vara verde.
“Lemon Incest”, o que suscitou esse post, também se encaixa na modalidade (com outros agravantes), ainda mais nessa sociedade paranóica e mal-resolvida com a sexualidade infantil. Difícil esconder o desconforto quando vemos no videoclip pai e filha deitados na cama de um quarto todo negro envolto por aquela fumaça que era epidemia nas pistas de dança dos anos 80, ele sem camisa, ela só com a calcinha e uma camisa de homem fechada por poucos botões, miando.
A última Lolita de Gainsbourg foi Vanessa Paradis (mais conhecida para nós, brasileiros, como mulher de Johnny Depp). Foi na voz dela que surgiu aquele hit da Angélica, o “Vou de Táxi”. Eu sempre achei a frase “vou de táxi, cê sabe” totalmente sem sentido. Pois então, voilà que os horizontes se escancararam quando eu descobri o original!
A frase em questão é Joe le taxi, c’est sa vie (”Joe o taxista/ essa é sua vida”). Essa música, do primeiro disco de Paradis, virou uma febre (a ponto de ser traduzida e chegar no Brasil, que nem a “Festa do Apê” do Latino). O interesse de Gainsbourg em Paradis resultou no segundo álbum da ninfeta e último escrito pelo enfant terrible, que morreria nove meses depois, em 1991.
Há tempos eu queria fazer um apanhado de expressões em português brasileiro que dá gosto de ouvir. Aquele tipo de coisa que estrangeiro não consegue entender quando você tenta traduzir, porque não faz muito sentido e em geral tem apenas um prazer onomatopéico. Aquelas que dá uma sensação boa quando o outro diz, porque você sente que está entre gente que tem as mesmas referências que você… em suma, que é brasileiro. Então:
“necas de pitibiriba”
“é do balacobaco!”
“ripa na chulipa!”
“é assim assado”
“pirar na batatinha”
“ficar de lero-lero”
“é o ó do borogodó!”
“caramba caracoles!”
“apareceu a margarida!”
“supimpa!”
Quero contribuições. Vocês lembram de alguma?
Tudo isso é só um preâmbulo para um a(b)cesso momentâneo de patriotismo. Eu ando com um prazer enorme de dizer que eu sou brasileira quando alguém me pergunta de onde eu sou.
Antes de morar fora, eu dizia “sou brasileira” com uma cara de “bem, para esse cara eu imagino que a idéia de brasileiro é alguém ignorante, pobre, quando não selvagem, que sabe jogar futebol e dançar samba, que gosta do Ayrton Senna, mora na praia e desfila todo ano no Carnaval… e que está sempre MUITO FELIZ”. Essa cara geralmente lembrava um enfado, um “mal aê”, um “fazer o quê, eu não pude escolher”, como faz aquele pessoal que esconde o passaporte brasileiro na fila de chegada ao aeroporto… esperando ansiosos o olhar do policial da fronteira que diz “hm, temos aqui um potencial imigrante ilegal e traficante de drogas”.
E isso, talvez, seja porque eu não corresponda exatamente ao estereótipo. Ignorante eu não sou (ao menos sobre um bom bocado de coisas), não sou milionária mas também tá longe de passar fome, conheço regras de etiqueta, no futebol só sirvo pra goleira, meu samba no pé só não é ridículo aqui, eu nunca liguei muito pra Fórmula 1, nunca morei na praia, nunca desfilei… e tenho momentos BEM melancólicos. Muito cagona do poder da autoridade para se meter na ilegalidade. Pra concluir, muita gente no Brasil dizia que eu tenho cara de gringa.
Mas agora que eu já estou há um ano em terra estrangeira, construí uma idéia bem diferente dos brasileiros. Ao menos, dos brasileiros que moram fora. Ou talvez seja devido ao perfil de brasileiro que eu conheço que vem morar em Paris (em geral*, estudante ou jovem formado em busca de enriquecimento cultural e artístico). Ou talvez nem seja dos brasileiros, mas do Brasil como idéia –como consequência. Eu, na verdade, ainda não sei que idéia é essa… mas sei, sim, que é algo muito positivo. Não lembro se já falei aqui que todo estrangeiro é um pouco embaixador de seu país, isto é, o modo como você age no exterior vai ajudar a criar a imagem da sua nacionalidade aos outros. E eu sinto cada vez mais uma boa reação ao dizer “sou brasileira”: em geral, é de “puxa, vocês é que sabem como viver a vida!”. Por aqui, parece mesmo existir a sensação de que “o Brasil é o país do futuro”, como dizia o título do livro de Stefan Zweig. Principalmente nesses tempos pós-início de crise: por aqui o pessoal ainda tá sofrendo, reclamando, “daqui pra frente, só descida”, etc; no Brasil, a recuperação já parece a todo vapor.
Outra: fora a Argentina e os argentinos, parece que todo mundo gosta do Brasil (ok, fora talvez mais alguns gatos pingados em Honduras).
Entretanto, o amor-próprio patriótico ainda é frágil. Vide reações na imprensa àquela garota que se cortou na Suíça e escreveu a sigla do partido de direita xenófobo nas coxas. Ou então a crise interna quando aquele repórter do New York Times falou que o Lula gostava de mamar na marvada (ui, mais uma frase guoshtuósa). Bandeira verde-amarela na rua é só durante a Copa do Mundo. Será que Rio 2016 vai mudar alguma coisa?
Como de praxe, isso tudo é achismo, então não posso fundamentar com dados. Mas tá bem amarradinho, né? Dá pra pagar de pseudo-intelectual?
*claro, existe o grupo de brasileiros que vem para Paris e se acha o máximo só por causa disso… e se você “não é ninguém”, isto é, se não tem um super trabalho descolado que ganha super bem (ou que você faz crer que), eles nem se dão ao trabalho de lembrar o seu nome. Esses são filhos da pequena-burguesia paulistana falida cara-de-cheira-merda. Por esses, a gente passa reto. Além disso, tem aqueles que vieram na loucura e moram em squat (simpaticíssimos). Mas em Paris não me parecem muitos. Muito menos que na Espanha ou em Londres, por exemplo.
***
pra acabar, desdizendo tudo o que eu disse, aqui vai o desenho que praticamente apresentou ao mundo todos os estereótipos do que é “brasileiro”. Ele era mesmo engraçado. Quando que o Pato Donald ia ficar bêbado nesses nossos tempos de politicamente correto? Létis golcidetáum!
ah, mais uma, só pra não perder a oportunidade: se eu fosse travesti, seria a Carmen Miranda.
Quando leio a biografia de alguém que ficou conhecido por um talento espantoso, com raras exceções, vejo que o presente divino manifestava-se já na infância, como se fosse um dom vindo junto com o corpo, na sua concepção, algo intrinsicamente ligado à própria noção de existência como indivíduo. Todos manifestavam um desejo incontrolável e espontâneo de fazer “aquilo”, fosse cantar, atuar, pintar, tocar piano.
Admiro muito pessoas que sabem o que querem fazer profissionalmente desde cedo. Que se dedicam de corpo e alma a um talento ou afinidade especial cuja origem está antes da educação, do ambiente, do status social.
Um dos talentos que não se manifestam logo na primeira infância é o apreço por escrever. Por razões óbvias, já que somos alfabetizados aos sete anos e só lá pelos nove seremos capazes de ler sozinhos.
Talvez o talento de escrever esteja de fato muito longe das pulsões primitivas. Não é um talento especialmente sensorial, embora possa apoiar-se imensamente nos sentidos. Não envolve a capacidade de distinguir sons, cheiros, sabores, cores, texturas. Envolve a capacidade de transformar as sensações em palavras, algo além do sentir (embora exista muito mais a se escrever além das sensações). E ainda, para escrever bem, para se falar bem de alguma coisa, é preciso ter sentido muito.
Eu fico me perguntando o que é que eu sempre soube fazer bem, muito bem, naturalmente, sem ninguém me ensinar.
Vejamos. Sempre trepei muito bem em árvore. E essa é sempre a primeira coisa que eu me lembro de fazer bem. Sei também desfazer nós de barbante. Da minha vida pré-alfabetização, acho q era isso.
Depois eu virei aquela que gostava de ler. Lia um livro inteiro do Monteiro Lobato em um dia (foi meu primeiro feito hercúleo: “Viagem ao Céu” em um domingo). Ficava horas folheando as enciclopédias britâncias que meu pai tinha comprado. Na escola, era sempre uma das primeiras a terminar a prova.
Será que se alguém tivesse me colocado um piano na frente desde os três anos, eu teria virado uma boa pianista? Ou me inscrito num curso de balé, e hoje eu faria parte de um grupo de dança contemporânea? E se eu tivesse passado no curso de relações internacionais, estaria trabalhando no Itamaraty?
Mas o caminho que eu tomei não foi nenhum desses. Foi o de fazer jornalismo, depois morar no exterior, de querer ter uma vida aventureira, embora eu ainda não tenha coragem de fazê-la tão aventureira quanto eu imaginava.
***
VERVE s.f. 1. entusiasmo e inspiração que animam a criação e o desempenho do artista, do orador, do poeta; 2. graça ou vivacidade que caracterizam uma personalidade, ou o que ela produz; 3. sentimento de vida, vitalidade. ETIM fr. verve (sXII) ‘provérbio’, depois ‘relato, narrativa’; de um lat. vulg. *verva, var. de verba, pl. de verbum ‘palavra’.
Ok, então vou contar: desde a primavera daqui, não sei exatamente porque, mas a Itália e os italianos cruzam meu caminho a torto e a direito.
Já mencionei minha atração pelas cantoras daquele país.
Até aí, a Itália é aqui do lado e italiano tem em tudo quanto é canto (por que?). Mas parece mais que acaso ou coincidência ou sincronicidade ou o raio que o parta. A Itália é, sim, o país europeu que mais se parece com o Brasil, e talvez esteja aí a fonte da atração natural –nesse vídeo, que ficou famoso há uns cinco anos, a bandeira da Itália pode ser muito bem trocada pela brasileira que a piada continua a mesma:
Uma madrugada, quando voltava a pé para casa depois de uma sessão de brejas, cigarros e internerds chez T, parei num café perto da Porte St Denis para pedir fogo. Eu tinha comprado cigarro aquele dia, coisa (cada vez menos) rara. Tinha também cavocado memórias do passado ainda não perfeitamente cicatrizadas. Estava numa seca de amores como nunca antes nesta vida.
Il Piazzaiollo
Vem um cara com o isqueiro, puxa papo. “Ah, brasiliana? Io vado in Brasile fare la pizza”. Pois então, o cara era um vero pizzaiolo napoletano. Daqueles tão clichês que não parecem de verdade: com o agasalho da seleção azzura, dizia assistir todas as corridas de Fórmula 1 porque é torcedor da Ferrari, só tomava cerveja Peroni e café ristretto. E contava, meio vesgo, como acordava mais cedo quando era bambino para ver a mamma napoletana fare la pizza nella coccina. E como a massa da pizza precisava ser tratada com carinho, como se fosse una donna. E ia falando tudo em italiano. E eu, sabe deus como, ia capiscando e rispondendo macarronicamente. Vai ver, de tanto ouvir música italiana, aprendi por osmose auditiva. Ou ainda, porque lembrava das letras decoradas das aulas de canto lírico (”Aïda, ove sei tu?”).
O xaveco começou com “sei tanto carina, simpatica, una ragazza tanto intelligente”, piriri, pororó. Até aí, lindo (o que mais me interessava naquela storia napoletana era, in vero, aprender a fare la vera pizza napoletana). Mas então o moço se empolgou. “Tu sera in Napoli con me, io te voglio presentare à la mia mamma, tu vai fare la pizza con me, apriremo insieme un ristorante”… calma, calma, devagar nessa massa!!! Ganhei um stalker italiano. Capaz de me deixar oito mensagens na caixa postal, todas começando do mesmo jeito: “Ciao, Lori, sonno Tommaso. Ma che sucesso, perche non mi chiammi?”.
Essa história durou um dia. Sem contar duas vezes que o cara me achou na rua e me perseguiu gritando “ti voglio parlare, ma perche, che sucesso? Io te voglio bene!”.
Il cantante
Seria motivo para criar alergia a napoletanos. Mas então apareceu outro. Ah, Nápuleh… que não fazia pizza, mas sim me convidava pra almoçar. E cantava canastronicamente. E me contava a história do príncipe Gesualdo, grande compositor de madrigais nos 1600… que flagrou sua esposa com o amante em pleno ato entre os muros do seu domínio e mandou estraçalhar os corpos dos dois para, então, deixá-los expostos na porta do castelo como exemplo para a população. É, italianos adoram fazer um drama. E são ótimos espécimes para se estudar arquelogia do pensamento. Sabe aquela sua bisavó caquética que tinha certeza que aquela mancha de nascença vermelha que você tem no braço está lá porque sua mãe comeu muita melancia enquanto estava grávida de você? Então, eles são assim. Lógica mágica levada a seríssimo:
– Você não vai viajar com essa faixa roxa no chapéu, né? Se o avião cair, é culpa sua.
– Tá louca, vai brindar com água!? Vai trazer azar pra todo mundo nessa mesa!
– Mas eu já não te pedi pra não colocar meu chapéu em cima da cama? Ontem já comecei a sentir umas dores no peito.
– Não pode levantar da mesa enquanto todo mundo não tiver acabado. Da próxima vez, vá ao banheiro antes.
Na primeira ocasião, virei:
– você tá me tirando, né, carissimo?
Ele me olhou, primeiro surpreso, depois deu uma risadinha.
– Claro que eu estou brincando, chérie. Mas dá a faixinha pra mim, dá. Onde tem um lixo?
Percebi que era mais que implicância quando ele lançou alguns olhares apreensivos para o cara de camisa roxa que esperava na fila do raio-x na nossa frente.
Dove si gagna il pane, non se mangia la carne
E não é só. Agora trabalho num restaurante italiano. E quem é meu caro colega de mesas? Um siciliano. Chegou gritando “C-I-A-O, BELLA”, eu virei “Erm.. ciao, va bene?”. “Ma che, sei italiana?” “Non, sonno brasiliana, ma la nonna della mia nonna era veronese”. “Capisce italiano, alora?” “Capisco bene, parlo un può.” E então a gente se grita em italiano no meio da francesada que toma seu copo de vinho no intervalo de almoço. “Acqua, fromaggio i pane alla tavola sete!”
Chegam três quarentonas emperiquitanas e sorridentes, ele vai recebê-las aos gritos, enquanto cada uma entra pela porta: “Uno martini! Non, due! Tre, tre martini!”. E o golpe de mestre: “Ma che mangia per stare così bella?”. E aí as três pedem mesmo um martini cada uma.
Eu achei que o xaveco era estratégia comercial, ponto. Tanto que nem pensei em possíveis segundas intenções quando ele me convidou para tomar um café depois do trabalho. Achei que íamos num café ali do lado. “Não, vamos pra minha casa”. Ok. O cara mora num hotelzinho na periferia. Entro no quarto e só tem uma cama e uma tábua de passar roupa. Ele tira a camisa, fecha a janela e senta esparramado na cama, me oferece um cigarro de haxixe. Eu teria ficado assustada com abordagem tão direta, não fosse uma incontrolável vontade de rir. Era muito clichê junto. Sentei na janela e fui dando corda pro rapaz falar. Saiu uma ladainha inacreditável de egotrip à la italiana: “io sono stanco, hai fatto l’amore tutta la notte”, “você gosta de rir, né? Pois é, eu tenho talento para ator, não acha?” “o que você vai fazer essa noite? Venha pra cá para a gente se conhecer melhor”.
Aí foi a deixa. “Antonio, a gente vai trabalhar junto, melhor não misturar as coisas, né?”. Fui me apressando para me mandar dali. “Mas deixa então eu só colocar a mão nessa bunda brasileira, c’è un culo magnifico”. Gargalhando, dei um tapinha nas costas dele: “Grazie! Ma non!”
No dia seguinte ele pergunta porque eu não atendi o telefone.
- Estava numa festa, não ouvi.
- Ah, vc estava numa festa bebendo?
- Até cair.
- Tsc, tsc, se você fosse a última mulher no mundo, talvez só aí eu me casaria com você.
Este é um post que eu espero que a minha mãe não leia.
Porque, afinal, o que será mais doloroso? A filha, quando se pergunta se aqueles barulhos que a mãe faz no quarto à noite poderiam não ser de dor? Ou a mãe, quando, ao espiar pela janela que dá pra rua, vê a cabeça da filha adolescente movimentando-se ritmadamente, mal-iluminada pela luz de mercúrio da rua, por cima do quadril do ficante dentro do carro parado ao lado da porta de casa?
Após este preâmbulo freudiano, se você foi forte (e se você não é a minha mãe), prossigamos.
Desculpem-me os paus pequenos, mas comprimento e calibre é fundamental. E que fique claro que quem diz isso sou eu e não todas as mulheres –para muitas, inclusive, algo imponente demais desencoraja o maior dos tesões. Acho que deve ter a ver mesmo com a profundidade feminina. Mulher também tem comprimento e calibre, mas como é pra dentro, ninguém lembra disso.
“Boceta”, etimologicamente, vem de bainha de espada. C’est évident: para espadas pequenas, bainhas pequenas; para espadas grandes, bainhas grandes. Não poderia ser diferente: espadas grandes rasgam bainhas pequenas; espadas pequenas perdem-se dentro de bainhas grandes.
Mas alguém aí tem dúvida que há uma estreita ligação entre tamanho do pau e auto-confiança masculina?
Talvez a minha experiência de vida tenha condicionado essa certeza, que é uma daquelas poucas (a certeza).
O maior pau de todos que eu já vi era de um cidadão (carioca, devo dizer) que não tinha medo nenhum de tascar um beijo no amigo na frente dos colegas, pintava a unha e gostava de dizer que amava a namorada mais que tudo, mesmo que não fosse um modelo de monogamia. Ah! E escrevia poemas. Bons.
Já o menor de todos… (licença, modo cruel on:) se é que aquilo merecia ser chamado de pau…. parecia mais uma verruga. A ser punhetada com uma pinça (modo cruel off). Bem, esse pertencia a um assessor de um figurão de Brasília envolvido em escândalos (petista, devo dizer). Em seu tempo livre, o tal assessor caçava garotinhas pela net em salas de sexo sado-masoquista. Stalinista que se leva a sério.
Não gosto de explicar a piada, acho que estes extremos falam per si. Mas é lógico que essa bobagem toda não quer dizer nada, é só encheção de lingüiça (da qual eu talvez me arrependa). Lembro daquele, pau fino e curvo, que é um dos homens mais admiráveis que eu conheço; e daquele outro, grosso e curvo, que se acha o dono do mundo mas tem inteligência emocional de criança mimada. Será que é a curva que leva à exceção? (o botão do modo baboseira infame está emperrado e não consigo desligar, mal aê.)
Então cria-se o passatempo perfeito para momentos com o amigo gay: (modo cruel on) “aqueles dois ali, ela só aguenta porque é grande”; “aquele ator horrível? Todo mundo sabe que é minúsculo”; “toda aquela panca do Caetano? então…” (modo cruel off)
Os primeiros contatos que tive com a chanson française devem ter sido com o CD duplo da Edith Piaf que minha irmã mais velha ouvia no volume máximo em seu aparelho estéreo enorme. Seu quarto sempre foi um santuário intocável e adentrar seus portais poderia condenar a pobre alma inconseqüente à danação eterna nos confins do Hades. Mas como o som atravessava as paredes, tão alto que era, aquela voz gargarejante, rouca e enfumaçada parecia o canto de sereia que tentava minha curiosidade de xeretar em seu armário, seus discos do Led Zeppelin, seu livro de páginas douradas do Monteiro Lobato e, mais que tudo, em sua caixinha de música que tocava Für Elise e guardava colares de contas vermelhas de pau-brasil. Proibição gera tentação.
Uma das músicas daquele CD, em especial, grudava na cabeça –era a última, “Milord”. Eu não falava uma palavra sequer em francês naquela época (tinha o quê? Uns 10 anos). Mas não podia nem sequer sonhar em cantarolá-la fingindo biquinho ou enrolar a língua, ou seria condenada ao gravíssimo crime de “você está me copiando”: como poderia atrever-me a gostar da mesma coisa que ela gostava? A mesma acusação que ouvi por algum tempo assim que cortei o cabelo curto aos 15 anos (o dela já era curto antes).
E então, um dia, muito tempo depois, ela foi morar no exterior e eu “herdei” aquele CD duplo. Nessa época já conhecia também Yves Montand e Charles Trenet, influências do lado materno (deve vir daí meu gosto por easy listening, afinal, pai e mãe adoravam ouvir Scala99. Mesmo a Cultura FM, segunda colocada de audiência lá em casa, quando tocava algo muito wagneriano era desprezada no dial). Yves Montand me fazia pensar na avenida Grands Boulevards, perto de onde eu moro hoje, cheia de passagens com teto de vidro, neons e turistas. Já Charles Trenet remetia àquelas imagens de para-sóis com listras azuis e brancas típicos da Côte d’Azur. Edith Piaf era a imagem mais parisiense de todas (embora Yves Montand seja muito também, mas ele tinha um quê diferente, vai ver devido às origens italianas). Bastava dar play naquele CD e eu sentia que a luz do quarto de adolescente ficava vermelha, que as paredes brancas eram forradas de um pano acetinado meio rosa com brocados e as janelas tinham cortinas pesadas e empoeiradas. Que meus móveis de fórmica viravam madeira talhada com forros já puídos e descosturados. E que tudo cheirava a velho e a mofo. E que ela estava cantando num palco bem apertado, montado num dos cantos, com uma luz só mostrando seu rosto e o movimento desesperado de suas garras ossudas.
Mas quando foi que eu descobri Serge Gainsbourg? Não sei. Talvez quando vi uma amiga que participava de uma comunidade dele no Orkut, naquele tempo que quase ninguém sabia o que era Orkut (2003?). A foto da comunidade era da capa de um dos seus últimos discos, “Love on The Beat”, no qual ele está maquiado como uma mulher, fumando um cigarro. E o mais incrível é que ele nem ficou tão mal assim.
WTF?, eu devo ter pensado. E aí descobri que era dele aquela música tão sexy que dava até vergonha de ouvir em público, “Je T’Aime, Moi Non Plus”, da qual eu conhecia melhor algumas paródias toscas de rádio FM do que a versão com o próprio. Nem sonhava que ela tinha sido feita para Brigitte Bardot, quando ela, a mulher mais linda, e ele, o homem mais feio, estavam perdidamente apaixonados e ela pediu “escreva-me a música de amor mais linda que possa existir”.
Quanto mais eu pesquisava sobre ele, mais o adorava. Antes de virar pianista de boate, estudou pra ser pintor. Seu pai era judeu russo (como meu avô). Era bem feio, com umas orelhas de abano de dar dó, mas conquistou mulheres lindas… tinha uma língua afiadíssima (”acho a feiúra superior à beleza, na medida que a feiúra perdura e a beleza dura pouco”, disse). Fez uma versão reggae da Marselhesa. É pai da Charlotte. E, sobretudo, suas músicas são incríveis, seja qual o estilo: jazz, cantiga, pop, rock, reggae, batucada africana, charleston, country…
Então virei fã incondicional. Dizia “Ave, Gainsbourg” sem medo.
Mas é claro que –a sina à qual todo amor à primeira vista está condenado– quanto mais a gente conhece alguém, mais complexo e humano ele se torna (se é que você me entende). Talvez por isso eu não tenha tido muitos ídolos (só um, na verdade: Ziggy Stardust. Como ele era um personagem, sobreviveu).
Um dia descobri “Les Rita Mitsouko“, o grupo de rock mais avant-garde desta pátria dos queijos, formado por um casal: Catherine Ringer et Fred Chichin. Catherine, rock star muito estilosa, fodona e engraçadíssima, ficou, aos meus olhos, ainda melhor quando soube que, antes de cantar, ela era atriz pornô. Pois aí vem nosso caro Gainsbourg em sua versão completamente bêbada e escrota, que ele denominava Gainsbarre, e a chama de vagabunda por causa de sua carreira pregressa no meio de uma entrevista de um programa de televisão. Porra, Serge, vai tomar no cu!
Outra performance conhecida de Gainsbarre, completamente bêbado, foi quando ele virou para Whitney Huston, ao vivo durante um talk show: “I want to fuck her!”
O que veio depois não foi exatamente uma decepção, mas sim uma questão polêmica que toca sua personalidade artística –a social é importante, mas dado que é um artista, é preciso saber separar. Afinal, muitos artistas são geniais como tais e execráveis como pessoas, o que não torna a obra deles necessariamente pior. O caso de Céline é clássico –um escritor magnífico… e um antisemita venenoso. Pois bem, estava ouvindo a coleção de trabalhos completos para piano do Chopin por Rubinstein (copiado da minha mãe), quando ouço algo muito familiar. Estranho, pois estava num disco que eu ainda não tinha ouvido. Era o Prelúdio no. 4 em Mi Menor. “Nossa, mas isso é ‘Jane B’.”, pensei. “Jane B” é uma das canções de Gainsbourg que eu mais gostava, feita para sua mulher, Jane Birkin, e cantada pela própria de um jeito que lhe revela toda a fragilidade, com a voz sussurrante e trêmula, e uma letra com uma descrição estilo “procura-se” –referência a uma passagem da Lolita de Nabokov:
a letra:
Signalement yeux bleus cheveux châtains Jane B.
Anglaise de sexe féminin âge : entre 20 et 21
apprend le dessin domiciliée chez ses parents
yeux bleus cheveux châtains Jane B.
Teint pâle, le nez aquilin
portée disparue ce matin à cinq heures moins vingt
a passagem de Lolita (traduzida pro francês):
Perdue : Dolorès Haze. Signalement :
Bouche “éclatante”, cheveux “noisette” ;
Age : cinq mille trois cents jours (presque quinze ans !)
Profession : “néant” (ou bien “starlette”).
Mas voltando à melodia… não foi nem só uns acordes. É a melodia inteira, mesmo. Fui me informar mais sobre esta verve apropriadora de meu ídolo e descobri que a ficha era extensa. Chopin, de quem ele tinha uma foto sobre seu piano, é o mais utilizado: além desse prelúdio, o Estudo no. 9 em Fá Maior virou “Depression Au Dessous du Jardin”. Outro estudo, o no. 3 em Mi Maior, “Tristesse”, virou “Lemon Incest”, provavelmente de todas as suas canções a de fama mais infame, na qual ele e sua filha Charlotte, então com 9 anos, cantam “o amor que nós jamais faremos juntos é o mais belo, o mais violento”.
(sobre a relação de Gainbourg com Lolitas falaremos mais, mais tarde).
Fora do universo Chopin, aquela levadinha maneiríssima de “My Lady Heroïne“? Vem de “Em Um Mercado Persa“, de Ketèlbey. Ou aquela entrada deliciosa de “Pauvre Lola“? Já era conhecida como “Umqokozo”, da cantora de jazz sul-africana Miriam Makeba. Outras mais óbvias, que me soam menos surrupiadas e mais homenagens bem-feitas (talvez porque sejam peças mais conhecidas, do tipo “tá na cara”): o primeiro movimento da sonata Appassionata de Beethoven virou “Ma Lou Marilou”; o terceiro movimento da Sinfonia no. 3 em Fá Maior de Brahms serve de base para a voz de Jane Birkin em “Baby Alone in Babylone“… sem contar outras que eu não conheço, porque elas existem, for sure. Pergunte pro Irineu.
Acho que a diferença primordial entre referência (ou reverência) e plágio é que a primeira cita a fonte, a segunda esconde (alguém sugere outro critério?). Serge às vezes citava, às vezes não.
Plágio de idéias é um assunto bem complicado, porque uma mesma idéia pode surgir em várias cabeças ao mesmo tempo (vide a teoria da evolução, de Darwin e Wallace). Já música… bem, difícil dizer qual é o tamanho da sequência de acordes que caracteriza um plágio. Pode ser tão pequena quanto quatro notas: qualquer pessoa que colocar um “sol sol sol mi” numa canção depois de Beethoven faz uma cópia ou referência. Mas música entra na cabeça sem pedir licença e muitas vezes pensamos ter criado algo quando, na verdade, apenas colamos pedaços aqui e ali (ms. Diamond adorava essa colagem, mas feita conscientemente: “Bárbara… Bárbara… pega! mata! e come!”).
E no caso de Gainsbourg, a melodia é a mesma, mas aí está, a meu ver, uma prova da genialidade do cara: o lirismo oriental das harpas e violinos da composição de Ketèlbey, por exemplo, vira baladinha suingada, malemolência caliente, elegia erótica chapada –cita Marquês de Sade (”aussi pure que Justine/ tout le malheur de ta vertu/ et tout ce bonheur me tuent”*). E também o “charme da Pérsia” (explicação “à la Folha”: é naquela região do mundo, antigamente chamada de Pérsia e hoje conhecida como Irã, Iraque e Afeganistão, que há uma significativa produção de papoula e, consequentemente, morfina… ópio e heroína)… ou seja, dá uma pista, mesmo pra quem não sabe quem é o tal do Ketèlbey.
Podem dizer então: Gainsbourg copiava escancaradamente. Mas, se não fosse por isso, eu não conheceria nem Ketèlbey, nem essa sinfonia do Brahms. Síndrome dos nossos tempos: eu conhecia a paródia/paráfrase antes da obra que a inspirou.
Chamar a Catherine Ringer de vagabunda não tem perdão, por mais bêbado e estragado que já estivesse (ele morreu poucos anos depois). Mas utilizar frases musicais de outros compositores e transformá-las em pilares da cultura pop… é polêmico, mas não acho que seja motivo pra enviar pra fogueira. Na verdade, é bem o estilo dele: ficar ali no carrefour entre a crucificação e a glória –estilo que ele aprendeu com Boris Vian, de quem ele virou fã assim que ouviu pela primeira vez. Vian é aquele que escreveu uma ode à deserção ao fim da guerra da Indochina. Sobre esse cidadão falaremos mais aqui, mas em outra ocasião.
* “tão pura quanto Justine/ toda os infortúnios da tua virtude/ e toda essa felicidade me matam”