a voz que canta ao fundo

Tenho duas questões breves a tratar aqui. Breves pois minha eloquência transmutou-se em algo ainda ignoto. Subiu no telhado. Só espero não ter batido com as botas.

A primeira é que (eu espero não ter falado disso aqui antes) há muitas vantagens em chegar aos umbrais dos 30 anos, e uma delas é conhecer com muito mais precisão do que aos 20 e poucos os meandros da própria psique. É possível prever melhor quais coisas vale a pena tentar e quais será uma perda de tempo pois você não foi feito pra isso.

Mas o que eu queria dizer é que, conhecendo bem os meandros da minha própria psique, quando uma canção gruda na minha cabeça e não sai por dias e dias, é sempre uma mensagem daquele meu eu mais sábio que eu gostaria de ser mais vezes, mas que se esconde no lago Ness da minha consciência. Mas que bom que ele me manda mensagens, isso me lembra que ele existe. E me lembra também que meu eu mais sábio é um grande melômano, com clara preferência por sambas.

Por exemplo, quando eu sabia que aquele namoro estava capenga mas me dizia que era apenas uma fase ruim… e meu elevador interno tocava no repeat havia dias,

pra que mentir se tu ainda não tens
esse dom de saber iludir
pra quê, pra que mentir
se não há necessidade de me trair
pra que mentir se tu ainda não tens
a malícia de toda mulher
pra que mentir
se eu sei que gostas de outro
que te diz que não te quer
pra que mentir tanto assim
se tu sabes que eu sei
que tu não gostas de mim

Ou quando interessei-me por um cidadão que tinha acabado de levar um pé na bunda depois de algo sério e longo,

se ela me deixou a dor,
é minha só, não é de mais ninguém
aos outros eu devolvo a dó
eu tenho a minha dor
se ela preferiu ficar sozinha,
ou já tem um outro bem
se ela me deixou,
a dor é minha,
a dor é de quem tem

E quando saí de um affair e queria desesperadamente entrar em outro que não me abria a porta,

disse alguém que há bem no coração
um salão onde o amor descansa
ai de mim que estou tão sozinho
vivo assim, sem esperança
a implorar alguém que não me quis
e feliz, bem feliz seria
coração meu, convém descansar
soluça, mas devagar

E quando eu finalmente estava pronta para colocar os pés no avião, tinha vendido tudo, me despedido de todos, e me dei conta que ficaria longe do Brasil e de tudo e todos por um bom tempo

adeus, adeus meu pandeiro do samba
tamborim de bamba já é de madrugada
vou-me embora chorando com meu coração sorrindo
e vou deixar todo mundo valorizando a batucada
em criança com samba eu vivia sonhando
acordava e estava tristonha chorando
jóia que se perde no mar só se encontra no fundo
samba mocidade sambando se goza nesse mundo
e do meu grande amor sempre eu me despedi sambando
mas da batucada agora me despeço chorando
e guardo no lenço esta lágrima sentida
adeus batucada adeus batucada querida

É claro que esse texto está aqui porque tem uma tocando no repeat agora nesse exato momento. Mas essa é daquelas passageiras.

Estou negociando com Nessie para trocar por essa aqui, ela continua irredutível, mas logo há de ceder:

Ok, agora o próximo assunto.

Alguém me explica o fascínio que existe em certas vozes que a gente não sabe dizer se são de homem ou mulher?

Alguns exemplos:

Little Jimmy Scott – I feel like a motherless child

Ney Matogrosso – Bandido Corazón

Wayne Newton – Danke Schoen

E um pseudo-exemplo, pois aqui a voz é efeito de computador e o ator é péssimo. Farinelli – Lascia ch’io pianga

música, diretor!

Esse domingo estréia finalmente, na Rai Uno, o documentário no qual trabalhei de assistente de câmera em julho de 2009, ‘La visita meravigliosa’, um road movie mambembe sobre o compositor Nino Rota, responsável pela trilha sonora de quase todos os filmes de Federico Fellini.

Amarcord

8 e 1/2

http://www.youtube.com/watch?v=PowGcY9wnfs

Casanova

Entrevistamos várias pessoas que conheceram Rota: seus alunos do conservatório em Bari; especialistas na genealogia da família; Nicola Piovani, incumbido da difícil tarefa de substituí-lo no posto de compositor ao lado de Fellini depois que Rota morreu em 1979 (e que levou o Oscar em 1998 pela trilha de ‘A Vida é Bela’, de Roberto Benigni; Piovani foi aluno de Manos Hatzidakis, que por sua vez também conquistou a mesma estatueta pela canção grega interpretada por Melina Mercouri em ‘Nunca aos Domingos’, outro clássico); entre outros.

O ‘personagem principal’ do filme é o sobrinho-neto de Rota, Jean Blanchaert, figura que não consegue passar desapercebida. Ele tem uma galeria de arte em Milão especializada em vidro. Convivemos os quatro (Jean, o diretor, o câmera e eu) por dez dias no espaço exíguo do trailer dos anos 70 no qual cruzamos a Itália de Milão a Bari. Daquelas coisas que, de tão incríveis, a gente às vezes não acredita que fez parte.

Jean aguardando o almoço num restaurante na Puglia

De todas as obras de Rota, que também compôs muita coisa boa fora do mundo do cinema, a mais famosa é mesmo a valsa do Poderoso Chefão, de Coppola.

http://www.youtube.com/watch?v=bf16Vc3iZjE

Outra dele que, ao ouvir, remete imediatamente ao filme, é o tema de Romeu e Julieta, de Zeffirelli.

O que seria de Fellini sem Rota? Com certeza seus filmes teriam um essencial diferente. Algumas colaborações entre diretor e compositor são tão perfeitas, imagem e som são tão complementares, que é impossível pensar em um sem lembrar do outro. A música é a alma do filme.

Mais alguns exemplos de boas parcerias, embora quase sempre mais pontuais:

Michel Legrand e Jacques Demy

Todos os diálogos do filme ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’, de Jacques Demy, são cantados. O tema da despedida corta qualquer coração empedrado.

Legrand e Demy fizeram juntos também ‘Lola’ e ‘Les Demoiselles de Rochefort’ –onde a irmã rock’n’roll da Catherine Deneuve, Françoise Dorléac, faz par com Gene Kelly.

Aliás, quando quer, Michel Legrand tem essa capacidade de estimular os canais lacrimais como ninguém. Mais um nó na garganta: Verão de 42

Claude Lelouch e Francis Lai

Talvez a composição mais ligada à imagem que se tem do amor à la française.

Francis Lai tem uma ficha corrida longa que muitas vezes descamba pro mela-cueca mais irresponsável. Vide Love Story e Bilitis, soft porn lésbico do fim dos anos 70, também dele.

Georges Delerue e Godard

Atenção, mulheres: caso em período de TPM, preparem o lencinho.

http://www.youtube.com/watch?v=IKDs1eH6Cf4

Sergio Leone e Ennio Morricone

Eu tinha colocado aqui antes o Morricone com Giuseppe Tornatore e o Cinema Paradiso. Mas quem aguenta aquela trilha ainda? Já essa… nunca sai de moda… viva o western spaghetti!

Blake Edwards e Henry Mancini

Michel Leiris, toro & toreador

(antes de continuar pelos meandros literário-espumantes de Vian, pulo uma casa para falar já de Michel Leiris. Depois eu volto.)

Michel Leiris casou-se aos 26 anos com uma mulher da família Kahnweiler, rica e bem-relacionada —donos da galeria em torno da qual orbitavam cubistas, surrealistas e companhia limitada. Ele mesmo era amigo de Picasso, Apollinaire, Breton e outras estrelinhas em ascensão, e já tinha também algum prestígio literário. Ela, Louise Godon, conhecida como Zette, era apresentada à sociedade como irmã mais nova da mulher do dono da galeria. Na verdade, antes de chegar em Paris e casar-se com Kahnweiler, Mme Godon sua mãe engravidou na adolescência, Zette era filha de um pai desconhecido. Leiris, de família burguesa de vida confortável, debatia-se com a escolha de uma profissão que sustentasse a aventura literária: tentou química, odiou e largou.

Pois bem, apesar de Leiris e Zette entenderem-se muito bem, ninguém fala em paixão. Leiris se culpava pelo fato do dinheiro da mulher ter, de certa forma, permitido suas empreitadas literárias nas revistas pró e depois anti-surrealistas. Tornou-se etnólogo por golpe do destino —um amigo chamou-o para fazer o diário da missão Dakar-Djibouti em 1931, e ele foi, e a atividade mostrou-se muito conveniente a suas necessidades e ao seu espírito. Na volta, escreveu vários artigos, seguiu o curso na École Pratique des Hautes Études e obteve um diploma. Foi trabalhar no Musée de l’Homme, ancestral do atual Musée du Quai Branly. Nas freqüentes viagens de campo ocorriam paixões trágicas —como a etíope sifilítica cujo marido enlouqueceu e tentou matá-la ao menos duas vezes, filha de uma feiticeira do local, que incorporava vários espíritos e que Leiris viu em transe bebendo o sangue que escorria quente do pescoço recém-cortado de um bode oferecido em sacrifício. Mas nada disso era segredo, ao contrário: Leiris, na verve confessional que confeccionou as obras pelas quais ele é mais conhecido (A Idade Viril e A Regra do Jogo; como etnólogo, a mais conhecida é África Fantasma) contou, em vida, todos os detalhes cabeludos da sua vida íntima: os troca-troca da adolescência, as paixonites com juras de sangue, as brochadas, os traumas de infância, os casos, tudo sempre mui trágico. Tenho uma certa curiosidade em saber o que Zette achava de tudo isso.

Assim diz a nota que ele mesmo entregou a seu psicanalista, o Dr Borel, ao início da análise que começou em 1929 depois de passar às 5h da manhã na casa de seu amigo Georges Bataille pedindo uma navalha para castrar-se (Bataille respondeu simplesmente que não usava navalha, e sim barbeador elétrico): “Corar muito facilmente, na maior parte das vezes sem razão; por outro lado, não corar quando seria esperado (isso com freqüência) (…) Sensação de covardia extraordinária. Pensamento que em alguma ocasião qualquer que necessite alguma coragem de minha parte, eu não estaria à altura. (…) Me parece que tenho muito mais facilidade de confessar coisas tais como a masturbação, a tendência à pederastia, etc., que tudo aquilo que diz respeito às relações normais.”

Pois então, este é o personagem demasiado humano a quem dedico meus dias ultimamente.
Pelo o que a correspondência com seus amigos deixa entrever, Leiris devia ser um cara bem difícil de conviver, ao menos na juventude. Complexado com sua aparência física, que ele achava feia e tentava compensar com uma elegância de modos e roupas exagerada, vivia entre a depressão e a bebedeira em puteiros; não perdoava amigo nenhum e esperava ser absolvido por todos (escreveu em seu diário em 30 de abril de 1924, aos 22 anos: “Serei sempre com meus amigos tal como Dorian Gray foi com Sibyl Vane”). A ansiedade o consumia (“Cada vez mais tenho sede de uma aventura qualquer que venha mudar minha vida. Mas pela primeira vez tenho a impressão que ela está talvez iminente. Tenho prazer em redigir este caderno, pois me parece que eu confecciono um cartucho de dinamite”, escreveu ele em seu diário no verão de 1929, pouco antes do episódio que levou-o ao psicanalista).

Mas o mais impressionante é a que ponto ele era lucidamente consciente de tudo isso e o quanto se sentia o mais culpado dos homens, sentimento que transborda em cada página do seu confessionário. Indo mais além: dá a impressão que ele gostava mesmo de ser assim, ou ao menos alimentava este sentimento, o cuidado em construir sua própria cruz e exibi-la, “tal como velhos combatentes que glorificam a guerra na qual estiveram porque não conheceram nenhuma outra grande aventura em vida e que gostam de exibir eventualmente as cicatrizes de seus machucados”, foi sobre essa pedra que ele construiu sua catedral literária.

Considerava a tentativa de suicídio à qual sobreviveu graças a uma traqueostomia aos 56 anos (ingeriu barbitúricos e passou por uma lavagem estomacal) como o evento mais heróico de sua vida, ele que torturava a si mesmo durante a ocupação alemã em terras gaulesas perguntando-se, caso fosse preso, se entregaria ou não o nome dos amigos de resistência durante uma sessão de tortura; ele que se culpava por não achar nada no mundo pelo qual ele seria capaz de morrer.

Uma das imagens mais recorrentes em seus escritos é a do toreador. Da literatura considerada como tauromaquia (título abocanhado de Thomas de Quincey, autor de Do assassinato considerado como uma das belas-artes) serviu de prefácio à avalanche confessional de A Idade Viril. Leiris expõe ali sua teoria que desnudar-se completamente, tal como ele fez nas páginas que seguiam, era colocar um quê de chifre de touro na literatura, que em si não envolvia nenhum risco real de morte (talvez algum de ficar louco, como Rimbaud e Nérval).

Espelho da Tauromaquia vai mais fundo nos passos de capa e compara o ritual de mise-à-mort da besta monstruosa ao coito, em sua dimensão sagrada, intocável, greater than lifeAficionado que era, Leiris às vezes coloca-se na posição do touro, vítima atormentada consagrada em holocausto na arena pública, às vezes na do matador, resumindo-se à ética e estética do conjunto de seus passes coreografados, aplicados visando um fim bem preciso, tragicamente necessário.

A morte tão temida e flertada veio bem tarde, aos 89 anos, em 1990, com uma crise cardíaca.

“Odeio a vida porque a morte existe, —portanto eu adoro a vida. Conseguir odiar a vida por ela mesma.”, escreveu aos 23 anos.

Nas horas a fio que passo lendo seus escritos, correspondências e diário na sala de literatura francesa da Biblioteca Nacional, às vezes enterneço-me, às vezes vejo-me querendo aplicar-lhe um belo tabefe na cara.

Acho que isso quer dizer que eu gosto dele.

*os perspicazes leitores entenderam agora o porquê da torera ao lado do título deste blog.

Boris Vian, exímio versátil

Inicio aqui uma série sobre personagens admiráveis da parte da cultura francesa que fez com que eu quisesse mudar meu endereço para cá; e que, por razões variadas, sobretudo linguísticas (creio), não são muito conhecidas em terras tupiniquins. Então allons-y: às margens do Sena, junto à la Maison de la Radio, em homenagem ao Reali Jr, que foi pro céu sábado retrasado.

Os mocinhos em questão –por enquanto são Boris Vian (1920-1959), Michel Leiris (1901-1990) e Georges Bataille (1897-1959)— atuaram em mil frentes, nunca contentes com um bom emprego atrás da mesa no escritório. Trasladaram no decorrer de suas vidas entre territórios profissionais nem sempre correlatos, e foram excelentes em todos, nas letras principalmente. Nós, na eternidade, agradecemos.

Comecemos pelo que viveu menos e que foi também o mais versátil, Boris Vian. Ou Baron Visi. Ou Bison Ravi (“bisão contente”). Ou Vernon Sullivan. Ou Lydio Sincrazi. A lista de pseudônimos, anagramáticos ou não, é enorme. Maior até que a lista de profissões que ele poderia escolher na hora de preencher um formulário: escritor, cantor, compositor, poeta, tradutor, dramaturgo, libretista, trompetista, crítico de jazz, inventor… mas tudo começou com a de engenheiro.

Nesse vídeo aqui ele explica, do meio pro final, num inglês que só os franceses são capazes de compreender (mentira, é um charme), por que razão escolheu a carreira em exatas:

Primeiro eu fui engenheiro, porque eu não sabia nada de matemática. Então eu tive que aprender matemática e virei engenheiro. Foi muito conveniente, porque eu queria fazer depois umas ‘coisas tolas’, digamos assim, e eu precisava de um diploma para fazê-las direito.

Sim, essas ‘coisas tolas’ era todo o resto.

Mas o que faz de Boris Vian alguém realmente interessante é que, além de tudo isso –todos sabemos que é preciso cojones pra dar um pé na bunda da profissão certinha e do emprego garantido e se jogar inteiro numa outra vida, seja ela boêmia ou não–, é que sua obra é pacifista, irônica, cheia de brincadeiras com a linguagem (e difícil de traduzir), erótica, crítica, polêmica, engraçada… uma delícia.

E tudo isso tendo desde sempre uma saúde péssima. Vai ver é conseqüência: sabia que ia morrer cedo, tinha então que aproveitar (uma pergunta cabe neste momento para confirmar ou não a pertinência do silogismo: o aumento da perspectiva de vida deixa as pessoas mais medrosas?). Já na adolescência ele organizava festões no jardim de casa com os irmãos regadas a jazz (e alguns cactos alucinógenos também, de vez em quando). Faz pensar no ambiente daquele filme incrível do Louis Malle (redundância, todos os filmes do Luis Malle são incríveis), ‘Le souffle au coeur‘.

E como é típico de crianças e adolescentes de saúde frágil, já que não dá pra sair todo fim de tarde na várzea pra jogar futebol nem pular o muro do vizinho pra roubar goiaba (aqui nem existe goiaba, mesmo…), o tempo escorre entre as páginas dos livros e Vian era um aluno de ótimas notas.

Comecemos pela música, que já ocupava grande parte do seu tempo livre de engenheiro –ele comprou um trompete ao fim do colegial, tinha uma banda de jazz com os irmãos que ficou conhecida como uma das melhores bandas amadoras de Paris e desde dezembro de 1947 escrevia resenhas para a revista Jazz Hot, um dos primeiros veículos especializados no gênero. Graças à saúde ruim que impediu-o de engordar as fileiras do exército francês em 1939, Vian pode ajudar a organizar no mesmo ano o show de Duke Ellington na capital francesa. Em 1954, ano em que casou-se com sua segunda mulher, Ursula Kübler (bailarina e atriz que atuou mais tarde no mais lindo de todos os filmes de Louis Malle, Le feu follet, de 1963 –“O fogo fátuo”, traduzido no Brasil como “Trinta anos esta noite“), ele escreveu uma canção pacifista, Le déserteur, bem na hora que a França, tentando manter as colônias ultramarinas –que, vejam só, ingratos, queriam a independência!– saía da guerra na Indochina e já ia logo entrar na guerra da Argélia. Great timing! Gravada no dia da derrota em Dien-Bien-Phu, Le déserteur teve a radiofusão e a venda proibidas por falta de patriotismo seis meses depois, quando o bicho começou a pegar em Argel.

Le déserteur é o início de uma produção fecunda de canções. Dia 4 de janeiro de 1955 ele estréia na casa de shows Les Trois Baudets, em Pigalle (equivalente parisiense da baixa Augusta), cantando suas próprias criações. Algumas delas foram reunidas no álbum Chansons possibles et impossibles. A Complainte du progrès é a minha preferida.

(aqui tem um vídeo muito mais legal, mas que eu não consegui integrar no blog. Vejam por si mesmos.)

Lá vai uma tradução literal do começo da letra, para os não-francófonos:

outrora para fazer a corte/ a gente falava de amor/ para melhor provar seu ardor/ a gente oferecia o coração/ agora não é mais assim/ os tempos mudam/ para seduzir o querido anjo/a gente cochicha na sua orelha/ ah, Godofreda!/ vem me beijar/ e eu te darei/ uma geladeira/ uma linda scooter/ um processador de alimentos/ e um colchão dunlopillo/ um fogão/ com um forno de vidro/ um montão de talheres/ e de cortadores de bolo (…)

Outra incrível é Fais-moi mal, Johnny, uma canção sado-maso. Aqui, cantada por Magali Noël (a gostosa de vermelho de Amarcord, lembraram?).

http://www.youtube.com/watch?v=AxpGNj1GTBo

Uma de suas composições mais famosas, Je bois (“Eu bebo”) pode ser vista como uma versão francesa-melancólica-cínica de “Eu bebo sim”.

eu bebo/ sistematicamente/ para esquecer os amigos da minha mulher/ eu bebo/ sistematicamente/ para esquecer meus problemas/ eu bebo/ qualquer porcaria/ desde que tenha lá seus 12,5 graus/ eu bebo/ o pior dos vinhotos/ é nojento, mas faz passar o tempo/ a vida é assim tão engraçada?/ a vida é assim tão animada?/ eu me pergunto/ a vida vale a pena ser vivida?/ o amor faz valer a pena ser corno?/ eu faço essas duas perguntas/ as quais ninguém me responde

É difícil escolher, são todas um deleite, sarcásticas, de humor tragicômico. Tem o tango dos açougueiros, Les joyeux bouchers; a história do tio construtor amador de bombas atômicas, La java des bombes atomiques; o esnobe que quer ser enterrado num sudário Dior, J’suis snob; e aquela completamente iconoclasta da mulher certinha que começa a fazer psicanálise depois de casar e resolve mudar de sexo, Bourrée de Complexes.

Vian aventurou-se também como ator… e ao lado de Jeanne Moreau, não é pra qualquer um. Aqui alguns trechos de sua atuação na versão de Roger Vadim da obra de Choderlos de Laclos, “As Ligações Perigosas”, a laranja mecânica dos libertinos.

E me desculpem, mas como isso aqui já está meio grande e eu estou em semana de trabalhos, deixo a parte literária de Boris Vian para um próximo post.

Só mais um caldinho: por coincidências da vida parisiense, seu vizinho de andar no 6 bis Cité Veron, do lado do cemitério de Montmartre, era Jacques Prévert (autor dessa canção aqui, a mais francesa de todas as canções… e pra não perder o gancho, que mereceu a mais linda das homenagens do Gainsbourg).

conto bíblico-erótico

(atenção, o texto a seguir ilustra cenas bíblicas de zoofilia, recomenda-se a pessoas muito impressionáveis abster-se da leitura)

boquetius paradisiacus interruptus


Eva estava encantada com sua nova amiga, a serpente. Ela conhecia tanta coisa! E não era mal-humorada como Deus, que também sabia tudo, mas que sempre ficava de cu doce pra contar o que quer que fosse. Nem ciumenta, como ele era também, e até demais. Deus era muito generoso, sim, sempre cobria-os de presentes e dava festas em casa, mas parecia que ele tinha sempre que ser o centro de todas as atenções. Não, a serpente tinha muito mais desenvoltura. Mesmo que todos no Paraíso a evitassem (por inveja da sua insouciance, talvez?), ela parecia sempre tão à vontade! Não se fechava no seu castelo de nuvens, como Deus fazia sempre. Não, insistia em misturar-se à plebe. Eva a observava de longe encarrapitar-se enorme e cheia de músculos numa forquilha da árvore do conhecimento do Bem e do Mal e passar toda a tarde ali, gozando o sol. A solidão dela fascinava Eva. Como podia sentir-se tão satisfeita tão só?

Ela, Eva, tinha Adão, que a ajudava em tudo. Até demais. Tinha coisas que Eva era perfeitamente capaz de fazer sozinha, mas Adão não permitia, parecia querer enfatizar sempre sua inferioridade física feminina. E quando ela esbravejava, ele dava bronca, dizendo que ela era carne da carne dele, que se não fosse por ele, ela não existiria, que ele sacrificou uma parte do seu corpo para que ela fosse criada. E que mal-agradecida que ela era!

Ao que Eva pensava “grande coisa, o que se faz com uma costela? Te sobram tantas! Queria ver se fosse pra dar um braço ou uma perna por mim, se o faria assim mesmo”.

Até que um dia da eternidade, determinada a conquistar a simpatia da serpente, Eva acordou mais cedo e a sentou-se embaixo da árvore do conhecimento do Bem e do Mal antes do bicho chegar da sua toca. Estava meio nervosa, embora dissimulasse tudo no semblante sonhador e inocente próprio da etiqueta paradisíaca. Será que a cobra a enxotaria dali, dizendo “a dona do pedaço cá sou eu, quem deixou você se acomodar aqui?”. Mas não, ao contrário, fingiu que Eva nem estava lá. Esgueirou-se pelo tronco bem rente aos cabelos longos de Eva e trepou na árvore como sempre. Eva assustava-se com qualquer animal que a interpelasse, pensando que era a serpente quem se dirigia a ela. Perguntavam se vira Deus passar por ali, não, não vira ninguém, Deus quase nunca passava por ali. E a serpente permanecia calada.

Um dia Eva adormeceu sob a árvore perto do fim da tarde. Sonhou com rios que serpenteavam por planícies montanhosas sem fim cobertas de uma grama verde muito macia. Até que um dos rios desviou e veio inundando tudo na direção dela. Eva acordou num susto quando sentiu a água estranhamente quente do rio cobrir seu corpo, para então deparar-se com a serpente, que voltando para sua toca com o pôr-do-sol tomou o caminho mais curto à esquerda e passou por cima do corpo de Eva. A sensação daquele corpo enorme, roliço, pesado, quente do banho de sol, lustroso deslizando sobre sua pele a arrepiava imenso, um arrepio parecido com cócegas, só que mais gostoso, e ela não pode conter um gemido ao retomar enfim a consciência que volta após a confusão do estado onírico. O gemido chegou aos ouvidos ofídicos, ao que o réptil interrompeu imediatamente o movimento ondulatório dos seus músculos e virou-se para ela, desculpando-se com a língua sibilante.

— Não ssei sse vosssê ssabe, mas eu ssou muito míope, quazze ssega, não perzzebi messmo que era vosssê aqui deitada.
— Não foi nada.

E a serpente então escorregou um pouco mais rápido para sair logo de cima do corpo nu de Eva, ao que Eva riu nervosa de cócegas, e a serpente achou graça.

— Ninguém nunca tinha rido ao me sssentir dessslizzzar, sssou maisss acossstumada é a ouvir gritosss de pavor.

E deu meia volta e começou a subir pelas pernas de Eva, que ria, ria, ria sem parar. Quando ela chegou ao ventre de Eva, as cócegas ficaram insuportáveis e Eva virou de barriga para baixo contorcendo-se em gargalhadas agudas, a serpente gostou da brincadeira e se enrolou junto, sibilando na orelha de Eva, que soltava gritos misturados aos movimentos de quem finge querer escapar de algo só para que esse algo insista em ficar.

Quando a risada diminuiu, viu-se Eva completamente enrolada na serpente, as pernas abraçando-a, a cabeça dela apertada entre seus seios, sibilando num riso sardônico.

— Sse eu ssoubessse que vossê era tão boa companhia, teria te acordado antesss…

À noite, quando foi dormir ao lado de Adão, Eva não comentou nada do acontecido entre ela e a serpente. Não sabia porque, mas achou que não deveria. E também gostava de ter uma amizade secreta, pois já compartilhava tanta coisa com Adão além da própria carne, poxa, ela precisava de uma coisa só dela.

Naquela noite sonhou que a serpente subia novamente pelas suas pernas e entrava pelo seu corpo, saindo pela sua boca, e o deslizar interno pelos seus órgãos era ainda mais agradável que aquele que ela experimentara naquela tarde. Quando acordou, a cama do casal primevo estava toda molhada. Adão colocou a mão na testa dela.

— Tá com febre? Acho que você suou muito durante a noite.

Não, não, ela estava ótima. Adão disse que ia perguntar a Deus porque então Eva tinha suado tanto, mas Eva convenceu-o a não importuná-lo com esses pequenos incidentes. Se ela estivesse de fato com febre, ok, mas nem era o caso. Persuadido pelo argumento, Adão deixou pra lá e saiu como sempre a explorar os confins do Jardim do Éden.

Na tarde do dia seguinte, quem passasse ao lado da árvore do conhecimento do Bem e do Mal veria Eva sentada sobre a forquilha do tronco com seu corpo envolvido pela enorme serpente, que a acomodava em voltas apoiando suas costas e servindo de travesseiro para sua cabeça, as duas conversando alegremente sem parar. Mas como não existia mais ninguém no Paraíso além dela e Adão, ninguém viu nada. Deus, como sempre, estava muito ocupado, mesmo dizendo já ter feito tudo o que havia a fazer nos seis primeiros dias da existência. Com o que ele tanto se ocupava era um mistério.

— Ah, e eu sei lá o que ele faz o tempo todo, quando eu pergunto ele não responde, cansei –comentava Eva com a nova melhor amiga.

Na pausa do lanche, a serpente sempre colhia alguns dos figos da árvore do conhecimento do Bem e do Mal –era uma figueira, afinal, muito perfumada– para enganar a fome. Isso todo mundo sabia. Ela era na verdade a única consumidora daqueles frutos, acordo que ela tinha feito com Deus a portas fechadas. Por que a serpente comia figos e não coelhos? Porque era proibido matar outros animais no Paraíso, mesmo que fosse para alimentação própria. Ninguém comentava, mas a única condição estabelecida por Deus aos animais para entrar naquele condomínio VIP onde moravam Adão e Eva era ter uma alimentação vegetariana. Ao que parece, Deus queria manter Adão e Eva ignorantes das coisas do mundo. Devia ter lá suas razões. E devia também ter algum interesse em manter a serpente ali, embora esse interesse fosse desconhecido de todos, era afinal um cara misterioso. A serpente deve ter barganhado algum privilégio e pronto, ganhou aquela árvore só pra ela e tinha, portanto, se convertido ao vegetarianismo já fazia algum tempo. O único autorizado a comer carne naquela existência era Deus, e o churrasco que ele preparava em dia de oblações, oferendas e sacrifícios era sempre um festim nababesco (embora ninguém nunca tivesse visto de fato o rega-bofe, porque isso também sempre acontecia a portas fechadas).

A serpente sempre oferecia o fruto proibido a Eva, mas só por educação mesmo, pois sabia que ela recusaria, seguindo ordens de Deus.

— É realmente uma pena que vosssê não posssa comê-losss. Essstão tão dossses.

A serpente colhia umas duas dúzias, pois era uma grande serpente, enganar sua fome exigia um volume significativo. Eva ajudava segurando os figos no colo, fechando as pernas e fazendo um círculo com os braços para eles não caírem lá no chão embaixo da árvore. Ajeitados todos os frutos no seu colo, Eva pegava um por um e dava-os na boca da serpente, que brincava de dar botes, sempre cirúrgicos que nunca machucavam as mãozinhas delicadas de Eva, ou deslizava pelo corpo nu de Eva, que ficava de olhos fechados. No meio da brincadeira, Eva podia segurar o figo entre os dedos do pé, nas axilas, entre as pernas, inventava os lugares mais inéditos para fazer a serpente ir buscar seu amuse-bouche vespertino (afinal, a única coisa que ela, Eva, não podia fazer com os frutos era comê-los, mas ninguém tinha dito nada contra brincar com eles). Um dia, sem querer, achando que ia desequilibrar-se, amassou um deles entre as pernas e ficou cheia de suco e sementes nos pêlos. Desculpou-se com a serpente por estragar o lanche dela.

— Não ssse preocupe, minha querida. Aliásss, não é engrasssado, nem paressse que acontessseu nada, osss figosss e essssa parte entre asss ssuasss pernasss têm a messsma cor, meio roxa, meio rozzza, já tinha notado?

Não, ela nunca tinha notado. A serpente, que era míope mas não daltônica, tinha. Nunca olhara muito para aquela parte do seu corpo, aliás, dava torcicolo, precisava contorcer-se muito, fora que as carnes ali faziam pregas, era difícil mesmo. Mas a verdade é que sempre que a serpente passava por ali durante as brincadeiras deliciosas da tarde, a sensação era especialmente boa. Em Adão aquela parte entre as pernas era diferente, parecia um balangandã desajeitado muito fácil de rasgar. Mas em alguns momentos, de manhã ao acordar, sobretudo, o balangandã se transformava, perdia toda sua fragilidade e ficava rijo e cruel como um pedaço de tronco de árvore de casca bem lisa. Ela e Adão sempre faziam piada daquilo, Adão dizia que “a cobra acordou”.

Eva já tinha perguntado a Deus porque ela era diferente de Adão. Se ela tinha sido feito a partir dele, eles deveriam ser iguais, não? E se era diferente, devia existir um porquê. Deus dizia que fez diferente porque ele gostava de separar as coisas. Verdade, ele era meio maníaco por limpeza, isso alguém tinha contado pra ela. Mas separar pra quê? Atazanou tanto a Deus que um dia ele virou pra ela com cara de saco cheio de quem cede, “meu bem, na verdade vocês são iguais, só que eu sempre achei aquele negócio no Adão entre as pernas um troço meio mal acabado, meio patético, sabe, primeira tentativa e deu naquilo, não me vai dizer isso pra ele, hein? E então por pudor estético, quando fui fazer você, enfiei aquele troço pra dentro, porque achei que não te caía bem, você que é tão delicada e redondinha, na segunda vez a gente está mais experiente, sabe como é.”

Encafifada de saber que ela também tinha um balangandã, mas interno, Eva um dia ficou procurando onde ele estaria entre todas aquelas pregas. Não achou nada por lá, só um buraco. Onde ia dar aquilo? Na boca, será? Seria aquilo o balangandã dela?

Um domingo, Adão e Eva fizeram um banquete de legumes e frutas. Adão achou que era uma boa ocasião para provar a bebida que Deus tinha lhe dado de presente, uma das muitas oferendas que Deus recebia sabe lá de quem e com as quais depois não tinha a menor idéia do que fazer. Adão bebeu bastante, Eva um pouco menos, e ao fim da refeição os dois estavam especialmente felizes e leves, Adão fazendo piadas, o que era raro, e quando Eva levantou-se para buscar mais morangos, ele até deu um tapinha no traseiro carnudo dela. Os dois estavam muito à vontade. Depois do almoço, Adão quis descansar um pouco, puxou Eva pela mão e foi em direção à árvore do conhecimento do Bem e do Mal, que tinha uma boa sombra, e despencaram os dois sob a relva embaixo da copa.

A serpente não estava lá. Tinha ido visitar os parentes, como se faz em fim de semana. Eles dois, que não tinham parentes, ficavam por ali mesmo. Eva e a serpente tinham mesmo conversado sobre aquilo dias atrás, o ofídio contou que deveria ausentar-se por alguns dias, Eva fez biquinho e muxoxo, ao que a serpente sibilou:

— Taí uma ótima oportunidade pra vosssê dar um jeito no ssseu cazzzamento, minha filha. Que tal ensssinar o nosso jogo de cobra sssega pro ssseu marido? Uzzza aquela cobra dele pra alguma coisssa.

Ah, como a serpente tinha um bom coração, pensou Eva! Na verdade, a serpente já estava é com o saco na Lua de ouvir Eva reclamando que Adão era bunda mole. Que ela, Eva, tomasse alguma atitude, porque não tinha outra opção. Só tem tu, vai tu mesmo.

Deitados na relva olhando pra cima, com a cabeça apoiada nas mãos, curtindo o calor e a brisa tropical paradisíaca, Adão e Eva estavam é muito loucos daquela bebida. O perfume da árvore inebriava ainda mais os arredores.

– Como é bonita, não?
– O quê?
– A árvore, Eva!
– Ah! É, é linda.

Eva sentiu saudade da serpente. Por que Adão não era divertido como ela? Com a serpente, Eva não precisava pensar em nada, as coisas simplesmente aconteciam, era tão simples! Elas faziam tantas coisas juntas… com Adão, ela precisava explicar tudo sempre muito racionalmente. Adão só pensava nas suas lanças e espadas e em explorar o território paradisíaco. Mas como eles estavam ali tão à vontade, quem sabe dessa vez não podia ser diferente.

– Quer que eu te ensine uma brincadeira?
– Qual?
– Chama ‘o lanche da cobra cega’.
– Como é?
– A cobra –disse ela pegando o apêndice mal-acabado de Adão, que logo assumiu sua faceta cruel– vai procurar os figos pro seu lanche da tarde –pegando a mão de Adão e levando até o seu, melhor acabado.
– Ahah! Cobra cega, é verdade!!… hã… tipo pega-pega, né? Mas… como é que eu ganho esse jogo?
– É que nem jogo de argola, só que em vez de enfiar a argola na garrafa, tem que enfiar a garrafa na argola.
– Cadê a argola?
– Aqui –e ela fez um dedo dele escorregar pelo buraco.
– Ah! Tá bom.
– Então conta até três que eu vou fugir.

Claro que Eva deixou Adão ganhar. E Adão gostou tanto da brincadeira que brincaram até o outro dia amanhecer, plena segunda-feira.

Acordaram com Deus dando um tonitruante piti divino ao meio-dia, gritando desaforos incomensuráveis e desconexos pros dois, que estavam com uma dor de cabeça terrível e sem a menor idéia do que acontecia.

Algum tempo depois, já no novo endereço, Eva convidou a serpente para um chá e elas conversaram sobre aquela atabalhoada manhã de segunda-feira. A serpente cogitou que aquilo tudo só tinha uma explicação: crise de ciúmes de Deus, que não podia aceitar que suas criações se divertissem tanto sem ele. Era melhor mesmo dar uma certa distância. E o casamento ia ótimo, obrigada. Aliás, ela estava grávida. Mas no fundo achava que o pai não era Adão, e sim, a serpente.

cras amet qui nunquam amavit;
quique amavit, cras amet *

O que ela, X, queria do amor?, perguntaram-lhe um dia.

Ninguém nunca tinha lhe perguntado isso antes, embora fosse uma pergunta óbvia, embora fosse algo no qual ela pensava todo dia, toda hora, enquanto fervia a água para o chá do café da manhã, enquanto olhava os doces na máquina de moeda na plataforma do metrô, enquanto seu pensamento voava desgovernado no meio de uma aula, era pra lá, para esse pensamento, que ela ia.

“Quero que o amor me golpeie de surpresa, que me faça tremer nas bases, que me leve a questionar tudo que sei, que me mostre lugares onde eu nunca imaginei poder estar (lugares estes que estão dentro de mim), quero que me assombre e mate meu medo num susto, que me queime num altar, me devore. O homem lindo que segurará minha mão esse tempo todo, lindo justamente por suas cicatrizes, terá o semblante calmo e uma tempestade interna onde raios e trovões nunca dão trégua. Os rios de lava do meu vulcão hão de encontrar o seu mar de tormentas e o vapor gerado em nossas rachaduras há de mover infinitas engrenagens, todas as formas serão criadas. Nossa rotina será essa inconstante de explosões, inundações e contornos geográficos inexplorados. O nosso amor será esse eclipse, esse terreno inédito moldado à fogo e água, incompreensível, primevo, negro, brilhante e sólido como a lâmina de uma espada bem-temperada.”

***

O que ele, H, queria do amor?, perguntaram-lhe um dia.

Ninguém nunca tinha lhe perguntado isso antes, e taí, era uma daquelas coisas que, se ninguém tivesse perguntado, talvez ele nunca parasse pra pensar. Cada vez era de um jeito, então pra quê estabelecer regras, pressupostos, expectativas? Isso tudo só poderia resultar em frustração. Frio na barriga não era amor, era diarréia.

“Eu gostaria de uma companheira de viagem, que por obra do acaso olhe para o mesmo norte que eu. Por que será ela e não outra? Não tenho a menor idéia, talvez porque ela já estivesse ali por algum tempo e eu já a conheceria e saberia mais ou menos o que esperar. Ela teria a vida dela e eu a minha, talvez nem compartilhássemos o mesmo endereço, e ao fim do dia nós ficaríamos em silêncio cada um nos seus afazeres, eu talvez brincasse de vez em quando com os cabelos dela e ela com os meus, ou sairíamos para encontrar amigos, momento no qual eu quase esqueceria a presença dela, não fossem alguns olhares cúmplices que ela lançaria por acaso na minha direção enquanto risse animada com alguma piada ruim.”

continua…


* tradução da frase em latim do título: “que amem agora aqueles que nunca amaram; quem já amou, que ame novamente”

foi assim que H soube de Deus,
concluiu que a sua existência era duvidosa e deduziu a solução para o problema resultante:

(trecho daquele mesmo algo futuramente maior)

Acordou no meio da noite assustado, preso nos lençóis. Esbaforido, chutou os panos de algodão branco e grosso com toda a força, acabou tirando junto a calça do pijama. Estava tudo escuro, nenhum barulho de grilo nem de sapo, todos na casa dormindo. Teve medo de existir somente assim, pra sempre no escuro. Preso nos lençóis. Se ele fosse enterrado vivo como naquela história que a mãe contara antes de dormir, não seria assim? Sentiu um aperto no peito insuportável e desconhecido. Começou a chorar, a soluçar. Estava com muito medo. Não queria incomodar a mãe no meio da noite, mas não se agüentou.

– mãe… ô mãe…
– que foi?
(Acendeu o abajur, olhou pra cara do filho e se assustou)
– o que você tem? por que está chorando?
(tinha vergonha de dizer, parecia muito besta)
– não quero morrer.
(a mãe, que sabia a resposta de tudo, pareceu titubear. Seria porque estava grogue de sono?)
– medo do escuro?
(mas que pergunta. Ele já tinha passado a fase de medo do escuro. Isso era muito mais sério, poxa)
– não. de morrer.
– mas ainda demora muito pra você morrer.
– mas eu não quero morrer nunca.
– mas todo mundo morre um dia.
– mas eu não quero.
– tenta não pensar nisso agora, filho. Vai dormir. Você não vai morrer agora.

Noutra noite, o mesmo medo voltou. Pensou na conversa que teve com a mãe da outra vez. Mas aquilo não o reconfortou. Voltou ao quarto dos pais.

– mãe…
– que foi, filho.
– não quero morrer.
(ela tinha se informado)
– mas não precisa ficar com medo disso, filho. Quando a gente morre, a gente vai pra junto do Papai do Céu, num lugar muito bonito.
– onde fica?
– no céu, filho.
– como você sabe que é bonito mesmo? Você já foi lá?
– não, filho. A gente só vai pra lá quando morre, não pode querer ir antes. Agora vai dormir.

Não tinha coragem de conversar com a mãe sobre o medo que o acordava à noite, era segredo, ninguém podia saber que ele tinha medo daquilo, todo mundo ia rir da cara dele, certeza.

Mas um dia, a sós com a mãe no carro, ele perguntou.

– mãe, onde mora o Papai do Céu?
– ué. No céu.
– mas aonde? Sentado?
– como, sentado?
– o céu não é uma tampa de vidro redonda que cobre a terra? Então ele tá sentado em cima.
– quem te disse que o céu tem uma tampa de vidro?
– eu vi no desenho na televisão.
– não, filho. A Terra é redonda e não tem tampa de vidro nenhuma.
– mas então a gente tá em cima?
– não, a Terra é uma bola e tem gente em todo lugar.
– mas como é que quem está embaixo não cai!?
– isso você vai aprender na escola mais tarde.

Alguns dias depois, durante o banho, quando o irmão já tinha ido pro quarto e a mãe estava lá dentro com ele pegando as roupas sujas do cesto, ele se sentiu à vontade para continuar a conversa.

– mãe, em que parte do céu fica o Papai do Céu?
– não sei filho, não dá pra ver.
– por quê?
– porque ele é invisível.
– então como você sabe que ele está lá?
(titubeou. Ia responder ‘não sei’, mas mudou de idéia)
– sabendo.
– como você descobriu?
– isso você vai descobrir também quando for maior.
– mas eu quero saber agora!
– vai ter que esperar.

No Natal daquele ano, seu pai apontou para o céu escuro e nublado e disse.

– ali, olha ele ali, não está vendo?
– onde?
– ali! O trenó, as renas na frente…
– quantas?
(silêncio)
– hm… acho que umas oito. Não sei, elas estão indo muito rápido, estão cada vez mais longe…
E quando a porta da varanda se abriu atrás dele, lá estava a árvore agora rodeada de presentes.
Então Papai Noel é invisível. Que nem o Papai do Céu.

Depois de abrir os presentes, já subindo as escadas para o quarto para ir dormir, o pai ia na frente, ele perguntou.

– pai, o Papai Noel é o Papai do Céu?
– não, filho. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
– mas eles se conhecem?
– claro, filho. É o Papai do Céu que diz pro Papai Noel quem ganha presente e quem não ganha.
– e pai, por que você vê o Papai Noel e eu não?
– quando você for mais velho, vai ver também. Boa noite.
(odeio ser criança, pensou. Quero ser adulto e poder saber e ver tudo.)

Fazia já um tempo que ele não acordava mais com medo de morrer.

Chegando a época da Páscoa, foi um dia com a mãe no supermercado. Estava tudo lindo, os corredores todos cobertos de ovos de chocolate pendurados por todos os cantos. Ele ia empurrando o carrinho olhando pra cima, até que a mãe tomou o carrinho dizendo que se ele não olhasse pra frente, ia atropelar alguém. Ele gostava de olhar os ovos porque eles tinham embalagens coloridas e brilhantes, mas olhava-os também com um certo desprezo, porque sabia que os ovos que ele ganhava eram muito melhores que os do supermercado.

– mãe, porque o supermercado vende ovo de Páscoa se o coelhinho já traz?
– não entendi, filho.
– o ovo do coelhinho é o mesmo do supermercado?
– não, filho. O ovo do coelhinho é ele quem faz.
– então por que vende ovo de chocolate no supermercado?
– ah, esses ovos são pra quem quer dar de presente. A sua avó não traz ovo pra vocês também? Então, ela compra no supermercado.

A Páscoa daquele ano foi linda. Na tarde de sábado, foram cortar galhos de um pinheiro para fazer o ninho para os ovos do coelhinho. Pegaram também umas folhas de plátano secas, umas cascas de árvore e umas pinhas. Armaram o ninho na sala, deixaram tudo bem bonito e preparado à noite antes de dormir. Ao acordar na manhã de domingo, saíram já correndo ele e o irmão pra sala, e encontraram o ninho coberto de ovos de vários tamanhos, cada um coberto com um papel de alumínio de cor diferente (essa era a embalagem do coelhinho). Ao lado, os dois ovos Serenata de Amor (esses eram da avó).

Na semana seguinte, ao entrar em casa no final do dia após passar toda a tarde brincando, foi jogar fora a casca de banana do lanche e, ao abrir a tampa do lixo, viu lá dentro várias embalagens de ovos de Páscoa que nem do supermercado. Ficou ali com a tampa numa mão e a casca na outra, sem saber o que fazer. A mãe estava do lado, na cozinha.

– mãe.
– quê.
– o ovo que eu ganhei… é do coelhinho ou você comprou no supermercado?
Ela tirou os olhos do que estava fazendo, virou-se para o garoto e viu-o com a tampa do lixo aberto. Fez uma cara. Olhou pro pai, ali do lado, e fez outra cara que ele, H, não entendeu.
– é, é do supermercado, filho.
– então o coelhinho não existe?
– não.
– e Papai Noel, também não existe?
(silêncio)
– também não, filho.

Ele jogou a casca de banana em cima das embalagens brilhantes, atirou a tampa em cima do cesto com raiva e foi pisando duro em direção ao quarto. Mas ao passar pela mãe, gritou

– MENTIR É ERRADO!

Dali alguns dias, uma noite o medo voltou. Tentou não pensar naquilo, tentou pensar que ainda demorava muito, tentou pensar no lugar bonito pra onde a gente vai depois que morre… mas se o coelhinho não existia, nem o Papai Noel, e a mãe tinha dito que existiam, era bem provável que o tal lugar também não existisse. E Papai do Céu, existe? Mas era verdade que ela não tinha morrido já pra poder dizer. Vai ver, só quando a gente morre, descobre. Melhor era então não conversar mais dessas coisas com a mãe. O pai tampouco parecia confiável nesse quesito, fora que o medo de acordar o pai era bem maior que o de acordar a mãe. E o medo da morte continuava ali, atazanando. Então ele ia até o quarto dos pais chorar para a mãe, mesmo sabendo que ela não tinha a resposta, mas receber um cafuné e atenção dela ao menos o acalmava.

Até que um dia, anos depois, o casamento dos pais entrou em crise. A mãe foi pra uma clínica descansar. Ele acordou com um medo de morrer muito, mas muito forte, e só estava o pai ali no quarto, dormindo. O medo de acordar o pai era maior que o de morrer? Pensou um pouco. Não, o de morrer era maior. Foi até o quarto sentindo o coração bater na garganta, agachou do lado da cama e sacudiu o braço do pai.

– pai… pai…
– ahn?
– pai… não quero morrer.

O pai acendeu a luz. Levantou, sentou na cadeira do lado da cama.

– quem devia ter medo de morrer sou eu, que sou velho e estou muito mais perto da morte que você. Você ainda é tão pequeno, tem tanta estrada pela frente. Eu tenho só medo de sentir dor na hora da morte, mas de morrer, não. Porque eu vou continuar vivendo. Em você, no seu irmão. E você também vai continuar vivendo nos seus filhos, quando você os tiver. Mas ainda é muito cedo pra pensar nisso. Não tenha pressa, porque passa muito rápido.
– eu tenho a sensação que demora demais.
– ah, como eu queria sentir isso!

Voltou pra cama pensando no medo que tinha há pouco de acordar o pai, de deixá-lo bravo. Ele ainda não entendia muito bem como o pai vivia nele, mas o importante é que, afinal, ele não ia morrer. Desde que tivesse filhos. E para ter filhos, tinha que casar com alguém, que nem seus pais casaram. E para casar com alguém, tinha que achar alguém de quem gostasse muito. Pensou na menina bonita da sua classe. Seria ela?

uma mulher que imagina um homem que imagina uma mulher

(trecho de algo futuramente maior)

H gostava muito de dormir. Mas não gostava da hora de deitar-se. Ficava impaciente e o sono sempre lhe fugia chegando a noite. Talvez daí seu gosto por corujas e por asas de mariposas com desenhos que lembravam olhos de corujas. Preferia as sonecas pesadas do meio da tarde. Mas se tinha mesmo que dormir, o melhor sonífero era masturbar-se. Era isso o orgasmo para H: passaporte para o inconsciente. Para o mundo dos sonhos. Uma chave. Um ritual de “abra-te sésamo”. Só gozar e o bocejo vinha, pavlovianamente.

Às vezes o orgasmo vinha rápido. Em outras, ele se desviava tanto nos pensamentos excitados que cansava-se e virava para o lado enquanto esperava o pau amolecer. Muito frustrantes, esses dias.

Mas quando estava com vontade de ficar longo tempo massageando o toco quente com a mão, imaginava poder sentir com dois corpos ao mesmo tempo: o que penetrava e o que era penetrado. Como ele era homem, penetrar era conhecido. Era aquele pedaço de carne fora dele, de vida independente, mas ligado a ele, que mergulhava num buraco apertado (de preferência), quente e escorregadio. Isso era conhecido. O vácuo da retirada. Poder ver o ponto de contato onde um se perdia no outro. Alternar o ritmo, para que nunca ficasse mecânico (lição importante). Só no fim, aí tudo bem.

Imaginar o prazer do corpo penetrado era obviamente mais difícil. Não havia um ponto de referência, i.e. a cabeça do pau. Depois da entrada, aquele túnel era invisível. Seu pau era um verme cego das cavernas.

Ele tinha lido que as mulheres nãos sentem nada lá no fundo, e daí poderem usar absorventes internos confortavelmente. Se sentissem, pensariam no absorvente a cada cruzada de pernas, não? Será que quando usam calcinha fio dental, elas pensam muito naquele negócio enfiado no meio da bunda? Mas se não sentiam nada lá fundo, sentiam aonde, catzo? Era muito difuso para imaginar. Ele perguntava isso para as mulheres com quem tinha estado e elas não sabiam explicar. Isso o deixava desesperado, pois via aquele mistério como uma barreira intransponível para entender uma mulher. Ele tinha a chave colada entre as pernas, mas parecia que por mais que ele abrisse as portas, o diálogo sempre se dava na sala ao lado. O que reforçava a idéia de que seu pau era mesmo um ser independente e intrépido. Como assim, não sabiam? Se nem elas sabiam, como poderia ele, então? Era muito aleatório. Às vezes elas gozavam, às vezes não, e ele não sabia por que. Não dependia dele, era ESSA a dolorosa realidade. Às vezes elas diziam que ele era incrível, às vezes não diziam nada. Sim, tem aquele botãozinho do lado de fora, mas aquilo era uma pegadinha, não era assim tão simples. Afinal, não é isso mesmo que diferencia homens e mulheres? Homens são simples. Mulheres são complicadas. E homens gostam de mulheres porque elas são complicadas, e mulheres gostam de homens porque eles são simples (e por isso mesmo todo homem deve esconder sua complexidade atrás da cafajestice e da covardia). E os tais orgasmos múltiplos? Uma delas contou que, quando gozava, sentia o sangue jorrar nas veias grossas do peito do pé. Outra, aconteceu uma vez, parecia um encanamento que estoura com uma furadeira, jorrava água pelas pernas, uma água cristalina com um cheiro doce, a cama ficou toda molhada e ela ria sem parar, ele olhava fascinado e perturbado, sem saber se deveria ou não se sentir orgulhoso. Algumas gemiam só de serem penetradas, outras precisavam sentir a dor no útero das estocadas para deixar escapar um som da garganta. Qual era a constante, qual era a fórmula, o que faria com que todas as mulheres do mundo quisessem sentar no seu pau?

a metamorfose do monstrinho libertino

A lagarta pantagruélica de pêlos nababescos chegou ao auge do empanturramento: fez-se súbito casulo gordo recolhido silencioso e monástico, na ressaca do bombástico contentamento. Submersa em sua gruta suspensa, digeriu sua fome antropofágica insidiosa, sua ânsia por interstícios profundos e calorosos, por pistões, obeliscos e empaladores impiedosos. Vizinhando o oco consequente, tateou o abismo com vertigem: faltava-lhe ainda a potente plenitude da busca desinteressada, o desejo transcendente de desbravar fronteiras do corpo. Desejou escalar para o alto além do cume, no meio do ar. Sentiu as asas debaterem-se ansiosas em seu estômago. Entendeu: virou-se do avesso e saiu voando.

de divinatione per somnum

“¿Pero cómo, entre los seres animados, unos son llamados mortales y otros inmortales? Esto es lo que conviene esclarecer. El alma universal rige la materia inanimada, y hace su evolución en el universo, manifestándose bajo mil formas diversas. Cuando es perfecta y alada, campea en lo más alto de los cielos, y gobierna el orden universal. Pero cuando ha perdido sus alas, rueda en los espacios infinitos, hasta que se adhiere a alguna cosa sólida, y fija, allí su estancia; y cuando ha revestido un cuerpo terrestre, que desde aquel acto, movido por la fuerza, que le comunica, parece moverse por sí mismo, esta reunión de alma y cuerpo se llama un ser vivo, con el aditamento de ser mortal.”

“The most skilful interpreter of dreams is he who has the faculty of observing resemblances”

Aristotle, On Prophesying by Dreams

Não lembro ao certo quantos anos eu tinha, talvez uns 21? quando veio aquele sonho.
Vôo em quase todos meus sonhos. Voar é cansativo, exige muita concentração: preciso juntar toda a vontade e o desejo que tenho para contrabalançar o peso do corpo e, assim, flutuar. Como um pulo numa terra sem gravidade, apoiando em massas de ar invisíveis. Já sonhei que sobrevoava toda a cidade durante o pôr-do-sol e via cada um dos meus amigos em suas casas com a luz de seus quartos acesas. E já sonhei também que sobrevoava cansada uma rede de fios elétricos, quase morro eletrocutada.
Mas nesse, entendi por que vôo.
Saía eu de casa, percorrendo o caminho de sempre, as ruas residenciais cheias de árvores. Voar estava bem difícil aquele dia. Cheguei ao alto de uma ladeira e fez-se noite súbito. Aquela rua estava diferente: ao invés de acabar numa avenida, terminava-se ali, na metade do que era, num pátio de um casebre. Entrei.
Minúsculo e estreito como um corredor, era dividido ao meio por uma cortina, um pano de algodão cru puído estendido sobre um fio esticado entre as duas paredes. Uma velhinha lá dentro encolhia-se ao pé da porta, uma luz de candeeiro vinha do outro lado do pano. Ela me disse “vai ver o que tem lá”; fui: levantei o pano, passei pro outro lado. E voei sem querer, atravessei o teto e vi o mundo lá embaixo de mim, muito longe.
Acordei meio encanto, meio terror. Não lembro o que era aquilo que vi do outro lado do pano, mas sinto até agora o golpe no peito: era divino.
***
Terceiro movimento do quarteto n. 15, opus 132 de Beethoven. “Beethoven wrote this piece after recovering from a serious illness which he had feared was fatal. He thus headed the movement with the words, “Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit, in der lydischen Tonart” (A Convalescent’s Holy Song of Thanksgiving to the Divinity, in the Lydian Mode).” (daqui)

mea culpa

Existem pessoas pragmáticas e existem pessoas fantasistas. Falta ao pragmático a capacidade visionária de ir além dos detalhes cotidianos; falta ao fantasista a habilidade de viabilizar seus sonhos.

O bom é que eles se completam. O ruim é que um não entende muito bem o jeito do outro agir. Pro pragmático, o fantasista é um doido, vive delirando, alimenta-se de inconsistências, irresponsável, coloca-se em risco. Pro fantasista, o pragmático é um chato, medroso, casca grossa, empata foda.

Mas um atrai o outro.

Poucos são os tipos puros. Quase todo mundo é um pouco dos dois, variando as proporções.

Há períodos mais propícios para um que para outro, também: a energia adolescente beneficia-se do idealismo entusiasmado para brigar por aquilo que pensamos ser certo e merecer; a idade madura coloca a perspectiva do longo prazo lembrando que tudo é um processo.

E há também ocasiões. Ter sangue frio quando a realidade cai paquidérmica na sua frente é necessário (mas como manter o sangue frio quando tudo faz o sangue ferver?). Manter o sangue frio frente a algo atroz soa insensibilidade. Esquentar por qualquer coisa faz perder credibilidade. Ter a coragem de explodir quando ninguém teve pode ser heróico.

Tá, mas essa lenga-lenga toda é pra quê?

É que saber quando ser pragmático e quando ser idealista não é fácil (c’est pas évident, dizem os franceses). E mesmo quando a gente sabe como agir, nem sempre tem a capacidade de. Pior: às vezes o lado pragmático e o lado idealista ficam brigando, aí uma hora a gente faz como manda o idealista, aí outra hora se arrepende e tenta consertar com o que manda o pragmático, e no final, aos olhos alheios, você é um esquizofrênico.

E tudo isso só pra dizer que… tem coisas que a gente sabe que deveria ter feito diferente, mas não consegue.

Pra mim, um copo de pragmatismo, por favor. Puro, sem gelo. E uma porção bem farta de coerência. Crua. Obrigada. Tô começando uma dieta.

being blonde

“Fascínio tenho eu por falsas louras (ai, a negra lingerie)
Com sardas, sobrancelha feita a lápis e perfume da Coty”
(“Miss Suéter”, João Bosco)

Faz mais ou menos um ano: entrei no salão do cabeleireiro e disse:

— Quero loiro platinado, Agyness Deyn style.

A colorista e o cabeleireiro entreolham-se aterrorizados. ‘Voilà, uma louca’, estampava-se no rosto deles.

— Você já descoloriu o cabelo antes?
— Não.
— Acho que é melhor você começar com umas mechas, olha aqui nessas fotos, algo mais ou menos assim…
— Acho que você não entendeu. Eu assumo os riscos. Quero tu-do-loi-ro. Loiríssimo.

É fácil entender a resistência deles. Toda pessoa que quer uma mudança radical na aparência deseja algo muito além da aparência. Mulheres, principalmente. Quando uma mulher quer marcar uma mudança em sua vida, um fim de namoro, um início de emprego, uma fase nova, uma das primeiras coisas a fazer é ir ao cabeleireiro –de preferência, um de confiança, com o qual você já tenha passado um bom tempo a contar da vida entre tesouradas. Portanto, se o resultado da mudança não for bom, a frustração será imensa, soará mau augúrio.

Mas como sou só eu quem corto meu próprio cabelo já há uns cinco anos, cabeleireiro parisiense eu não tinha. Ao contrário, era eu quem bancava a cabeleireira de algumas amigas corajosas. E é verdade que, a partir do momento em que empunhava-se a navalha e as mechas começavam a cair pelo chão do banheiro, a conversava ganhava um tom de salão, isto é, uma mistura de fútil e íntimo. E mesmo entre amigos(as) próximos(as), é raro tocarmos por longo tempo nos cabelos de alguém. Acho que a única ocasião é mesmo um cafuné. Que, convenhamos, é mais comum entre namorados. Poucos são os amigos que permitimos que nos façam cafuné. Cortar os cabelos de alguém é muito delicado.

Então fui jogar roleta russa na hora de escolher o cabeleireiro. E fui bem firme ao expressar e reforçar o desejo enloiradiço. Arriscado, sim, mas era necessário experimentar a loirice ao menos uma vez na vida.

Sempre tive cabelo escuro e quase liso, mas tenho também uma irmã que fez de tudo e mais um pouco com os próprios cabelos, também escuros e quase lisos de fábrica. E temos o mesmo formato de rosto –o tom de pele e dos olhos dela são mais claros. De todas as experiências cabeleirísticas dela, a que eu mais gostei foi a versão bem curta loiro caramelo. Então se nela ficou bom, era provável que em mim também ficasse. Mas eu queria loiro platinado quase branco. Com sobrancelhas pretas, sim, porque a intenção não era bancar a loira, e sim a loira falsa. Madonna em True Blue, Kim Novak em Vertigo. E como as madeixas são curtas, quando cansasse, seria fácil reverter… não, ser loira pra sempre? Não, isso nunca me passou pela cabeça.

E para surpresa da colorista, cujo temor era evidente durante todo o processo de papéis de alumínio e pincéis e melecas mal-cheirosas, ficou bom.

Vocês não acham?

Uma vez loira, a vida inteira mudou. Completamente. Eu era outra pessoa.

A começar pelo estilo arco-íris do meu guarda-roupa. Aquela jaqueta de couro amarela, aquela perfecto verde, a de veludo vermelha… não, não. Com a primeira eu ficava com cara de Piu-piu, com a segunda de bandeira brasileira, com a terceira de mostarda perdida no meio do ketchup. Aí a gente começa a entender o porquê da imagem estereótipo da loira: o cabelo já chama tanta atenção que as cores sóbrias viram um refúgio. Preto, cinza, azul marinho… roxo fica legal. Um rosinha até vai. Mesmo o branco é complicado. Loiras (platinadas, principalmente) têm que se vestir de jeito mais sério. Ou então é simples: fica puta.

Maquiagem, que sempre me deu preguiça, ficou obrigatória pra sair de casa, ou então só se viam duas grandes olheiras fantasmagóricas. Passar rímel só pra ir na boulangerie? Ai…

Andar incógnita na rua, fazer parte da massa? Talvez se eu morasse em algum país escandinavo… mas mesmo aqui, em terras parisienses, onde não faltam loiras, todo mundo me olhava. Todo mundo me media. Cansa, meu. Os olhares que dirigiam-se a mim eram totalmente diferentes daqueles que eu recebia enquanto boa moça (erm, gargalhadas?) de madeixas castanhas. As mulheres que simpatizavam comigo eram diferentes –em geral mais debochadas; os homens que dirigiam olhares lascivos eram outros –em geral, mais playboys.

Mesmo quando eu me manifestava em relação a um assunto qualquer, a reação era diferente. É difícil medir essas coisas, não sei também o quanto era paranóia minha ou mesmo conseqüência da insegurança em relação à nova imagem, mas na faculdade, ao levantar a mão e dizer alguma coisa, sentia um ar de descrédito geral entre os companheiros de classe, não importa o que eu dissesse.

Em suma: ser loira dá muito trabalho.

Valeu a experiência, mas depois de um mês e meio voltei ao meu pretinho básico. Vou te dizer: antes eu até fazia, vez ou outra, piada de loira. Mesmo quando apareci com o visual loiro, dizia “descolori até os neurônios”. Hoje não faço mais. Ao contrário, defendo. Manter a linha sendo loira não é fácil.

Um beijo, Margot“.

com pedrinhas de brilhante

rue des solitaires

rue des solitaires

presente

Papal Noel era um tirador de sarro sádico com humor de gosto meio duvidoso e resolveu que era hora de fazer com ela uma grande sacanagem. Aquela criança que acreditava em maravilhas mas não esperava por elas, sabe, aquela? Então, ele entregou na mão dela o presente dos sonhos. E disse: “mas tem data de validade”.
Ela aceitou. Talvez já tivesse idéia das conseqüências. Sempre tinha aquele sonho no qual encontrava a caixinha mágica de alguma fada perdida na grama e tomava-a entre os dedos, fascinada, deleitada por ter-la ao alcance das mãos, por poder tocá-la, e sorria muito ao abri-la, toda besta, mesmo que tivesse medo de ser descoberta, mesmo que aquilo que estava lá dentro, que ela nunca via no sonho o que era, nunca pudesse ser só dela.
Embora houvesse sempre uma tristeza arrebatadora ao acordar. Queria voltar a dormir para reencontrar o que fora perdido ao abrir os olhos. Desejava muito, mas esses sonhos só vinham quando ela menos esperava.
Pois aquele tal presente, dessa vez, era real. Real e prodigioso, muito, muito melhor que um sonho. E foi passando o tempo com ele, olhando para ele, contando histórias para ele, vendo-o ser. Toda besta.
Três dias ela acordou e, ao ver seu presente ao lado da cama, pensou “a realidade é melhor que o sonho”.
Isto é certo.
Fosso Papai Noel quem fosse.
Então o presente foi embora, para muito longe, um longe que ela conhecia bem. Um sótão translúcido do outro lado do mar com muitas lembranças, tantas lindas, outras tantas terríveis.
“Porra, Papai Noel”, pensava ela cada vez que a imagem do presente invadia seu olhar cegando-a do que estava à volta. Tinham sido só três dias, não dera tempo de enjoar, de descobrir defeitos de fabricação. Ela só o levara em seus esconderijos preferidos, mostrara-lhe apenas os caminhos e paisagens que mais a tocavam fundo na alma. E agora todo aquele universo particular era uma grande Ausência, pois aqueles lugares nunca tinham tão bonitos quanto quando ela foi visitá-los com ele.
Na primeira manhã em que acordou e olhou para o lado e ele não estava lá, abraçou o travesseiro e cutucou-o com o focinho como se quisesse acordá-lo. Depois escondeu nele o rosto como se quisesse sufocar e só o tirou quando a fronha já estava encharcada e os olhos inchados. Depois virou-se para o outro lado como se quisesse que ele estivesse ali, olhando para as sardinhas das costas dela, esperando que ela acordasse.
Talvez essa chaga demorasse também só três dias para cicatrizar, pensou.
No primeiro dia foi ocupar-se, passear por lugares desconhecidos, visitar amigos, mas era pegar-se distraída que a garganta apertava.
No segundo dia foi viver o luto com o mesmo apetite do apego, como se um pudesse anular o outro: não comeu; não saiu; não sentiu prazer. Mas ao fim daquele dia sentiu que se continuasse naquele ritmo, deixaria de ser aquela que ele conheceu, e isso não! Ela tinha que continuar sendo a mesma, era o que lhe restava, e… quem sabe um dia ela ainda não o reencontraria?
Mas nisso ela preferia não pensar. Parecia distante demais. E sabe lá por onde andaria ele. Sabe lá o quanto ela teria mudado até então, quantas coisas ambos teriam visto e vivido. Quem sabe ela não teria mais graça ao gosto dele. Quem sabe ela veria nele os defeitos que o idílio não permitiu. Quem sabe ele estivesse muito bem assim, obrigado. E quanto poderia doer uma segunda partida? No terceiro dia, apesar do longo preâmbulo para deixar a cama e por os pés no chão, foi resolver pendências que a esperavam longamente sobre a escrivaninha.
Ao fim daquele terceiro dia ocupado no piloto automático de trilha sonora inercial, sonhou que era um vulcão havaiano. Seu choro era matéria incandescente que escorria em formas redondas, pingava pesadão e escorria devagar, preto, laranja e prata. E criava paisagens novas, lunares, estrambóticas, invadia o mar.
O seu Papai Noel não dava nada de graça. Dava e tirava em seguida, como se dissesse “mas tem certeza que você agüenta essa, ô pirralha?”.
Dessa vez ela ia provar que merecia.

Papai Noel era um tirador de sarro sádico com humor de gosto meio duvidoso e resolveu que era hora de fazer com ela uma grande sacanagem. Aquela criança que acreditava em maravilhas mas não esperava por elas, sabe, aquela? Então, ele entregou na mão dela o presente dos sonhos. E disse: “mas tem data de validade”.

Ela aceitou. Talvez já tivesse idéia das conseqüências. Sempre tinha um sonho no qual encontrava a caixinha mágica de alguma fada perdida na grama e tomava-a entre os dedos, fascinada, deleitada por ter-la ao alcance das mãos, por poder tocá-la, e sorria muito ao abri-la, toda besta, mesmo que tivesse medo de ser descoberta, mesmo que aquilo que estava lá dentro, que ela nunca via no sonho o que era, nunca pudesse ser só dela.

Embora houvesse sempre uma tristeza arrebatadora ao acordar. Queria voltar a dormir para reencontrar o que fora perdido ao abrir os olhos. Desejava muito, mas esses sonhos só vinham quando ela menos esperava. E eram sonhos, afinal.

Pois aquele tal presente, desta vez, era real. Real e prodigioso, muito, muito melhor que um sonho, porque era real. E foi passando o tempo com ele, olhando para ele, contando histórias para ele, vendo-o ser. Toda besta.

Três dias ela acordou e, ao ver seu presente ao lado da cama, pensou “a realidade é melhor que o sonho”.

Isto é certo.

Fosse Papai Noel quem fosse.

Então o presente foi embora, para muito longe, um longe que ela conhecia bem. Um sótão translúcido do outro lado do mar com muitas lembranças, tantas lindas, outras tantas terríveis.

“Porra, Papai Noel”, pensava ela cada vez que a imagem do presente invadia seu olhar cegando-a do que estava à volta. Tinham sido só três dias, não dera tempo de enjoar, de descobrir defeitos de fabricação. Ela só o levara em seus esconderijos preferidos, mostrara-lhe apenas os caminhos e paisagens que mais a tocavam fundo na alma. E agora todo aquele universo particular era uma grande Ausência, pois aqueles lugares nunca tinham sido tão bonitos quanto quando ela fora visitá-los com ele.

Na primeira manhã em que acordou e olhou para o lado e ele não estava lá, abraçou o travesseiro e cutucou-o com o focinho como se quisesse acordá-lo. Depois escondeu nele o rosto como se quisesse sufocar e só o tirou quando a fronha já estava encharcada e os olhos inchados. Depois virou-se para o outro lado como se quisesse que ele estivesse ali, olhando para as sardinhas das costas dela, esperando que ela acordasse.

Talvez essa chaga demorasse também só três dias para cicatrizar, pensou.

No primeiro dia foi ocupar-se, passear por lugares desconhecidos, visitar amigos, mas era pegar-se distraída que a garganta apertava.

No segundo dia foi viver o luto com o mesmo apetite do apego, como se um pudesse anular o outro: não comeu; não saiu; não teve prazer. Mas ao fim daquele dia sentiu que se continuasse naquele ritmo, deixaria de ser aquela que ele conheceu, e isso não! Ela tinha que continuar sendo a mesma, era o que lhe restava, e… quem sabe um dia ela ainda não o reencontraria?

Mas nisso ela preferia não pensar. Parecia distante demais. E sabe lá por onde andaria ele. Sabe lá o quanto ela teria mudado até então, quantas coisas ambos teriam visto e vivido. Quem sabe ela não teria mais graça ao gosto dele. Quem sabe ela veria nele os defeitos que o idílio não permitiu. Quem sabe ele estivesse muito bem assim, obrigado. E quanto poderia doer uma segunda partida? No terceiro dia, apesar do longo preâmbulo para deixar a cama e por os pés no chão, foi resolver pendências que a esperavam longamente sobre a escrivaninha.

Ao fim daquele terceiro dia ocupado de piloto automático e trilha sonora inercial, sonhou que era um vulcão havaiano. Seu choro era matéria incandescente que escorria em formas redondas, pingava pesadão e escorria devagar, preto, laranja e prata. E criava paisagens novas, lunares, estrambóticas, invadia o mar.

Acordou. O seu Papai Noel não dava nada de graça, pensou. Dava e tirava em seguida, como se dissesse “mas tem certeza que você agüenta essa, ô pirralha?”.

Dessa vez ela ia provar que merecia.

l’adieu

É bom ver que o tempo gasto em uma atividade serviu pra alguma coisa.

E é engraçado ver que coisas horríveis podem ter lindas conseqüências.

No caso, algumas fotos em preto e branco que eu fiz de Paris foram usadas pelo meu vizinho no projeto de fim de ano dele.

Veja só, conheci-o porque algo de muito peculiar aconteceu aos dois: fomos roubados pelo mesmo ladrão. Quando invadiram minha casa, invadiram a dele também. Levaram de ambos a câmera digital e o computador.

Ele faz uma escola de cinema aqui em Paris, a ESRA, na parte de engenharia de som. O trabalho de fim de ano era um diaporama. O texto e a narração são dele.

Espero que gostem!

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