edit friends

(este assunto mereceria um texto mais sério)

O Facebook é um lugar. Tal como ler uma revista de celebridades, a gente entra nesse lugar para saber as novidades da vizinhança –ou, no caso, do universo de pessoas conhecidas, ali denominadas “amigos”.

Se todos merecem ou não o epíteto, acho que há consenso: é claro que não. Amigo aqui é na acepção de “uma pessoa que eu conheço”, ponto.

Entre essas pessoas, evidentemente, existirão algumas que a gente ama, admira, pelo qual somos afeiçoados, temos afeto. Outras tantas passaram pela nossa vida em algum momento e talvez só aquele link no Facebook nos faz lembrar que aquela pessoa existe. Alguém que, caso encontrássemos num lugar ou ocasião inesperada, até bateríamos um papo, talvez até animado… ou não, fingiríamos nem ter visto. Tudo depende (de tantas variáveis que um post não é capaz de tratar com o mínimo de propriedade e portanto abster-se-á).

Mas é fato que ‘esse tal de Facebook’ nos dá a ilusão de estar mais próximo dos conhecidos (para os amigos Facebook é bem desnecessário, embora a gente use quand même. Uma boa razão existe: certos amigos moram fisicamente longe. E quando é você quem está longe, então… sim, sim, eu estou desculpadíssima). Pois afinal não é apenas o e-mail daquela pessoa no nosso índice de contatos. Ela está ali naquele mesmo lugar, como você, intrometendo-se nos assuntos que os outros colocaram ali exatamente para atiçar intrometimentos.

Existem pessoas que passaram e que seria legal reencontrar. Às vezes alguém publica alguma coisa interessante, a gente descobre um gosto em comum, dá um caldo.

Ou então, a gente procura aquele amigo do amigo que interessou bastante, dá um ‘friend request’… e é como se tivesse enviado um ramalhete de flores.

Outras, a gente descobre uma faceta de um alguém, aquela que ele/ela quis tornar pública, e se surpreende (para o bem ou para o mal).

E tem aquelas pessoas que você não faz questão nenhuma de lembrar que existe, mas que te fez um ‘friend request’…

- Quer ser minha amiga?
- Não, obrigada (‘request pending’…)

Mas bancar a chata exige muita energia e na maioria das vezes a gente aceita.

Mais dramático, porém, é a opção ‘edit friends’. Editar amigos. Encerrar conexão. Tô de mal? Não, é mais “você não faz parte da minha vida”.

E só existimos no Facebook quando publicamos. Quando tornamos algo circunscrito a nós –poderíamos dizer, algo íntimo– em algo público. E se publicamos algo no Facebook, é porque decidimos dedicar tempo a isso.

Por isso, quando me dou conta que publiquei coisa demais na minha página, é hora de concluir: “mademoiselle, vai passear um pouquinho, vai”.

com pedrinhas de brilhante

rue des solitaires

rue des solitaires

presente

Papal Noel era um tirador de sarro sádico com humor de gosto meio duvidoso e resolveu que era hora de fazer com ela uma grande sacanagem. Aquela criança que acreditava em maravilhas mas não esperava por elas, sabe, aquela? Então, ele entregou na mão dela o presente dos sonhos. E disse: “mas tem data de validade”.
Ela aceitou. Talvez já tivesse idéia das conseqüências. Sempre tinha aquele sonho no qual encontrava a caixinha mágica de alguma fada perdida na grama e tomava-a entre os dedos, fascinada, deleitada por ter-la ao alcance das mãos, por poder tocá-la, e sorria muito ao abri-la, toda besta, mesmo que tivesse medo de ser descoberta, mesmo que aquilo que estava lá dentro, que ela nunca via no sonho o que era, nunca pudesse ser só dela.
Embora houvesse sempre uma tristeza arrebatadora ao acordar. Queria voltar a dormir para reencontrar o que fora perdido ao abrir os olhos. Desejava muito, mas esses sonhos só vinham quando ela menos esperava.
Pois aquele tal presente, dessa vez, era real. Real e prodigioso, muito, muito melhor que um sonho. E foi passando o tempo com ele, olhando para ele, contando histórias para ele, vendo-o ser. Toda besta.
Três dias ela acordou e, ao ver seu presente ao lado da cama, pensou “a realidade é melhor que o sonho”.
Isto é certo.
Fosso Papai Noel quem fosse.
Então o presente foi embora, para muito longe, um longe que ela conhecia bem. Um sótão translúcido do outro lado do mar com muitas lembranças, tantas lindas, outras tantas terríveis.
“Porra, Papai Noel”, pensava ela cada vez que a imagem do presente invadia seu olhar cegando-a do que estava à volta. Tinham sido só três dias, não dera tempo de enjoar, de descobrir defeitos de fabricação. Ela só o levara em seus esconderijos preferidos, mostrara-lhe apenas os caminhos e paisagens que mais a tocavam fundo na alma. E agora todo aquele universo particular era uma grande Ausência, pois aqueles lugares nunca tinham tão bonitos quanto quando ela foi visitá-los com ele.
Na primeira manhã em que acordou e olhou para o lado e ele não estava lá, abraçou o travesseiro e cutucou-o com o focinho como se quisesse acordá-lo. Depois escondeu nele o rosto como se quisesse sufocar e só o tirou quando a fronha já estava encharcada e os olhos inchados. Depois virou-se para o outro lado como se quisesse que ele estivesse ali, olhando para as sardinhas das costas dela, esperando que ela acordasse.
Talvez essa chaga demorasse também só três dias para cicatrizar, pensou.
No primeiro dia foi ocupar-se, passear por lugares desconhecidos, visitar amigos, mas era pegar-se distraída que a garganta apertava.
No segundo dia foi viver o luto com o mesmo apetite do apego, como se um pudesse anular o outro: não comeu; não saiu; não sentiu prazer. Mas ao fim daquele dia sentiu que se continuasse naquele ritmo, deixaria de ser aquela que ele conheceu, e isso não! Ela tinha que continuar sendo a mesma, era o que lhe restava, e… quem sabe um dia ela ainda não o reencontraria?
Mas nisso ela preferia não pensar. Parecia distante demais. E sabe lá por onde andaria ele. Sabe lá o quanto ela teria mudado até então, quantas coisas ambos teriam visto e vivido. Quem sabe ela não teria mais graça ao gosto dele. Quem sabe ela veria nele os defeitos que o idílio não permitiu. Quem sabe ele estivesse muito bem assim, obrigado. E quanto poderia doer uma segunda partida? No terceiro dia, apesar do longo preâmbulo para deixar a cama e por os pés no chão, foi resolver pendências que a esperavam longamente sobre a escrivaninha.
Ao fim daquele terceiro dia ocupado no piloto automático de trilha sonora inercial, sonhou que era um vulcão havaiano. Seu choro era matéria incandescente que escorria em formas redondas, pingava pesadão e escorria devagar, preto, laranja e prata. E criava paisagens novas, lunares, estrambóticas, invadia o mar.
O seu Papai Noel não dava nada de graça. Dava e tirava em seguida, como se dissesse “mas tem certeza que você agüenta essa, ô pirralha?”.
Dessa vez ela ia provar que merecia.

Papai Noel era um tirador de sarro sádico com humor de gosto meio duvidoso e resolveu que era hora de fazer com ela uma grande sacanagem. Aquela criança que acreditava em maravilhas mas não esperava por elas, sabe, aquela? Então, ele entregou na mão dela o presente dos sonhos. E disse: “mas tem data de validade”.

Ela aceitou. Talvez já tivesse idéia das conseqüências. Sempre tinha um sonho no qual encontrava a caixinha mágica de alguma fada perdida na grama e tomava-a entre os dedos, fascinada, deleitada por ter-la ao alcance das mãos, por poder tocá-la, e sorria muito ao abri-la, toda besta, mesmo que tivesse medo de ser descoberta, mesmo que aquilo que estava lá dentro, que ela nunca via no sonho o que era, nunca pudesse ser só dela.

Embora houvesse sempre uma tristeza arrebatadora ao acordar. Queria voltar a dormir para reencontrar o que fora perdido ao abrir os olhos. Desejava muito, mas esses sonhos só vinham quando ela menos esperava. E eram sonhos, afinal.

Pois aquele tal presente, desta vez, era real. Real e prodigioso, muito, muito melhor que um sonho, porque era real. E foi passando o tempo com ele, olhando para ele, contando histórias para ele, vendo-o ser. Toda besta.

Três dias ela acordou e, ao ver seu presente ao lado da cama, pensou “a realidade é melhor que o sonho”.

Isto é certo.

Fosse Papai Noel quem fosse.

Então o presente foi embora, para muito longe, um longe que ela conhecia bem. Um sótão translúcido do outro lado do mar com muitas lembranças, tantas lindas, outras tantas terríveis.

“Porra, Papai Noel”, pensava ela cada vez que a imagem do presente invadia seu olhar cegando-a do que estava à volta. Tinham sido só três dias, não dera tempo de enjoar, de descobrir defeitos de fabricação. Ela só o levara em seus esconderijos preferidos, mostrara-lhe apenas os caminhos e paisagens que mais a tocavam fundo na alma. E agora todo aquele universo particular era uma grande Ausência, pois aqueles lugares nunca tinham sido tão bonitos quanto quando ela fora visitá-los com ele.

Na primeira manhã em que acordou e olhou para o lado e ele não estava lá, abraçou o travesseiro e cutucou-o com o focinho como se quisesse acordá-lo. Depois escondeu nele o rosto como se quisesse sufocar e só o tirou quando a fronha já estava encharcada e os olhos inchados. Depois virou-se para o outro lado como se quisesse que ele estivesse ali, olhando para as sardinhas das costas dela, esperando que ela acordasse.

Talvez essa chaga demorasse também só três dias para cicatrizar, pensou.

No primeiro dia foi ocupar-se, passear por lugares desconhecidos, visitar amigos, mas era pegar-se distraída que a garganta apertava.

No segundo dia foi viver o luto com o mesmo apetite do apego, como se um pudesse anular o outro: não comeu; não saiu; não teve prazer. Mas ao fim daquele dia sentiu que se continuasse naquele ritmo, deixaria de ser aquela que ele conheceu, e isso não! Ela tinha que continuar sendo a mesma, era o que lhe restava, e… quem sabe um dia ela ainda não o reencontraria?

Mas nisso ela preferia não pensar. Parecia distante demais. E sabe lá por onde andaria ele. Sabe lá o quanto ela teria mudado até então, quantas coisas ambos teriam visto e vivido. Quem sabe ela não teria mais graça ao gosto dele. Quem sabe ela veria nele os defeitos que o idílio não permitiu. Quem sabe ele estivesse muito bem assim, obrigado. E quanto poderia doer uma segunda partida? No terceiro dia, apesar do longo preâmbulo para deixar a cama e por os pés no chão, foi resolver pendências que a esperavam longamente sobre a escrivaninha.

Ao fim daquele terceiro dia ocupado de piloto automático e trilha sonora inercial, sonhou que era um vulcão havaiano. Seu choro era matéria incandescente que escorria em formas redondas, pingava pesadão e escorria devagar, preto, laranja e prata. E criava paisagens novas, lunares, estrambóticas, invadia o mar.

Acordou. O seu Papai Noel não dava nada de graça, pensou. Dava e tirava em seguida, como se dissesse “mas tem certeza que você agüenta essa, ô pirralha?”.

Dessa vez ela vai provar que merece.

l’adieu

É bom ver que o tempo gasto em uma atividade serviu pra alguma coisa.

E é engraçado ver que coisas horríveis podem ter lindas conseqüências.

No caso, algumas fotos em preto e branco que eu fiz de Paris foram usadas pelo meu vizinho no projeto de fim de ano dele.

Veja só, conheci-o porque algo de muito peculiar aconteceu aos dois: fomos roubados pelo mesmo ladrão. Quando invadiram minha casa, invadiram a dele também. Levaram de ambos a câmera digital e o computador.

Ele faz uma escola de cinema aqui em Paris, a ESRA, na parte de engenharia de som. O trabalho de fim de ano era um diaporama. O texto e a narração são dele.

Espero que gostem!

“Sobre a Leitura”, de Marcel Proust

Por que Proust?

Porque Proust tem a capacidade de dizer coisas que qualquer um já pensou e já sentiu antes, e ele diz como se fosse o meu (o seu) próprio pensamento quem o dissesse.

Sur la Lecture é um prefácio para a tradução que Proust fez em 1906 de duas conferências do crítico de arte inglês John Ruskin, reunidas sob o título Sésame et le Lys. Para Ruskin, ler é como conversar com um grande personagem, daqueles que não se encontram à torto e à direito por aí e ao qual dificilmente teríamos acesso rotineiro. Abrir um livro de um grande autor é ter acesso à genialidade e sair da banalidade cotidiana.

Proust tem uma perspectiva bastante diferente do ato de leitura, que lhe é bem caro. O texto do prefácio começa com reminiscências da infância do narrador em torno dos livros que encantavam suas férias de verão –em especial Le Capitaine Fracasse, de Théophile Gautier, romance de capa e espada. Certas frases de Gautier geram deleite no jovem leitor, tal como: “Le rire n’est point cruel de sa nature ; il distingue l’homme de la bête, et il est, ainsi qu’il appert en l’Odyssée d’Homerus, poète grégeois, l’apanage des dieux immortels et bienheureux qui rient olympiennement tout leur saoul durant les loisirs de l’éternité” (1). Proust comenta a sensação de que apenas Gautier poderia revelá-lo essa antiguidade fascinante –mesmo que o preço por tais frases deleitosas fossem longos trechos permeados de descrições entediantes sobre, por exemplo, a quantidade de poeira sobre um móvel e outros detalhes que lhe pareciam absolutamente irrelevantes.

Tais revelações seriam, para utilizar os termos empregados pelo próprio Proust, mais “incitações” que “conclusões”, como quereria Ruskin. A idéia central do prefácio é exatamente essa: a leitura dá acesso a verdades, mas não as entrega inteiras e completas: “(…) ce qui est le terme de leur sagesse ne nous apparaît que comme le commencement de la nôtre (…) (2)”. Daí a legitimidade de ler um grande escritor ou observar uma bela pintura antes de meter-se ao trabalho criativo –o que poderia ser visto como um subterfúgio a quem falta criatividade. “La lecture est le seuil de la vie spirituelle ; elle peut nous y introduire : elle ne la constitue pas.” (3)

Então Proust propõe uma perspectiva quase médica da leitura, como se esta fosse um remédio espiritual. Mas Proust como médico é bem mais ponderado que Ruskin como conferencista moralizador. “De ce que les hommes médiocres sont souvent travailleurs et les intelligents souvent paresseux, on ne peut pas conclure que le travail n’est pas pour l’esprit une meilleure discipline que la paresse” (4). A tolerância dedicada em sua exegese àqueles atacados pela “impossibilidade de querer” é tão sensível que me pergunto se não se trata de auto-comiseração, embora não caia em exageros de condescendência. Enxergo neste momento uma prova de que Proust era bem consciente de seu talento e da própria frustração em não tê-lo feito ainda visível ao mundo –até aquele momento, ele era um rico herdeiro com uma coletânea de pequenos textos desapercebida pela crítica (Les Plaisirs et les Jours) e uma tentativa de romance não publicada (Jean Santeuil). Ele cita o caso de Coleridge nas notas ao fim do prefácio: “il n’y a personne qui, étant doué d’aussi remarquables talents, en ait tiré si peu (…) si bien qu’ayant toujours flottant dans l’esprit de gigantesques projets, il n’a jamais essayé sérieusement d’en exécuter un seul” (5). A posterior dedicação à escrita de À la Recherche du Temps Perdu seria, a meu ver, a tomada de consciência de que seu talento demandaria esforço à altura para concretizar algo de valor.

Conheci um pianista no verão de 2009, aluno preferido de Nino Rota, que era capaz de decorar, ouvindo uma só vez, o concerto que deveria tocar dali a algumas horas em uma fita cassete no toca-fitas do carro enquanto se dirigia ao local da apresentação. Confiando tanto na facilidade que a natureza lhe deu, faltou-lhe a disciplina necessária para virar um grande concertista. Segundo pessoas que o conheceram, ele poderia ter sido tão grande quanto Rubinstein ou Horowitz, dos maiores do século 20 –aos 80 anos, vestido com um terno de bolsos puídos, ele ganhava mal a vida dando aula em um conservatório de música em Pescara. Disse-me uma frase que tenho guardada como algo que deveria estar escrito em letras garrafais na entrada de um portal: “você deve fazer por merecer o talento que lhe foi dado”.

Proust precisou de 15 anos.

marcel_proust

*tradução dos trechos em francês, embora traduzir Proust dê medo. Está longe do razoável. Se eu cometer algum erro crasso, por favor, francófonos, aidez-moi:

(1) “O riso não é cruel por natureza; ele distingue o homem do animal e é, tal como aparece na Odisséia de Homero, poeta helênico, o apanágio dos deuses imortais e bem-aventurados que riem olimpicamente toda sua embriaguez durante os lazeres da eternidade”

(2) o término de sua sabedoria é-nos apresentado como o início da nossa

(3) A leitura é a entrada para a vida espiritual; ela pode lá nos introduzir: ela não a constitui.

(4) Do fato dos homens medíocres serem geralmente trabalhadores e os inteligentes geralmente preguiçosos não podemos concluir que o trabalho não seja, para o espírito, melhor disciplina que a preguiça

(5) não há ninguém que, sendo tão dotado de talentos notáveis, tenha-os aproveitado tão pouco (…) que tendo sempre passeado o espírito por grandes projetos, não tenha jamais tentado executar seriamente nem um só

pedro, inês e o coração de galinha

Pedro e Inês
Inês comia um sanduíche de coração sentada no balcão do bar quando Pedro chegou esbaforido.
Ela levantou a sobrancelha como se dissesse “que foi, viu um fantasma?”.
- Não, subi correndo, ainda tô destreinado.
O pão francês pálido esmigalhava-se sobre o prato coberto com um daqueles guardanapos que não servem pra nada, porque não absorvem porcaria nenhuma. O resto das migalhas caía no balcão. O chapeiro Coelho, sem grande coisa a fazer enquanto a menina mastigava seu sanduíche no fim da tarde de março, pois era aquela hora antes da chuva em que os clientes fogem com a chegada das nuvens negras, levantou o prato com a mão esquerda, passou um trapo úmido e imundo sobre o balcão com a mão direita e deu um sorriso submisso à cliente habitué. O Charme, na esquina da Augusta com a Haddock Lobo, é um dos únicos bares na região da Paulista onde Inês dignava-se a comer sanduíche de coração, vício adquirido durante as férias de verão infernais em Porto Alegre, tchê, na casa da tia-avó.
- Você nem vai me perguntar como foi o meu dia?
O olhar perdido entre a estufa com esfihas e o galheteiro com ketchup e mostarda desviou para Pedro, sem mudar de expressão: pálpebras a meio caminho entre o aberto e o fechado, um pouco de molho no canto esquerdo da boca.
- Tô comendo.
A frase foi pronunciada com alguma dificuldade. Como se o ato de mastigar impedisse quaisquer outros procedimentos mentais.
Pedro olhou a namorada desgostoso. Toda vez que a garota comia, parecia virar um monstro. Grunhia, não falava. Seus olhos azuis ficavam baços, bovinos. Se ainda tivesse o fervor dos felinos que atacam a presa nas savanas africanas, mas não, comia enormes quantidades de carne tal como uma vaca premiada baba soberanamente sobre montes de feno. E aquele olhar inerte avassalava Pedro, fazia-o sentir-se o mais pusilânime dos homens, se é que ele era um homem e merecia ser assim chamado.
E a devoração do sanduíche de coração era um momento especialmente delicado na vida do casal. Inês saía do estúdio de tatuagem às terças mais cedo, às 17h, mesmo horário em que Pedro terminava seu turno no restaurante vegan do outro lado da Paulista, ali pro lado dos Jardins. E eles sempre se encontravam no Charme pra tomar um lanche antes de pegar o metrô para a zona norte. Mas a ocasião tornava-se cada vez mais dolorosa para Pedro, que embora não fosse vegan, sempre achou sanduíche de coração nojento e pedia invariavelmente um bauru. Beijar Inês às terças à noite, no caminho de casa, tornava-se tarefa cada vez mais difícil, tanto mais aumentava sua irritação, seu quase ciúmes ao ver a namorada tão dedicada a um reles sanduíche de coração repulsivo. Além do mais, Pedro já admirava havia algum tempo o ascetismo do jovem patrão idealista que abriu modesto o quilo pequenininho na galeria ali do lado da alameda Tietê. Era quase seu guru, convenceu-o até a começar uma atividade esportiva. Correr era o mais fácil. Então Pedro deu pra sair correndo do trabalho no dia anterior, porque essas coisas a gente começa às segundas-feiras.
Então Pedro reparou o pequenino coração de galinha que restava no último bocado do sanduíche na mão de Inês. O suor ainda lhe pingava das têmporas, o mormaço era quase insuportável. Uma das artérias do coraçãozinho gotejava sangue. Num delírio, Pedro viu aquele coração pulsar. Viu o frango de penugem branca confinado com milhares de outros frangos, impedidos de ciscar, de cantar ao amanhecer, de distinguir a noite do dia, de correr pelo terreiro. Viu o momento de sua morte e o esguicho de sangue galináceo. Então Pedro pensou no espinafre refogado que tinha comido às três da tarde.
Quando Inês sentiu o jato quente sobre o antebraço que segurava o último e melhor bocado do sanduíche de coração, sua expressão bovina se desfez. Os pedaços de espinafre escorreram até o coração pulsante do naco derradeiro.
O que sucedeu logo após ninguém sabe ao certo. Alguém disse ter visto Pedro naquele mesmo dia, de camiseta toda suja, chapinhar os pés como uma criança perto da praça Roosevelt enquanto caía a tempestade que alagaria a cidade. Inês tem saído com o filho do açougueiro. Pedro é doador de órgãos, Inês não.

Inês comia um sanduíche de coração sentada no balcão do bar quando Pedro chegou esbaforido.

Ela levantou a sobrancelha como se dissesse “que foi, viu um fantasma?”.

- Não, subi correndo, ainda tô destreinado.

O pão francês pálido esmigalhava-se sobre o prato coberto com um daqueles guardanapos que não servem pra nada, porque não absorvem porcaria nenhuma. O resto das migalhas caía no balcão. O chapeiro Coelho, sem grande coisa a fazer enquanto a menina mastigava seu sanduíche no fim da tarde de março, pois era aquela hora antes da chuva em que os clientes fogem com a chegada das nuvens negras, levantou o prato com a mão esquerda, passou um trapo úmido e imundo sobre o balcão com a mão direita e deu um sorriso submisso à cliente habitué. O Charme, na esquina da Augusta com a Haddock Lobo, é um dos únicos bares na região da Paulista onde Inês dignava-se a comer sanduíche de coração, vício adquirido durante as férias de verão infernais em Porto Alegre, tchê, na casa da tia-avó.

- Você nem vai me perguntar como foi o meu dia?

O olhar perdido entre a estufa com esfihas e o galheteiro com ketchup e mostarda desviou para Pedro, sem mudar de expressão: pálpebras a meio caminho entre o aberto e o fechado, um pouco de molho no canto esquerdo da boca.

- Tô comendo.

A frase foi pronunciada com alguma dificuldade. Como se o ato de mastigar impedisse quaisquer outros procedimentos mentais.

Pedro olhou a namorada desgostoso. Toda vez que a garota comia, parecia virar um monstro. Grunhia, não falava. Seus olhos azuis ficavam baços, bovinos. Se ainda tivesse o fervor dos felinos que atacam a presa nas savanas africanas, mas não, comia enormes quantidades de carne tal como uma vaca premiada baba soberanamente sobre montes de feno. E aquele olhar inerte avassalava Pedro, fazia-o sentir-se o mais pusilânime dos homens, se é que ele era um homem e merecia ser assim chamado. Pedro era um menino, um moleque. Um franguinho.

E a devoração do sanduíche de coração era um momento especialmente delicado na vida do casal. Inês saía do estúdio de tatuagem às terças mais cedo, às 17h, mesmo horário em que Pedro terminava seu turno no restaurante vegan do outro lado da Paulista, ali pro lado dos Jardins. E eles sempre se encontravam no Charme pra tomar um lanche antes de pegar o metrô para a zona norte. Mas a ocasião tornava-se cada vez mais dolorosa para Pedro, que embora não fosse vegan, sempre achou sanduíche de coração nojento e pedia invariavelmente um bauru. Beijar Inês às terças à noite, no caminho de casa, tornava-se tarefa cada vez mais difícil, tanto mais aumentava sua irritação, seu quase ciúmes ao ver a namorada tão dedicada a um reles sanduíche de coração repulsivo. Além do mais, Pedro já admirava havia algum tempo o ascetismo do jovem patrão idealista que abriu modesto o quilo pequenininho na galeria ali do lado da alameda Tietê. Era quase seu guru, convenceu-o até a começar uma atividade esportiva. Correr era o mais fácil. Então Pedro deu pra sair correndo do trabalho já no dia anterior, porque essas coisas a gente começa às segundas-feiras.

Mas talvez ele tivesse exagerado hoje, o esforço tinha sido enorme. O suor ainda lhe pingava das têmporas, o mormaço era quase insuportável. Foi então que Pedro reparou o pequenino coração de galinha que restava no último bocado do sanduíche na mão de Inês. Uma das artérias do coraçãozinho gotejava sangue. Num delírio, Pedro viu aquele coração pulsar. Em uníssono com o seu. Viu o frango de penugem branca confinado com milhares de outros frangos, impedidos de ciscar, de cantar ao amanhecer, de distinguir a noite do dia, de correr pelo terreiro. Viu o momento de sua morte e o esguicho de sangue galináceo. Então Pedro pensou no espinafre refogado que tinha comido às três da tarde.

Quando Inês sentiu o jato quente sobre o antebraço que segurava o último e melhor bocado do sanduíche de coração, sua expressão bovina se desfez. Os pedaços de espinafre escorreram até o coração pulsante do naco derradeiro.

O que sucedeu logo após ninguém sabe ao certo. Alguém disse ter visto Pedro naquele mesmo dia, de camiseta toda suja, chapinhar os pés como uma criança perto da praça Roosevelt enquanto caía a tempestade que alagaria a cidade. Inês tem saído com o filho de um açougueiro de Santana. Pedro é doador de órgãos, Inês não.

le monde merveilleux de la bureaucratie française

Sim, a burocracia francesa é um grande monstro assustador.

Contarei aqui duas experiências: uma com o sistema de habitação, outra com o sistema de saúde.

Bem, pra quem tem orçamento de estudante, alugar apartamento em Paris é missão impossível. Mesmo. Ou você tem muita sorte (foi o meu caso) ou conhece muita gente –sempre aparece alguém com um quarto pra alugar… nessas horas o facebook mostra-se muito útil.

Eu procurei apartamento no PAP (particulier à particulier), liguei para algo dentro das minhas posses, tinha uma visita marcada para aquele dia mesmo. Cheguei meia hora adiantada. Já tinha uns cinco gatos pingados esperando. Quando o proprietário apareceu, eram uns quarenta aguardando. Assustador. A fila de gente subindo pela escada.

Bom esclarecer: os apês mais baratos em Paris são aquelas mansardas no último andar, os chambre de bonne, isto é, quartos de empregada. Era onde as empregadas da burguesia dormiam. Como hoje em dia aqui quase ninguém tem mais empregada, virou quarto de estudante que acabou de chegar em Paris. Têm um certo charme de ‘vida nova que começa pequeno’. Muita gente que chegou aqui começou num chambre de bonne. Mas parisienses costumam ter horror a estes quartos, em geral minúsculos (10 a 18 metros quadrados). Como ficam colados no teto, são uma geladeira no inverno e um forno no verão. Poucos têm elevador. E aluguel a partir de 400 euros.

Outra opção é collocation, isto é, dividir apê. Mas quando você chega numa cidade onde não conhece ninguém, dividir com qualquer um não me pareceu uma boa opção. Então fui tentar o chambre de bonne.

Após vencer a multidão espremida nos corredores minúsculos, consegui ver o apartamento. Um terror. Cheiro de mofo, um papel de parede salmão imundo, uma prateleira e uma mesa bem vagabundos. Mas ao menos tinha banheiro e ducha dentro, o que já é quase um luxo –na maioria das vezes, você tem que dividir o banheiro com os outros apartamentos do andar.

Vi alguns estudantes saindo com cara ‘ai que horror, não!’. Mas entre isso e nada… eu estava meio desesperada. O proprietário disse ao fim da visita de 2 minutos –até porque, pra um espaço de 12m2, não há muito o que ver, hm– que quem estivesse interessado deveria deixar um papel com as coordenadas, que ele entraria em contato. Uma postura incomum, já que muitos proprietários dizem que ‘se você não tem garant (fiador) na França, nem se dê ao trabalho de vir’. Então escrevi num papel meu telefone, meu e-mail, contei o que eu tinha vindo fazer aqui, quanto tempo pretendia ficar (3 anos), onde pretendia trabalhar, da onde vem o dinheiro dos meus pais, enfim, desfilei toda a minha ficha de potencial boa locatária. Mas deixei o papel na pilha, junto com vários outros contatos, sem a menor esperança.

Não sei se foi minha simpatia ou meu sobrenome judeu, mas o cara me ligou, me perguntou mil coisas e, por fim, disse ‘ok, alugarei pra você’.

Maravilha! É um muquifo, mais é um muquifo só meu. E depois de meter a mão na massa, tirar papel de parede, pintar, colocar prateleiras, iluminação bonitinha, tudo made in IKEA, ficou fofo, cheiroso e quentinho. E cá estou eu.

E como estamos num país onde os cidadãos reclamam muito e fazem greve geral todo ano, existe algo chamado CAF (Caisse d’Allocations Familiales), um órgão estatal que te ajuda a pagar o aluguel. Muito justo, considerando o preço estratosférico dos alugueis em Paris. Mas para conseguir a tal ajuda, você vai ter que ralar, preencher muito papel, enviar muita coisa pelo correio e ter muuuita paciência com os funcionários.

Tudo parece um teste de resistência. Mas quando funciona, nossa, que maravilha!

Preenchi a papelada em dezembro de 2008, quando aluguei o apê. Consegui a tal ajuda em maio. Tudo porque só consegui meu visto em maio, e até lá fiquei com um comprovante, o qual a CAF não aceita. Não, não tem jeitinho.

E agora com o sistema de saúde. Veja bem, aqui não dá medo de ficar doente. Porque uma consulta no médico custa 22 euros. E uma batelada de exames, 20 euros. E se você estiver inscrito direitinho na securité sociale, o sistema de saúde público, e tiver a famosa carte vitale, sinal que você não deve papel nenhum a organismo nenhum, não precisa nem desembolsar a grana, basta passar o cartão e a securité paga diretamente pra você. E mesmo sem a tal da carte vitale, basta enviar o papel que o médico ou a farmácia te dá para o lugar onde você se inscreveu (no meu caso é a LMDE, sistema de saúde estudante) que eles te reembolsam tudo ou parte.

Enfim. É muito mais complicado do que parece. Leva um bom tempo pra aprender a se virar neste país, mas quando a gente aprende, é aquela sensação de “uau, funciona”.

E com licença que a vida agora é bela e eu vou aproveitar o sol lá fora.

proxêmica do transporte público

Pegar ônibus em São Paulo era coisa cotidiana. Teve a época do 428-P: elétrico, qualquer buraco fazia aquela antena que liga no fio sacudir e cair (aliás, alguém mais aí é fascinado por aquelas ondas que se formam no asfalto na faixa do ônibus?) . Quando eu era criança e morava no sítio, tinha fascínio por ônibus elétricos. “Passear” de ônibus era muito divertido. Não só porque era coisa que eu só fazia com minha avó (e coisa que a gente só faz com a avó é sempre mais divertido. Por exemplo, arroz com frango em casa era normal. Na casa da vovó, com pratinho do Meu Querido Pônei, era sempre um acontecimento), mas também pela aventura: era a única ocasião que eu andava pelo centro formiguento da cidade, acompanhando vovó que ia comprar miçangas e pedrarias na Ladeira Porto Geral para bordar seus vestidos de noiva, e era também na época em que São Paulo teve aqueles ônibus londrinos vermelhos de dois andares, apertados, com uma escadinha claustrofóbica, que até hoje não sei como subiam as ladeiras do centro ou viravam as esquinas sem tombar. Eu tinha uns 7 anos, mas lembro do terror de ver um daqueles –que se não me falha a memória eram chamados de “fofão”– virando a esquina perto de mim. Mas era um terror-fascínio, pois eu sempre queria viajar em cima e na frente. Acho que era mais ou menos como ir no Barco Viking do Playcenter –coisa que eu ainda tinha idade pra fazer.

O 428-P também foi o primeiro ônibus que eu peguei sozinha, indo da minha casa em Perdizes até a escola em Higienópolis. Era motivo de orgulho, poder pegar ônibus sozinha aos 11 anos, ter uma cópia da chave de casa na mochila. Minha avó também se orgulhava: ela era velhinha, mas ia pra onde quisesse, na hora que bem entendesse, sem precisar de carro. E em São Paulo isso é mesmo um feito. Aqui em Paris, quando os parisienses têm que fazer mais do que uma baldeação para atravessar a cidade, minúscula, toda cortada por linhas e linhas de metrô, já fazem aquela cara de tédio bufante de “oh putain”. Mal sabem eles.

Depois veio a época do 719-P, do 719-R, do 7228, do 7222, do 177-P, descendo a Cardeal Arcovende, subindo a Teodoro Sampaio, percurso onde li boa parte dos livros da aula de português e dormi muito também, pois não há nada mais parecido com o embalar de um berço que um ônibus chacoalhando numa ladeira esburacada.

Então se você mora ou já morou em São Paulo sem carro, ou se pegou bastante ônibus na vida, acho que vai entender do que eu quero falar.

Sempre tive a sensação que o lugar que alguém escolhe para sentar num ônibus, principalmente se esse ônibus estiver vazio, diz MUITO sobre aquela pessoa. Ou ao menos como ela se sente naquele momento.

Tem quem sente no único banco individual mesmo com o ônibus vazio. Este pode ser um solitário, um misantropo, um mal-humorado, alguém num dia ruim prevenindo a si mesmo e aos outros para manter distância.

Aquele (ou, geralmente, aquela) que senta no lugar do corredor, enquanto o assento da janela está vazio, é de natureza próxima, mas ao contrário do primeiro, é eticamente condenável. Pois também dá o recado de não querer contato social, mas arvora-se o direito de ocupar dois lugares –quem senta no banco individual é mais íntegro, dado que é um transporte público e coletivo. Não, ele/ela não ocupa dois lugares na realidade factual mas, se o ônibus começar a encher, aquele lugar vazio na janela ao lado dele/dela será com certeza um dos últimos a ser ocupado. E se você quiser sentar ali, terá que pedir permissão à beldade, que geralmente vai te olhar com cara de ‘saco, cabou meu sossego’.

Confesso que poucas vezes sentei no banco do corredor enquanto o da janela estava vazio. E quando o fiz, é porque eu ia descer muito em breve. Penso que era a única possibilidade eticamente não-condenável desta configuração, pois o contato com a outra pessoa ao meu lado seria inevitável: se eu sentasse na janela, teria que pedir-lhe licença para sair; se estivesse no corredor, ela teria que pedir licença para sentar na janela. E já que eu ia descer logo e o contato social seria inevitável, penso que seria mais confortável que este contato, em si já estressante, acontecesse num momento no qual a agilidade temporal se mostrasse menos importante , isto é, que eu não precisasse apressá-lo/a porque meu ponto estava chegando.

De onde compreendemos o problema de sentar no banco do corredor quando o o lugar da janela está vazio: é forçar o outro ao esforço de iniciar o contato social com um desconhecido não uma, mas duas vezes: quando pede para sentar e quando pede para sair. Nesta situação temos mesmo a sensação que o banco inteiro pertence ao outro.

Ou será que só eu acho isso?

Contatos necessários com desconhecidos são sempre estressantes.

A não ser, é claro, que o desconhecido necessário seja um homem lindo e preste atenção em você.

Os parisienses são bem conscientes do potencial xavequeiro do transporte público. Talvez porque aqui praticamente todo mundo usa metrô, não é só quem não tem grana pra ter carro –tente estacionar nesta cidade e você entenderá o porquê. Existe até uma expressão para caracterizar o ritmo da vida parisiense: “métro, boulot, dodo” (“metrô, trabalho, dormir”). É verdade que em horário de rush xavecos são menos freqüentes, mas pegue o metrô para ir para a balada, lá pelas 21h. Público completamente diferente. E se for nesses dias pré-primavera, quando o calor começa a dar as caras e vêem-se alguns centímetros a mais de carne descoberta, prepare-se para olhares arrebatadores.

Só pra constar, esse tipo de reflexão espacial constitui um campo do conhecimento chamado proxêmica. Algo que muito me interessa e que conheci no curso de etnografia da comunicação. O responsável pela criação do conceito foi Edward T. Hall, antropólogo norte-americano.

Proxêmica, s.f.

1 estudo das distâncias físicas que as pessoas estabelecem espontaneamente entre si no convívio social, e das variações dessas distâncias de acordo com as condições ambientais e os diversos grupos ou situações sociais e culturais em que se encontram

2 estudo das manifestações culturais (arquitetônicas, urbanísticas, lingüísticas etc.), das tendências ou necessidades de as pessoas distribuírem-se espacialmente de maneira determinada, estabelecendo distâncias entre si

(fonte: Houaiss)

fixar pensamentos na vida offline

Há 13 dias perdi parte do que fui. Havia um pequeno arquivo na tela do meu computador chamado “laureografia”: era uma quarentena de textos. Não devia ter mais que 20KB. Caberia em um disquete de 3′ 1/2. Tão importante era este arquivo e tão intimo que eu nunca quis fazer copia. Pensei em salvá-lo no meu e-mail, mas não o fiz, pois ‘e se alguém entra no meu e-mail?’.

Mas há 13 dias eu cheguei em casa e alguém tinha passado por lá. Invadir o e-mail parecia tao mais provavel… e engraçado, quando a gente mora sozinho, inho-inho-inho, às vezes tem uma fita de cetim (eu tenho muitas fitas de cetim, de varias cores) fora do lugar e a gente pensa “caramba, fui eu mesma que coloquei aquilo ali? Em plena consciência, eu jamais faria isso”. E por um lapso infimo de tempo, os olhos reviram imaginando que talvez não tenha sido você, mas alguém que passou por ali enquanto você não estava olhando (por isso é sempre a empregada que se fode). Mas isso nao é possivel, não é mesmo? As portas estavam trancadas, a janela travada e aqui ninguém tem empregada, muito menos eu. Ninguém esteve ali, isto é certo. A não ser que possamos considerar gnomos e toda a máfia de São Longuinho.

Mas há 13 dias eu soube que alguém tinha estado lá. Essa certeza é exatamente o contrário daquele lapso infimo de tempo. Principalmente por durar bastante. Ela permanece. Antes, se eu pensasse, por exemplo, “por que o cumaru (também conhecido como tonka bean), nativo da floresta amazônica, que tem um cheiro tao gostoso e parecido com a baunilha, é proibido nos EUA”, eu abriria meu computador na minha casa e descobriria apos consulta gratuita com o deus Google que a razao disso é a forte presença de coumarina, uma substância quimica natural, que em grandes doses pode ser muito toxica. Mas, até ai, noz-moscada também é muito toxica e a gente nunca ouve falar de overdose de noz-moscada. E então eu pensaria sobre a influência do Estado na vida intima das pessoas, na necessidade idiota de criar leis sobre coisas minusculas e desimportantes e no fato de eu ter nascido no planeta Terra mas nao poder morar em qualquer pedaço de terra dentro dele simplesmente porque alguém chegou lá antes. Em seguida eu ficaria assustada imaginando como devia ser desesperador para os indios a ideia de que precisavam de um papel chamado escritura para provar que eram eles os donos da terra, se eles sempre estiveram lá, isso era logico. E talvez, logo apos, eu lembraria de reunir os documentos necessários para minha entrevista com as autoridades francesas para renovar meu visto e fecharia meu computador, desejando entretanto que toda a burocracia do mundo explodisse. Mas em nenhum momento eu pensaria no meu computador. Ele estar ali era certo, obvio, normal.

Mas agora eu não tenho mais computador. Tenho, por outro lado, uma fechadura nova, mais potente e muito mais cara. E cada pergunta que me surge na cabeça, eu tenho que pensar mais sobre o que fazer para respondê-la. Se ela é mesmo interessante, devo anota-la. Nao em qualquer lugar, porque pior que esquecer um pensamento é esquecer onde ele foi anotado. Para isso, cria-se a necessidade de uma caderneta que esteja sempre comigo e que sirva somente para isso, como um arquivo movel chamado “duvidas.txt”. No caso do tonka bean, a resposta podia ser encontrada numa enciclopédia de gastronomia que estava servindo mais como apoio de badulaques na minha prateleira que como livro.

E quando o verbete acaba, eu posso continuar lendo sobre a fermentação do chocolate e do porquê do chocolate branco nao ser um chocolate. Ou eu posso olhar para o teto e lembrar que, desde que eu tirei o papel de parede horroroso que cobria a superficie da minha mansarda recém-invadida não coloquei o acabamento dos frisos no teto, e que aqui a gente tem que aprender a fazer tudo sozinho.

E a verdade é que eu nao tô sentindo muita falta do computador.

Ao contrario, mesmo. Tô sentindo um alivio. É como se eu tivesse reencontrado o ritmo temporal para o qual eu fui feita.

Voltar a escrever com papel e caneta é mais dificil do que eu imaginava. O ritmo é completamente outro. Mas sobre isso eu falo depois.

Entao o computador era um habito. Mas nao um vicio. Espero conseguir lembrar desses dias quando outro computador ocupar minha mesa.

Mas ai, aquele arquivo…

Entao eu lembrei que, apesar de tudo, os textos que estao aqui neste endereço se salvaram. E dei um suspiro.

(desculpem-me pelos acentos, estou num teclado francês. Ele possui uma logica que escapa  à minha compreensao: tem que apertar shift para fazer ponto final, entre outras coisas)

tentativa de avaliação sociológica do amor contemporâneo

Ignorance is Bliss

Era uma vez, num reino não muito distante, a palavra divórcio não existia do vocabulário jurídico e as mulheres geralmente casavam virgens. Não podiam sair beijando por aí e muito menos dar pra quem desse na telha, porque a crença geral era de que a fina flor borbuceteante era frágil e quanto mais manipulada, menos valor tinha. O eleito ao posto de cara-metade, cônjuge (com quem se divide o jugo, a pena –a etimologia é sempre reveladora!) ou consorte –como preferir– via-se na situação confortável de única (presumia-se!) referência emocional-sexual na vida da donzela a ele prometida. Se o cara beijava mal, se roncava, tinha chulé, se só-dava-três-gozava-e-virava-pro-lado, a tendência da jovem esposa era crer que, bem, a vida é assim mesmo… pois como imaginar que poderia ser diferente se não havia com o que comparar? Não é à tôa que se casava cedo, pois só assim adquiria-se acesso aos mistérios gozosos, lícitos –na cama conjugal– ou ilícitos… em qualquer lugar.

Ao menos, imagino eu que era assim. Pelos filmes, pelos livros, pelos relatos.

Festa do Cabide

Mas já faz tempo que temos pílula, ganhamos dinheiro e… damos pra quem bem entender. Já faz algum tempo. No começo o pessoal se empolgou. Quem leu “A Mulher do Próximo”, do Gay Talese, got the picture da coisa nos EUA –embora a abstinência seja levada muito a sério em nossos dias, vide política de educação sexual do governo Bush. Aqui na França não sei bem ainda como se deu… afinal, romances pornográficos já serviam de sátira política e social antes mesmo da revolução de 1789, ou seja, embora à boca pequena, todo mundo (que sabia ler, não era a maioria) sabia bem o que acontecia na alcova alheia. Por outro lado, conheço a história de uma mulher que, ao divorciar-se nos idos dos anos 1980 em uma cidade pequena da campagne française, foi escorraçada pela família. Afinal, se o marido tinha arranjado uma amante, a culpa só podia ser dela, a esposa. Divorciar-se era falta de vergonha na cara.

(Parênteses: quando fala-se de tendências quaisquer no mundo, fala-se sempre de uma minoria. É um quero-ser exercício de previsão do futuro, de identificação de epidemia cultural. Entretanto, a maioria dos 6,5 bilhões de seres humanos parece estar quase sempre de fora –talvez porque seja tão difícil incluir culturas tão díspares quanto da China e da Índia na nossa descendência católica romana? Fala-se da perspectiva do umbigo, portanto, ressalvas a fazer. Fecha parênteses:)

No Brasil, que já é tão grande e tão díspare dentro dos próprios limites, talvez possamos identificar uma empolgação importada dos EUA nuançada pela “feérica, irisada, multicolorida variedade” do machismo tropical. Pornochanchada com ditadura militar, Dancin’ Days e TV Mulher.

O HIV foi uma banho de água fria, maldição contedora dos ânimos exaltados da liberdade sexual. Mas me parece que desde o milagre de Magic Johnson, a coisa perdeu parte do seu poder aterrador.

Le Mal du Temps

Outro dia, conversando com uma das minhas professoras preferidas na faculdade, uma senhora muito sábia e simpática de uns 50-60 anos, com quem tenho aula de árabe e antropologia da comunicação, o assunto virou para ‘as linguagens amorosas’ de cada cultura. Eu comentei que não me entendia e nem tenho vontade de me adaptar ao que me parece ser o modo francês de ‘fazer a corte’ –um joguinho de gato e rato, no qual a mulher é tanto mais desejada quanto mais se mostra maquiavélica, manipuladora e insensível. Ela, após perguntar se eu já tinha lido “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, me disse uma frase que está na minha cabeca até agora: “la liberté sexuelle a tué l’amour” (“a liberdade sexual matou o amor”). A hipótese dela é mais ou menos assim: com a liberdade sexual, os rituais perderam significado, os símbolos morreram. E sem símbolos, o Homem morre.

Há muitas questões a considerar nessa história, mas acho que ela tem razão, em parte.

Peguemos como objeto de análise a festa de casamento (embora na prática a teoria seja bem outra, tento seguir algum método para expor um ponto de vista). Festa de casamento é sempre divertida, momento inesquecível da vida do casal, todo mundo dança até o amanhecer. É bom mandar o convite com bastante antecedência para dar tempo de todas as listas de casamento online em quatro lojas diferentes ser comprada. Pois que outra finalidade tem casamento hoje, senão mobiliar e equipar a casa do casal? Isso quando a dupla já não mora junto. É uma troca: eu te convido para minha festa, te ofereço comida e diversão, você me dá um presentão. Tudo muito útil e conveniente. E sempre vai ter gente que vai reclamar da comida.

E hoje parece que as festas são todas iguais, porque as empresas que se ocupam de tudo apostam na mesma fórmula (a não ser que você tenha muito dinheiro pra gastar). E às vezes parece que o mais importante da festa toda são os fotógrafos. Lembro do causo contado durante uma aula de fotografia: quando ainda não tinha foto digital (nem faz tanto tempo assim!), a equipe encarregada de registrar o casamento teve um problema na hora da revelação e TODOS os filmes queimaram. Não sobrou uma fotinho só. A noiva teve um xilique e só sossegou quando fez a festa de casamento DE NOVO. Com a mesma equipe de fotógrafos. Que então entregaram o álbum direitinho, sem cobrar duas vezes pelo serviço.

Apesar de tudo, quem é louco de dizer que antes era melhor? Principalmente para as mulheres. Se fosse pra casar, tinha que ter a ficha limpa, nada de fama de rosetar demais por aí. Isso quando não tinha que provar que era virgem, como ainda é comum em países da África árabe, nos quais cabe à sogra verificar com as próprias mãos que o selo da candidata está intacto. Se não casasse, restava cuidar dos pais velhos e doentes. Profissões decentes possíveis: professora de primário, enfermeira, secretária.

“He who works on a candy store has no desire for sweets”

Mas voltando à nossa pequena realidade. Depois da ignorance is bliss e da festa do cabide, chegamos num nem isso nem aquilo. Se por um lado a liberdade sexual satisfaz os desejos imediatos, por outro tudo ficou muito banal.

Identifico uma tendência que parece expressar uma tentativa (vã) de conciliar o melhor dos dois mundos: homens e mulheres experientes de casos e trepadas adotam comportamento de herói/heroína literária medieval: adoram os amores impossíveis. Se o(a) candidato(a) é legal, gente boa, disponível, com boa pegada, enfim, tudo o que se pedia de presente de Natal anos atrás, não serve. Não tem graça. Antítese da época precedente, a menina que hoje atormenta os corações é a que atiça o fogo dos moçoilos ao redor, mas fica de cuzinho doce, guardando a flor (isto é, recusa-a a ele e dá a outros).  O homem dos sonhos das mulheres acometidas é aquele que age como namorado, leva pra passear e come direitinho no fim da noite, mas não quer compromisso. Ou como identificou o grande pesquisador dos modos de macho e modinhas de fêmea Xico Sá, “antes mesmo um bom canalha, com pegada, do que um macho frouxo e vacilão”.

Ao lado disso, temos a outra solução vã, utilitária (muito comum por aqui): juntemos os trapinhos porque é mais barato, pagaremos menos impostos, teremos uma trepada fixa sem necessidade de camisinha, alguém para me esquentar durante o inverno. Além do mais, ele tem carro, máquina de lavar roupa e um emprego estável, no qual ganha razoavelmente bem. Ela é bonita, se veste bem, cozinha e, principalmente, não é complicada.

Sem Receita

Conclusão: só sei que, da metade masculina dos 6,791 bilhões de pessoas no mundo, ao menos um deve rolar. Fé na matemática das probabilidades. Como disse a Mari, “vambora que a vida é curta e a minha saia, menor ainda”.

Adendo importante: todo problema contém sua própria solução.

os peixes-dálmata e a declaração do batman

Os peixes voavam fazendo lambança no chão de terra do largo na frente da porteira do sítio.

Eram brancos com umas manchas pretas, peixes-dálmata, lembravam linguados, mas meio felinos. Pululavam saltando os fios elétricos. Catei um e espetei com um pauzinho, pus em cima de umas brasas que estavam lá perto da touceira de mamona –sempre que tinha fogo na entrada da porteira eu sentia agulhada no peito, mas dessa vez pareceu normal. O homem desdentado na sombra do mercadinho da frente me dizia qualquer coisa, mas eu entendia lhufas. Tirei o peixe da brasa e provei. E não é que tava bão?

Mas o que é que eu fazia ali na porteira, mesmo? Era cedo, mas chegava perto da hora da bóia. Já ia lavando o arroz.

Ali pro lado de dentro eu via um casal que se abraçava. Reconheci: Batman e a Mulher Gato. Ele tinha confessado todo o amor contido que sentia por ela, disse que queria morar junto, que nunca tinha estado tão certo de algo na vida. Segurava-a pelas cadeiras, trazendo-a para junto de si, seu uniforme de borracha preta lutrosa desenhava cada músculo do seu glúteo apaixonado. Terno, calmo, protetor, uma montanha de músculos pulsando benquerença, todo chaga, a insígnia amarela no peito um farol de declarações.

Ela colocava as mãos cheias de garras sobre o peito dele, delicada mas hesitante, desviava a cabeça para os lados. Enquanto ele procurava o olhar dela através dos buracos na máscara, ela fitava os papiros do lago e os tapetes de rãs atropeladas na estrada de terra empoeirada.

Gata desassossegada. Desejara aquilo tanto, tanto, quantas horas miando sobre os telhados à noite, ao luar, pensando nele, nele.

Estavam ali, sob um sol branco e frio de férias de julho. Com minhas botas vermelhas de borracha sete léguas, a barra da calça azul do uniforme do colégio pra dentro pra não entrar cobra, camiseta branca esgarçada, eu passei de lado buscando pelo vão das toras algum pedaço bonito de giz colorido no ladrão do lago que corria por baixo da estrada.

Olhei pros dois:

–Ih, agora ela num qué mais!

E senti um pingo de água babenta no nariz. Era um peixe que voava. Aí sim, fui correndo até a porteira.

“el falo era un símbolo apotropaico”

Remexendo em e-mails antigos, encontrei uma carta do prof. Pedro Paulo Funari comentando um artigo sobre literatura pornográfica que publiquei no finado caderno Sinapse da Bolha de S.Paulo. Dizia ele: “‘o gosto romano pelas imagens pornográficas’, como na chamada da página 20, apenas reforça um estereótipo sobre os romanos que, na verdade, viam no sexo um aspecto apotropaico”.

Pois hoje fui procurar de novo o significado de “apotropaico”. Diz lá o Houaiss: “que tem poder de afastar (influência maléfica, desgraça etc.); que os antigos invocavam para afastar malefícios e desgraças (diz-se de deuses)”.

E achei uma série de quatro vídeos em espanhol bem interessantes sobre essa perspectiva do sexo, feitas por um professor madrilenho. Coloco-os aqui. Recomendo ler também o texto que acompanha cada um deles na página do Youtube.

A série se chama “Hic Habitas Felicitas” –segundo o autor, a palavra felicitas era usada pelos romanos tanto no sentido de felicidade quando de fertilidade. Os vídeos explicam quais significados o falo tinha na Antiguidade e como tudo mudou com o Cristianismo.

1a. parte:

2a. parte:

3a. parte:

4a. parte:

O que dirão os escafandristas daqui um milhar de anos da nossa atual perspectiva do sexo?

próxima fase

Então você já rosetou bastante por aí, já fez muita balada, já beijou tantos que nem se lembra quantos, já transou bêbada sem camisinha e deu aquele sorrisinho sincero de alívio ao pegar o teste de DST, já se apaixonou, já se perguntou “mas como eu pude gostar daquele idiota?”, já reclamou de homem que não ligou, já deu e já levou pés-na-bunda, já encontrou um grande amor, já discutiu nomes que gostaria de dar aos filhos, talvez já tenha até morado junto com um namorado mais sério, talvez já tenha até separado trapinhos ao som de Chico Buarque (aquela aliança pode empenhar/ ou derreter). Então chega uma hora que bate um enfado, uma cara de “ai, que saco”: tá, já deu. Cadê o amor da minha vida, o pai dos meus filhos? Vamos logo com isso. Pode sair do esconderijo!

Não sei se é meu instinto materno, borbulhando de hormônios. Ou se é conseqüência da perda de sensibilidade depois de tantos beijos descuidados como um dogão de barraquinha do centro da cidade. Se são os amigos que casam ou amigas que, de repente, mandam convite pra chá-de-bebê.

Mas como poderia ser esse homem tão esperado? Afinal, será que eu quero casar, mesmo? Se em um namoro de dois, três anos, o sexo já tá bem ruinzinho no final, como é possível alguém depois de cinco, dez anos, ainda me deixar com frio na barriga? Existe?

E depois que eu encontrar esse tal cidadão, vai ter que ficar só ele mesmo, até o fim dos dias? Não dá pra tirar umas férias com aquele amigo colorido das antigas que era super divertido? Ou sair pra um fim de semana com aquele colega novo do trabalho que está um perigo?

Ih, tem que dormir na mesma cama todo dia? Dividir o mesmo quarto? Nunca mais vou poder soltar pum em paz embaixo das cobertas, nem cutucar o nariz e grudar a caquinha embaixo do estrado?

E ele vai ter que conhecer minha vida inteira? Vou ter que apresentá-lo a todos os meu amigos? Não posso ficar com uma parte da minha vida só pra mim? Porque eu sei que, quando acaba, parece que o outro levou toda a vida que você conhecia como sua embora junto com ele. E aí fica claro que aquilo não podia durar, mesmo.

Então acho que, antes de conhecer o pai dos meus filhos, eu tenho que estar é muito segura do que eu quero da minha vida e consciente do muito tempo que dedicarei a ela. Só a ela. Ele será uma parte muito importante, mas a mais importante será sempre eu. E muito de nossa felicidade mútua partirá desse desejo egoísta (meu e dele).

E quanto mais eu estiver satisfeita com minha vida, mais aquele com quem eu estou terá que me merecer. E vice-versa. E se por algum acaso eu mudar de idéia ou ver-me sem saber o que fazer dela daqui alguns anos, devo ter a coragem de admiti-lo, em respeito a mim e a ele. Porque muitas vezes as decisões chegam ao ponto do “ou eu ou ele, não há terceira via”.

Isso tudo sem nem considerar os filhos no meio do balaio. Põe a criançada ali e a coisa fica muito complexa. Como tanta gente pode ter filho? Aposto que mais da metade da humanidade é de pais incompetentes. Qual o percentual da humanidade que nasceu planejada?

Considerando tudo isso, tô vendo mesmo é que a maior probabilidade é que ele não será nada como eu imaginei, que eu terei muitos percalços, que eu ficarei insegura muitas vezes… ou então, peraê, quem disse que esse cara existe? Talvez eu fique pra titia. Ou faça uma produção independente.

Não tenho mais tempo para perder com bobagens. Vamos à coisa séria.

28 anos a partir de agora

A verdade é que, se a gente pensar bem, a existência é completamente inútil. Seja qual for nossa ocupação, nossos prazeres, tudo é vão, utterly senseless, vanitas vanitatum. Mas então tô fazendo o que aqui nesta Terra? Penso nisso todos os dias ao acordar: mas levantar pra quê? Estudar mais pra quê? Ganhar dinheiro pra quê? A única coisa que parece responder e se salvar nisso tudo é quando tocamos alguém no fundo, quando alguém muda um modo de ser, de fazer devido a uma ação, palavra nossa. Quando descobrimos algo através do outro. A troca: esse momento é crucial. As inutilidades se anulam. São os outros que realmente prezam estar conosco e que merecem nossa companhia. Que não nos tomam como anestésico ou como bibelô, mas que olham a gente no olho como igual e dizem “você é uma das coisas que fazem minha vida valer a pena ser vivida”. É coisa diária. Que leva tempo. Que se constrói com ações, e não só com palavras — porque qualquer coisa cabe numa palavra.

Por isso, meu obrigada por existir a todos os que passam por aqui, que dedicam seu tempo a ler o que eu escrevi. Aos amigos que o acaso ou a afinidade juntou e que ocupam meus pensamentos e meus dias, ao vivo, por skype, por e-mail ou só por telepatia, mesmo. Aos meus pais.

É por vocês que eu me levanto.

macho à la française

Allons-y meter a mão no vespeiro. O assunto já foi mencionado ao falar de cachecóis. Mas chafurdemos na jaca direito. Em uma imagem:

adivinhe qual é a cor do time de rugbi parisiense

Não, eu não acho que homem não possa usar camisa rosa. Mas peraê, esse rosa Hello Kitty!? Desculpe, meu etnocentrismo cultural esperneou. A primeira vez que vi no metrô um cartaz com o time parisiense de rugbi, o Stade Français Paris, pasmei por alguns segundos. Veja bem, é de rugbi, e não de badminton. “Mas eles devem ter um patrocinador gay friendly. Ou então todos os jogadores são gays estilo Barbie e eles usam isso como uma bandeira pela luta dos direitos dos homossexuais”. Veja você mesmo as camisas oficiais e o estádio lotado de torcedores.

É só a ponta do iceberg. Calma, que a coisa vai além. Mocinha que pensa em procurar marido parisiense, leia bem antes de usar:

No Brasil, quando a menina dá selinho na boca da amiga, ou é lésbica, ou é muderrrna. Se for no sofá da Hebe, é chique. Já aqui, descolê é o ra-paz tascar beijocas na boca dos amigos após vários copos. Alguns vão além do selinho e lambuzam a boca do bruóder. Então é festa do cabide, todo mundo beija todo mundo? Às vezes você pode até ter essa sorte, mas cadê as meninas que dão selinho? Até agora, não vi… fico com a impressão que as moçoilas são mais competitivas. As comprometidas fazem amigas com maior facilidade. Já as solteiras são ameaçadoras, andam em bando, riem, se coçam com as patas traseiras…

Mas voltando aos amigos que se amam… aí eu chego no cidadão e pergunto:

- Você é gay?

- Non, c’est un bisou amicale (“não, é um beijo de amigo”).

Quem acreditou aí, levanta a mão.

Nem eu. Mas comecei a compor o quadro.

Os gauleses parisienses, em geral (ah, as generalizações…), são muito mais ambíguos sexualmente que os tupiniquins. Nesta terra onde há mais queijos que dias no ano, pegar na bunda do camarada pra fazer piada é admissível. Na hora de dar oi para um amigo que chega, é beijinho pra cá, beijinho pra lá. Para piorar o estereótipo, há aquela cara européia de neném, toda branquinha, lisinha e de bochechas rosadas. Bem difícil encontrar um homem peludo e cabeludo, aquele charme Los Hermanos –muito mais numerosos são os cabeças lisinhas de gilete (e não é só a cabeça, como comprovei numa pequena pesquisa de campo). E para finalizar, vestem-se bem –vá um sábado à tarde na sessão masculina da H&M, a maior loja de moda razoável e acessível… a fila do provador masculino é quase tão grande quanto da sessão feminina.

Conclusão: é claro que os manos brasileiros vão dizer que francês “é tudo bichona”.

Imaginem a situação, portanto, do amigo paraibano da V. Estava na festinha, muito vinho, olerê, olará, o copain français engraçadinho vem dar um apertãozinho na bunda do cabra no meio da música… oxe, faltou só sacar a peixeira.

Mas se mulher pode abraçar, beijar, segurar no braço sem ser chamada de sapatão, porque homem também não pode? Melhor do que ficar brigando de se dar soco, que me parece uma das únicas modalidades de contato físico afetivo entre heterossexuais brasileiros. Além do futebol, claro. Opa! melhor parar por aqui…

Quem mais sofre com essa confusão são os gays brasileiros. Começa na hora de identificar o alvo: quem é gay, quem não é?

Página 1 de 3123»