A Orquestra de Abuzi (Parte Um)

Mdinga e Suzy estão no maior amasso debaixo de uma luz vermelha de bordel da fronteira. Mas isso é um bar e estamos bem longe de qualquer outro pais. Abuzi está ao meu lado; toco nele, no ombro, para chamá-lo. A orquestra está no palco, toca muito alto, formam um conjunto bonito, além disso, todos muito altivos, penso. Abuzi se vira pra mim com os olhos marejados, vermelhos, e um gradiente de roxo e preto e branco se forma em sua cabeça quando leio seus lábios me perguntando o que quero. Não sei onde está minha câmera, grito. Ele dá de ombros e se volta. Observa Mdinga e Suzy, a orquestra. Não consigo mais ver seus olhos. Tem o perfil de um adolescente, um pele tão lisa mas tão lisa que toda a textura se perde. Viu ela por aí, insisto, levantando ainda mais a voz. Sem se virar, ele nega com outro gesto desdenhoso, repuxando os lábios grossos, a cabeça enviesada. Toma um gole de cerveja. Olho em volta, em todo o balcão, sobre a mesa, no chão. Também não sei onde está meu copo. Que porra foi essa que me deram, grito para Abuzi. Ele parece não me ouvir. A orquestra está tocando algo que pode ser jazz, mas não é jazz, pode ser mambo, mas não é mambo, pode ser um monte de coisas que não é. Me deram alguma droga deles, dos caras da orquestra. Não sou assim tão distraído, não esqueci o copo, muito menos a câmera, é mais fácil que tenha sido furtado, ou ainda que esteja sendo privado das minhas coisas porque algo maior está por vir, ou já chegou, não sei. Melhor, sei: há algo maior acontecendo. Que porra foi essa que me deram, repito, puxando o braço de Abuzi. Ele se vira furioso. Posso ouvir a música ou não, diz. Tudo bem, eu digo, também estou curtindo o som, cara, mas, sabe, estou preocupado. Abuzi está me ignorando de forma humilhante desde que cheguei no bar. Finalmente ele não gosta de mim, não gosta da câmera colada em seu rosto. De início, parecia até interessado, mas perdemos isso. Ele se levanta, segue em direção ao palco. Vejo-o se integrar aos homens da orquestra; pega um trompete que repousava dourado sobre a caixa de som. Ele espera alguns segundos, olhando para a luz do teto com olhos meio perdidos. O outros parecem ignorar sua chegada, mas é uma impressão que se desfaz assim que o volume geral cai delicado, vai abaixo para Abuzi entrar com um fôlego que eu nem imaginaria que tivesse. Parece que desconta no trompete a raiva que sente de mim. Esse cara me odeia e sumiu com minha câmera, penso, mas toca muito bem.
Muito bem.
***
Preciso vencer meus piores medos para poder sair daqui, me diz Abuzi. Retina e íris chapadas num mesmo preto profundo, refletindo e deformando uma lampada branca pendurada no teto atrás de mim. E que medos são esses, pergunto. Abuzi toma um gole de cerveja e observa por instantes a orquestra, no palco, absorta. Quando estou ali esqueço que posso morrer a qualquer momento, diz, voltando-se para dentro dos meus olhos claros e obvios. Aqui, ali, longe, perto: Abuzi tem uma onipresença mística para todos, mas para si mesmo inexiste em qualquer lugar.
Abuzi é um preto muito alto, com pouco menos de dois metros, sem um fio de cabelo em toda a cabeça. Cavanhaque, barba, nada. Um personagem que já encontrei em vários livros, só que agora ele está aqui, na minha frente. Alguém da orquestra havia me dito que Abuzi era filho de uma mulher que nunca tivera homem. Tipo Jesus Cristo, eu perguntei. Não, tipo Abuzi, ouvi. Eles fazem esse jogo de cena em cima dele. O adoram mesmo; adoram o seu corpo gigante e asseado, que a todos abraça confortavelmente, em casos que no mesmo e prolongado instante. Adoram quando Abuzi chega, fala: sua presença, e nisso carrego uma confissão, traz energias que a mim eram inéditas. Eles, sobretudo, adoram quando Abuzi sobe ao palco e veste o trompete.
Lai Me Lou, uma música sua que Abuzi me apresentou há dois dias apenas, começa baixinha, simultânea a um murmurar que, embora distante, eu sei, parece mesmo surgir do interior da minha cabeça. Abuzi, suado, passa os dedos sobre a borda do copo semi-vazio. Está distraído, volteando em murmúrios que, esses sim, não escuto. A quanto tempo o trompete, pergunto. Desde sempre, ele diz, comecei antes de ser capaz de memorizar. Cresci numa casa de adobe, numa vila de adobe, um mundo de adobe, simples, simples. E desanda a falar. Lá tinha um catre, um fogão a lenha, utensílios e o trompete. Minha mãe, diz, ela mesma nunca teve sua memória, mas a mim foi dito, por ela, em sonho, que o trompete fora presente de um americano do norte, que viajava, um pouco de férias um pouco a trabalho: buscava um passado e tonterias do tipo, diz. Veio à cidade para saber se por aqui houve algum avô seu, algum rei morto ao qual lhe diziam ser relacionado. Minha mãe, aquele ser místico e destruidor, conquistou a simpatia do viajante para conseguir dele o trompete. Segundo ela, eu, que estava para nascer em alguns meses, era o avô dele. Então, quando finalmente nasci, aquele objeto estava ali, como parte de tudo. Tão arraigado como se fosse o prolongamento do seio da minha mãe. Mas mesmo então, eu reconheci aquele objeto exatamente como o reconheço hoje: um instrumento para fazer música, que por sugestões nada sutis estava ao meu lado antes que eu pudesse escolher quaisquer outras companhias. Isso tudo, claro, é a história como a conto hoje. Realmente era incapaz de falar quando comecei a soprar umas músicas.
Abuzi. O som desse nome. Pergunte o significado dessa palavra na lingua local e Doro e Catalino, companheiros de orquestra, vão dizer que Abuzi nunca existiu como palavra: é apenas um som. Eles vão dizer que a mãe de Abuzi achava abuzi, o som, bonito e que deu ao filho o som, não o nome. A Abuzi, nunca pergunte nada sobre isso, dizem Doro e Catalino, espanhóis, mas pretos também, pretos como todos nós.
Já lhes disse que sou fotógrafo, que estou aqui na busca, eterna, pelo meu passado e tonterias do tipo. Não, ainda não fui misticamente abduzido por alguém interessado em minha câmera. Eles a acham absurda, um objeto talvez até ridículo, mas não porque pensam que ela pode-lhes aprisionar a alma, como eu esperava. A vêem mais como se fosse um treco inútil. Aqui eles gravam imagens, sim, mas as gravam numa memória que me é impossível fotografar: a música. Abuzi tem canções descrevendo tudo, de sua mãe – no que não me assusta – aos gambás que na rua os locais capturam e matam com crueldade esfomeada.
***
Mdinga se aproxima. Que sorriso é esse, pergunto. Ele se senta e chama uma cerveja. Onde tu colocou teu copo, pergunta. Finjo que o procuro, mas na verdade procuro a câmera. Eu perdi tudo, digo. Não sei onde estão o copo, a câmera, minha mala também parece que desapareceu. A cerveja chega e Mdinga levanta a garrafa e por alguns segundos observa o líquido amarelo contra a luz; refratado no seu rosto um reflexo deformado, dourado, iluminando metade da face. Acho que teria fotografado isso. Então, que porra é essa que a gente tomou, pergunto. Mdinga ri, mas não como se achasse graça da minha pergunta, parece mesmo que viu, através da garrafa, algo que eu nunca seria capaz de compreender. Sua câmera tá por ai, diz, o copo a gente arruma outro, não? Claro, digo, o copo não me preocupa mesmo, talvez me preocupe o que andam colocando dentro dele, mas isso no fim não é lá tão importante. A câmera é muito importante. Mdginga sacode o saleiro de cabeça pra baixo, dexando cair um punhado de sal sobre a mesa. Em seguida, passa o dedo no sal e o leva até a boca, fazendo um careta quando, segundo penso, o salgado se faz sentir na língua. Ele chama o garçom, que se aproxima todo solícito e se vai da mesma forma assim que ouve a ordem para trazer mais um copo. Tu foi nas salinas fotografar, ele me pergunta. Fiquei de ir, digo, ainda amanhã, se as coisas se normalizarem, é, ainda amanhã eu devo ir. Meu copo chega e Mdinga me serve uns dedos de cerveja e me deseja saúde lenvantando seu copo, bem mais cheio. Penso que dificilmente vou conseguir tempo para ir até as salinas durante minha estadia aqui, mas não vou dizer isso a Mdinga. Doro e Catalino me alertaram que ele gosta muito de lá.
No palco, os músicos conferenciam. Vejo Abuzi gesticulando para Donat, o baterista, que por sua vez lança olhares a Doro, o tecladista, que então assopra algo para Catalino, seu inseparável companheiro e percussionista, que fazendo sua parte batuca cinco vezes num tambor e avisa Balu, o guitarrista, que San Gerard, baixista, e Betume, saxofonista, empreendam um si bemol e deixem a coisa rolar.
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Quando Abuzi tinha quinze anos um grupo de viajantes do norte do pais o viu tocar na frente de sua casa quando atravessavam a rua em direção ao ônibus que os esperava no paço central. Um dos homens abandonou o grupo de mais ou menos 20 pessoas, avisando que os encontraria no veículo dentro de alguns minutos, e foi em direção ao garoto, sentado no degrauzinho da porta. Curiosos, alguns dos viajantes ficaram olhando o colega que se desgarrava, mas não deram muito mais importância depois que este interrompeu seus passos e ficou parado de frente para a casa de adobe, como se todo aquele deslocamento tivesse o objetivo único de ouvir melhor a música do moleque. Também era isso, mas o viajante tinha algo a dizer a Abuzi. Garoto, ele disse, estou formando uma orquestra no norte e me falta justamente alguém para o trompete, cadê seu pai? Abuzi interrompeu sua música, retirou a paleta do instrumento e, em tom jocoso, disse: eu é que lhe pergunto. O homem, meio sem entender, insistiu. Seu pai, sua mãe, sua avó, tios, seja lá, tem mais alguém ai em casa além de ti? Abuzi, corpulento e sem um fio de cabelo na cabeça, se levantou e sumiu pra dentro de casa batendo a mão nos shorts pra tirar a terra. Quando retornou, trazia sua mãe, então uma senhora de idade avançada, numa cadeira de rodas que produzia um barulho enferrujado e estridente com o movimento das rodas. Como vai a senhora, disse o homem. A mãe de Abuzi apenas acenou com uma mão tépida que logo deixou cair sobre o colo, como se dispensasse quaisquer formalidades e estivesse ali por uma chateação recorrente. A senhora deve saber que seu neto tem um grande talento com o trompete, disse o homem, e eu tenho uma… Ele é meu filho, interrompeu a mãe de Abuzi, e o talento dele é exatamente o talento que o senhor precisa para sua orquestra, e pra mim ele pode ir pra onde quiserem menos pro sul. Abuzi, atrás de sua mãe, já que ainda segurava a cadeira de rodas, olhou pra ela tentando encontrar seus olhos de perfil e então olhou para o homem, a ambos dedicando um estranhamento que ela, por razões óbvias, não percebeu, e ele, em melhor posição, recebeu como se fosse um sim.
Depois de reacomodar sua mãe no interior da casa, Abuzi voltou para conversar com o viajante. Este, o esperava com sinais de ansiedade. Qual o seu nome, perguntou o viajante. Abuzi. Como o som? Mais ou menos, disse Abuzi. Então, rapaz, disse o viajante, que acha de integrar a minha orquestra, ali estamos todos começando, de qualquer forma. O homem se vestia como se fosse de outro pais, pensou Abuzi. Não carregava malas, não ostentava uma barba amarela, não vestia óculos-escuros ou roupas beje com largos e estufados bolsos laterais. Mesmo assim, parecia de outro pais. Olha, disse Abuzi, estou dentro.
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Suzy não é lá essas coisas, nas ruas encontro mulheres que me fazem perder um pouco o respeito que a tanto custo tenho tentando manter pelas pessoas daqui. São umas pretas bem fortes e briosas, que carregam pra lá e pra cá toda uma sorte de coisas que não sei pra que servem, a não ser fazê-las desfilar. A elas disparo sorrisos galantes e até as interrompo para conversar amenidades, tirar uma foto e promete-las uma ampliação num futuro próximo. Suzy, no entanto, tem valores menos estéticos. Nossa primeira conversa foi há cerca de duas semanas, quando a orquestra de Abuzi se apresentava num bar mais ao sul da cidade. Ela veio até a mim, sozinha, e disse seu nome, sem ladea-lo por qualquer outra palavra introdutória. Prazer, eu disse, sou o fotógrafo. Eu sei quem você é, ela disse, meu namorado tem falado muito sobre você e parece empolgado com seu trabalho aqui. Ah, Mdinga tem me ajudado muito, eu disse, sem a convicção que projetei. Ele tem mesmo te ajudado muito, ela disse, em alguns dias teremos uma apresentação fechada lá em casa e você está convidado. Mas não pense que é convidado de honra, pense que é uma honra ter sido convidado.
Eu então não poderia prever, mas essa sua frieza tem se acentuado cada vez mais. Esta noite, ela (a frieza) parece ter atingido um ápice. Suzy vem até a mesa onde eu e Mdinga estamos sentados e puxa uma cadeira ao lado da de seu namorado. Ainda estou procurando minha câmera, então investigo discretamente sua bolsa, que suspeitas um tanto irrealistas avisam ser possível abrigar meu eletrônico de três quilos e sabe-se-lá quantas dezenas de centímetros. Inútil. Ela fala algo ao ouvido de Mdinga, que de quando em quando me olha, não sei se distraído ou induzido pelo que ouve. Fico apreensivo, mas por defesa evito expressá-lo fingindo que ainda tenho grande interesse na orquestra. Noto, quase que por acidente, uma cena maravilhosa na frente do palco. Um casal desconhecido acaba de iniciar uma dança. Abuzi, notando a presença deles, vira-se para o companheiros e com um gesto quase imperceptível de cabeça inicia um súbita mudança de tom na música, que sai de um quase-jazz para um quase-mambo extremamente dançante. O casal atende à mudança e o homem conduz sua companheira por passos cada vez mais circenses dentro do exíguo espaço entre o palco e as primeiras mesas logo à frente. Quando me desgarro dessa cena, inutilmente frustrado por não ter minha câmera a tiracolo, Mdinga e Suzy já estão eles mesmos apartados, imersos num tédio repentino que os faz parecer dois desconhecidos um ao outro. Que diabos estavam conversando, penso.
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Abuzi foi para o norte cerca de cinco meses depois da inusitada visita do viajante. Arrumou na mala a pouca roupa que tinha, o trompete e um dezena de papeis de carta em branco, que usaria para se comunicar com sua mãe desde seu destino. No dia de sua partida, foi até a casa de seu amigo de infância Mdinga para se despedir e desejar a melhor das sortes enquanto estivesse fora. Mdinga, que não tocava nada, abraçou bem forte o amigo e desejou intimamente ser o mais talentoso dos flautistas, para que assim pudesse acompanhar o amigo na aventura. Chegou a ensaiar a promessa de que iria visita-lo muito em breve, mas não foi tão longe. Pensou consigo que tal promessa demonstraria suas maiores fraquezas, e, ademais, tudo que queria é que Abuzi conquistasse a merda do mundo inteiro e o avisasse quando tudo estivesse pronto.
O trompetista de 16 anos, um metro e noventa e dois e nenhum fio de cabelo na cabeça pegou sozinho o ônibus quando a noite do dia 17 de Abril se iniciava.
Exatamente três meses depois, meados de Julho, o trompetista de 16 anos, um metro e noventa e três e nenhum fio de cabelo na cabeça desceu de um ônibus parado no mesmo local de onde partira, mas agora estava acompanhado de outros tantos rapazes que, com ele, formavam uma nova orquestra e que juntos iam incorporar a orquestra daquela cidade e fariam shows quase toda semana em quase todos os lugares que os quisessem.
Abuzi, claro, não encontrou muita coisa diferente. A cidade continuava idêntica, nem uma só casa fora terminada durante sua ausência. E sua mãe, nos momentos de maior necessidade, fora ajudada por um dos garotos da vizinha e sobretudo não tivera muito tempo para quedar-se saudosa de seus filho. Quando Abuzi a viu e consigo trouxe a notícia da volta, ela estava como ele a havia deixado, sobre a cadeira de rodas no interior da casa, levemente sonolenta. O verdadeiro e talvez único fato novo era que Mdinga agora tinha uma namorada, Suzy, e que nos momentos de reflexão solitária, impulsionados pela ausência do grande amigo, havia escolhido uma entre suas várias vocações e estava decidido a ser empresário de orquestra pelo resto de sua vida. Abuzi recebeu ambas as notícias com um grande sorriso, e apressou-se a avisar aos outros músicos que agora eles tinham um empresário e que não tardaria para que tivessem também um grande show de estréia na cidade.
Assim que encontrou um pouco de privacidade com o amigo que retornava à casa, Mdinga quis saber que diabos o havia feito voltar tão rápido do norte. Abuzi lhe deu as explicações de bom grado: ele havia colocado os pés no norte dois dias depois de subir no ônibus que o levou, após uma viagem estafante durante a qual sentiu muita falta do cheiro de sua casa e dos momentos em que se encostava na sua porta e começava a praticar o trompete. No norte, disse Abuzi, fui recebido pelo viajante, que me acolheu realmente muito bem e não demorou em me colocar nos ensaios, meio que para evitar que eu suspeitasse de algum golpe. Todos da minha orquestra eu conheci neste mesmo dia, pois estavam no ensaio e me esperavam, avisados que foram de que eu era um grande talento no trompete e iria ajudá-los a conquistar mais mulheres, mais dinheiro e mais viagens. Ficamos todos por ali, ao longo de vários dias treinando as músicas que o viajante havia composto. Pra mim eram grandes canções, do tipo que eu nunca havia ouvido e que pensava serem as mais bonitas que pudessem ser compostas. Cerca de duas semanas após o início dos ensaios, tivemos nossa primeira grande apresentação. Foi num local chamado Preludium cujo interior era todo vermelho e o palco poderia abrigar um orquestra duas, até três vezes maior do que a nossa. De acordo com o viajante, essa apresentação foi um tremendo sucesso e causou comoção no norte, impulsionando o começo de nossa carreira. Foi o que ele nos disse, disse Abuzi. Então, pelas próximas semanas, tivemos muitas atividades e estivemos por todo lugar apresentando as músicas do viajante. No primeiro descanço que tivemos após o início dos ensaios, eu decidi me isolar e compor alguma coisa a partir do que acabara de aprender. Foi o que fiz, disse Abuzi. Compus 23 músicas em dois dias e no terceiro e último dia de descanço chamei os colegas da orquestra para que dessem sua opinião. As reproduzi a capela desde a primeira à última canção. Quando esta acabou, alguns deles choravam e outros -a maioria- já se aprontavam em seus instrumentos para que a orquestra toda praticasse minhas músicas com o objetivo de apresentá-las ao viajante. Foi o que fizemos, disse Abuzi. Tocamos as músicas sem parar por cerca de 15 horas, ao cabo das quais estávamos tão cansados que poderíamos dormir pelo resto de nossos vidas. No início do ensaio do dia seguinte, Doro e Catalino, os espanhõis que você acabou de conhecer, disse Abuzi a Mdinga, foram até o viajante e lhe disseram que eu tinha grandes canções e que todos os músicos estavam empolgados em apresentá-las porque eram de fato muito grandes, em qualidade e não tamanho, disseram, e que seria um estouro em todo o circuito das orquestras. O viajante, que desde o início prezava a perfeição técnica na execução de suas composições e exigia de nós respeito absoluto pelas partituras, perguntou a Doro e Catalino que tipo de músicas eu tinha feito e onde estavam as partituras e recebeu como resposta que as músicas eram do estilo corrente e que não havia partituras, pelo menos não estavam as músicas escritas em outro lugar que não a memória da própria orquestra. Exaltado, o viajante ordenou a Doro e Catalino que tomassem os seus lugares porque havia apresentação marcada para dali a outros três dias e que nesse show todos iam apresentar as boas e velhas canções que estávamos ensaiando e executando por mais de um mês. Os músicos, segundo me disseram, ficaram todos tão frustrados como eu e, em consequência, decidimos que sempre que houvesse um descanço nós íamos praticar as minhas músicas. Assim foi. Uma noite, após nossa apresentação num local chamado Prologum, uma pequena casa de shows, fomos até um bar comemorar mais aquele sucesso e depois de várias, muitas cervejas decidimos que o melhor era dar mais um tempo ali e depois partir pra cá onde montaríamos nossa orquestra sem o viajante, que continuava desinteressado em mudar nosso repertório, até porque éramos mesmo um sucesso retumbante. Há dez dias, disse Abuzi, avisamos o viajante, que por sinal se chamava Luke Johnston, de nossa decisão de abandonar sua orquestra, criar outra com os mesmos músicos e partir pra cá. A mim, Luke Johnston não me pareceu muito triste pela notícia, embora tenha ficado isso sim um tanto decepcionado por nossa ingratidão.
***
Quando a orquestra encerra a apresentação, é sempre igual. Todos se voltam para suas mesas onde são obrigados a encarar um vazio interior que por um bom tempo parecia ter sido preenchido. Olham uns para os outros, pedem mais bebidas, contam histórias e assim vão preenchendo o bar com um tipo de música mais mundana, o som desequilibrado, atonal de suas vozes e objetos e atritos com outras vozes e objetos.
Pra mim, os encerramentos das apresentações da orquestra guardam entre si uma similaridade ainda mais particular: é quando Abuzi retorna à mesa e com ele vem o trompete, brilhando a ouro. É sempre uma cena muito fotogênica, já a fotografei várias vezes. Hoje, no entanto, Abuzi tráz nos olhos uma raiva que eu conseguiria fotografar e que na minha foto seria traduzida como um ódio prímevo, dedicado a todos aqueles que se atrevessem a olhar tal imagem.




