Confusa Carta de um Pai Mortalmente Culpado ao Filho que Ele Terá de Abandonar, com o Objetivo de por Meio de uma Parábola Ilustrar Traços de seu Caráter que Talvez Propiciem ao Filho uma Melhor Compreensão da Personalidade do Pai e um Alívio aos Futuros Sofrimentos Espirituais de Ambos, em Capítulos

Verde

Filho, ainda vejo: lá vinha eu, nos idos de 2007, andrajoso com meus cabelos levantados pelo vento, magrelo, voltando de alguma aula em que a professora nos obrigava a juntar palavras que ela julgava importante conhecermos, eu e os outros coitados cuja paciência estava além de qualquer limite, digo: sim, lá vinha seu pai, então um animal novato como você, carregando esse uniforme de fábrica ruim, que esquentava no verão e paralisava no inverno, que te fazia suar, mas não absorvia sequer uma gota de suor, talvez também com uma mochila de plástico cinza tomada por sabe-se lá que tipo de fuligem duradoura, andando pela rua, voltando para casa e pensando: Preciso alimentar os peixes.

Seguia pela Xavier, uma viela repleta de desvairados solitários e moradores de rua de diferentes idades, passava pela Augusto Pestana, a grande avenida que saía de um túnel vermelho-azulado e entrava em um outro vermelho-esverdeado, seus carros sempre paralisados a uma distância inofensiva, caía em um emaranhado de vias que terminavam rápidas umas na outras e continuava reto na Magno de Carvalho, onde não havia nada que não alguns deteriorados móveis, cujas visões de desamparo só eram consoladas, imaginava, pela maneira como eu e as outras pessoas que passavam por lá nos afeiçoávamos a cada um deles, inscrevendo-os em nosso itinerário diário, sonhando com alguns e, no meu caso, sempre lembrando, ainda agora, dos que mais tempo restaram ali – o armário sem portas mas com curtas pernas torneadas, o outro armário inteiro branco de três portas intactas, a mesinha com um tampo de vidro estilhaçado que servia de cemitério a alguns insetos que caíam já mortos de uma árvore pintada de cal.

Sempre sozinho, descia o pequeno viaduto ao fim do qual estava o prédio onde alugávamos um apartamento, eu e sua avó, então apenas minha mãe. Antes de chegar, olhava sem muita expressão o eterno congestionamento que havia em nossa rua, uma do século dezenove ou dezoito, desfigurada por placas publicitárias pequenas e  berrantes que ladeavam muros sujos como deprimentes bandeiras de países vindouros; costumava ser o final da manhã, talvez detivesse meu olhar em alguma das insectas manchas crescendo nos prédios que cerceavam o horizonte, manchas de poluição, mofo ou simples decrepitude, vazias de significado e que mesmo assim ainda estão claras em minha memória, e após alguns segundos continuava em frente. Abria a porta com minha chave colorida e, puxa vida, me lembro bem desse momento, os horrorosos barulhos do mundo urbano estavam lá, como se fossem da família. Enrolados nas cortinas. Usando o chuveiro. Pregados nas paredes. Correndo ou se arrastando pelo corredor. As máquinas chiando e o burburinho amorfo exalado pelos milhões de habitantes da cidade.

Em meu quarto estavam os quatro ou cinco aquários que eu mantinha espalhados pelas prateleiras. Havia os pequenos e redondos, os grandes e quadrados aquários, ou pelo menos assim imagino hoje, cada um com uma quantidade fixa de peixes, mas nem sempre com os mesmos peixes.

Eu gostava de misturá-los, formar diferentes equipes, entender ou fantasiar como um se relacionava com o outro e observá-los interagir nessa interação característica e meditativa que é a interação dos peixes. Você pode achá-los animais simplórios, filho, mas eu tinha vinte deles, por vezes mais, por vezes menos, e, se bem me lembro, ao menos um foi diferente. Dei o nome de Verde para este.

Verde parecia um animal à frente de sua espécie. Deitado na cama, em minhas noites iluminadas pelas lâmpadas fosforescentes subaquáticas de cada um desses potes de vidro e pelos raios difusos que chegavam pela janela numa espécie de onda luminosa, pude perceber que ele raramente estava acompanhado, que dele seus colegas costumavam se isolar e que, se começava uma de suas voltas ovais pelo cárcere, era comum os outros se aglomerarem em um canto, no lado oposto ao da sua trajetória, como se precisassem manter dela a distância mais segura possível. Quando ele voltava-se para o grupo – posso lembrar de seus olhos enraivecidos, bastava prestar verdadeira atenção e se percebia que Verde de fato possuía olhos enraivecidos – todos se dispersavam, movendo-se num calmo desespero para todos os lados, tal uma pequena explosão sem som. E posso também lembrar que havia alguma expressão corporal de vergonha nesses outros, provavelmente as barbatanas abaixadas ou o nado rápido em curtos círculos, disfarçando-se de animais muito ocupados para perceber o próprio vexame.

Talvez fosse um medo primitivo do corpo de Verde, um pouco menor do que a média dos peixes que costumamos ter em casa, com a coluna em um  horrendo s, possível resultado de uma violência brutal sofrida durante sua infância de peixe, da qual ele nunca se recuperou por completo, ainda que tivesse, de maneira difícil de acreditar, sobrevivido até chegar a mim. Havia ali uma clara deformação, filho, faltava algo ao corpo de Verde, e esse algo tinha sido retirado dele à força, digo. É por isso, acho, que ele começava a fazer parafusos e a bater no vidro durante algumas de suas travessias, descontrolado e rápido, tal não soubesse que havia um limite ou não respeitasse esse limite ou não pudesse controlar seu corpo fuseforme da maneira que os outros faziam. Hoje tenho uma espécie de delírio na cabeça, filho, que é o de que Verde tinha noção de sua deformidade. A noção que um peixe pode ter, claro, mas que isso, esse sentimento de diferença e de incompletude o atormentavam, o tornavam algo não realizado como ser vivo, algo claramente dotado de uma vontade de liberdade, de uma vontade de deixar ir embora, sair dele por inteiro o que haviam começado a retirar à força num momento irrecuperável de sua existência.

Acredito que, seja lá o que fosse esse sentimento, essa diferença (podemos dizer isso, essa diferença, essa curiosa diferença) o carregou consigo no dia em que se passa esta história, pois entrei para alimentar os peixes de cada um dos meus quatro ou cinco aquários e Verde estava morto.

Tinha vivido a misteriosa morte dos animais domésticos. Agora, os outros haviam se aproximado dele, uma coisa caída próxima à ponte levadiça do castelo em miniatura submerso, e davam voltas em torno de seu cadáver, criando um ínfimo torvelinho e levantando infimamente o morto, o que parecia ressuscitá-lo e matá-lo de novo e sucessivamente. Enfiei a mão na água, o enlacei entre os dedos, tirei o que restava de Verde (então um minúsculo peixe, frio, feio e morto) e coloquei-o num saquinho plástico com água. Não num saco seco, mas num saco com água, sem perceber o absurdo do ato ou a beleza desse absurdo.

Terrenos Abandonados

Naquela época, filho, eu passava a maior parte do meu dia – ou do meu tempo, de fato da minha vida mental – à procura dos terrenos abandonados que se proliferavam na cidade como colônias de fungo ou loucos de rua.

Andava pelo centro. Mesmo em dias quentes, vestia minha única calça jeans e meu agasalho de náilon preto e com esse uniforme de peregrinação procurava locais que, embora dentro do violento movimento da cidade, continham terra, mato, restos de conhecimento, povoamento e construção. Vácuos que existiam apenas enquanto eram ignorados, espécie de boca, ânus e umbigo de todo os prédios, barracos, casas, viadutos, parques e congêneres paridos ali. Lares de paralisados, injustiçados, expatriados e malditos.

Ao sair para resgatar as coisas que habitavam esses terrenos, me esforçava por apagar o mapa daquele centro onde morava. Simplesmente andava, nessas oportunidades, cego, virando aleatoriamente para a esquerda e para a direita, seguindo reto, sem planos, contando apenas com o acaso. Me envergonhava, uma vez terminada a jornada, perceber que já conhecia onde estivera, que por lá havia passado tantas vezes e olhado para o terreno com o idêntico desencanto de todo o mundo.

E era com meu vizinho Hugo Chevelino que empreendia essas buscas para encontrar e recolher os objetos que nos pareciam dignos da ressurreição.

Hugo Chevelino

Hugo Chevelino, até onde eu sabia, havia sido gerado e vindo ao mundo real em seu apartamento, dois andares abaixo do meu. Ele e sua casa eram elementos indissociáveis, digo, um estava atrelado ao outro como membros de um mesmo corpo.

Na sala desse apartamento havia um grande tocador de CD preto, ultrapassado e tomado pela poeira que voava casa adentro sem nunca parar, todo quadrado e com pequenos buracos no tecido de suas caixas de som, ladeado de uma torre de vinis protegidos com sacos plásticos arranhados e embaçados. Na capa de um deles tinha um senhor bigodudo, vestido de terno justo azul-claro e camisa quadriculada vermelha-e-branca, sentado em uma cadeira impossível de ser vista a não ser por seus pés de metal modulado, com os cotovelos apoiados em uma mesa de tampo branco, os antebraços peludos ligados a mãos que seguravam o queixo, a cena fotografada em uma cozinha ou banheiro cujos azulejos me lembro serem apenas esverdeados. Ele sorria, tinha as pálpebras quase fechadas e uma expressão malévola em seu rosto anguloso e envelhecido de caubói, a pele amarelada e homogênea como a de um desenho animado recobrindo um crânio opaco; sorria e olhava para cima, onde havia a frase Getting the Ticket to The Great Trip. Lembro dessa imagem e penso que ela reunia, mesmo que de maneira oblíqua e insondável, as características de meu amigo com perfeição.

Dentro dessa salinha, com os cotovelos a tocar paredes frágeis e sujas, dobrávamos e encurvávamos nossos corpos como fazem as aranhas ao morrer, enquanto conversávamos e observávamos tal idiotas o aspecto artificial que precedia o sebo adolescente de nossas peles e os pêlos que irrompiam de nossos buços. Era uma sala acanhada e asfixiante, cujo teto quase nos tocava a cabeça, dando a impressão de que eu e meu então melhor amigo éramos maiores do que em realidade éramos naquele momento que, segundo nos diziam, trazia consigo uma brutal transição corporal, embora hoje eu creia que não se trata de como nosso corpo muda, e sim de quanta consciência temos da mudança.

A Lógica da Relação entre Hugo Chevelino e Eu

Nunca, durante o tempo que durou minha amizade com Hugo Chevelino, conversamos sobre qualquer assunto que não terrenos abandonados e futebol.

Gostávamos de times rivais. Digamos que eu torcesse por X, e ele por Y, X era sempre inferior a Y em minha memória, pois, naquele mundo, quando eu existia daquela maneira (muito diferente da atual) e ele existia de sua própria maneira, seu time, o do Hugo Chevelino, era muito melhor do que o meu. Mais rico, mais jovem, mais tradicional, com uniformes mais brilhantes, melhor cortados; seus jogadores tinham nomes duplos, seus técnicos usavam roupas mais adequadas, seus torcedores eram mais numerosos, mais fortes e, ainda assim (ou mesmo por isso) mais civilizados que os da minha torcida.

O time pelo qual o Hugo Chevelino torcia dava a ele uma eterna vantagem, com a qual me acostumei sem nunca contestá-la. Em parte pois a escolha de um time ou de outro fora natural a nós dois, e não o produto da intervenção de familiares ou da pressões dos resultados, revistas ou televisão. Seguimos apenas nossas vontades puras e intuições pueris, e nada mais, creio. Não havia desculpa ou justificativa externa para o fato de eu torcer pelo time ruim e ele, pelo bom. Essas escolhas, achava, eram como que o resultado natural de quem era ele e o resultado natural de quem eu era e, assim, falavam sobre nós mais do que poderíamos articular.

Durante o todo o tempo que fui seu amigo, interpretei o papel de satélite natural, digo, admirando-o e seguindo-o e concordando com suas decisões, filho. Não como se eu e ele estivéssemos disputando uma corrida e eu (seu pai) sempre chegasse por último, ou como se ele fosse o senhor e eu seu servo, não isso, nunca isso, e sim como se ele tivesse a razão, e com essa razão, inerente a ele e indiferente à vontade dele, eu concordasse e dela fosse incapaz de discordar, como se ele tivesse a razão que era minha, mas que em mim eu não encontrasse e que por isso dele eu a precisasse extrair.

A Lógica da Relação entre Hugo Chevelino e Eu 2, ou Órfãos

Eu e ele, Hugo Chevelino, tínhamos apenas mãe, não um pai. Humanas inadequadas e esmagadas pela própria solidão. Ainda que não compreendesse quais eram as conseqüências desta questão e como a existência dela nos fazia parecidos, sempre achei que a simples congruência de situações familiares nos aproximava, nos colocava no mesmo vagão, o que em parte justificava nossas andanças, nos dava um motivo, purgava ligeiramente a vergonha por ter esse desejo incomum de ver e explorar terrenos abandonados, tocar em suas peças e levar algumas para casa. Peças que um dia significaram alguma coisa a alguém e que nós, Hugo Chevelino e eu, nós dois juntos, dávamos outra vida, resgatávamos do completo ocaso, tirávamos da condição de refugos do mundo e trazíamos,  solidariamente, de volta à existência, à nossa existência. Compartilhávamos um poder: se apropriar da memória alheia, fantasiar sobre como tudo aquilo tinha sido usado e deixado de lado, tal a um amor passado.

A Mãe de Hugo Chevelino

A mãe de Hugo Chevelino detestava tudo o que trazíamos da rua, e sempre que podia gritava com ele e, indiretamente, comigo sobre o que chamava de sujeira imunda e pervertida. Ela dizia que nossos objetos ou nós mesmos éramos pervertidos por fazer aquilo, por juntar lixo em casa e que isso trazia baratas, ratos e outros animais que ela nem sabia o nome. E, mesmo sem nome, eles virão, ela dizia.

É natural para mim hoje pensar nela e ter a certeza que já está morta, ainda que não tenha ido a seu enterro, filho. Mesmo quando nova, tinha as bochechas encovadas, seios inexistentes ou grudados sobre um peito tão deformado como o de uma grande ave. Todo o corpo era recoberto por uma pele excessiva, cinza e curiosamente pendurada nos músculos dos braços e do queixo, balançando-se levemente, talvez intencionalmente tentando se despregar de uma hospedeira pouco promissora. Haviam chupado algo de dentro da mãe de Hugo Chevelino, eu achava.

Ela trabalhava como organizadora-assistente de eventos de uma empresa que beneficiava algodão, creio, e ainda que odiasse nosso lixo, era comum que trouxesse para casa os restos de seu dia: copos de papelão, crachás de proeminentes pessoas do setor algodoeiro, facas, garfos e pratos de plástico, grandes cartazes povoados pelas assustadoras imagens do mascote da Golden Cotton, a empresa em que trabalhava, uma nuvem ou floco de algodão de olhos enormes, pernas azuis e sapatos parecidos com feijões.

Esse mascote, nomeado Jerônimo Floqueiro, era um artifício informativo. Ao lado de suas ilustrações, havia um balão com falas sobre um encontro do setor algodoeiro – um ciclo de palestras sobre novas técnicas de plantio ou sobre avanços logísticos para plantas beneficiadoras localizadas em regiões remotas ou ainda ou o slogan da companhia, que já não me recordo qual era – sempre em uma tentativa gráfica de nos dizer que o mascote não apenas existia como era capaz de se comunicar e, ainda mais aterrador, que ele gostaria de se comunicar comigo sobre um assunto que não era do meu interesse, o que sempre me levava a pensar que ele escondia outro objetivo, um objetivo inominável, que ele tinha comigo intenções não declaradas e, também por isso, necessariamente repugnantes.

Neste Episódio que Conto

Neste episódio que conto, enlacei Verde entre os dedos, desci a escada, sem esperar o elevador, e o levei para Hugo Chevelino. Hugo Chevelino olhou para o peixe deformado e  naufragado no saco, pegou-o e disse: vamos sair à noite. E eu tive a súbita certeza que nós iríamos enterrar Verde em um terreno abandonado e que era isso o que Hugo Chevelino queria dizer, ainda que não houvesse dito, e que seria desnecessário a mim confirmar o que significavam suas palavras, pois se eu perguntasse a ele porque sairíamos à noite, o estaria repetindo como os malucos repetem frases sem sentido.

“Hugo Chevelino aos 13 anos, em sua casa, SP, junho de 2007”

A imagem que me vem à cabeça quando penso em Hugo Chevelino foi forjada nessa tarde de junho de 2007, na sala de seu apartamento, ele de pé com o saquinho plástico nas mãos pequenas e alongadas que tinha, partes de uma criança muito pouco crescida para a sua idade, menor do que eu ou do que você é hoje, filho, cabelos grossos levemente encaracolados caídos nos ombros e uma expressão séria em seu rosto oval ainda infantil; uma boca que assemelhava-se a um rasgo, um nariz quase imperceptível, um corpo frágil e esbranquiçado como o de uma pequena lagartixa, com olhos circulares e negros. Ele estava parado ao lado do som e dos vinis, mirando o saco com água, apertando-o, sentindo seu peso ou sua textura plástica, tal fosse capaz de extrair prazer disso. A gente pode esperar chegar a noite e daí ir até lá, disse. Mas ir aonde, perguntei, e ele pensou um pouco e respondeu: Tava pensando em sair pela Cônego, entrar no metrô, descer na Joana d’Arc e andar até o Blaster.

O Peixe Não Era um Assunto Nosso

O peixe não era um assunto nosso. Hugo Chevelino o conhecia das vezes em que esteve em minha casa, dos momentos em que passou observando meus aquários, quando eu ia até a sala falar com minha mãe, talvez quando eu estivesse no banheiro, e o deixava sozinho no quarto.

Mesmo assim (ou mesmo por isso), tinha essa idéia de que Hugo Chevelino também o observava com curiosidade, com a mesma curiosidade que eu tinha por Verde, mas de maneira velada, tal um mútuo segredo tácito.

Quase que por acidente, um dia relatei minhas opiniões sobre Verde a ele. Estávamos no subsolo do prédio, fingindo sermos adultos ou treinando para sermos adultos. Andávamos em silêncio, cada um com as mãos entrelaçadas nas costas e de cabeças baixas, dando voltas como as que eu relatei que Verde dava pelo aquário, cercados por paredes trovejadas de canos de descarga e gás domiciliar. Falando baixo, dei a entender a teoria que já lhe disse, filho, esperando que ele, Hugo Chevelino, me contivesse a qualquer momento para dar sua própria explicação, como era comum que fizesse. Mas Hugo Chevelino não me interrompeu. Ele continuou a ouvir, tal não tivesse opinião nenhuma e precisasse de mim para compreender melhor o que era aquele peixe. Nada mais nada menos do que um peixe muito estranho, eu lembro de ter dito a ele ao fim de uma longa explicação. Hugo Chevelino esperou um momento sob uma luz azulada, olhando meus olhos por entre as partículas que flutuavam no ar do estacionamento, provindas possivelmente de alguma das infindáveis obras nunca acabadas daquele condomínio, negras e brilhantes, e após esse breve momento de silêncio ele me disse, com uma mão em meu ombro: Isso é muito legal.

Blaster

A tarde e o início da noite do dia em que se passa essa história foram banidas de minha memória quase que por completo, não fosse essa foto, essa fotografia mental que tenho de eu, seu pai, sentado no chão e remexendo no entulho que havia em meu quarto, o entulho trazido de nossas visitas a terrenos abandonados, tirando tesouras, garrafas pet e jornais velhos de cima de um cartaz amarelado anunciando o lançamento do Blaster.

O Blaster, chamado pelo cartaz de o maior supermercado de todo o mundo, deveria ter começado a funcionar em 1999, e era obra de uma construtora chamada G.M.A.P, ou só GMAP, um barulho estranho quando dito em voz alta, cujo logotipo era uma coruja piscando no “P” de GMAP. As letras estavam formatadas como uma coruja e essa coruja, a Coruja GMAP, era alongada, suas penas estavam desenhadas em locais improváveis, com traços toscos, seus olhos lúgubres colocavam-se em letras diferentes. Era feia. Não só o lançamento tinha sido um fracasso, pensei, como o seu plano de mídia também, e me parecia francamente impossível que aquele símbolo levasse quem o olhasse a uma sensação de segurança, grandeza ou vontade de consumo, pelo contrário, tudo levava a crer que os autores de tal obscenidade eram despreparados e desatentos aos detalhes, e a Coruja GMAP, o arauto da vergonha em que tudo aquilo terminou, pois o Blaster nunca fora inaugurado, terminado ou implodido, e suas pilastras e fundações ainda estavam lá, denunciando o fracasso do projeto.

Nessa fotografia mental, filho, olho por muito tempo o cartaz, com as pernas cruzadas sobre o assoalho de pedra fria de meu quarto, e tento com força adivinhar sua mensagem, por assim dizer, o mistério que o retângulo de papel plastificado encerrava. Havia a palavra Blaster centralizada, como o logotipo de uma nave espacial, suas letras prateadas, arredondadas e estufadas, ligeiramente caída para a esquerda ou subindo tal um foguete para a direita, deixando um rastro de traços que queriam nos dizer que estava em alta velocidade. Abaixo dela, uma ilustração em pretensas três dimensões, feita à mão, da fachada do supermercado, de como ele deveria ser se tivesse sido terminado e trazido consigo, à área onde estava, todo o crescimento e prosperidade econômica que a própria imagem prometia. Nela, havia uma grande caixa prateada com outras pequenas caixas saindo dessa principal, toda perfurada por vidraças em forma de semi-círculos, e ao lado direito um estacionamento de carros de brinquedo cujos limites não estavam claros. Por toda parte, andavam homens e mulheres padrões, vestindo ternos, gravatas e tailleurs, e também crianças, acompanhadas por homens de bonés e por mulheres e cachorros, formando famílias padrões. Todos como fantasmas aprisionados. Afastei o cartaz de meus olhos, olhei de novo para a coruja GMAP, pensei em Jerônimo Floqueiro e imaginei se ambos não pertenciam ao mesmo plano de existência, tão específico e triste.

A Saída e Outros Pensamentos

À noite, peguei o saco com Verde e saí. Hugo Chevelino me esperava fora da prédio, fitando o viaduto. Partimos para, pela primeira vez em nossas vidas, andar sozinhos pela cidade noturna.

Relembrando essa caminhada, filho, tergiverso: teríamos a compulsão de tornar o que chamamos de estar vivo uma narrativa? Com personagens principais e secundários, pontos de tensão e relaxamento, viradas calculadas, causas e conseqüências, tal estou fazendo aqui? Ou essa nomeação incessante é o único caminho e a sua negação uma espécie de combustão desapaixonada e vazia? Sei, ou agora imagino, que eu me sentia naquela noite navegando a maior causa com que já havia travado contato, talvez a primeira delas, de fato andando sobre essa causa, materializando-a nas calçadas, em meus passos pesados, no suor escorrendo pelas minhas costas, nas luzes borradas, nos barulhos mecânicos amortizados pelas distâncias. Não era uma idéia, uma palavra. Era meu corpo e os objetos, o mundo que surgia conforme caminhávamos, subitamente destituído de sua função comum. Podia sentir de maneira anormal como meus músculos se retesavam, os latidos sofridos de um cão que não via, olhava com assombro qualquer construção tal ela fosse eterna. O ar que eu rasgava e a força que utilizava, minha respiração e essa coisa indefinível que é a visão em movimento, cada um desses elementos estava carregado de uma pequena fração causal, posso dizer, de gatilhos invisíveis que me impulsionavam à frente no exato momento em que os tocava.

Como eu disse, tergiversações.

O Caminho

Seguia Hugo Chevelino, ombro a ombro, sem olhar em seus olhos, seguia o caminho que meu duplo abria. Saímos do viaduto, subimos pela Cônego até o antigo Teatro Municipal, hoje já demolido, cruzamos sua praça, caímos nas pequenas ruas que chamávamos de Teatro Baixo, todas em leve descida rumo à Estação Reiter, e durante esse trajeto não cruzamos com ninguém. Apenas eu, Hugo Chevelino e o peixe morto.

A Reiter era uma das mais bonitas à época, ainda não haviam construído o horrível Quadrado do Comércio à sua volta, cujos usuários alguns anos depois acabaram por englobar e emporcalhar o louco pórtico da estação, que imitava um longo canudo riscado por faixas vermelhas e brancas, feito de concreto e vidro, projetando-se de dentro da terra e convidando os passantes a escorregar dezenas de metros em direção ao subsolo. Era só durante a noite que a arte de seu criador mostrava-se plena, quando os canhões de luz que já haviam substituído as luminárias do centro apontavam para o pórtico e seus veios vermelhos e brancos  projetavam sobre as paredes internas ecos coloridos de luz, impregnando o ambiente com espirais e jogando as pessoas em uma sensação de alarme e amparo.

Ainda antes de pegar o trem, Hugo Chevelino pediu o saco, sem nada falar, apenas estendendo as mãos.

Foi uma transação rápida até nossa chegada à Estação Joana d’Arc, uma viagem desperta, na qual me limitei a olhar pela janela parte de meu reflexo e parte do muro da escavação por onde passávamos. Lembro-me de como meus olhos eram atravessados pelo que havia além do vidro. Lembro-me da imagem de mim mesmo amalgamando-se com os tubos de fios elétricos, as manchas e os buracos incompreensíveis que apareciam e deixavam-me em poucos segundos. Eu parte daquilo e aquilo parte de mim; uma mesclagem de coisas. O estrépito tímido das rodas raspando o metal, o sacolejar seco da fibra de vidro e vozes eletrificadas pelas caixas de som. Estávamos em banco separados e continuamos calados, como costumávamos ficar em nossas andanças diurnas. Hugo Chevelino tinha uma alegria contida. Sorria e mirava o chão com olhos absortos e vazados.

A Chegada

Descemos na Joana d’Arc e rapidamente estávamos na superfície de novo. Paramos, olhei em volta e me dei conta de que não sabia onde estava, que nunca havia estado naquele lugar: era como a cidade que eu conhecia, mas também seu inverso. Havia um céu metalizado, entre o azul e o vermelho, quase roxo, com falhas descomunais escurecidas diluindo-se em direção ao norte. Os pequenos prédios estavam ainda mais sujos que os do centro e as casas de comércio e as habitadas por televisores ligados espremiam-se a menos de um metro da rua. Juntas, assemelhavam-se a um grande bolo de alvenaria divido em partes igualmente apertadas, entortando conforme a rua se curvava e desaparecia do olhar.

Estávamos num largo cimentado e por ele pessoas se espalhavam, paralisadas. Um homem, de barba crescida e com uma coroa de cabelos na cabeça, estava encostado na única árvore que podíamos ver. Manipulava um livro muito grande, uma lista telefônica.

Fora os gritos desse homem, não se ouvia nada que não o ruminar longínquo de uma máquina difícil de identificar, possível origem de um sopro mecânico, de um chiado de ar correndo entre nós e os objetos, interrompido por vezes como que por um enguiço da engrenagem. Respirei fundo e não havia cheiro algum.

Um Diálogo

-Você está ouvindo o vento?, eu disse.

-Vento?

-É, tem um vento… tipo de um ventilador bem grande.

-Não tô ouvindo nada. Acho que não tem vento nenhum.

-Não?

-Não.

Um Assunto Complicado

Hugo Chevelino me perguntou se eu havia me informado sobre o endereço em que deveríamos chegar, se eu havia tentado descobrir em que rua e número o Blaster deveria estar. Não precisávamos disso, sabíamos como chegar de qualquer maneira, ou ele sabia chegar, pois tinha um talento natural para caminhos e direções, mas mesmo assim perguntou e eu disse o nome da rua, Sebastião Melo, número mil novecentos e oitenta e dois, e Hugo Chevelino me disse que esse era o nome de seu pai, Sebastião Melo, e não falamos nada, continuamos a andar, mas passei a observá-lo, tal isso fosse necessário, e dentro de alguns segundos, não mais do que um minuto, Hugo Chevelino pôs-se a falar, tal isso fosse necessário, e hoje creio que foi como se uma barreira de segurança tivesse se rompido com a menção daquele nome, Sebastião Melo, elemento que de súbito passou a existir e a criar em Hugo Chevelino uma vontade de confissão, filho.

Uma Confissão

-Meu pai era um cara foda, mano, minha mãe dizia que ele era uma maluco, doidão de nem sei o que, que ele pirou total quando eu nasci, mas ninguém pira assim com nada, saca?, tipo, as pessoas são sempre malucas e só ficam mais malucas com o tempo, né?, mas meu pai era pobre, mais pobre que minha mãe, mas ele mexia com borracharia, toda a parada, mas parece que até teve uma borracharia uma época, sei lá, quando conheceu a minha mãe, que ela ia encontrar ele na borracharia depois do serviço ou da escola, nem sei, ó, ela dizia que ele tinha uma coisa muito forte com os pneus que ele colocava numa banheira velha, tá ligado, pra ver tinha furo, que ele amava esses pneus, amava, não sei o que isso quer dizer, tipo, nem sei o que dizer disso, mas às vezes eu acho, mas às vezes eu olho pras coisas, mas às vezes eu penso em qualquer coisa, mas tem que ser coisas, coisas mesmo, só as paradas inanimadas, podes crer?, e fico pensando sobre elas, pensando bastante sobre elas, pensando que nem elas nem nada está morto, né, ó, nem me olha, nem me olha, mas é que eu acho que, tipo assim, tá ligado?, sei lá, mas tem que ter, tipo, alguma parada nessas coisas, tipo um sentimento mesmo, não sei, amor e essas paradas, ta ligado?, mas porque elas tão na nossa vida, tem muito mais coisas do que pessoas no mundo, diz aí, e o mundo é tudo, não é não?, e nessas paradas que a gente visita, nessas áreas ai, só tem coisas, e as coisas estão juntas, e elas tão lá, estão juntas, sabe, e ao mesmo tempo sozinhas, tipo, tá ligado?, mas tipo tem gente que fica assim tipo sozinha também, né?, ó, mano, tudo o que existe é tipo vivo, mano, ta ligado, é isso que não sai da minha cabeça, tipo isso que ta me fundindo a mente, irmão, tipo aqueles filmes em que os máquinas da casa ficam doidas, saem andando sozinhas, né?, fogão e o caralho, e é engraçado, né?, mas eu não tenho medo desse tipo de coisa, eu acho engraçado, podes crer?, porque a gente tem que entender essas coisas, essas paradas inanimadas, ta?, ta ligado inanimado?, eu chamo essas coisas de paradas inanimadas, mas elas ficam o tempo todo dormindo, eu acho, elas só ficam dormindo, de boa, tá ligado?, só que a gente não consegue entender isso, a gente acha que porque a gente comprou elas, a gente entende elas, irmão, e, tipo não entende nada, daí, quando elas acordam, a gente morre de medo, medo das coisas inanimadas, e isso não tem nada a ver, não mesmo, ta?, porque elas só tão acordando!, e tipo, ta ligado?, hilário!, mas, esse Tião, o Sebastião, minha mãe disse que ele começou a ter umas nóias quando me viu, ta?, que ele já era bem maluco quando minha mãe engravidou dele, mas ela dizia que isso era tipo da hora, de boa mesmo, e por que? porque que ele enchia a cabeça dela com umas paradas nada ver, estranhas, ela me disse que, tipo, olha isso, mano, uma vez aí eles tavam vendo TV, ó, e ele ficava dizendo que, tipo, o cara da TV não era quem ele era, que ele era uma outra pessoa, outra figura, nada a ver!, que ele estava usando uma fantasia, umas máscaras, sei lá, mó doideira, e que na verdade quem tava na TV era, tipo, sei lá mano, a mãe dele, o pai dele, que a família dele vivia dentro da TV, hilário, mas fingindo que eram esses apresentadores e pans, só pra atormentar ele, o figura do meu pai, tipo, enganar ele, hilário, diz aí, ó, e ela me disse que isso era mó engraçado, que vivia dando risada dessas paradas, ta ligado?, que tipo só depois de um tempo, passadas umas brisas, como diz, começou a ficar estranha a coisa, cabulosa mesmo, porque era de verdade, cara, entendeu? tipo, qual era a realidade da parada?, a realidade era que o Tião, o meu pai, ele tinha várias merdas desse tipo na cabeça, deixa eu dar uns exemplos: ele olhava, tipo, vou dizer, pra uma coisa e achava que era outra, mas não é que ele só achava, ele tinha certeza, hilário, né? entendeu? mas tipo então, mas daí eu nasci, sei lá, estranho dizer isso, hilário, e eu nasci, sei lá, devia estar no hospital e ele, o figura do meu pai, tava no hospital e tal e ele me viu e ele disse que eu não era filho dele, ele só ficava dizendo, tipo algo tipo assim: esse não é o meu filho, isso não é o meu filho, essa coisa não é o meu filho, hilário demais, diz aí, sei lá, mas daí já viu, mano, minha mãe pirou junto do figura do meu pai, só que ele no começo não dizia porque ele achava que eu não era o filho dele, o motivo, ta ligado? ele só dizia isso não é meu filho, tipo, ele não dizia ele não é meu filho, entendeu a coisa? ou esse não é meu filho, entendeu a coisa?, ele começou a dizer isso não é meu filho, essa coisa não é meu filho, e sei lá, ó, meio que sumiu no mundo, e minha mãe nunca meteu com outro homem, ta?, o figura do meu pai tinha sido o primeiro dela, tipo sei lá se isso é verdade, mas é que ficava parecendo que ela tinha chifrado ele com um outro, pelo o que ele dizia, né? que meu pai era outro cara, e isso não era verdade, ta ligado? daí um dia, eu já devia ter uns dois meses, e meu pai apareceu na casa da minha vó, zoado total , tipo mendigo, ta ligado?, esses caras que ficam na rua batendo punheta na frente de todo mundo, mano, tipo numa situação precária mesmo, sei lá também, e daí ele começou a dizer que queria ver minha mãe, parece que é essa história, ouve aí, mó situação, tá ligado?, e minha vó dizendo que não, que não, mas tipo, hilário, minha mãe apareceu comigo no braço e ele explicou que eu não era uma criança, diz aí, hilário, mas que eu era um objeto, ta ligado, hilário demais, mano, ele, o figura do meu pai, né?, dizendo que eu era uma coisa, e parece que ele disse pra ela que ela tinha parido uma coisa morta, hilário, um pedaço de plástico, que, sei lá, quem tinha engravidado a minha mãe, ta ligado, não era um homem nem vários homens, tipo, ouve aí, hilário, mas que ela tinha engravidado da cidade inteira, né?, e ele tava dizendo isso, tipo, não como se fossem, tipo, todos os homens da cidade, entendeu o grau? mas como se a cidade fosse um homem, hilário, irmão, hilário, mano, e esse homem, que seria tipo, na imaginação, né?, a cidade, é que tinha zoado a minha mãe e engravidado ela, mas de um objeto, eu, sabe?

-Tô ligado, repliquei.

Sombras Gigantescas à Distância

Quando por fim ele se calou, nos vimos parados na mesma rua, que por todo o tempo estivera apenas a descer e a fazer uma longuíssima curva, caracol que não entendíamos por completo. Olhamos ao redor e o segui por um corredor entre dois muros altos, cheio de mato e latas de tinta amassadas. Ao fim dele, o terreno e a ruína de uma construção nos esperavam, sombras gigantescas à distância, criadas pela luz irradiada fora dali. Caminhamos lentamente, sem saber no que pisávamos, esperando nossos olhos se acostumarem com a escuridão. Entendi que estávamos no estacionamento do Blaster, ainda com as marcas das vagas no chão cheio de rachaduras, entre as quais plantas com flores cresciam já altas. Ao longe, uma longa e extensa parede, filho, com as mesmas janelas semi-circulares que vi no cartaz, mas sem mulheres, homens, crianças, cachorros e famílias. Delas, um tênue ar amarelo refulgia, e me pareceu então, caminhando silencioso com Hugo Chevelino pelo maior terreno abandonado que já havíamos conhecido, que não havia teto para aquele muro. Ele está erguido, mas não há sentido pra isso, pensei, ele não protege, suporta ou arquiteta nada. Demoramos ao menos dez minutos para atravessar essa ilha criada, mas não digerida, pelo crescimento da cidade. Passamos por um carro velho, cheio de terra esparramada por uma porta aberta; pelo esqueleto do que parecia um caixa eletrônico; por postes de luz amassados ou caídos; por manequins deitados, caixas-de-papelão da altura de pessoas, um trator antigo, orelhões esverdeados, lâminas de madeira empilhadas e encimadas por um vaso sanitário e por uma quantidade considerável de lixo doméstico. Tudo delimitado por muros, com entradas semelhantes à que usamos. Imaginei quem os havia construído, se a G.M.A.P ou o chamado poder público ou os moradores, quem queria se isolar de quem. No chão, pequenos objetos eram esmagados por nossos pés. Chegando à parede, ambos a tocamos quase simultaneamente, tateando para melhor compreender o que havíamos visto de longe. Sua pintura, descascada, dava lugar a um cimento ainda cru e quente. Nos esgueiramos por ela, em direção à entrada, tropecei no que reconheci serem os restos mortais de algum animal e me apressei a pisar onde Hugo Chevelino, que tinha Verde em mãos, pisava, a literalmente seguir seus passos com todo o cuidado possível, tendo certeza de que só assim estaria seguro, filho.

Um Pouco de Poeira

No que parecia a frente do lugar, por onde espalhavam-se o que eu achava serem roupas infantis e embalagens plásticas indefiníveis, a iluminação exterior, quem sabe do luar e das ruas vizinhas, chegava plenamente e se espelhava em uma placa de metal sobre a qual caberiam dezenas de carros enfileirados, supostamente caída do pórtico. Sobre seu pó acreditei ver desenhada uma versão manual da terrível imagem da Coruja Gmap, ou assim entendi então. Havia também as marcas e furos dos desaparecidos parafusos que seguravam as desaparecidas letras de alumínio, provavelmente as que diziam Blaster, mas era impossível saber com certeza se era isso o que antes estava dito, mesmo se aquilo havia caído do pórtico ou sido levada até ali. Possivelmente as letras haviam sido roubadas, assim como os parafusos, carregadas por descobridores anteriores a nós. Hugo Chevelino subiu sobre essa placa, e, parecendo ainda mais pequeno, balançou levemente, jogando seu peso para baixo e produzindo um ruído de duas coisas duras raspando, e esse ruído viajou e voltou na forma do eco de algo vivo.

Atrás dele, podia ver a entrada da ruína, paredes altíssimas, esburacadas, expostas, nuas, miseráveis, dignas de piedade, que se estendiam em direção à escuridão total. Ele pulou da placa e entrou. Caminhamos no início por um corredor com lojas de vidraças despedaçadas, os cacos se misturando com objetos enegrecidos no chão. Em uma delas, uma larga estante com caixinhas apoiava-se desesperada sobre o vidro intacto, tal tivesse tentado por anos fugir dali, sem sucesso. Intermináveis pilastras grossas e lisas, sem qualquer tipo de adornos, saíam do chão sem destino, longas filas delas, mais pedaços de papelão e de isopor. O vento artificial que ouvira antes ali corria com toda a força, soprando poeira em nossos rostos.

Hugo Chevelino Entra

Hugo Chevelino fez um aceno, para eu que eu o esperasse, e desapareceu. Vi-me sozinho, cercado pelos sons do que acreditei serem televisores, dos quais pessoas grunhiam ruídos elétricos e plasmados. Havia também o vento, como que canalizado por uma grande estrutura implantada a meu ver em algum lugar dentro da escuridão, miraculosamente ainda funcionando depois de tantos anos de abandono, pensei. Uma imagem plantou-se em mim: Hugo Chevelino caminha sozinho e cego rumo a um grande ventilador, às suas pás afiadas e submersas na falta de luz, uma espécie de armadilha ocasional. Ele estaria caminhando e o barulho aumentaria gradativamente e, sem que meu amigo fosse sequer capaz de imaginar o que tivesse ocorrido, uma dessas pás o feriria gravemente, e logo depois, ainda sem entender o que saído do escuro o atingiu, sangrando e provavelmente já amputado no chão sobre o qual há anos deposita-se poeira, em milésimos de segundos outra pá o encontraria, dessa vez de maneira mortal, e seu cadáver continuaria a ser cortado em fatias cada vez menores por essas lâminas grandes como armas de gigantes, tornando-se por fim um emaranhado de carnes e vísceras que escorregaria lentamente até o motor invisível da engrenagem, paralisando-o por fim, após tanta energia gasta sem motivo. Juntando-se às ruínas. E quando algum barulho estranho irrompesse no galpão onde eu esperava por Hugo Chevelino, um engasgo talvez, e o ar sujo parasse de ser empurrado em minha direção, então eu estaria de fato sozinho. E gritaria por Hugo Chevelino por horas, ouvindo a minha própria voz e as programações televisivas da madrugada, sinais de vida próxima e inalcançável.

Um Homem Deitado

Hugo Chevelino parou, percebi depois de alguns minutos, e uma luz fraca acendeu-se muitos metros além de onde eu estava, sem iluminar nada reconhecível. Ouvi sua voz, mas não era a mim que ela se dirigia. Falava baixo, e havia também outra voz. Não consegui distinguir se eram cumprimentos, reconhecimentos ou uma discussão. Só algo que defini como vozes humanas surgindo de maneira intercalada. Achei ter ouvido meu nome duas vezes, e quase comecei a caminhar, mas me mantive parado, esperando o terceiro chamado que só veio após um silêncio. Era Hugo Chevelino que dizia meu nome?, perguntava-me enquanto caminhava na escuridão, com os braços estendidos à frente, tateando as pilastras. A luz vinha de um cômodo nos fundos do galpão, iluminando um tremendo vazio. Hugo Chevelino?, chamei, muito baixo, e depois de novo, Hugo Chevelino, me esforçando para gritar, sem conseguir. Aqui, ele disse, também com a voz muito baixa. Fui até a porta entreaberta, tão grossa como a de um freezer, e dentro dali Hugo Chevelino, de pé, observava minha chegada, todo o facho de luz concentrado sobre sua cabeça esbranquiçada, que flutuava na escuridão e parecia separada de sua pessoa. Demorou algum tempo até eu perceber que a luz vinha de uma lanterna, manejada pelo o que se assemelhava a um homem deitado a seus pés.

A Conturbada Apresentação de Sebastião

Hugo Chevelino me disse que aquilo deitado morava ali e, tal uma encenação, o homem apontou o pequeno holofote para seu próprio rosto. Havia olhos, uma boca, um nariz, mas nunca mais, meu filho, fui capaz de me lembrar de algum traço característico dele. O que via à minha frente era uma máscara deformada por suas sombras, outra cabeça pendurada no nada, com uma peruca de cabelos tão pretos e encaracolados como os de meu amigo. Seguiu-se um diálogo:

-Quem é você?, disse a máscara, jogando a luz contra o meu rosto.

-Eu sou amigo dele.

-Que tipo de amigo?

-A gente veio enterrer meu peixe.

-Que peixe?

-Esse aqui.

-Não tou vendo peixe.

-Esse aqui, e levei o saco ao rosto e surgiram reflexos estranhos.

-Tem um peixe aí?

-Tem.

-Dá pra mim.

-Não.

-Calma, tio, disse Hugo Chevelino, a gente só veio enterrar ele. Aqui não é a parada do supermercado?

-Não, isso aqui não é porra de supermercado nenhum, gritou. Esse lugar é a minha casa, eu construí esse lugar. Cada tijolo desse lugar fui eu quem construí, eu quem botei. O que vocês estão fazendo na minha casa?, afirmou, em um tom mais baixo, como se fosse uma pergunta verdadeira, e a lanterna saiu do rosto de Hugo Chevelino e ficou largada no colo do homem deitado e percebi que ele vestia um terno colorido, vermelho ou rosa, e que seu rosto era pontilhado de sujeira e que no bolso desse terno havia um lenço azul escuro e não pude deixar de fitar o lenço azul de seda, irretocável. Essa é a minha casa, e vocês pisam na minha casa, na casa de Tião, de Sebastião.

O Estranho Final desta História Real

Ao dizer que ele se chamava Sebastião, olhei para onde achava que Hugo Chevelino estava, sem saber se ele estava de fato ali, sem poder observar a reação de seu rosto ao ouvir o nome de seu suposto pai enlouquecido e abandonado à própria sorte no mundo, com a mão direita tremendo. Não de medo, pois Hugo Chevelino estava ali, comigo, e não havia o que temer enquanto ele estivesse comigo, mas de excitação, de uma pavorosa excitação, e me inclinei em direção ao ouvido de meu amigo e perguntei se aquilo deitado era seu pai, ou ao menos assim me recordo, se bem que em momento algum eu pensei que ele de fato fosse seu pai, por isso é mais possível que minha memória esteja me traindo e talvez eu na verdade tenha dito ser engraçado ele dizer que tinha o mesmo nome de seu pai. O importante é que essa frase, qualquer que tenha sido, foi a minha ruína, pois o homem a ouviu e disse para pararmos de cochichar e após um tempo jogou o facho contra o próprio rosto e fez uma expressão de tristeza irremediável, uma expressão grotesca e artificial, a expressão que apenas um monstro do teatro seria capaz de produzir, e perguntou, olhando para Hugo Chevelino:

-Eu sou seu pai?, e jogou a luz contra meu amigo, que endureceu como se isso o machucasse, e depois fez o facho rondar todo seu corpo, em algo que só posso chamar de um processo de reconhecimento: voltou para seu rosto, tornou aos braços e pernas, finos e frágeis, o corpo de uma criança. Cala a boca!, gritou Hugo Chevelino para o homem deitado, falando duro como um homem fala a um animal inferior. Não havia nada de aterrador em seus olhos, disso eu sei, era só uma criança com confiança e raiva. Eu mesmo apenas percebi que algo tinha dado muito errado pois ele pôs-se entre mim e o homem, no que acredito que tenha sido seu último ato de amizade, e falou uma frase que não me lembro, com a qual já sonhei diversas vezes, nas mais diversas situações e nos mais diversos lugares, e em todas essas vezes eu acordo com o completo entendimento de que devo lembrar ou anotar as palavras, mas sempre volto a dormir, talvez me force a dormir, e nunca lembro ou anoto nada. De tal maneira, filho, que não vou poder lhe dizer o que Hugo Chevelino falou antes de Sebastião agarrar sua perna, derrubá-lo, jogar a lanterna sobre seu rosto e alisar o cabelo de meu amigo tal ele fosse uma boneca. Hugo se debateu em silêncio, mas não conseguiu se soltar do carinho daquele que se dizia seu pai.

Me virei e corri, filho, abandonando meu melhor amigo, batendo-me em pilastras, escorregando nas poças, saindo daquele bairro. Corria, e quando me cansava andava, mas não parei. Por todo o tempo estive a sonhar, em uma realidade abstrata, descolada da cidade que revia, de olhos abertos, claro, mas por inteiro atrelado à sensação de responsabilidade universal que sobre mim se abateu.

Cheguei em casa ao final da madrugada, imundo, machucado, meu conjunto de roupas preferido lavado em suor, imprestável, e não disse nada à minha mãe, que ainda dormia, nem à mãe de Hugo Chevelino, dois andares abaixo. Coloquei Verde, morto, de volta em seu aquário e deixei-o ali o tempo necessário para que um dia  se confundisse com os objetos submersos e fosse esquecido. Houve um inquérito, creio, mais um menino desaparecido, sem presos ou suspeitos. Sumido como as coisas acumuladas em meu quarto que, no dia seguinte, joguei fora.

A Orquestra de Abuzi (Parte Um)

AbuziOrchestra

Mdinga e Suzy estão no maior amasso debaixo de uma luz vermelha de bordel da fronteira. Mas isso é um bar e estamos bem longe de qualquer outro pais. Abuzi está ao meu lado; toco nele, no ombro, para chamá-lo. A orquestra está no palco, toca muito alto, formam um conjunto bonito, além disso, todos muito altivos, penso. Abuzi se vira pra mim com os olhos marejados, vermelhos, e um gradiente de roxo e preto e branco se forma em sua cabeça quando leio seus lábios me perguntando o que quero. Não sei onde está minha câmera, grito. Ele dá de ombros e se volta. Observa Mdinga e Suzy, a orquestra. Não consigo mais ver seus olhos. Tem o perfil de um adolescente, um pele tão lisa mas tão lisa que toda a textura se perde. Viu ela por aí, insisto, levantando ainda mais a voz. Sem se virar, ele nega com outro gesto desdenhoso, repuxando os lábios grossos, a cabeça enviesada. Toma um gole de cerveja. Olho em volta, em todo o balcão, sobre a mesa, no chão. Também não sei onde está meu copo. Que porra foi essa que me deram, grito para Abuzi. Ele parece não me ouvir. A orquestra está tocando algo que pode ser jazz, mas não é jazz, pode ser mambo, mas não é mambo, pode ser um monte de coisas que não é. Me deram alguma droga deles, dos caras da orquestra. Não sou assim tão distraído, não esqueci o copo, muito menos a câmera, é mais fácil que tenha sido furtado, ou ainda que esteja sendo privado das minhas coisas porque algo maior está por vir, ou já chegou, não sei. Melhor, sei: há algo maior acontecendo. Que porra foi essa que me deram, repito, puxando o braço de Abuzi. Ele se vira furioso. Posso ouvir a música ou não, diz. Tudo bem, eu digo, também estou curtindo o som, cara, mas, sabe, estou preocupado. Abuzi está me ignorando de forma humilhante desde que cheguei no bar. Finalmente ele não gosta de mim, não gosta da câmera colada em seu rosto. De início, parecia até interessado, mas perdemos isso. Ele se levanta, segue em direção ao palco. Vejo-o se integrar aos homens da orquestra; pega um trompete que repousava dourado sobre a caixa de som. Ele espera alguns segundos, olhando para a luz do teto com olhos meio perdidos. O outros parecem ignorar sua chegada, mas é uma impressão que se desfaz assim que o volume geral cai delicado, vai abaixo para Abuzi entrar com um fôlego que eu nem imaginaria que tivesse. Parece que desconta no trompete a raiva que sente de mim. Esse cara me odeia e sumiu com minha câmera, penso, mas toca muito bem.

Muito bem.

***

Preciso vencer meus piores medos para poder sair daqui, me diz Abuzi. Retina e íris chapadas num mesmo preto profundo, refletindo e deformando uma lampada branca pendurada no teto atrás de mim. E que medos são esses, pergunto. Abuzi toma um gole de cerveja e observa por instantes a orquestra, no palco, absorta. Quando estou ali esqueço que posso morrer a qualquer momento, diz, voltando-se para dentro dos meus olhos claros e obvios. Aqui, ali, longe, perto: Abuzi tem uma onipresença mística para todos, mas para si mesmo inexiste em qualquer lugar.

Abuzi é um preto muito alto, com pouco menos de dois metros, sem um fio de cabelo em toda a cabeça. Cavanhaque, barba, nada. Um personagem que já encontrei em vários livros, só que agora ele está aqui, na minha frente. Alguém da orquestra havia me dito que Abuzi era filho de uma mulher que nunca tivera homem. Tipo Jesus Cristo, eu perguntei. Não, tipo Abuzi, ouvi. Eles fazem esse jogo de cena em cima dele. O adoram mesmo; adoram o seu corpo gigante e asseado, que a todos abraça confortavelmente, em casos que no mesmo e prolongado instante. Adoram quando Abuzi chega, fala: sua presença, e nisso carrego uma confissão, traz energias que a mim eram inéditas. Eles, sobretudo, adoram quando Abuzi sobe ao palco e veste o trompete.

Lai Me Lou, uma música sua que Abuzi me apresentou há dois dias apenas, começa baixinha, simultânea a um murmurar que, embora distante, eu sei, parece mesmo surgir do interior da minha cabeça. Abuzi, suado, passa os dedos sobre a borda do copo semi-vazio. Está distraído, volteando em murmúrios que, esses sim, não escuto. A quanto tempo o trompete, pergunto. Desde sempre, ele diz, comecei antes de ser capaz de memorizar. Cresci numa casa de adobe, numa vila de adobe, um mundo de adobe, simples, simples. E desanda a falar. Lá tinha um catre, um fogão a lenha, utensílios e o trompete. Minha mãe, diz, ela mesma nunca teve sua memória, mas a mim foi dito, por ela, em sonho, que o trompete fora presente de um americano do norte, que viajava, um pouco de férias um pouco a trabalho: buscava um passado e tonterias do tipo, diz. Veio à cidade para saber se por aqui houve algum avô seu, algum rei morto ao qual lhe diziam ser relacionado. Minha mãe, aquele ser místico e destruidor, conquistou a simpatia do viajante para conseguir dele o trompete. Segundo ela, eu, que estava para nascer em alguns meses, era o avô dele. Então, quando finalmente nasci, aquele objeto estava ali, como parte de tudo. Tão arraigado como se fosse o prolongamento do seio da minha mãe. Mas mesmo então, eu reconheci aquele objeto exatamente como o reconheço hoje: um instrumento para fazer música, que por sugestões nada sutis estava ao meu lado antes que eu pudesse escolher quaisquer outras companhias. Isso tudo, claro, é a história como a conto hoje. Realmente era incapaz de falar quando comecei a soprar umas músicas.

Abuzi. O som desse nome. Pergunte o significado dessa palavra na lingua local e Doro e Catalino, companheiros de orquestra, vão dizer que Abuzi nunca existiu como palavra: é apenas um som. Eles vão dizer que a mãe de Abuzi achava abuzi, o som, bonito e que deu ao filho o som, não o nome. A Abuzi, nunca pergunte nada sobre isso, dizem Doro e Catalino, espanhóis, mas pretos também, pretos como todos nós.

Já lhes disse que sou fotógrafo, que estou aqui na busca, eterna, pelo meu passado e tonterias do tipo. Não, ainda não fui misticamente abduzido por alguém interessado em minha câmera. Eles a acham absurda, um objeto talvez até ridículo, mas não porque pensam que ela pode-lhes aprisionar a alma, como eu esperava. A vêem mais como se fosse um treco inútil. Aqui eles gravam imagens, sim, mas as gravam numa memória que me é impossível fotografar: a música. Abuzi tem canções descrevendo tudo, de sua mãe – no que não me assusta – aos gambás que na rua os locais capturam e matam com crueldade esfomeada.

***

Mdinga se aproxima. Que sorriso é esse, pergunto. Ele se senta e chama uma cerveja. Onde tu colocou teu copo, pergunta. Finjo que o procuro, mas na verdade procuro a câmera. Eu perdi tudo, digo. Não sei onde estão o copo, a câmera, minha mala também parece que desapareceu. A cerveja chega e Mdinga levanta a garrafa e por alguns segundos observa o líquido amarelo contra a luz; refratado no seu rosto um reflexo deformado, dourado, iluminando metade da face. Acho que teria fotografado isso. Então, que porra é essa que a gente tomou, pergunto. Mdinga ri, mas não como se achasse graça da minha pergunta, parece mesmo que viu, através da garrafa, algo que eu nunca seria capaz de compreender. Sua câmera tá por ai, diz, o copo a gente arruma outro, não? Claro, digo, o copo não me preocupa mesmo, talvez me preocupe o que andam colocando dentro dele, mas isso no fim não é lá tão importante. A câmera é muito importante. Mdginga sacode o saleiro de cabeça pra baixo, dexando cair um punhado de sal sobre a mesa. Em seguida, passa o dedo no sal e o leva até a boca, fazendo um careta quando, segundo penso, o salgado se faz sentir na língua. Ele chama o garçom, que se aproxima todo solícito e se vai da mesma forma assim que ouve a ordem para trazer mais um copo. Tu foi nas salinas fotografar, ele me pergunta. Fiquei de ir, digo, ainda amanhã, se as coisas se normalizarem, é, ainda amanhã eu devo ir. Meu copo chega e Mdinga me serve uns dedos de cerveja e me deseja saúde lenvantando seu copo, bem mais cheio. Penso que dificilmente vou conseguir tempo para ir até as salinas durante minha estadia aqui, mas não vou dizer isso a Mdinga. Doro e Catalino me alertaram que ele gosta muito de lá.

No palco, os músicos conferenciam. Vejo Abuzi gesticulando para Donat, o baterista, que por sua vez lança olhares a Doro, o tecladista, que então assopra algo para Catalino, seu inseparável companheiro e percussionista, que fazendo sua parte batuca cinco vezes num tambor e avisa Balu, o guitarrista, que San Gerard, baixista, e Betume, saxofonista, empreendam um si bemol e deixem a coisa rolar.

***

Quando Abuzi tinha quinze anos um grupo de viajantes do norte do pais o viu tocar na frente de sua casa quando atravessavam a rua em direção ao ônibus que os esperava no paço central. Um dos homens abandonou o grupo de mais ou menos 20 pessoas, avisando que os encontraria no veículo dentro de alguns minutos, e foi em direção ao garoto, sentado no degrauzinho da porta. Curiosos, alguns dos viajantes ficaram olhando o colega que se desgarrava, mas não deram muito mais importância depois que este interrompeu seus passos e ficou parado de frente para a casa de adobe, como se todo aquele deslocamento tivesse o objetivo único de ouvir melhor a música do moleque. Também era isso, mas o viajante tinha algo a dizer a Abuzi. Garoto, ele disse, estou formando uma orquestra no norte e me falta justamente alguém para o trompete, cadê seu pai? Abuzi interrompeu sua música, retirou a paleta do instrumento e, em tom jocoso, disse: eu é que lhe pergunto. O homem, meio sem entender, insistiu. Seu pai, sua mãe, sua avó, tios, seja lá, tem mais alguém ai em casa além de ti? Abuzi, corpulento e sem um fio de cabelo na cabeça, se levantou e sumiu pra dentro de casa batendo a mão nos shorts pra tirar a terra. Quando retornou, trazia sua mãe, então uma senhora de idade avançada, numa cadeira de rodas que produzia um barulho enferrujado e estridente com o movimento das rodas. Como vai a senhora, disse o homem. A mãe de Abuzi apenas acenou com uma mão tépida que logo deixou cair sobre o colo, como se dispensasse quaisquer formalidades e estivesse ali por uma chateação recorrente. A senhora deve saber que seu neto tem um grande talento com o trompete, disse o homem, e eu tenho uma… Ele é meu filho, interrompeu a mãe de Abuzi, e o talento dele é exatamente o talento que o senhor precisa para sua orquestra, e pra mim ele pode ir pra onde quiserem menos pro sul. Abuzi, atrás de sua mãe, já que ainda segurava a cadeira de rodas, olhou pra ela tentando encontrar seus olhos de perfil e então olhou para o homem, a ambos dedicando um estranhamento que ela, por razões óbvias, não percebeu, e ele, em melhor posição, recebeu como se fosse um sim.

Depois de reacomodar sua mãe no interior da casa, Abuzi voltou para conversar com o viajante. Este, o esperava com sinais de ansiedade. Qual o seu nome, perguntou o viajante. Abuzi. Como o som? Mais ou menos, disse Abuzi. Então, rapaz, disse o viajante, que acha de integrar a minha orquestra, ali estamos todos começando, de qualquer forma. O homem se vestia como se fosse de outro pais, pensou Abuzi. Não carregava malas, não ostentava uma barba amarela, não vestia óculos-escuros ou roupas beje com largos e estufados bolsos laterais. Mesmo assim, parecia de outro pais. Olha, disse Abuzi, estou dentro.

***

Suzy não é lá essas coisas, nas ruas encontro mulheres que me fazem perder um pouco o respeito que a tanto custo tenho tentando manter pelas pessoas daqui. São umas pretas bem fortes e briosas, que carregam pra lá e pra cá toda uma sorte de coisas que não sei pra que servem, a não ser fazê-las desfilar. A elas disparo sorrisos galantes e até as interrompo para conversar amenidades, tirar uma foto e promete-las uma ampliação num futuro próximo. Suzy, no entanto, tem valores menos estéticos. Nossa primeira conversa foi há cerca de duas semanas, quando a orquestra de Abuzi se apresentava num bar mais ao sul da cidade. Ela veio até a mim, sozinha, e disse seu nome, sem ladea-lo por qualquer outra palavra introdutória. Prazer, eu disse, sou o fotógrafo. Eu sei quem você é, ela disse, meu namorado tem falado muito sobre você e parece empolgado com seu trabalho aqui. Ah, Mdinga tem me ajudado muito, eu disse, sem a convicção que projetei. Ele tem mesmo te ajudado muito, ela disse, em alguns dias teremos uma apresentação fechada lá em casa e você está convidado. Mas não pense que é convidado de honra, pense que é uma honra ter sido convidado.

Eu então não poderia prever, mas essa sua frieza tem se acentuado cada vez mais. Esta noite, ela (a frieza) parece ter atingido um ápice. Suzy vem até a mesa onde eu e Mdinga estamos sentados e puxa uma cadeira ao lado da de seu namorado. Ainda estou procurando minha câmera, então investigo discretamente sua bolsa, que suspeitas um tanto irrealistas avisam ser possível abrigar meu eletrônico de três quilos e sabe-se-lá quantas dezenas de centímetros. Inútil. Ela fala algo ao ouvido de Mdinga, que de quando em quando me olha, não sei se distraído ou induzido pelo que ouve. Fico apreensivo, mas por defesa evito expressá-lo fingindo que ainda tenho grande interesse na orquestra. Noto, quase que por acidente, uma cena maravilhosa na frente do palco. Um casal desconhecido acaba de iniciar uma dança. Abuzi, notando a presença deles, vira-se para o companheiros e com um gesto quase imperceptível de cabeça inicia um súbita mudança de tom na música, que sai de um quase-jazz para um quase-mambo extremamente dançante. O casal atende à mudança e o homem conduz sua companheira por passos cada vez mais circenses dentro do exíguo espaço entre o palco e as primeiras mesas logo à frente. Quando me desgarro dessa cena, inutilmente frustrado por não ter minha câmera a tiracolo, Mdinga e Suzy já estão eles mesmos apartados, imersos num tédio repentino que os faz parecer dois desconhecidos um ao outro. Que diabos estavam conversando, penso.

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Abuzi foi para o norte cerca de cinco meses depois da inusitada visita do viajante. Arrumou na mala a pouca roupa que tinha, o trompete e um dezena de papeis de carta em branco, que usaria para se comunicar com sua mãe desde seu destino. No dia de sua partida, foi até a casa de seu amigo de infância Mdinga para se despedir e desejar a melhor das sortes enquanto estivesse fora. Mdinga, que não tocava nada, abraçou bem forte o amigo e desejou intimamente ser o mais talentoso dos flautistas, para que assim pudesse acompanhar o amigo na aventura. Chegou a ensaiar a promessa de que iria visita-lo muito em breve, mas não foi tão longe. Pensou consigo que tal promessa demonstraria suas maiores fraquezas, e, ademais, tudo que queria é que Abuzi conquistasse a merda do mundo inteiro e o avisasse quando tudo estivesse pronto.

O trompetista de 16 anos, um metro e noventa e dois e nenhum fio de cabelo na cabeça pegou sozinho o ônibus quando a noite do dia 17 de Abril se iniciava.

Exatamente três meses depois, meados de Julho, o trompetista de 16 anos, um metro e noventa e três e nenhum fio de cabelo na cabeça desceu de um ônibus parado no mesmo local de onde partira, mas agora estava acompanhado de outros tantos rapazes que, com ele, formavam uma nova orquestra e que juntos iam incorporar a orquestra daquela cidade e fariam shows quase toda semana em quase todos os lugares que os quisessem.

Abuzi, claro, não encontrou muita coisa diferente. A cidade continuava idêntica, nem uma só casa fora terminada durante sua ausência. E sua mãe, nos momentos de maior necessidade, fora ajudada por um dos garotos da vizinha e sobretudo não tivera muito tempo para quedar-se saudosa de seus filho. Quando Abuzi a viu e consigo trouxe a notícia da volta, ela estava como ele a havia deixado, sobre a cadeira de rodas no interior da casa, levemente sonolenta. O verdadeiro e talvez único fato novo era que Mdinga agora tinha uma namorada, Suzy, e que nos momentos de reflexão solitária, impulsionados pela ausência do grande amigo, havia escolhido uma entre suas várias vocações e estava decidido a ser empresário de orquestra pelo resto de sua vida. Abuzi recebeu ambas as notícias com um grande sorriso, e apressou-se a avisar aos outros músicos que agora eles tinham um empresário e que não tardaria para que tivessem também um grande show de estréia na cidade.

Assim que encontrou um pouco de privacidade com o amigo que retornava à casa, Mdinga quis saber que diabos o havia feito voltar tão rápido do norte. Abuzi lhe deu as explicações de bom grado: ele havia colocado os pés no norte dois dias depois de subir no ônibus que o levou, após uma viagem estafante durante a qual sentiu muita falta do cheiro de sua casa e dos momentos em que se encostava na sua porta e começava a praticar o trompete. No norte, disse Abuzi, fui recebido pelo viajante, que me acolheu realmente muito bem e não demorou em me colocar nos ensaios, meio que para evitar que eu suspeitasse de algum golpe. Todos da minha orquestra eu conheci neste mesmo dia, pois estavam no ensaio e me esperavam, avisados que foram de que eu era um grande talento no trompete e iria ajudá-los a conquistar mais mulheres, mais dinheiro e mais viagens. Ficamos todos por ali, ao longo de vários dias treinando as músicas que o viajante havia composto. Pra mim eram grandes canções, do tipo que eu nunca havia ouvido e que pensava serem as mais bonitas que pudessem ser compostas. Cerca de duas semanas após o início dos ensaios, tivemos nossa primeira grande apresentação. Foi num local chamado Preludium cujo interior era todo vermelho e o palco poderia abrigar um orquestra duas, até três vezes maior do que a nossa. De acordo com o viajante, essa apresentação foi um tremendo sucesso e causou comoção no norte, impulsionando o começo de nossa carreira. Foi o que ele nos disse, disse Abuzi. Então, pelas próximas semanas, tivemos muitas atividades e estivemos por todo lugar apresentando as músicas do viajante. No primeiro descanço que tivemos após o início dos ensaios, eu decidi me isolar e compor alguma coisa a partir do que acabara de aprender. Foi o que fiz, disse Abuzi. Compus 23 músicas em dois dias e no terceiro e último dia de descanço chamei os colegas da orquestra para que dessem sua opinião. As reproduzi a capela desde a primeira à última canção. Quando esta acabou, alguns deles choravam e outros -a maioria- já se aprontavam em seus instrumentos para que a orquestra toda praticasse minhas músicas com o objetivo de apresentá-las ao viajante. Foi o que fizemos, disse Abuzi. Tocamos as músicas sem parar por cerca de 15 horas, ao cabo das quais estávamos tão cansados que poderíamos dormir pelo resto de nossos vidas. No início do ensaio do dia seguinte, Doro e Catalino, os espanhõis que você acabou de conhecer, disse Abuzi a Mdinga, foram até o viajante e lhe disseram que eu tinha grandes canções e que todos os músicos estavam empolgados em apresentá-las porque eram de fato muito grandes, em qualidade e não tamanho, disseram, e que seria um estouro em todo o circuito das orquestras. O viajante, que desde o início prezava a perfeição técnica na execução de suas composições e exigia de nós respeito absoluto pelas partituras, perguntou a Doro e Catalino que tipo de músicas eu tinha feito e onde estavam as partituras e recebeu como resposta que as músicas eram do estilo corrente e que não havia partituras, pelo menos não estavam as músicas escritas em outro lugar que não a memória da própria orquestra. Exaltado, o viajante ordenou a Doro e Catalino que tomassem os seus lugares porque havia apresentação marcada para dali a outros três dias e que nesse show todos iam apresentar as boas e velhas canções que estávamos ensaiando e executando por mais de um mês. Os músicos, segundo me disseram, ficaram todos tão frustrados como eu e, em consequência, decidimos que sempre que houvesse um descanço nós íamos praticar as minhas músicas. Assim foi. Uma noite, após nossa apresentação num local chamado Prologum, uma pequena casa de shows, fomos até um bar comemorar mais aquele sucesso e depois de várias, muitas cervejas decidimos que o melhor era dar mais um tempo ali e depois partir pra cá onde montaríamos nossa orquestra sem o viajante, que continuava desinteressado em mudar nosso repertório, até porque éramos mesmo um sucesso retumbante. Há dez dias, disse Abuzi, avisamos o viajante, que por sinal se chamava Luke Johnston, de nossa decisão de abandonar sua orquestra, criar outra com os mesmos músicos e partir pra cá. A mim, Luke Johnston não me pareceu muito triste pela notícia, embora tenha ficado isso sim um tanto decepcionado por nossa ingratidão.

***

Quando a orquestra encerra a apresentação, é sempre igual. Todos se voltam para suas mesas onde são obrigados a encarar um vazio interior que por um bom tempo parecia ter sido preenchido. Olham uns para os outros, pedem mais bebidas, contam histórias e assim vão preenchendo o bar com um tipo de música mais mundana, o som desequilibrado, atonal de suas vozes e objetos e atritos com outras vozes e objetos.

Pra mim, os encerramentos das apresentações da orquestra guardam entre si uma similaridade ainda mais particular: é quando Abuzi retorna à mesa e com ele vem o trompete, brilhando a ouro. É sempre uma cena muito fotogênica, já a fotografei várias vezes. Hoje, no entanto, Abuzi tráz nos olhos uma raiva que eu conseguiria fotografar e que na minha foto seria traduzida como um ódio prímevo, dedicado a todos aqueles que se atrevessem a olhar tal imagem.

Auto-retrato

Tenho álbuns fotográficos completos de mim mesmo. Já são centenas deles, e os escondo com eficiência em uma quitinete que aluguei unicamente com esse objetivo. Produzo ao menos vinte e cinco fotos diárias do meu rosto e de partes do meu corpo.
Levo ao menos um álbum para onde vou, em malas, bolsas ou mochilas. Preciso estar próximo de um deles, para poder
folheá-lo nos momentos necessários. Ninguém nota ou faz perguntas, e isso me satisfaz. As fotos, as capturo quando
tenho vontade _no banheiro, no carro, logo ao acordar, durante o sexo, comendo, sozinho e em grupo, enfim, a
qualquer momento. Sobre isso também ninguém nunca me inquiriu, nem mesmo minha mulher e filhos. Penso: nenhum valor supera a
privacidade. Costumo usar o celular, é obviamente mais prático, mas tenho também daguerreotipos feitos por encomenda. De frente e de costas. Neles, estou nu, para evitar as torpes falsificações das roupas. O modelo de álbum que uso é muito barato, acredito que um dos mais precários que há no mercado: grossas capas de papelão recobertas de plástico preto que não demoram a rasgar e a se dobrar nas pontas. Dentro, ensacado em mais plástico transparente, estou eu. Não há parte nenhuma do meu corpo que já não tenha sido extensamente registrada. Coleciono também imagens radiográficas e tomográficas, assim como qualquer outra gerada a partir de exames. Tenho fotos do meu cérebro e do meu fêmur e do meu intestino. Não são das melhores, mas o meu cérebro, o meu fêmur e o meu intestino SÃO aquilo. É inegável. Fica muito mais fácil se afeiçoar a seus órgãos internos quando você sabe como eles se parecem. É tal qualquer coisa do mundo: ao longo do tempo, percebe-se as pequenas sutilezas que os tornam únicos e seus. Um processo de apropriação específico e prazeroso. Como eu poderia saber que minha bacia tem uma ondulação ligeiramente errada em sua porção inferior direita, não fosse a maravilha da tecnologia médica? Assumo sem constrangimento que já fingi ter uma doença crônica para conseguir ter microcameras passeando pelo meu coração. E que já seduzi uma enfermeira apenas para acessar de maneira irrestrita a máquina de raio-x. O resultado foi recompensador. Já
cheguei a participar de uma comunidade virtual em que trocava-se esse tipo de imagem, mas desisti. Essencialmente, entendi depois dessa experiência que não gosto de ceder cópias e muito menos de emprestar os originais de qualquer tipo de imagens minhas para ninguém. Que isso me repugna, me transporte de volta aos meus piores medos. Desde então, tento seguir com rigor o princípio fundamental que criei para um autofotógrafo, que é como simploriamente me denomino: controle absoluto e total do processo. Desde que comecei a levar a sério a Autofotografia, início também da minha felicidade atual, não permito a mais ninguém, afora eu mesmo, tirar fotos de meu corpo. Nem mesmo um pedaço de minha pele, um fio de pelo. As pessoas confundem isso com timidez extrema ou um tipo não preocupante de patologia mental, ideia que serve bem aos meus objetivos. Para tudo ficar dentro dos mais rígidos padrões de certeza que me impuz, é terminantemente proibido também a qualquer pessoa usar, sob todos os aspectos, minhas imagens. Houve algumas complicações no trabalho e burocracias estatais, mas minha obstinação superou essas questões pontuais, ao preço da corrupção e do uso de minha autoridade profissional. De fato, hoje tenho contatos em quase todos os setores de segurança pública, afim de mapear onde estão as câmeras de vídeo do Estado, assim como tomo um cuidado inimaginavelmente minucioso em observar nos locais públicos quem pode, mesmo que de maneira acidental, incluir-me em seus próprios álbuns. Já tenho uma lista de lugares em que só posso estar devido a compromissos inadiáveis, como pontos turísticos etc. Em situações extremas, poderei me fantasiar, mas isso nunca foi preciso. Esses atos podem ser espúrios, ridículos e me tragar uma quantidade de energia grotesca, mas têm um fim tão importante para a manutenção do meu equilíbrio que valem a pena. O ápice da Autofotografia, seu cerne, é um ritual diário inventado por mim mesmo num dia que considero hoje iluminado, visto que não há notícia de outro modelo de Autofotografia que não o meu. É quando todos dormem em casa que ele se realiza. O primeiro passo é deitar-me nu sob o piso frio do banheiro. Não importa a temperatura da noite, é necessário que eu me deite nu no piso frio do banheiro contíguo ao quarto. E meu corpo precisa estar entre o sétimo e o trigésimo azulejo, contando da esquerda para a direita de quem entra. Coloco um álbum de imagens e um pequeno espelho ao alcance das mãos e começo pelo olho direito, obrigatoriamente. Pego um retrato dele e me observo, comparando o que vejo no espelho com a foto e digo, no menor volume possível: este é o meu olho direito, o meu olho direito está aqui, este olho direito é MEU. Respiro aliviado e digo: verdade. Depois passo pelas diferentes partes do tronco, pelas costas (para as quais construí um extensor do espelho), pelos membros, os cabelos, orelhas etc. O procedimento é sempre o mesmo _por exemplo: este é o meu pênis, o meu pênis está aqui, este pênis é MEU;(alívio); verdade. Normalmente uso apenas uma imagem interna a cada ritual, que por metonímia representa todos os outros órgãos internos. Caso tenha em mãos a imagem de meu intestino, tento localizá-lo sob a pele e repito os dizeres. Em qualquer instante do ritual, se gaguejo ou digo o nome da parte do meu corpo de maneira incompreenssivel, tenho de falar a frase inteira de novo. A penalidade é maior quando pronuncio mal a palavra verdade. É necessário então recomeçar o ritual desde o olho direito. Um sistema completo, de minha lavra. Tudo para que não haja falhas. As falhas são perigosíssimas, calculo, e podem colocar minha existência em risco, conforme entendi depois de me convencer da necessidade irrevogável do ritual. Só posso dormir em paz quando, ao me deitar nu, repito cem vezes: verdade, verdade, verdade, tateando-me dos pés à cabeça. Sou discreto para não acordar minha mulher. Também tento visualizar mentalmente essa palavra, com a letra inicial maiúscula: Verdade. Às vezes ela me vem em forma de labaredas de fogo ou como um escrito na areia ou rabiscada em um dos cadernos que usava em minha época escolar. De qualquer maneira, obrigo-me a ter esse único pensamento antes de dormir: Verdade. A palavra também deve ser a primeira a ser dita conscientemente ao me levantar. É um procedimento simples, que me dá confiança na vida e alegria para cuidar da minha família e prosperar no emprego. Graças ao método que orgulho-me de ter criado, tenho um grau muito respeitável de certeza sobre a minha condição. Importante dizer que não tiro fotos de corpo inteiro. Isso é negado pois, segundo entendi estudando as minhas autofotografias, o conjunto do corpo representa uma outra coisa que em nada se relaciona comigo. A soma em si é algo diferente dos elementos que a compõem. Trata-se de uma lógica basal. Assim, diante da necessidade incontornável de ter uma foto do conjunto de minhas partes, sou obrigado a retratar o corpo completo apenas por meio de minha sombra, apenas a partir dos contornos que contém minha cabeça, meu tronco e meus membros. Como é possível imaginar, as fotos de minha sombra, ao lado das dos olhos, são as mais importantes, e revejo ao menos uma delas ao sair do banheiro _ momento em que a primeira fase do ritual se consuma. Sua captura é das mais difíceis. É preciso o ângulo e o momento certo, além de uma superfície muito lisa. Caso contrário, saio borrado e a minha identificação é imprecisa. Por isso, creio que a sombra é, sozinha, o principal objeto de retratos feitos durante o dia. São necessárias diversas tentativas para conseguir um produto utilizável. Na última semana, uma falha gravíssima no que concerne a essa questão levou-me a um importante passo para a otimização de meu método. Descobri com estupor, num site da internet, uma foto idêntica à uma das que eu mesmo havia tirado da minha sombra. Era identificada com sendo da autoria de um desconhecido fotógrafo profissional. Em pânico contido, não demorei a conseguir seu endereço e fui visitá-lo em casa, no início de uma tarde. Fantasiei, mostrando a impressão da imagem que eu havia capturado, que tínhamos sido vítimas de uma coincidência terrível, raríssima, difícil de supor caso eu não estivesse segurando a própria prova do ocorrido. Menti, sem entrar em maiores detalhes, que se tratava de um problema religioso, dos mais graves. Por isso, afirmei, era urgente que ele não apenas tirasse a imagem do ar, como também apagasse para sempre ela de seus arquivos e que eu acompanhasse todos esses passos, expliquei, para me assegurar que eles seriam definitivos. Ele me olhou com descrença e riu de mim com estrépito. Pôs em dúvida toda a minha versão, a começar pela foto que eu tinha levado. É apenas uma cópia da minha, disse, você nunca tirou essa imagem. Fui obrigado a mostrar a original, em meu celular, mas isso não significou nada. Em silêncio, deu de ombros e ficou me olhando, como que esperando minha próxima mentira. Fiquei nervoso, confundi as palavras e suei asquerosamente. Percebendo que minha razão não estava em sua produtividade máxima, fui embora. Era melhor ter tempo para articular outra maneira de me aproximar. Tentei rememorar o que se passara naquela dia. Como não percebera que havia alguém em meu encalço? Como pude ser tão estúpido? De fato, a rua, no centro da cidade, estava vazia, lembrei. Era o final de um sábado e voltávamos de um almoço tardio, eu, minha mulher e meus três filhos. O sol tinha uma inclinação perfeita e estávamos imersos numa felicidade descompromissada. Quando vi a chance, apertei rápido o botão e continuei andando, alegrando-me ainda mais ao ver o resultado no visor do celular. Desde o princípio, achei que as duas sombras, projetadas nos tapumes de um centro comercial fechado, fossem a minha, de frente, e a da minha mulher, que andava preguiçosamente ao meu lado. Eu realmente acreditei nisso. Não havia ninguém, repeti a mim mesmo. Na cama, antes do ritual, falei com ela sobre o assunto, que por milagre se lembrou perfeitamente da situação, confirmando minhas memórias. Como explicar, então? Seria possível alguma interferência nos dados do meu telefone? Eu havia sido roubado e não sabia? E por que alguém se interessaria em ter em mãos essa imagem, na qual não há homens ou mulheres públicas, pornografia ou mesmo humanos propriamente ditos? Durante uma semana e meia, olhei esses dados por todos os lados que meu intelecto era capaz de imaginar, paguei para consultar especialistas e mantive contato com familiares e amigos, gente iniciada em informática, mas nada de novo surgiu. De qualquer maneira, era preciso uma nova tentativa com a maior urgência, repetia a mim mesmo sem parar, pois a situação era insustentável, colocava em risco gritante o princípio fundamental de toda a Autofotografia, que como já disse é o único método confiável que já concebi para dar um grau mínimo de estabilidade à minha existência. Decidi fazer uma nova visita, e ser o mais honesto possível nela: por mais perigoso que fosse, seria preciso quebrar o segredo a um desconhecido. Não havia outra maneira, concluí. O fotógrafo abriu a porta e me atendeu, mas sem me deixar entrar. Depois de ouvir minha longa e detalhada narrativa sobre a Autofotografia, sobre a importância dela para minha vida, na qual eu me esmerei em ser o mais objetivo e claro possível, superando a emoção inerente à ela, ele deu uma gargalhada ainda mais ruidosa do que da primeira vez e perguntou se eu estava bem, se havia algo de errado com a minha cabeça, se eu era, em resumo, um maluco. Neguei veementemente, tentando não me descontrolar, sendo racional e direto, mas ele só ria mais. É um sádico, pensei, caí nas mãos do pior tipo de gente. Não demorou a me expulsar da porta de sua propriedade. Preocupadíssimo, quase chorando de pavor, percebi que era obrigado a buscar uma solução drástica. Agachado embaixo do que me pareceu a caixa de medição de energia de seu vizinho, o observei saindo. Quando voltou e estacionou o carro, corri desajeitado em sua direção, eu, um gordo e graduado funcionário público, um homem de meia idade honrado e sensível, e bati-lhe na cabeça com uma grande pedra que havia alisado e engordurado durante as horas em passei no esconderijo. Até onde pude constatar, o fotógrafo já caiu morto. Arrastei ofegante o corpo para dentro da casa, aterrorizado pela idéia de que alguém poderia estar me observando, mas aparentemente nada disso ocorreu, e me vi então no silêncio de sua confortável casa de dois andares. Liguei o computador, apaguei todos os arquivos de imagens e destruí a máquina fotográfica e todos os cartões de memória e ia saindo, gélido, quando percebi que o trabalho não estava terminado. Foi como a iluminação recebida na noite febril em que concebi o ritual. Percebi que era duro, de fato transtornante admitir isso, mas o trabalho não estava terminado. Nu e munido de uma faca de churrasco, um utensílio caro e muito afiado achado na cozinha, abri delicadamente um grande talho na barriga do sádico. Separei, enojado, cada pedaço de carne que me pareceu ser um órgão, separei a cabeça e os membros do tronco, espalhei tudo pelo carpete cinza e tirei centenas de fotografias. Ao menos duas de cada parte. Em casa, sozinho em frente à tela do computador, muito mais calmo, olhei demoradamente cada uma das fotos e ensaiei dizer, sem expectativa nenhuma: este é o meu olho direito, o meu olho direito está aqui, este este olho direito é MEU, olhando fixamente para a bolota branca de íris azulada do fotógravo que tremula atrás de meu monitor. Verdade, disse. Verdade. Uma grande alívio se apossou de mim e uma estrada de possibilidades se abriu.

Sombras

Há vários anos venho produzindo álbuns fotográficos completos de mim mesmo. Já são centenas deles, e os escondo com eficiência em uma quitinete que aluguei unicamente com esse objetivo. Produzo ao menos vinte e cinco fotos diárias do meu rosto e de partes do meu corpo. Quanto mais recente, mais verossímil e valiosa. Levo ao menos um álbum para onde vou, em malas, bolsas ou mochilas. Preciso estar próximo de um deles, para poder folheá-lo nos momentos necessários. Ninguém nota ou faz perguntas, e isso me satisfaz. As fotos, as capturo quando tenho vontade _na sala, no carro, logo ao acordar, durante o sexo, comendo, sozinho e em grupo e em dupla, enfim, a qualquer momento. Sobre isso também ninguém nunca me inquiriu, nem mesmo minha mulher e filhos. Penso: nenhum valor supera a privacidade. Costumo usar o celular, é obviamente mais prático, mas tenho também pequenos daguerreótipos feitos por encomenda. Juntos, formam um quebra-cabeças de mim mesmo. Neles, estou nu, para evitar as torpes falsificações das roupas. O modelo de álbum que uso é muito barato, acredito que um dos mais precários que há no mercado: grossas capas de papelão recobertas de plástico preto que não demoram a rasgar e a se dobrar nas pontas. Dentro, ensacado em mais plástico transparente, estou eu. Não há parte nenhuma do meu corpo que já não tenha sido extensamente registrada. São centenas de cada centímetro. Segundo minha última contagem, apenas o nariz foi fotografado quinhentas e quarenta e duas vezes. Coleciono também imagens radiográficas e tomográficas, assim como qualquer outra gerada a partir de exames. Tenho fotos do meu cérebro e do meu fêmur e do meu intestino, para ficar em exemplos mais conhecidos. Não são das melhores, mas o meu cérebro, o meu fêmur e o meu intestino são aquilo. É inegável. Fica muito mais fácil se afeiçoar aos órgãos, ossos, músculos, veias e artérias quando você sabe como eles se parecem. É tal qualquer coisa do mundo: ao longo do tempo, percebe-se as pequenas sutilezas que os tornam únicos e seus. Um processo de apropriação específico e prazeroso. Como eu poderia saber que minha bacia tem uma ondulação ligeiramente errada em sua porção inferior direita, não fosse a maravilha da tecnologia médica? Assumo sem constrangimento que já fingi os sintomas de uma doença crônica para conseguir ter microcâmeras passeando pelo meu coração. E que já seduzi uma enfermeira apenas para acessar de maneira irrestrita a máquina de raio-x. O resultado foi recompensador. Certa vez, participei de uma comunidade virtual em que trocava-se imagens internas, mas desisti. Essencialmente, entendi depois dessa experiência que não gosto de ceder cópias e muito menos de emprestar meus originais. Que isso me repugna, enlouquece, me transporta de volta ao antigo caos. Hoje, tento seguir com rigor o princípio fundamental que criei para um auto-fotógrafo, como simploriamente me denomino: controle absoluto e total do processo. Desde que comecei a levar a sério a Auto-fotografia, quando alcancei meu estado espiritual atual, não permito a mais ninguém, afora eu mesmo, tirar fotos de meu corpo. Nem mesmo um fio de pelo. As pessoas confundem isso com timidez extrema ou um tipo não preocupante de patologia mental, impressão que serve bem aos meus objetivos. Para tudo ficar dentro dos mais rígidos padrões de certeza que me impuz, é terminantemente proibido também a qualquer pessoa usar, sob todos os aspectos, minhas imagens. Houve algumas complicações, mas minha obstinação superou essas questões pontuais, ao preço da corrupção e do uso de minha autoridade profissional. De fato, hoje tenho contatos espalhados por todas as esferas da segurança pública, que ajudam a mapear onde estão as câmeras de vídeo do Estado, assim como tomo um cuidado inimaginavelmente minucioso em observar quem pode, mesmo que de maneira acidental, incluir-me em seus próprios álbuns. Fiz também uma lista de lugares em que só posso estar devido a compromissos inadiáveis, como pontos turísticos etc. Em situações extremas, poderei me fantasiar, mas isso nunca foi preciso. Esses atos podem ser espúrios, ridículos e me tragar uma quantidade de energia grotesca, mas têm um fim tão importante para a manutenção do meu equilíbrio que valem a pena. O ápice da Auto-fotografia, seu cerne, é um ritual diário inventado por mim mesmo num dia que considero hoje iluminado, visto que não há notícia de outro modelo de Auto-fotografia que não o meu. É quando todos dormem em casa que ele se realiza. O primeiro passo é deitar-me nu sob o piso frio do banheiro. Não importa a temperatura da noite, é necessário que eu me deite nu no piso frio do banheiro contíguo ao quarto. E meu corpo precisa estar entre a sétima e a trigésima linha de azulejos, contando da esquerda para a direita de quem entra. Coloco um álbum de imagens e um pequeno espelho ao alcance das mãos e começo pelo olho direito, obrigatoriamente. Pego um retrato dele e me observo, comparando o que vejo no espelho com a foto e digo, no menor volume possível: este é o meu olho direito, o meu olho direito está aqui, este olho direito é meu. Respiro aliviado e digo: verdade. Depois passo pelas diferentes partes do tronco, pelas costas (para as quais construí um extensor do espelho), pelos membros, os cabelos, orelhas etc. O procedimento é sempre o mesmo _por exemplo: este é o meu pênis, o meu pênis está aqui, este pênis é meu; (alívio); verdade. Normalmente uso apenas uma imagem interna a cada ritual, que por metonímia representa tudo que resta sob a pele. Caso tenha em mãos o intestino, toco em meu ventre e repito os dizeres. Em qualquer instante do ritual, se gaguejo ou digo o nome da parte do meu corpo de maneira incompreenssivel, tenho de falar a frase inteira de novo. A penalidade é maior quando pronuncio mal a palavra verdade. É necessário então recomeçar o ritual desde o olho direito. Um sistema completo de funcionamento independente e estritamente pessoal, de minha lavra. Tudo para que não haja falhas. As falhas são perigosíssimas, calculo, e podem colocar minha existência em risco, conforme entendi depois de me convencer da necessidade irrevogável do ritual. Só posso dormir em paz quando, ao me deitar nu, repito cem vezes: verdade, verdade, verdade, tateando-me dos pés à cabeça. Sou discreto para não acordar minha mulher. Também tento visualizar mentalmente essa palavra, com a letra inicial maiúscula: Verdade. Às vezes ela me vem em forma de labaredas de fogo ou como um escrito na areia ou rabiscada em um dos cadernos que usava em minha época escolar. De qualquer maneira, obrigo-me a ter esse único pensamento antes de dormir: Verdade. A palavra também deve ser a primeira a ser dita conscientemente ao me levantar. É um procedimento simples, que me dá confiança na vida e alegria para cuidar da minha família e prosperar no emprego. Graças ao método que orgulho-me de ter criado, tenho um grau muito respeitável de certeza sobre a minha condição. Mas o registro de partes do meu corpo de nada valheria se não houvesse pensado num meio inatacável, honesto e verdadeiro para me capturar por inteiro. Logo entendi que uma simples foto completa seria inviável, pois, segundo raciocinei estudando as minhas auto-imagens, esse conjunto, em cores e detalhes, representa uma outra coisa que em nada se relaciona comigo. A soma em si é algo diferente dos elementos que a compõem. Trata-se de uma lógica basal. Assim, diante da necessidade real e imediata de ter fotos do todo de minhas partes, sou obrigado a retratar minha sombra, os contornos negativos que contém minha cabeça, meu tronco e meus membros. Como é possível imaginar, as fotos de minha sombra, ao lado das dos olhos, são das mais importantes. Tanto que o primeiro momento do ritual só se consuma quando me detenho em uma delas antes de sair do banheiro. Sua captura ideal é das mais difíceis, a despeito de minha projeção estar sempre à espreita. É preciso o ângulo, a luz e o momento certos, além de uma superfície muito lisa. Caso contrário, saio borrado e a minha identificação é imprecisa. São necessárias diversas tentativas para conseguir um produto utilizável. Por isso, a sombra é, sozinha, o principal objeto de meus auto-retratos. Na última semana, uma falha gravíssima no que concerne a essa questão levou-me a uma otimização sem precedentes do método. É a história que vou contar rapidamente. Descobri com estupor, num site da internet, uma foto idêntica à uma das que eu mesmo havia tirado da minha sombra. Era identificada com sendo da autoria de um desconhecido fotógrafo profissional. Em pânico contido, não demorei a conseguir seu endereço e fui visitá-lo. Ele me recebeu em sua sala. Fantasiei, mostrando a impressão da imagem que eu havia capturado, que tínhamos sido vítimas de uma coincidência terrível, raríssima, difícil de supor caso eu não estivesse segurando ali a própria prova do ocorrido. Menti, sem entrar em maiores detalhes, que se tratava de um problema religioso, dos mais graves. Afirmei, por isso, que era urgente que ele não apenas tirasse a imagem do ar, como também apagasse para sempre ela de seus arquivos e que eu acompanhasse todos esses passos, expliquei, para me assegurar que eles seriam definitivos. Eu poderia pagar uma alta soma em dinheiro. Ele me olhou com descrença e riu com estrépito. Pôs em dúvida toda a minha versão, a começar pela foto que eu tinha levado. É apenas uma cópia da minha, disse, você nunca tirou essa imagem. Fui obrigado a mostrar a original, em meu celular, mas isso não significou nada. Em silêncio, deu de ombros e ficou me olhando, como que esperando minha próxima mentira. Nem quis saber o tamanho de minha oferta monetária. Nervoso, confundi as palavras e suei asquerosamente. Percebendo que minha razão não estava em sua produtividade máxima, fui embora. Era melhor ter tempo para articular outra maneira de me aproximar, evitar qualquer tiro n’água diante de um problema tão devastador: minha sombra, exposta a centenas de milhões de pessoas simultaneamente. Que tipo de danos estrutuais o sistema poderia sofrer em uma situação dessas? Meu diagnóstico era o único possível: a extinção da Auto-fotografia era iminente. Mais do que nunca, não era aceitável a mim errar. Com calma, tentei rememorar o que se passara naquela dia. Como não percebera que havia alguém em meu encalço? Como pude ser tão estúpido? De fato, a rua, no centro da cidade, estava vazia, lembrei. Era o final de um sábado e voltávamos de um almoço tardio, eu, minha mulher e meus três filhos. O sol tinha uma inclinação perfeita e estávamos imersos numa felicidade descompromissada. Quando vi a chance, apertei rápido o botão e continuei andando, alegrando-me ainda mais ao ver o resultado no visor do celular. Desde o princípio, achei que as duas sombras, projetadas nos tapumes de um centro comercial fechado, fossem a minha, de frente, e a da minha mulher, que andava preguiçosamente ao meu lado. Eu realmente acreditei nisso. Não havia ninguém, disse a mim mesmo. Na cama, antes do ritual, falei com ela sobre o assunto, que por milagre se lembrou perfeitamente da situação, confirmando minhas memórias. Como explicar, então? Seria possível alguma interferência nos dados do meu telefone? Eu havia sido roubado e não sabia? E por que alguém se interessaria em ter em mãos essa imagem, na qual não há homens ou mulheres públicas, pornografia ou mesmo humanos propriamente ditos? Durante uma semana e meia, olhei essas condições por todos os lados que meu intelecto era capaz de imaginar, paguei para consultar especialistas e mantive contato com familiares e amigos, gente iniciada em informática, mas nada de novo surgiu. Com problemas de sono e rendimentos profissionais e afetivos tremendamente alterados, próximos do zero, me parecia cada vez mais claro e límpido que não poderia esperar mais para fazer uma nova tentativa. A situação era insustentável, e precisava ser sanada a qualquer custo. Decidi fazer uma segunda visita, e ser o mais franco possível nela: por mais perigoso que fosse, eu quebraria o segredo a um desconhecido. Não havia outra maneira, concluí. O fotógrafo abriu a porta e me atendeu, mas sem me deixar entrar. Depois de ouvir minha longa e detalhada narrativa sobre a Auto-fotografia, sobre a importância dela para minha vida, na qual eu me esmerei em ser o mais objetivo e claro possível, superando a emoção inerente àquilo, ele deu uma gargalhada ainda mais ruidosa do que da primeira vez . Perguntou se eu estava bem, se havia algo de errado com a minha cabeça, se eu era, em resumo, um maluco. Neguei veementemente, tentando não me descontrolar, sendo racional e direto, mas ele só ria mais, parecia se divertir. É um sádico, pensei, caí nas mãos do pior tipo de gente. Não demorou a me expulsar da porta de sua propriedade. Quase chorando de pavor, sob a influência concreta dos antigos pensamentos, segundo os quais a cada mínimo instante perdemos um pedaço de nós, segundo os quais desaparemos e encolhemos gradual e lentamente, segundo os quais isso é um fato físico e mensurável, quase vendo essa fumaça escura aproximando-se por trás para me agarrar e envolver sem chance de fuga ou redenção futura, percebi que seria obrigado a buscar uma solução drástica. Agachado embaixo do que me pareceu a caixa de medição de energia de seu vizinho, o observei saindo. Quando voltou e estacionou o carro, corri desajeitado em sua direção, eu, um gordo e graduado funcionário público, um homem de meia idade honrado e sensível, e bati-lhe na cabeça com uma grande pedra que havia alisado durante as horas em que passei no esconderijo. Até onde pude constatar, o fotógrafo já caiu morto. Arrastei ofegante o corpo para dentro da casa, aterrorizado pela idéia de que alguém poderia me observar, mas aparentemente nada disso ocorreu, e me vi então no silêncio de seu confortável lar de dois andares. Observei por poucos minutos o álbum que trazia, em busca de paz interior. Com mais clareza mental, apaguei todos os arquivos de suas imagens, as que estavam no disco rígido e as que estavam na internet. Tomei para mim as máquinas fotográficas e todos os cartões de memória que achei revirando cada canto da casa. Quase feliz perante minha simulação de latrocínio, entendi que o trabalho não estava terminado. Foi como a iluminação recebida na noite febril em que criei o ritual. Pensei que era duro, de fato transtornante admitir isso, mas o trabalho não estava terminado. Nu e munido de uma faca de churrasco, um utensílio caro e muito afiado achado na cozinha, abri delicadamente um grande talho na barriga do sádico. Separei cada pedaço de carne que me pareceu ser um órgão, separei a cabeça e os membros do tronco, espalhei tudo pelo carpete cinza e tirei dezenas de fotografias. Ao menos duas de cada parte, com exceção do cérebro, que não pude extirpar devido à falta de uma ferramenta correta. Já era madrugada quando fui embora, esgueirando-me lépido e ainda pelado até meu carro. As roupas eu queimaria depois. Em casa, após um prolongado e relaxante ritual, sozinho em frente à tela do computador, olhei demoradamente cada uma das fotos e ensaiei dizer, sem expectativa nenhuma: este é o meu olho direito, o meu olho direito está aqui, este olho direito é meu, olhando fixamente para a bolota branca de íris azulada do fotógrafo. Tocava a imagem macia que tremulava atrás de meu monitor e falava: Verdade. Verdade. Posso dizer que uma estrada de esperanças se abriu.

Anversos


São traços que remetem aos prados de sua infância, campos abertos que se estendiam até cercas bem distantes e nos quais era possível correr até cansar sem que se alcançasse o fim.

Havia um fim, sim, e esse fim era uma cerca de madeira e arame cheia de buracos por onde os garotos com maior fôlego conseguiam passar, e do outro lado, desabavam.

Sua arte fazia alusões ao movimento dos jovens: aleatório dentro de um espaço controlado, extenso com o limite no fracasso, digno da velocidade incontrolável do tempo.

Algumas vezes era influenciado pela cantoria dos homens no beira da estrada, noutros, pegava um silêncio de qualquer geografia e fazia dele um novelo de frases engolidas.

Era irresponsável: agarrava as ambições dos outros e fazia delas algo tão seu que quando as via realizadas as jogava em papel de arquivo, de onde não sairiam até o fim.

Um bizarro fetiche pela vossa desgraça. Como se os garotos correndo soltos não vissem detalhe algum das pegadas que não aqueles engolidos pela lama recente, que a tudo deforma.

E, muito antes da cerca longínqua, já caíssem nos buracos negros entre a grama verde e soltassem longos suspiros de desespero e cansaço.

Havia atrás deles uma distância tão longa quanto aquela à frente. Voltar, se possível, os faria fracos, seguir, era impossível, ficar: tentador. Eram desgraçados.

Uma arte que, no entanto, não fazia concessões aos valores mesquinhos e imediatistas; era a solução de um estilo de vida deslocado, flutuante e colateral.

Aos outros, restos na sua calda imantada, dizia: os recolho pelo caminho não importa a velocidade com que os atropelo.

É possível que em algum momento o tédio tenha se apoderado de suas escolhas. O radical, o outsider, é um demônio irresoluto feito dos fragmentos de uma criança encarcerada.

Que o destino do jovem fosse flutuar como outro cometa desditoso, não seria questão de deixá-lo estático sobre as escolhas envolvendo seu corpo como água.

Tinha um crânio feito de cerâmica, saído do forno sem o conteúdo terroso que lhe daria sentido; ficava sobre o tronco de um ser inanimado, preso a gravetos para espantar corvos.

Era fruto de sua arte revolucionária até que seu sentido respingasse nas adjacências, de onde outras gotas partiam para todos os lados, enxarcando tudo com resquícios.

Era ainda assim um artista tão grande que à sua volta as cercas estavam intactas, como se ninguém até aquele momento tivesse se aventurado a trespassá-las.

Ou então, estavam todos no meio do seu caminho, esperando a decisão definitiva de romper ou não suas barreiras. Decisão que dependia da nem sempre previsível formação de lama.

Eram traços que remetiam aos outros prados de sua infância, idênticos aos prados limitados de uma infância qualquer, mesmo se esquecida, mesmo se inexistente.

Zápara 6

Memo2

Terça-feira, 13h25
G., ontem tive uma noite assustadora. Foi durante um jantar organizado pela associação comercial, presidida por Juan, na casa
do prefeito à beira do lago. Gringo, hoje você verá o que nossa cidade tem de melhor, disse o patrão enquanto corria para
lavar e secar seu terno à tempo, durante a tarde, quase ao final do expediente de um dia particularmente cansativo, em que
vendemos mais pedais para guitarra e extensões para microfone do que em toda a minha curta estadia em Z. Rubia me olhou e
falou que já não era sem tempo, acariciando minha nuca. Pensei: o que vou vestir? Arranjei-me com uma camisa antiga, o que
havia de mais formal em minha bagagem de jovem aventureiro fugido de casa, e tentei modular meus cabelos com muita água e
gel, mas qual não foi a minha surpresa ao descobrir que quase todos os convivas, afora eu, Rubia e Juan, que viemos juntos no
velho citroen cortando trôpegos os pastos sem fim que rodeiam Z., estavam fantasiados. Não com máscaras, entendi logo que a
grande porta de madeira se abriu e o salão se virou para nós três, mas com vestidinhos de enfermeiras, chapéus de caubóis,
togas de juízes e perucas de alguma corte do século dezessete, completos desconhecidos fantasiados de personagens que eu vira
nos cinemas e ouvira falar em livros. Olhei para Rubia com ar de espanto, mas ela, enfiada em um longo colante vermelho
claro, cada naco de seu corpo esticando o tecido, forçando os limites físicos do tecido com sua, digamos, voluptuosidade
material, riu muito, e todos riram também, incluindo Juan, lembro-me de ter olhado para o fundo do salão e de ter visto duas
camponesas alemãs cochichando alegremente sobre o que só poderia ser minha expressão de incompreenssão, e depois bateram
palmas e cantaram parabéns a você, e acho que durante esses segundos eu não consegui mudar minhas feições, sorrindo sem
mostrar os dentes, e só quem observasse com mais atenção meu cenho tensionado e meus olhos girando rapidamente de um canto ao
outro intuiria o que se passava em minha mente, isto é, que eu havia, sonâmbulo, entrado em uma casa de diversões oníricas ou
que ainda estava no carro, cochilando com a cabeça encostada no  vidro do passageiro, ou mesmo que eu havia voltado para
você, a mãe e o pai, mas já não era capaz de identificar os que estiveram comigo durante aquela (essa) vida passada. Quando o
efeito anestésico da recepção foi embora, me vi sentado na cabeceira da mesa de um das dezenas de ambientes da casa, de fato
da mansão à beira do lago, que por meio de grandes janelas ficava exposto à contemplação de cada um de nós, um pano negro com
pontos de luz tremeluzentes pendurado na parede. Tentava explicar a um motoqueiro violento, um soldado prussiano e ao que
acreditei ser uma mulher fantasiada de zumbi o fato de eu não ter nascido naquele dia, de eu ser um homem de abril e não de
novembro, e que agradecia a idéia de uma festa surpresa tão inusitada e trabalhosa, simulada até por meu patrão e por minha
colega de trabalho. De qualquer maneira, dizia, era preciso reestabelecer a verdade. Mas não estavam muito interessados neste
fato, G., e afirmaram que aquela era uma maneira de introduzir-me em um dos costumes de Z., ou melhor, como explicou um xeque
árabe, em uma tradição dos fundadores de Zápara, cujos descendentes todos ocupavam o salão, dançando músicas típicas deste
país e fox trots que eu desconhecia. Gringo, essa é apenas uma maneira de dizermos bem vindo, pois quando se chega ao nosso
belíssimo povoado, é uma espécie de renascimento, hombre, exclamou uma velha cheerleader, deixando cair a espiga de milho que
engordurava suas mãos. Quando o jantar acabou e o cheiro de vinho branco adocicado saturou a salão enfeitado com balões de
hélio, pude ver múmias de papel higiênico levantando as anáguas de frauleins nos banheiros e dois jóqueis de olhar preocupado
levando sereias para uma sala reservada. Homens bêbados se despiam de suas fantasias e, de cuecas, gritavam frases
incongruentes e perdiam o controle de seus corpos ao tentar acompanhar o que saía das caixas de som penduradas nos cantos do
teto, caindo solenemente no chão. Essa então é a elite daqui, pensei, são essas as famílias que criaram a cidade de nome
glorioso que escolhi viver, logo me culpando pelo tom moralista e preconceituoso de meu julgamento.  Mesmo que quisesse, não
poderia ter me juntado a essa orgia precária, pois, com a mão de Rubia pousada sobre a minha coxa esquerda e Juan aparando
meu ombro com seu próprio ombro, fui alvo de um beija-mão de dezenas de personagens. Bom poder lhe conhecer, Gringo, afirmou
um aborígene; Você é justamente como disseram, amigo, disse um cientista maluco; Ave, Gringo, cumprimentou um legionário
segurando uma espada de papelão. Alguns realmente pegaram em minha mão direita e a beijaram, por vezes molhando-a com
gotículas de saliva. Outros a tomavam para si, alisando-a com força enquanto falavam. A certa altura, quase ao final da
noite, perguntei a Juan onde estava o dono da casa, onde estava o prefeito, o famoso Salazar Crioulo, eu disse, e ele falou
que ocorria uma reunião importante sobre o grande evento que Zápara receberia dentro de uma ou duas semanas, o evento que a
cidade esperava há cerca de um ano, quando a Banda chegara aqui, afirmou. Entendi que o nome desse evento _ele não usava a
palavra show, ou apresentação, ou concerto_ era o que eu lia nas camisetas pretas usadas pelos adoradores do Grupo,
Disappear. Será um momento definitivo para o nosso povo, Gringo. Lembrei da história contada por Rubia na semana anterior, e
do perigo que ameaçava Zápara, aquela história estapafúrdia, engraçada e falsamente dramática que relatei em minha última
carta a você, G.,  saída provavelmente de um manual de historietas banais, e que acabei por esquecer até a festa. Após essa
explicação, ele se levantou e foi até o segundo andar, abrindo uma porta por onde escapavam laivos de fumaça e vozes
masculinas. Logo voltou e me chamou, sem nada dizer, apenas aparecendo na escada e indicando com o dedo para que eu o
acompanhasse. Caríssimos, cá está ele, falou para os três homens que ocupavam o grande e enevoado cômodo parcamente
mobiliado, forrado por estantes abarrotadas de livros. Em pé, havia um índio alto, careca e de óculos, pescoço e braços de
alterofilista, vestindo um conjunto de tecidos brancos que trespassava seu tronco. A fantasia parecia ser a de um líder
religioso indiano, pensei. Sentados, dois jovens, branquelos e magricelas, cabelos longos, lisos e louros, tipos que nunca
havia visto em Z., vestidos como decadentes estrelas do rock _largas calças de couro e camisetas grudadas em seus peitos
esqueléticos.  Ao lado deles, cinzeiros transbordantes. O primeiro era Salazar Crioulo, e os dois outros eram Sebástian e
Pierre, este último dono de um cavanhaque que percebi ser falso. O prefeito correu para me abraçar, e pude então constatar o
quão era forte e maciço, com costas trincadas pelo o que imaginei serem músculos hipertrofiados. Ah, ele disse e ficou me
olhando com um sorriso que entendi ganancioso, o que me constrangeu e me obrigou a baixar os olhos. Ah, ele disse de novo, é
um homem muito saudável, Gringo, é um homem muito bem apanhado, percebe-se imediatamente. Que satisfação, que satisfação!
Levou-me até os dois, que se mantinham impassíveis. A distância pareceu enorme, lembro-me de terem sido ao menos dez ou
quinze passos largos, algo do tipo, lembro-me de ter pensado quem precisa de uma sala assim deste tamanho, e quando me
aproximei tomei um susto, quase soltei um grito, ao reconhecer nos dois meus dois melhores amigos de infância,  figuras que
habitavam o subterrâneo de meu passado e  que emergiram sentadas em um sofá de pano rústico de uma enorme sala nos arredores
de uma cidade remota da América caribenha chamada Zápara. Fitaram-me com a mesma desconfiança que inspiravam em mim, pensei,
como se fossem cópias bizarras e envelhecidas do preocupado Emílio e do sempre atrasado Bernardo e não entendessem o que eu,
o corajoso e um pouco tristonho colega de sala com quem andaram há mais de vinte anos, fazia ali, caminhando rumo a eles numa
enorme sala de uma cidade remota da América caribenha chamada Zápara. Disseram oi e se levantaram um a um para apertar minha
mão, dando tapas amigáveis em minhas costas. Não pude parar de observá-los, nem eles de me olharem, e vi com horror como
estavam magros e amarelados e com bolsas negras sob os olhos.  Pierre e Sebá, esse é o homem de quem lhes falei, disse Juan,
ladeado por um Crioulo que mal podia parar de sorrir ou soltar silvos de alegria, e me chamou a atenção como o patrão se
dirigiu aos dois com naturalidade e propriedade. Sebá falou que era bom conhecer a mim, o Gringo, usando um acento específico
no momento de pronunciar esse nome pelo qual sou conhecido aqui, e Pierre ficou em silêncio, no que me pareceu uma
concordância com o comentário do outro, e eu não me movi e eles não se moveram e houve um silêncio entre nós cinco. Ansiava
desesperado que algum dos dois dissesse Não fomos colegas de escola, Gringo? ou Espere aí, acho que você não me é estranho,
mas não comentaram o fenômeno que eu assistia com os mesmos olhos que agora vêem essa caneta correr neste papel, G., e sim
sobre um convite. Eu deveria saber que algo de muito importante, de definitivo, ocorreria nas próximas semanas, um dos dois
afirmou, e que esse evento seria conduzido pela Banda, disse, da qual representavam dois terços, afirmou, e que deste evento
eu era o convidado especial, disse, dele eu seria peça-chave. Ouvi essas palavras tentando me lembrar de Bernardo e de
Emílio, dos meus amiguinhos, mas o que surgia eram apenas esboços dos fatos ocorridos ou rostos esmufaçados pelo tempo, e já
não sabia o que usar para esclarecer a situação, para trazer de volta à vida aqueles dois meninos. Distante, não compreendi a
solenidade que havia no convite feito a mim, solenidade essa que levou Juan e Salazar Crioulo a se aproximarem, colocarem
suas mãos sobre meus ombros e a me cumprimentarem com abraços, os rostos consternados e os olhos quase em lágrimas.
Correspondi atônito e os abracei ainda olhando para Pierre e Sebástian, ainda tentando explicar como Bernardo e Emílio
poderiam ter se transformado nos indivíduos que via e só pude me resgatar dessas lembranças perguntando, num impulso, se a
Banda era da minha cidade, da cidade onde fomos criados, G., uma tentativa final de fazê-los dizer a verdade sobre suas
identidades, pensei, ou a menos a verdade que eu imaginava ser a certa para o momento, no que eles responderam secamente que
não e acenderam cigarros. Salazar então se intrometeu, num ato claramente diplomático, tal alguma tensão que nem eu percebera
houvesse sido criada com a pergunta, e me chamou para o pequeno balcão que havia logo ali, no mesmo cômodo, onde se pôs a
narrar parte, e apenas parte, da história da Banda, oferecendo uísque e segurando longamente pedras de gelo enquanto falava.
Eles são como médicos, disse o prefeito, e sua música é como um remédio para a doença que viceja em nosso povo. De fato, se
apresentaram a mim como estudiosos estrangeiros, tinham credenciais e falavam palavras estranhas com um sotaque nórdico,
achei, e tinham também em mãos um estudo, um calhamaço de papéis com gráficos e palavras em latim ao qual tiveram acesso.
Eram, por motivos que desconheço, documentos secretos, produzidos por alguns dos melhores doutores, erigidos sob os rigores
do melhor método científico que existe. Eu me interessei, você sabe, essas coisas são interessantes para qualquer homem
letrado como eu, digo, para qualquer um que tenha se interessado por livros durante toda a vida, mas nunca teve a chance real
de conversar com um dos seus num cidade isolada da grande cultura como é a nossa, se é que me entende, Gringo. Eles se
sentaram em meu gabinete e disseram que havia algo de errado, de funesto, em nossa água. Não sei se tem pleno conhecimento da
importância do lago para Zápara, amigo, disse o prefeito. Toda a comida que cozinhamos, tudo o que produzimos para comer, de
alguma maneira leva sua água, que é a mesma que usamos para lavar nossos corpos e, se me permite a licença, Gringo, também
nossos espíritos, percebe? Sempre a consideramos limpa, completamente higienizada pela própria natureza, da qual fazemos
parte de uma maneira harmônica. Era essa a crença. Durante nossa história a água do lago nunca nos trouxe mal algum, pelo
contrário, nos fez pais fortes e capazes, mães atenciosas e crianças alegres, e portanto não havia sinal nenhum de que ela
nos trouxesse doenças ou seja lá que coisa de ruim fosse. E eu disse isso a aqueles três homens calmos, Gringo, aos três
estrangeiros que me ouviam como ouviriam um  filho negar as leis da física, e por fim eles disseram que dariam uma amostra do
mal que o lago, o nosso infinito lago, havia inoculado em cada um de nós. Se eu permitisse, é claro, e eu permiti, não havia
porque lhes negar a chance de provar sua tese, G., não sou um homem arbitrário, sou um democrata. Tiraram então os
instrumentos das malas engraçadas que carregavam e tocaram sua música. É engraçado relembrar isso, já tentei outras vezes,
mas nunca consigo relatar com fidelidade a sensação que me abateu, disse o prefeito Salazar Crioulo, escondendo
intencionalmente com seu corpanzil a mesa de supino e os alteres monstruosos alocados numa espécie de academia privativa em
um anexo à sala, de onde um cheiro azedo chegava.  Digamos que começou com um formigamento nos pés, Gringo, continuou, nas
solas do pés, um formigamento intenso que se alastrou em direção aos joelhos e logo por toda as minhas coxas e aos poucos
neutralizou meu nervos posteriores, derrubando-me no chão. Digamos que olhava para minhas mãos apoiadas no piso de mogno de
minha sala e que elas começaram a tremular, como se as visse por meio de um televisor avariado, e que esse foi o primeiro
sinal do que ocorria com minha visão.  Digamos que conforme a música continuava, me percebi cego, e tentei gritar à Claudia,
minha secretária, para que ela viesse me salvar do que me parecia um atentado contra  mim, G., uma tentativa inexplicável de
tomada do poder à força, e que foi então que descobri que minha voz também havia se perdido, digo, que eu ouvia os meu apelos
por socorro, mas que esse som não saia de minha boca, e sim da minha cabeça. Digamos que levei as mãos às orelhas, mas elas
não estavam lá. Digamos que levei as mãos ao rosto, ao peito e às pernas, e elas não estavam lá. Que nada estava em lugar
nenhum. Que, de fato, todo o meu corpo estava ausente, dele eu não mais tomava conta, entendi, era uma alma viva solta no
universo. O meu indivíduo, a minha existência, se resumia a pensamentos flutuando no vazio, e enquanto eu formulava isso a
dor começou. Pensemos em uma mão sendo triturada lentamente. Em um estilete recortando a epiderme e dela tirando pequenos
selos até despelar por completo um cidadão, G. Em um olho sendo penetrado por um prego em brasa, centímetro a centímetro
durante horas. Em um prego em brasa explodindo dentro da quarta vértebra. Pensemos em um animal que nasce no coração de um
homem e que desse órgão se alimenta diuturnamente. Acho que você compreendeu o que quero dizer, e já deve imaginar que a dor
que senti era muito maior do que as dores causadas por qualquer uma dessas situações hipotéticas. Hoje acredito que tenha
sido um sonho, pois os sonhos são os únicos momentos em que deixamos nossos corpos sozinhos, ou ao menos é o momento em que
mais nos aproximamos disso, e se foi mesmo um sonho acordei dele na mesma cadeira em que estava quando a música começou, com
Lucho dizendo: Entendeu? Em resumo, foi-me explicado ao longo dos dias seguintes à minha Desaparição, não se tratava de algum
animal invisível em nossa água, de um mineral que desregulava nossas funções vitais ou algo do gênero, e sim da própria água,
daquilo parado há seculos, milênios talvez, em uma grande cratera em frente à localidade onde nascemos e nos desenvolvemos. E
a música reaviva essa água, o que há de negativo nela. Haha, Gringo, não tente disfarçar o sorriso. Imagino sua
incredulidade. Por que acreditei neles, você poderia perguntar, G., e eu responderia que foram feitos testes. Primeiro, a
evidência mais óbvia: os únicos da cidade que não haviam tido um contato prolongado com o o lago haviam sido os integrantes
da Banda, e a eles a música era inofensiva, provavelmente  até prazerosa. Depois, os eventos, o que eu chamo de testes em
massa, terminava Crioulo, e os resultados desses eventos, desses testes foram esmagadores, afirmou, repetindo a última
palavra com gosto. No sofá, Juan conversava com Sebá e Pierre, balançando a cabeça em aprovação à algo que eu não soube
identificar com precisão, mas que imaginei se referir a mim. Senti que estiveram ausentes durante toda a história que me foi
narrada. Logo depois, meu patrão se levantou, atravessou o cômodo, e pegou-me graciosamente pelo braço. Não houve tempo para
outros esclarecimentos. Apenas acenei aos três e voltamos ao salão, onde Rubia esperava com um cigarro na mão _nunca a vira
fumando. Ela me abraçou grudando todo seu corpo ao meu, e depois beijando meus lábios com o canto dos seus, uma carícia
disfarçada que se assemelhou a um presente pela suposta conquista que não era minha. E, G., não expus nada disso a eles. Tive
medo de fazer as perguntas certas. Me enfiei no quarto e deitei nu, tocando minha pele ou olhando-me no espelho em busca de
algum tipo de sinal de contaminação. Não dormi. Aliás, ainda hoje pareço ter pulado um dia da minha vida.
Do café onde estou posso ver uma ponta do lago. Pedi uma torta de morangos como sobremesa, mas o garçom se meteu em algum
canto da cozinha e eu me pergunto: onde estava Lucho?
Abraços aos nossos.

Terça-feira, 13h25

G., ontem tive uma noite assustadora. Foi durante um jantar organizado pela associação comercial, presidida por Juan, na casa do prefeito à beira do lago. Gringo, hoje você verá o que nossa cidade tem de melhor, disse o patrão enquanto corria para lavar e secar seu terno à tempo, durante a tarde, quase ao final do expediente de um dia particularmente cansativo, em que vendemos mais pedais para guitarra e extensões para microfone do que em toda a minha curta estadia em Z. Rubia me olhou e falou que já não era sem tempo, acariciando minha nuca. Pensei: o que vou vestir? Arranjei-me com uma camisa antiga, o que havia de mais formal em minha bagagem de jovem aventureiro fugido de casa, e tentei modular meus cabelos com muita água e gel, mas qual não foi a minha surpresa ao descobrir que quase todos os convivas, afora eu, Rubia e Juan, que viemos juntos no velho citroen cortando trôpegos os pastos sem fim que rodeiam Z., estavam fantasiados. Não com máscaras, entendi logo que a grande porta de madeira se abriu e o salão se virou para nós três, mas com vestidinhos de enfermeiras, chapéus de caubóis, togas de juízes e perucas de alguma corte do século dezessete, completos desconhecidos fantasiados de personagens que eu vira nos cinemas e ouvira falar em livros. Olhei para Rubia com ar de espanto, mas ela, enfiada em um longo colante vermelho claro, cada naco de seu corpo esticando o tecido, forçando os limites físicos do tecido com sua, digamos, voluptuosidade material, riu muito, e todos riram também, incluindo Juan, lembro-me de ter olhado para o fundo do salão e de ter visto duas camponesas alemãs cochichando alegremente sobre o que só poderia ser minha expressão de incompreenssão, e depois bateram palmas e cantaram parabéns a você, e acho que durante esses segundos eu não consegui mudar minhas feições, sorrindo sem mostrar os dentes, e só quem observasse com mais atenção meu cenho tensionado e meus olhos girando rapidamente de um canto ao outro intuiria o que se passava em minha mente, isto é, que eu havia, sonâmbulo, entrado em uma casa de diversões oníricas ou que ainda estava no carro, cochilando com a cabeça encostada no  vidro do passageiro, ou mesmo que eu havia voltado para você, a mãe e o pai, mas já não era capaz de identificar os que estiveram comigo durante aquela (essa) vida passada. Quando o efeito anestésico da recepção foi embora, me vi sentado na cabeceira da mesa de um das dezenas de ambientes da casa, de fato da mansão à beira do lago, que por meio de grandes janelas ficava exposto à contemplação de cada um de nós, um pano negro com pontos de luz tremeluzentes pendurado na parede. Tentava explicar a um motoqueiro violento, um soldado prussiano e ao que acreditei ser uma mulher fantasiada de zumbi o fato de eu não ter nascido naquele dia, de eu ser um homem de abril e não de novembro, e que agradecia a idéia de uma festa surpresa tão inusitada e trabalhosa, simulada até por meu patrão e por minha colega de trabalho. De qualquer maneira, dizia, era preciso reestabelecer a verdade. Mas não estavam muito interessados neste fato, G., e afirmaram que aquela era uma maneira de introduzir-me em um dos costumes de Z., ou melhor, como explicou um xeque árabe, em uma tradição dos fundadores de Zápara, cujos descendentes todos ocupavam o salão, dançando músicas típicas deste país e fox trots que eu desconhecia. Gringo, essa é apenas uma maneira de dizermos bem vindo, pois quando se chega ao nosso belíssimo povoado, é uma espécie de renascimento, hombre, exclamou uma velha cheerleader, deixando cair a espiga de milho que engordurava suas mãos. Quando o jantar acabou e o cheiro de vinho branco adocicado saturou a salão enfeitado com balões de hélio, pude ver múmias de papel higiênico levantando as anáguas de frauleins nos banheiros e dois jóqueis de olhar preocupado levando sereias para uma sala reservada. Homens bêbados se despiam de suas fantasias e, de cuecas, gritavam frases incongruentes e perdiam o controle de seus corpos ao tentar acompanhar o que saía das caixas de som penduradas nos cantos do teto, caindo solenemente no chão. Essa então é a elite daqui, pensei, são essas as famílias que criaram a cidade de nome glorioso que escolhi viver, logo me culpando pelo tom moralista e preconceituoso de meu julgamento.  Mesmo que quisesse, não poderia ter me juntado a essa orgia precária, pois, com a mão de Rubia pousada sobre a minha coxa esquerda e Juan aparando meu ombro com seu próprio ombro, fui alvo de um beija-mão de dezenas de personagens. Bom poder lhe conhecer, Gringo, afirmou um aborígene; Você é justamente como disseram, amigo, disse um cientista maluco; Ave, Gringo, cumprimentou um legionário segurando uma espada de papelão. Alguns realmente pegaram em minha mão direita e a beijaram, por vezes molhando-a com gotículas de saliva. Outros a tomavam para si, alisando-a com força enquanto falavam. A certa altura, quase ao final da noite, perguntei a Juan onde estava o dono da casa, onde estava o prefeito, o famoso Salazar Crioulo, eu disse, e ele falou que ocorria uma reunião importante sobre o grande evento que Zápara receberia dentro de uma ou duas semanas, o evento que a cidade esperava há cerca de um ano, quando a Banda chegara aqui, afirmou. Entendi que o nome desse evento _ele não usava a palavra show, ou apresentação, ou concerto_ era o que eu lia nas camisetas pretas usadas pelos adoradores do Grupo, Disappear. Será um momento definitivo para o nosso povo, Gringo. Lembrei da história contada por Rubia na semana anterior, e do perigo que ameaçava Zápara, aquela história estapafúrdia, engraçada e falsamente dramática que relatei em minha última carta a você, G.,  saída provavelmente de um manual de historietas banais, e que acabei por esquecer até a festa. Após essa explicação, ele se levantou e foi até o segundo andar, abrindo uma porta por onde escapavam laivos de fumaça e vozes masculinas. Logo voltou e me chamou, sem nada dizer, apenas aparecendo na escada e indicando com o dedo para que eu o acompanhasse. Caríssimos, cá está ele, falou para os três homens que ocupavam o grande e enevoado cômodo parcamente mobiliado, forrado por estantes abarrotadas de livros. Em pé, havia um índio alto, careca e de óculos, pescoço e braços de alterofilista, vestindo um conjunto de tecidos brancos que trespassava seu tronco. A fantasia parecia ser a de um líder religioso indiano, pensei. Sentados, dois jovens, branquelos e magricelas, cabelos longos, lisos e louros, tipos que nunca havia visto em Z., vestidos como decadentes estrelas do rock _largas calças de couro e camisetas grudadas em seus peitos esqueléticos.  Ao lado deles, cinzeiros transbordantes. O primeiro era Salazar Crioulo, e os dois outros eram Sebástian e Pierre, este último dono de um cavanhaque que percebi ser falso. O prefeito correu para me abraçar, e pude então constatar o quão era forte e maciço, com costas trincadas pelo o que imaginei serem músculos hipertrofiados. Ah, ele disse e ficou me olhando com um sorriso que entendi ganancioso, o que me constrangeu e me obrigou a baixar os olhos. Ah, ele disse de novo, é um homem muito saudável, Gringo, é um homem muito bem apanhado, percebe-se imediatamente. Que satisfação, que satisfação! Levou-me até os dois, que se mantinham impassíveis. A distância pareceu enorme, lembro-me de terem sido ao menos dez ou quinze passos largos, algo do tipo, lembro-me de ter pensado quem precisa de uma sala assim deste tamanho, e quando me aproximei tomei um susto, quase soltei um grito, ao reconhecer nos dois meus dois melhores amigos de infância,  figuras que habitavam o subterrâneo de meu passado e  que emergiram sentadas em um sofá de pano rústico de uma enorme sala nos arredores de uma cidade remota da América caribenha chamada Zápara. Fitaram-me com a mesma desconfiança que inspiravam em mim, pensei, como se fossem cópias bizarras e envelhecidas do preocupado Emílio e do sempre atrasado Bernardo e não entendessem o que eu, o corajoso e um pouco tristonho colega de sala com quem andaram há mais de vinte anos, fazia ali, caminhando rumo a eles numa enorme sala de uma cidade remota da América caribenha chamada Zápara. Disseram oi e se levantaram um a um para apertar minha mão, dando tapas amigáveis em minhas costas. Não pude parar de observá-los, nem eles de me olharem, e vi com horror como estavam magros e amarelados e com bolsas negras sob os olhos.  Pierre e Sebá, esse é o homem de quem lhes falei, disse Juan, ladeado por um Crioulo que mal podia parar de sorrir ou soltar silvos de alegria, e me chamou a atenção como o patrão se dirigiu aos dois com naturalidade e propriedade. Sebá falou que era bom conhecer a mim, o Gringo, usando um acento específico no momento de pronunciar esse nome pelo qual sou conhecido aqui, e Pierre ficou em silêncio, no que me pareceu uma concordância com o comentário do outro, e eu não me movi e eles não se moveram e houve um silêncio entre nós cinco. Anseava desesperado que algum dos dois dissesse Não fomos colegas de escola, Gringo? ou Espere aí, acho que você não me é estranho, mas não comentaram o fenômeno que eu assistia com os mesmos olhos que agora vêem essa caneta correr neste papel, G., e sim sobre um convite. Eu deveria saber que algo de muito importante, de definitivo, ocorreria nas próximas semanas, um dos dois afirmou, e que esse evento seria conduzido pela Banda, disse, da qual representavam dois terços, afirmou, e que deste evento eu era o convidado especial, disse, dele eu seria peça-chave. Ouvi essas palavras tentando me lembrar de Bernardo e de Emílio, dos meus amiguinhos, mas o que surgia eram apenas esboços dos fatos ocorridos ou rostos esmufaçados pelo tempo, e já não sabia o que usar para esclarecer a situação, para trazer de volta à vida aqueles dois meninos. Distante, não compreendi a solenidade que havia no convite feito a mim, solenidade essa que levou Juan e Salazar Crioulo a se aproximarem, colocarem suas mãos sobre meus ombros e a me cumprimentarem com abraços, os rostos consternados e os olhos quase em lágrimas. Correspondi atônito e os abracei ainda olhando para Pierre e Sebástian, ainda tentando explicar como Bernardo e Emílio poderiam ter se transformado nos indivíduos que via e só pude me resgatar dessas lembranças perguntando, num impulso, se a Banda era da minha cidade, da cidade onde fomos criados, G., uma tentativa final de fazê-los dizer a verdade sobre suas identidades, pensei, ou a menos a verdade que eu imaginava ser a certa para o momento, no que eles responderam secamente que não e acenderam cigarros. Salazar então se intrometeu, num ato claramente diplomático, tal alguma tensão que nem eu percebera houvesse sido criada com a pergunta, e me chamou para o pequeno balcão que havia logo ali, no mesmo cômodo, onde se pôs a narrar parte, e apenas parte, da história da Banda, oferecendo uísque e segurando longamente pedras de gelo enquanto falava. Eles são como médicos, disse o prefeito, e sua música é como um remédio para a doença que viceja em nosso povo. De fato, se apresentaram a mim como estudiosos estrangeiros, tinham credenciais e falavam palavras estranhas com um sotaque nórdico, achei, e tinham também em mãos um estudo, um calhamaço de papéis com gráficos e palavras em latim ao qual tiveram acesso. Eram, por motivos que desconheço, documentos secretos, produzidos por alguns dos melhores doutores, erigidos sob os rigores do melhor método científico que existe. Eu me interessei, você sabe, essas coisas são interessantes para qualquer homem letrado como eu, digo, para qualquer um que tenha se interessado por livros durante toda a vida, mas nunca teve a chance real de conversar com um dos seus num cidade isolada da grande cultura como é a nossa, se é que me entende, Gringo. Eles se sentaram em meu gabinete e disseram que havia algo de errado, de funesto, em nossa água. Não sei se tem pleno conhecimento da importância do lago para Zápara, amigo, disse o prefeito. Toda a comida que cozinhamos, tudo o que produzimos para comer, de alguma maneira leva sua água, que é a mesma que usamos para lavar nossos corpos e, se me permite a licença, Gringo, também nossos espíritos, percebe? Sempre a consideramos limpa, completamente higienizada pela própria natureza, da qual fazemos parte de uma maneira harmônica. Era essa a crença. Durante nossa história a água do lago nunca nos trouxe mal algum, pelo contrário, nos fez pais fortes e capazes, mães atenciosas e crianças alegres, e portanto não havia sinal nenhum de que ela nos trouxesse doenças ou seja lá que coisa de ruim fosse. E eu disse isso a aqueles três homens calmos, Gringo, aos três estrangeiros que me ouviam como ouviriam um  filho negar as leis da física, e por fim eles disseram que dariam uma amostra do mal que o lago, o nosso infinito lago, havia inoculado em cada um de nós. Se eu permitisse, é claro, e eu permiti, não havia porque lhes negar a chance de provar sua tese, G., não sou um homem arbitrário, sou um democrata. Tiraram então os instrumentos das malas engraçadas que carregavam e tocaram sua música. É engraçado relembrar isso, já tentei outras vezes, mas nunca consigo relatar com fidelidade a sensação que me abateu, disse o prefeito Salazar Crioulo, escondendo intencionalmente com seu corpanzil a mesa de supino e os alteres monstruosos alocados numa espécie de academia privativa em um anexo à sala, de onde um cheiro azedo chegava.  Digamos que começou com um formigamento nos pés, Gringo, continuou, nas solas do pés, um formigamento intenso que se alastrou em direção aos joelhos e logo por toda as minhas coxas e aos poucos neutralizou meu nervos posteriores, derrubando-me no chão. Digamos que olhava para minhas mãos apoiadas no piso de mogno de minha sala e que elas começaram a tremular, como se as visse por meio de um televisor avariado, e que esse foi o primeiro sinal do que ocorria com minha visão.  Digamos que conforme a música continuava, me percebi cego, e tentei gritar à Claudia, minha secretária, para que ela viesse me salvar do que me parecia um atentado contra  mim, G., uma tentativa inexplicável de tomada do poder à força, e que foi então que descobri que minha voz também havia se perdido, digo, que eu ouvia os meu apelos por socorro, mas que esse som não saia de minha boca, e sim da minha cabeça. Digamos que levei as mãos às orelhas, mas elas não estavam lá. Digamos que levei as mãos ao rosto, ao peito e às pernas, e elas não estavam lá. Que nada estava em lugar nenhum. Que, de fato, todo o meu corpo estava ausente, dele eu não mais tomava conta, entendi, era uma alma viva solta no universo. O meu indivíduo, a minha existência, se resumia a pensamentos flutuando no vazio, e enquanto eu formulava isso a dor começou. Pensemos em uma mão sendo triturada lentamente. Em um estilete recortando a epiderme e dela tirando pequenos selos até despelar por completo um cidadão, G. Em um olho sendo penetrado por um prego em brasa, centímetro a centímetro durante horas. Em um prego em brasa explodindo dentro da quarta vértebra. Pensemos em um animal que nasce no coração de um homem e que desse órgão se alimenta diuturnamente. Acho que você compreendeu o que quero dizer, e já deve imaginar que a dor que senti era muito maior do que as dores causadas por qualquer uma dessas situações hipotéticas. Hoje acredito que tenha sido um sonho, pois os sonhos são os únicos momentos em que deixamos nossos corpos sozinhos, ou ao menos é o momento em que mais nos aproximamos disso, e se foi mesmo um sonho acordei dele na mesma cadeira em que estava quando a música começou, com Lucho dizendo: Entendeu? Em resumo, foi-me explicado ao longo dos dias seguintes à minha Desaparição, não se tratava de algum animal invisível em nossa água, de um mineral que desregulava nossas funções vitais ou algo do gênero, e sim da própria água, daquilo parado há seculos, milênios talvez, em uma grande cratera em frente à localidade onde nascemos e nos desenvolvemos. E a música reaviva essa água, o que há de negativo nela. Haha, Gringo, não tente disfarçar o sorriso. Imagino sua incredulidade. Por que acreditei neles, você poderia perguntar, G., e eu responderia que foram feitos testes. Primeiro, a evidência mais óbvia: os únicos da cidade que não haviam tido um contato prolongado com o o lago haviam sido os integrantes da Banda, e a eles a música era inofensiva, provavelmente  até prazerosa. Depois, os eventos, o que eu chamo de testes em massa, terminava Crioulo, e os resultados desses eventos, desses testes foram esmagadores, afirmou, repetindo a última palavra com gosto. No sofá, Juan conversava com Sebá e Pierre, balançando a cabeça em aprovação à algo que eu não soube identificar com precisão, mas que imaginei se referir a mim. Senti que estiveram ausentes durante toda a história que me foi narrada. Logo depois, meu patrão se levantou, atravessou o cômodo, e pegou-me graciosamente pelo braço. Não houve tempo para outros esclarecimentos. Apenas acenei aos três e voltamos ao salão, onde Rubia esperava com um cigarro na mão _nunca a vira fumando. Ela me abraçou grudando todo seu corpo ao meu, e depois beijando meus lábios com o canto dos seus, uma carícia disfarçada que se assemelhou a um presente pela suposta conquista que não era minha. E, G., não expus nada disso a eles. Tive medo de fazer as perguntas certas. Me enfiei no quarto e deitei nu, tocando minha pele ou olhando-me no espelho em busca de algum tipo de sinal de contaminação. Não dormi. Aliás, ainda hoje pareço ter pulado um dia da minha vida.

Do café onde estou posso ver uma ponta do lago. Pedi uma torta de morangos como sobremesa, mas o garçom se meteu em algum canto da cozinha e eu me pergunto: onde estava Lucho?

Abraços aos nossos.

Este é um capítulo de Zápara. Leia o que já foi escrito até aqui, na ordem correta.

Zápara 5

5
As pessoas gostam muito de mim por aqui, G. Elas me olham sorrindo, dão presentes, cuidam para que eu tenha tudo o que é
preciso no momento necessário, me cumprimentam quando perambulo pela cidade, no início da noite, gritando das cadeiras que
colocam em frente às casas: “Gringo, gringo, como vai? Feliz? Com fome? Sede?”, gente que eu nunca vi já sabe de minha
presença e parece me querer bem. Creio ser a grande novidade em Zápara. Na loja, Rubia mostrou-se uma moça no mínimo
prestativa. Nesta primeira semana, ajudou muito. Explica o que os clientes querem, quando pronunciam os nomes dos intrumentos
ou dos equipamentos, desses produtos que vendemos. Há milhares de gírias esquisitas para eles, e ela os traduz tocando em meu
ombro, quando não escorrega sua mão e segura meu cotovelo. Eu sorrio, um sorriso ridículo, sua beleza me desconcerta, olho
para baixo e não raro tenho uma ereção conforme levanto a cabeça e me deparo com seu corpo. “Percebe, Gringo?”, e eu digo que
sim e nos viramos para atender algum cliente. Já Juan, descobri, é um homem importante. Passa o dia em reuniões com o
prefeito e com vereadores, ou na associação comercial, da qual é presidente. Chega à loja apenas durante o almoço, quando
traz comida e senta comigo e Rubia numa mesa de fórmica que fica no que eu posso chamar de quintal do lugar, ao lado do
corredor que me espreita quando durmo. Tomamos água e vinho adocicado e mastigamos uma mistura de farinha com frango, algo
simples e magnífico com um tempero cujo nome nunca me lembro, enquanto o patrão me olha comer tal eu fosse uma criança. Está
sempre com o mesmo terno, que manda lavar três vezes por semana, segundo me disse. Depois, aparece mais uma ou duas vezes,
dependendo do dia, e leva o dinheiro que conseguimos. Às vezes, são um ou dois sacos carregados com as notas cinzas e
desvalorizadas deste país, que leva sobre o ombro e coloca displicentemente no banco traseiro de seu citroen 1998, derrubando
parte do dinheiro no carpete carcomido do assoalho. O meu salário ele deixa dentro de uma caixa de sapato, avisando: “Se
precisar de mais, é só avisar, Gringo.” Mas ainda não consegui gastar praticamente nada. Ninguém aceita me vender nem sequer
um pacote de sal. “Ei, Gringo, nós em Zápara somos hospitaleiros, não deixamos que façam má idéia de nosso povo, de nossa
cidadezinha”, dizem no bar, na venda e no cinema. Anotação: eles também adoram minha barba, e fazem perguntas sobre ela e me
pedem para tocá-la, o que deixo, claro. De resto, até aqui, as promessas de Juan têm se confirmado. Há um movimento muito
grande em busca de aparelhos musicais. Um movimento inacreditável, posso dizer. Me pergunto: de onde tudo isso sai? Quem
paga? Onde estão todas essas pessoas com todos esses equipamentos? Eu mesmo nunca ouvi um acorde em lugar algum. E Las Tender
Gónodas e Los Drifting Perros? Mas como compram! Por volta das cinco e meia da tarde, quando o colégio dispensa os
estudantes, a rua onde estamos, a rua do comércio, fica repleta desses nativos vestidos de roupas brancas e azuis, envoltos
na poeira que levantam ao caminhar ou correr pelas vias de terra, seus uniformes rabiscados com aquela palavra, Disappear.
Outros já colocam as vestes pretas por cima dos uniformes logo que saem do colégio, andando em bandos de quatro ou cinco
meninos, filas de até oito meninas, algumas com os cabelos enrolados em tranças que parecem ser artificiais, de tão rijas,
negras e brilhantes. São sérios, carrancudos, muito adultos e mal-humorados esses meninos e meninas, G., e a mim tratam como
uma aberração de circo, parecem ter medo de falarem alto e reclamarem, como fazem com Rubia. Ou desviam o olhar ou não
conseguem parar de me encarar. Ontem, por exemplo, quinta-feira, houve um episódio que quero contar desde que comecei a
escrever esta carta: uma menina entrou na loja, me viu e saiu correndo. Era uma criança de não mais do que sete anos, o
cabelo em forma de cuia e uma fitinha negra no pulso que, já percebi, é a insígnia universal dos adoradores da Banda. Cinco
ou dez minutos depois, voltaram com ela algo como quinze crianças, e todas eram incapazes de fechar a boca enquanto me
observaram e balbuciavam expressões num linguajar tradicional do qual não entendo palavra. Olhei para a minha roupa e logo
depois corri ao pequeno banheiro da loja para saber se havia algo de errado com meu rosto, mas claro que nada havia de
anormal com meu rosto e fui incapaz de parar de me perguntar a coisa mais simples possível: Por que me adoram tanto? Você
deve se perguntar o mesmo, G., é natural, e eu mesmo ainda não tenho respostas para essa questão, que se tornou ainda mais
obscura depois de uma conversa com Rúbia, quando tive lampejos, e apenas lampejos, da real situação de Zápara. Depois do
episódio da menina, ela pediu para me acompanhar durante o passeio diário que faço à beira do lago, pediu encostando
levemente seus grandes seios em meus braços e com a costumeira voz adocicada. Tendo de repetidamente dar alô a todos que
gritavam “Gringo, Gringo”, andamos pela Cidade velha, como dizem aqui, até chegarmos ao cais e lhe digo, irmão, que Z. parece
ter estado sob a água durante décadas. Mergulhada e esquecida, como estávamos eu e Rubia no sonho do dia que cheguei. Das
rachaduras de seus pequenos prédios crescem plantas fortes e grossas, há na praça um coreto vazio todo esverdeado pelo o que
suponho ser uma colônia gigantesca de fungos, e as ruas estão sempre molhadas e um cheiro de peixe, de animais aquáticos em
decomposição, corre com o vento. Algumas construções, apodrecidas, datadas de séculos atrás, baixas e ventiladas por janelas
do tamanho de grandes portas, por vezes desabam, caem como casas de cartas, preferencialmente à noite, enquanto seus
inocentes moradores dormem, sonham, copulam. Há lixo por toda a parte, e também excrementos de cavalos, que aqui superam em
número os carros. Ainda assim, não reclamam de Zápara, da cidade onde moram, dessa cidade que não parece ter nada de
coletivamente aprazível que não o grande lago, não, eles a veneram, contam suas vitórias supostamente grandiosas e riem em
conjunto sobre seus heróis enquanto observam quem vem, postos nas calçadas das vias estreitas e curtas, como um labirinto de
corais. Ao nos sentarmos em um dos bancos de concreto que rodeiam o infinito Maracaibo, suados e acompanhados por um cão
vadio, Rubia enfim disse, após ter ficado em silêncio durante todo o trajeto: Lucho e Sebá e o Pierre não são daqui. A olhei
e ela me olhou e tocou em minha barba e contou a história da Banda. Não lembro direito de suas palavras, G., do que ela me
disse com exatidão, então vou simplesmente lhe narrar fatos quaisquer, e espero que você os repute como verdadeiros, como eu
acreditei neles quando os ouvi dos lábios brilhantes de minha amiga. Os três, Lucho, Pierre e Sebástian, vieram como
tripulação voluntária, é assim que chamam, em um dos veleiros que chegam, carregados de enlatados de carne e enormes barras
de chocolate. Não eram da capital, possivelmente também não eram deste país. Alguns dizem que trouxeram seus equipamentos,
outros que eles os produziram sozinhos, com o que sobrava das serrarias e com os eletrônicos comprados nas oficinas de
televisores, com fios de cobre roubados e sucata de velhos computadores. Depois de tudo pronto, depois de terem passado
semanas enfiados numa velha pensão, comendo o que sua dona preparava e quase não saindo às ruas, resolveram se apresentar ao
prefeito, Salazar Crioulo, o homem que sempre foi prefeito de Zápara desde que Rúbia nasceu, segundo me contou, mas que
passava à época por uma crise de popularidade, disse ela, sem explicar a causa dessa crise. Chegaram em seu gabinete em uma
tarde, sem se dizer músicos, e sim simples viajantes com graves notícias, fatos que precisavam ser narrados a Crioulo, pelo
bem estar geral da cidade e de seus moradores. A secretária do gabinete deve ter percebido a suposta gravidade da situação,
pois abriu as portas e logo os três estavam sentados com o prefeito, que Rubia descreveu como “um homem com largos
horizontes”, e passaram a narrar o que os trouxera ali. Disseram que tinham tido acesso a um livro de histórias, dando a
entender que era um livro de histórias fictícias e proibidas, antigo, escrito antes mesmo de Zápara ser nomeada e fundada,
talvez antes deste país ser unificado, não tinham certeza, G. E neste livro, disse a Banda a Crioulo, havia uma história
sobre um lugar chamado Zápara, um povoado à beira de um lago do tamanho de um oceano, um povoado qualquer e sem nenhum tipo
de atração especial, mas que se vê um dia diante de uma catástrofe: as águas do lago estão subindo, elas, sem qualquer
explicação plausível, sem que haja mais chuvas ou qualquer acidente metereológico, avançam vastos centímetros por dia, entram
nas casas, tragam crianças, pequenos animais domésticos, e dentro de um ano, sugere o louco, personagem principal da
história, deixarão toda a vila submersa, e que isso só poderia ser parado se o lago fosse parado, se ele fosse controlado. Os
moradores se organizam então, superando as desavenças políticas e religiosas, e passam a construir um muro de proporções
bíblicas, separando com metros e metros da melhor pedra que havia disponível suas casas da água, a mesma que antes havia
possibilitado a eles ali se fixarem e cuidarem de suas crias. E por três meses esse trabalho foi feito por pais, mães e
filhos daquela Z., sem tempo para discussões ou estudo de possibilidades alternativas, alguns morrendo devido ao cansaço e
outros fugindo em canoas, enlouquecidos pelo trabalho ou pela inutilidade dele. E esses que fugiram se mostraram corretos,
pois dentro de poucos dias, terminado o muro, pequenas falhas foram vistas em suas pontas, distantes quilômetros uma da
outra. A água corroía o barro que haviam usado para juntar as pedras, e apodrecia o mato seco dessa lama endurecida,
escorrendo grossa e incessante. Não demorou para grandes partes do muro desabarem, e o desespero voltou à cidade, cujos
moradores mal tinham coragem de falar sobre o assunto. As lideranças passaram a se acusar e se agredir, relembrando velhas
brigas, e já não havia quem liderar o povo de Zápara, que se limitava a erguer ridículas barricadas de ferro fundido, logo
ultrapassadas pelo lago. Então, diz o louco em sua narrativa, apareceram três homens estrangeiros, que, contra todas as
expectativas, disseram que tudo aquilo já havia sido previsto, e que nenhum dos moradores daquela Zápara tinha entendido a
verdadeira causa do que se aproximava. Juntaram os pais, mães e filhos em uma espécie de clareira e exclamaram, gritaram com
força, que um deus havia escolhido a cidade para dar uma lição à toda nossa espécie, aos animais humanos. Não uma lição
moral, contou a Banda, pois a cidade sempre fora ordeira, dentro do que era considerado ordeiro à época, e sim uma lição
sobre a matéria. Uma lição sobre a matéria e a desrazão das formas, e os pacatos moradores daquela Zápara se entreolharam,
eram pessoas simples e tacanhas, escreveu o louco, segundo a Banda, talvez não entendessem nada do que estava sendo dito e
perguntaram, ainda tão amedrontados quanto antes, o que isso significava e como os estrangeiros poderiam ajudá-los. Estavam
impacientes, havia uma clara tensão nesta reunião, mesmo porque pingos doloridos caíam forte dos céus, no que os três
afirmaram que essa previsão que eles conheciam dizia que, para parar as águas, era necessário se desprender do que havia de
perecível no mundo, do que havia de finito e deformável, de tudo aquilo que não dissesse respeito ao imutável, e que por isso
deveriam o quanto antes se desligar de seus corpos, o início e o fim da matéria. Não deram maiores explicações, e, nesta
mesma noite, levaram até a beira do lago os pais, mães e filhos, que nada mais tinham a perder, que muito provavelmente nem
sequer imaginavam como iriam deixar os próprios corpos, se é que algum deles conseguiu engendrar essa pergunta tão óbvia,
escreveu o louco, que parece um tanto ressentido com a cidade, a qual provavelmente o detestava e o exilava em sua loucura. E
nessa noite, nessa vigília, reunidos todos perante as águas que haviam ganho vida nos últimos meses, os homens se puseram a
cantar, um canto que nada tinha de pacífico ou melodioso, não, eram mais grunhidos esganiçados, saídos das gargantas,
produzidos com os lábios completamente abertos, que só terminavam quando o fôlego desaparecia e que se assemelhavam ao que o
louco achava serem os ruídos produzidos pelos animais que habitam as águas profundas, ou aquilo que seria produzido se
pudéssemos ouvir com plenitude, em volumes altíssimos, o que está debaixo da terra, as almas penitentes e os suicidas
consumados. Os moradores, confusos e extasiados, acompanharam o estranho canto dos três por toda madrugada, menos o louco,
que escreve a história observando tudo de uma montanha ou de um esconderijo não dito, e que vê as águas retrocendo e
encolhendo, e pensa que o que ouve é muito mais a música gerada por esse movimento da matéria do que propriamente os gritos
humanos regidos pelos três maestros. E foi esta a história que a Banda contou ao prefeito, com muito mais detalhes do que eu
descrevi aqui ou do que Rubia podia saber, imagino. Ela me disse que foi assim que Lucho, Pierre e Sebástian convenceram o
prefeito da necessidade de salvar esta Zápara na qual cheguei, e então perguntei a ela, com o cão vadio deitado sobre nossos
pés e nos observando, se, como na ficção, esta cidade, que existe tanto quando todos nós existimos, G., também estava à beira
da extinção, e do que afinal deveríamos ser salvos, no que ela deu um sorriso largo, lindo, e disse: Ah, Gringo. Nosso
prefeito é um homem influenciável, um homem das artes, dos livros, um pobrezito sonhador. O que a Banda faz é simplesmente
nos divertir e preencher nossas horas vagas.
Eu sei, G., o que você deve estar pensando, pois é meu irmão, e te conheço tão bem: que coisa estapafúrdia. Mas lembra-se do
sonho da primeira noite? Estou aqui, deitado sobre minha cama estreita, envolto pelo barulho do ar-condicionado, e sei,
intuo, que aquele sonho é muito parecido, parecido demais, com a história que a banda supostamente contou a Crioulo. Mas não
tenho detalhes do que sonhei, infelizmente só você tem em mãos um relato mais preciso do que minha cabeça produziu naquela
noite. Mesmo assim o sono, agora, não me vêm. Talvez ele tivesse respostas.

Domingo, 23h08

As pessoas gostam muito de mim por aqui, G. Elas me olham sorrindo, dão presentes, cuidam para que eu tenha tudo o que é preciso no momento necessário, me cumprimentam quando perambulo pela cidade, no início da noite, gritando das cadeiras que colocam em frente às casas: Gringo, Gringo, como vai? Feliz? Com fome? Sede?, gente que eu nunca vi já sabe de minha presença e parece me querer bem. Creio ser a grande novidade em Zápara. Incrível, não? Na loja, Rubia explica o que os clientes querem, quando pronunciam os nomes dos instrumentos ou dos equipamentos, desses produtos que vendemos. Há milhares de gírias esquisitas para eles, e ela as traduz tocando em meu ombro, quando não escorrega sua mão e segura meu cotovelo. Eu sorrio, um sorriso ridículo, sua beleza me desconcerta, olho para baixo e  conforme levanto a cabeça me deparo com seu corpo _há os seios, sim, mas também sua pele, bronze-clara, o pescoço, rijo e liso, e as gengivas, como que pintadas de rosa. Percebe, Gringo, ela pergunta, e eu digo que sim e nos viramos para atender algum cliente. Rubia é daqui, seus pais e avós eram daqui, e ela não se lembra de qualquer ascendente que não fosse de Z. Perguntei como acabara na loja, e disse que fora convidada por Juan após a onda da Banda, em sua expressão, e que dera graças a deus por ter largado sua antiga vida, e por isso acho que Rubia, a formosa Rubia, talvez a mulher mais bonita desta vila emancipada, vivia de seu, digamos, corpo abençoado, da prostituição. Nosso patrão, descobri, é um homem importante. Passa o dia em reuniões com o prefeito ou na associação comercial, da qual é presidente. Chega à loja apenas durante o almoço, quando traz comida e senta comigo e Rubia numa mesa de fórmica que fica no que eu posso chamar de quintal do lugar. Tomamos água e vinho adocicado e mastigamos uma mistura de farinha com frango, algo simples e magnífico com um tempero cujo nome nunca me lembro, enquanto o patrão me olha comer tal eu fosse uma criança, mas nunca faz um prato para ele mesmo. Fuma sem parar, e sua magreza me incomoda. Está sempre com o mesmo terno, que manda lavar três vezes por semana, segundo me disse. Depois, aparece mais uma ou duas vezes, dependendo do dia, e leva o que conseguimos. Às vezes, são um ou dois sacos com as notas cinzas e desvalorizadas deste país, que carrega sobre o ombro e coloca displicentemente no banco traseiro de seu citroen 1998, derrubando parte delas no carpete carcomido do assoalho. O meu salário deixa dentro de uma caixa de sapato: Se precisar de mais, é só avisar, Gringo. Mas ainda não consegui gastar praticamente nada. Ninguém aceita vender nem sequer um pacote de sal. Ei, Gringo, nós em Zápara somos hospitaleiros, não deixamos que façam má idéia de nosso povo, de nossa cidadezinha, dizem no bar, na venda e no cinema. Anotação: eles também adoram minha barba, e fazem perguntas sobre ela e me pedem para tocá-la, o que deixo, claro. Ao menos um deles guardou uns fios dela dentro o bolso. De resto as promessas de Juan têm se confirmado. Há um movimento muito grande em busca de aparelhos musicais. Um movimento inverossímil, posso dizer. Me pergunto: de onde tudo isso sai? Quem paga? Onde estão essas pessoas e seus equipamentos? Eu mesmo nunca ouvi um acorde em lugar algum. E os integrantes do Las Tender Gónodas e do Drifting Perros, do Sacred Abuelos e da BodyConcepto?  Mas como compram! Por volta das cinco e meia da tarde, quando o colégio dispensa os estudantes, a rua onde estamos, a Rua do Comércio, fica repleta desses nativos vestidos de roupas brancas e azuis, envoltos na poeira que levantam ao caminhar ou correr pelas vias de terra, seus uniformes rabiscados com aquela palavra que agora sei ter de fato visto, Disappear. Outros já põem as vestes pretas por cima dos uniformes logo que saem das salas de aula, andando em bandos de quatro ou cinco meninos, filas de até oito meninas, algumas com os cabelos enrolados em tranças que parecem ser artificiais, de tão rijas, negras e brilhantes. São sérios, carrancudos, muito adultos e mal-humorados esses meninos e meninas, G. A mim tratam como uma aparição, parecem ter medo de falarem alto e reclamarem, como fazem com Rubia. Ou desviam o olhar ou não conseguem parar de me encarar. Ontem, por exemplo, quinta-feira, houve um episódio que quero contar desde que comecei a escrever esta carta: uma menina entrou na loja, olhou-me, gargalhou e saiu correndo. Era uma criança de não mais do que sete anos, o cabelo em forma de cuia e uma fitinha negra no pulso que, já percebi, é a signo universal dos adoradores da Banda. Cinco ou dez minutos depois, estavam diante de mim algo como quinze crianças, e todas eram incapazes de fechar a boca enquanto me observavam e balbuciavam expressões num linguajar tradicional que não entendo. Olhei para a minha roupa e logo depois corri ao pequeno banheiro da loja para saber se havia, no espelho, algo de errado com meu rosto, mas claro que nada havia de anormal com meu rosto e não pude parar de pensar: Por que me adoram tanto? Você deve se perguntar o mesmo, G., é natural, e eu mesmo ainda não tenho respostas para essa questão, que pairou sobre minha cabeça durante toda semana e se tornou ainda mais obscura depois de uma conversa com Rubia, quando tive lampejos, e apenas lampejos, da real situação de Zápara. Foi após o episódio da menina. Ela pediu para me acompanhar durante o passeio diário que faço à beira do lago, pediu encostando levemente seus grandes seios em meu braço e com a costumeira voz adocicada. Tendo de repetidamente dar alô a todos que gritavam Gringo, Gringo, sorrindo e levantando a mão, andamos pela Cidade Velha, como dizem aqui, até chegarmos ao cais, um longo paredão de pedra que se assemelha à origem e à desembocadura primeva deste lugar, pois, lhe digo irmão, Z. parece ter estado sob as águas durante anos. Mergulhada e embotada em si mesma, como estávamos eu e Rubia no sonho do dia que cheguei. Das rachaduras de suas pequenas edificações, caiadas como se parte de um hospital coletivo e precário, crescem plantas fortes e grossas, há na praça um coreto vazio todo esverdeado pelo o que suponho ser uma colônia gigantesca de fungos, normalmente vazio, e as ruas estão sempre molhadas e cheirando a animais aquáticos em decomposição, um elemento que corre com o vento e persegue a todos em qualquer canto que se ande. Algumas daquelas construções apodrecidas, datadas de séculos atrás, abafadas e ventiladas por janelas do tamanho de grandes portas, manchadas de cinza, grudadas ou dissolvidas umas às outras, essas casas por vezes desabam, caem como se digeridas por cupins, preferencialmente à noite, enquanto seus moradores dormem, sonham, copulam. Há lixo por toda a parte, sacos ou amontoados de coisa orgânica espalhados como sargaço trazido por uma maré noturna, e também excrementos liquefeitos de cavalos, que aqui superam em número os carros. Ainda assim, não reclamam de Zápara, da cidade onde moram, não, eles a veneram, contam suas piadas e riem em conjunto sobre os personagens de suas vidas enquanto observam quem vem, postos nas calçadas das vias estreitas e curtas, como um labirinto de corais, ou observando o movimento por trás das janelas, enterrados no eterno escuro de seus cômodos. Ao nos sentarmos em um dos bancos de concreto que rodeiam o infinito Maracaibo, suados e acompanhados por um cão vadio que surgira na última esquina do caminho, Rubia enfim disse, após ter ficado em silêncio durante todo o trajeto: Lucho e Sebá e o Pierre não são daqui. A olhei e ela me olhou e tocou em minha barba com o lado externo dos dedos e contou parte, apenas parte, da história da Banda. Não lembro direito de suas palavras, G., do que ela disse com exatidão, portanto vou simplesmente narrar fatos quaisquer, e espero que você os repute como verdadeiros, como eu acreditei neles quando os ouvi dos lábios macios de minha amiga. Os três, Lucho, Pierre e Sebástian, vieram como tripulação voluntária, é assim que chamam, de um veleiro mercante carregado de enlatados de carne e enormes barras de chocolate. Não eram da capital, possivelmente também não eram deste país. Alguns dizem que trouxeram seus equipamentos, outros que eles os produziram sozinhos, varando madrugadas, com o que sobrava das serrarias e com os eletrônicos comprados nas oficinas de televisores, com fios de cobre roubados e sucata de velhos computadores. Depois de tudo pronto, depois de terem passado semanas enfiados numa velha pensão, comendo o que sua dona preparava sozinha e quase não saindo às ruas, resolveram se apresentar ao prefeito, Salazar Crioulo, o homem que sempre foi prefeito de Zápara desde que Rúbia nasceu, segundo me contou, mas que passava à época por uma crise de popularidade, disse ela. Chegaram em seu gabinete sem se dizer músicos, e sim simples viajantes com graves notícias, fatos que precisavam ser narrados a Crioulo, pelo bem estar geral da cidade e de seus moradores. A secretária deve ter percebido a suposta gravidade da situação, pois abriu as portas e logo os três estavam sentados com o prefeito, que Rubia descreveu como um homem com largos horizontes, e passaram a narrar o que os trouxera ali. Disseram que tinham tido acesso a um livro de histórias, dando a entender que era um livro de histórias fictícias e proibidas, antigo, escrito antes mesmo de Zápara ser nomeada e fundada, talvez antes deste país ser unificado, não tinham certeza, G. E neste livro, disse a Banda a Crioulo, havia uma história sobre um lugar chamado Zápara, um povoado à beira de um lago do tamanho de um oceano, um povoado qualquer e sem nenhum tipo de atração especial, mas que se vê um dia diante de uma catástrofe: as águas do lago estão subindo, elas, sem qualquer explicação plausível, sem que haja mais chuvas ou outro acidente metereológico, avançam vastos centímetros por dia, entram nas casas, tragam crianças e pequenos animais domésticos. Dentro de um ano, sugere o louco, narrador do conto, deixarão toda a vila submersa, e isso só poderia ser parado se o lago fosse contido, se ele fosse controlado pelas pessoas que dele usufriam e que por ele estavam ameaçadas. Alarmados, os moradores reagem e organizam-se, superando as desavenças políticas e religiosas para construir um muro de proporções que prometem ser bíblicas, com o intuito de separar, por meio da melhor pedra disponível, suas casas da água negra, a mesma que antes havia possibilitado a eles ali se fixarem e cuidarem de suas crias. E por três, quatro, cinco ou seis meses esse trabalho foi feito por pais, mães e filhos daquela Z., sem tempo para discussões ou estudo de possibilidades alternativas, seguindo um projeto delineado durante as primeiras conversas grupais, alguns morrendo devido ao cansaço e outros fugindo em canoas, enlouquecidos pelo esforço ou convencidos da inutilidade dele. E esses que fugiram se mostraram corretos, pois dentro de poucos dias, terminado o muro, o que foi comemorado com uma festa e a degola de vinte patos, pequenas falhas foram vistas em suas pontas, distantes quilômetros uma da outra. A água corroía o barro que haviam usado para juntar as pedras, e apodrecia o mato seco dessa lama endurecida, escorrendo grossa e incessante. Não demorou para grandes partes do muro desabarem, ecoando durante a noite e levando um revigorado desespero àquela Z., cujos moradores mal tinham coragem de falar sobre o assunto, a maioria tentando fazer de conta que aquilo iria parar tão subitamente quanto começou. As poucas lideranças passaram a se acusar e a se agredir nos bastidores da política local, relembrando velhas rusgas e pequenas diferenças, e já não havia quem tomasse à frente do povo de Zápara, que se limitava a erguer ridículas barricadas individuais na frente dos casebres, logo ultrapassadas pelo lago. Foi neste estado de coisas, conta o louco em sua narrativa supostamente fictícia, antiga e secreta, que apareceram três homens estrangeiros. Contra todas as expectativas, disseram que aquilo já havia sido previsto em velhas inscrições, e que nenhum dos moradores daquela Zápara tinha entendido a verdadeira causa do que se aproximava. Juntaram os pais, mães e filhos em uma espécie de clareira e exclamaram que um deus havia escolhido a cidade para dar uma lição à toda nossa espécie, aos animais humanos. Não uma lição moral, contou a Banda, pois a cidade sempre fora ordeira, dentro do que era considerado ordeiro à época, mas uma lição sobre a matéria. Uma lição sobre a matéria e a desrazão das formas, e os pacatos moradores daquela Zápara se entreolharam, eram pessoas simples ou mesmo tacanhas, filhas de um mundo sem escolas, escreveu o louco, talvez não entendessem nada do que estava sendo dito e perguntaram, ainda tão amedrontados quanto antes, o que isso significava e como os estrangeiros poderiam ajudá-los. Os três afirmaram que essas inscrições, supostamente secretas, diziam que, para parar as águas, era necessário se desprender do que havia de perecível no mundo, do que havia de finito e deformável, de tudo aquilo que não dissesse respeito ao imutável, e que por isso deveriam o quanto antes se desligar de seus corpos, o início e o fim da matéria. Não deram maiores explicações, e, nessa mesma noite, levaram ou foram seguidos até a beira do lago pelos pais, mães e filhos, que enfim perceberam não ter mais nada a perder, mas que muito provavelmente nem sequer imaginavam como iriam deixar os próprios corpos ou porque isso pararia o lago, se é que algum deles conseguiu engendrar essa pergunta tão óbvia, se é que não estavam tão desesperados que fariam qualquer coisa que alguém dissesse para ser feita, escreve o louco, segundo a Banda, o louco que sem dúvida se mostra um tanto ressentido com a cidade, a qual provavelmente o detestava e temia, exilando-o em seus devaneios, disse a Banda, segundo Rubia. E nessa noite, nessa vigília, logo que estavam todos reunidos perante as águas que haviam ganho vida nos últimos meses, os três homens se puseram a cantar, sem cerimônia inicial nenhuma, um canto que nada tinha de pacífico ou melodioso, não, eram mais grunhidos esganiçados, saídos das gargantas, produzidos com os lábios completamente abertos, que só terminavam quando o fôlego desaparecia e que se assemelhavam ao que o louco achava serem os ruídos produzidos pelos animais que habitam as águas profundas, ou o ruminar altíssimo do que está debaixo da terra, das almas penitentes e dos suicidas consumados. Os moradores, provavelmente confusos e extasiados pelo que viam e ouviam, uma cena que só posso imaginar através de uma lente cômica, G., acompanharam o estranho canto dos três por toda madrugada _com a notória exceção do louco, que descreve essa cena final observando tudo de uma montanha ou de um esconderijo não dito, do qual observa as águas retrocedendo e encolhendo, e pensa que o que ouve é muito mais a música gerada por esse colossal movimento uníssono da matéria do que propriamente a gritaria regida pelos três estrangeiros. E foi esta a história que a Banda contou ao prefeito, com muito mais detalhes do que eu descrevi aqui ou do que Rubia podia saber, imagino. Ela me disse que foi assim que Lucho, Pierre e Sebástian convenceram Salazar da necessidade de salvar esta Zápara na qual cheguei, e então perguntei a ela, com o cão vadio deitado sobre nossos pés e lambendo as próprias patas, se, como na ficção, esta cidade, que existe tanto quando eu e você existimos, G., também estava à beira da extinção, e do que afinal deveríamos ser salvos, no que ela deu um sorriso largo, lindo, e disse: Ah, Gringo. Nosso prefeito é um sonhador e um mentiroso, um contador de histórias. O que a Banda faz é preencher nossas horas vagas.

Visão De Um Sonho Deixando a Cena

Este é um capítulo de Zápara. Leia o que já foi escrito até aqui, na ordem correta.

Eu sei, G., o que você deve estar pensando, pois é meu irmão, e te conheço tão bem: que estapafúrdio. Mas lembra-se do sonho da primeira noite? Estou aqui, deitado sobre minha cama estreita, soterrado pelo barulho do ar-condicionado, e sei, intuo, que o que sonhei é muito parecido, parecido demais, com a história que a Banda supostamente contou a Crioulo. Mas já não me lembro do sonho, você conhece meu problema de memória e, agora, o sono não me vem. Talvez ele tivesse respostas.


Abraços aos nossos.

Zápara 4

G., estive no Maracaibo hoje à tarde, consegui escapar da loja um pouco, e corri para ver a água. Ele é negro, quase todo
preto, e durante os momentos em que o estive olhando, não passou um só barco. Sua superfície manteve-se intocada. É muito
bonito, acho que essa é a expressão, bonito, mas também assustador, e sei que você sabe o que quero dizer com isso. Perdão
pela obviedade, mas o lago me pareceu um buraco sem bordas visíveis. Há uma estação petrolífera ao longe, do cais podemos
vê-la como um brinquedinho perdido no abismo, flutuando sobre o abismo. Um pescador me disse que ela está abandonada. Fechei
os olhos e imaginei o que acontecia lá, a pelo menos trinta quilômetros de distância, dentro da velha maquinaria, e lembrei
da mãe, do pai, de você e do resto, e depois chorei um pouco. Quando puder, escrevo mais contando sobre o trabalho e a
cidade.

Terça-feira, 20h40

G., estive no Maracaibo hoje à tarde, consegui escapar da loja um pouco e corri para ver a água. Ela é negra, salpicada de brilhos brancos que somem e aparecem, e durante os momentos em que a estive olhando não passou uma só embarcação. Sua superfície manteve-se intocada e em leve ondulação. Alguns pescadores ou vagabundos da orla me chamaram de Gringo, de maneira ingênua e inofensiva, e um deles sentou-se ao meu lado, com os pés balançando sobre o lago, e em silêncio ouvimos o ranger dos contêiners sendo içados e colocados sobre o chão de pedra, e também o canto rouco das aves e os gritos dos estivadores trabalhando. Mas vou ser breve, irmão. Digo apenas que o lago é muito bonito, acho que essa é a expressão, bonito, mas também assustador. Talvez não seja essa a palavra, penso, talvez seja inacreditável e por isso assustador. Ele se estende até o fim do horizonte, me pareceu um buraco sem bordas visíveis. Há uma estação petrolífera ao longe, do cais podemos vê-la como um brinquedinho borrado e quase indistinto perdido no abismo, flutuando sobre o nada. Um pouco como essa pequena cidade, cercada pela mesma água negra. Um velho me disse que a estação está abandonada, foi um projeto nunca terminado, falou. Fechei os olhos e imaginei o que acontecia lá, a pelo menos dez quilômetros de distância, dentro da corroída maquinaria desta miragem, e lembrei da mãe, do pai, de você e do resto, e depois chorei um pouco. Quando puder, escrevo mais sobre Zápara e o trabalho. Por enquanto, digo que pareço estar vivendo um daqueles extensos feriados de nossa infância.

Abraços aos nossos.

Este é um capítulo de Zápara. Leia o que já foi escrito até aqui, na ordem correta.

Zápara 3

Ainda não me perdôo por ter dormido no ônibus que trouxe Juan e eu. Creio ter sido a desorientação motivada pela mudança, minha incapacidade de dormir nos últimos dois dias, durante toda a viagem de trem, na qual o patrão não cessou de falar sobre a origem de sua cicatriz na testa e sobre as montanhas de dinheiro que nos aguardam em Z., uma fala cansativa e repetitiva, francamente hipnótica. Creio que ele confia em minha capacidade de convencer os outros a comprarem, qualidade que, sabemos, eu de fato não tenho. Mas, por enquanto, não abro a boca. Apenas ouço, e alimento nele essa expectativa de excelência, cuja causa, para mim, é um mistério, e que, por enquanto, não me causa medo. É um crédito estranho, e só isso. Estou no quarto que ele me reservou, não mais do que um buraco no fundo da loja. Tenho uma cama, um aparelho de ar-condicionado e quatro pacotes de bolachas sabor pizza, mas não uma porta. Deitado, envolto num cheiro indefinível de coisa marítima, posso ver, pela abertura que deveria ser fechada com uma porta, o corredor de pedra avermelhada e duas samambaias penduradas na parede, e entre elas há uma lamparina, sim, uma lamparina talvez, que dá a esse corredor miserável a aparência psicotrópica de oleosidade amarela, com a luz da lamparina sinto que o corredor se derrete muito lentamente, me parece que ele está completamente recoberto de uma substância aquosa, gordurosa, que não é apenas o corredor que liga meu quarto à porta da cozinha, e sim que ele é outra coisa, diversa. Estou feliz, G., faltava espaço e fui obrigado a colocar minha mala sobre a cama, e a deitar me roçando nela, e ainda assim estou feliz. É madrugada, acho que continuei meu sono logo que chegamos, e acordei por volta das duas horas, neste lugar que teimo em achar familiar. Fantasio ouvir o ruído de água, de cachoeiras e corredeiras, do lago que ainda não vi, sei não ser verdadeiro e ainda assim isso me satisfaz. Tenho alguns laivos da imagem da estação de trem e do micrônibus que nos trouxe aqui. Tenho a lembrança de um papagaio falando sozinho em uma gaiola, de um velho gordo abotoando a camisa e de uma pequena multidão de adolescentes, todos vestindo camisetas pretas e virados contra as paredes da estação, como se preparados para serem fuzilados, mas não tivessem a coragem de encarar o executor. Escrevendo, neste momento, lembro bem que as camisetas todas tinham uma palavra em inglês, escrita em branco, Disappear, e que eles conversavam e davam risadas e talvez até flertassem assim, nessa fila peculiar, virados para um muro de alvenaria pintado de azul-escuro, posição em que, acho, não poderiam observar um ao outro, nem quem passava por eles. Não tenho a mínima idéia do que esperavam, se é que esperavam algo. Há uma mulher também, ela tinha grandes peitos e me sorriu, mas eu só conseguia olhar para o seu decote, para sua carne macia e inchada, e agora percebo o ridículo que não devo ter passado, olhando para os seios dessa desconhecida, que não estava na estação, mas aqui na loja, e que não era uma mulher qualquer, mas uma fêmea perfeita, com a boca grande e os olhos amendoados, marrons, o formato do rosto triangular, uma indiazinha linda, que não parava de sorrir, e agora sei que foi ela que me trouxe até o quarto, que mostrou os aposentos a mim reservados, talvez tenha até puxado esses lencóis velhos, me acolhendo perante o desaparecimento de Juan, que neste momento deve dormir, como todos de Zápara. Seu nome era Rubia e ela também usava uma camiseta preta, com os mesmo dizeres das dos adolescentes _Disappear_ e ela me leva até uma piscina, do lado de fora de uma loja que é muito maior do que essa, e estamos de mãos dadas e mergulhamos os dois juntos na piscina, nus. Nadamos nus e debaixo d’água durante tempo demais, sorrimos e fazemos amor debaixo dessa água azulada e limpa, higienizada, algo que é nosso, e não do mundo exterior, estamos nadando em um nosso próprio líquido, um líquido perfeitamente limpo, produzido por nossos corpos, uma água fisiológica, algo assim, e, durante nosso longo mergulho, em que aparece até um golfinho, achamos um túnel, e ela me chama abanando a mão e entramos nesse túnel, feito de vidro ou plástico transparente, um longo aquário tubular, ao fim do qual chegamos a um oceano, ao fim do qual descobrimos que aquela piscina estava ligada a um mar de água fisiológica, de nosso próprio líquido, tal a minha água e a água de Rubia tivessem a mesma origem e nos dois fôssemos meio que a mesma pessoa, percebe?, e nosso líquido, tão nosso como o corpo de alguém é desse alguém, uma propriedade definitiva, da qual não há nenhum rastro possível de vergonha, se quebra em ondas e se movimenta em marés, é um oceano, G., sozinho uma definição de tamanho e extensão, e Rubia me diz, sob essa água, que podemos, se quisermos, controlarmos cada instante do mar com nossos pensamentos, assim como mandamos em nosso corpo, e entendo que descobrimos sermos gigantes, felizes monstros marinhos, e ela me estende uma vela e diz para segui-la, o que obedeço, nadando como sereias sob nossa água, que aos poucos se torna mais fria e mais túrgida, acinzentada, e passamos por grupos de grandes peixes, que não são mais como o primeiro golfinho, digo, que são golfinhos, mas que já não podem esconder as fileiras de dentes pontudos que saem de suas bocas e costas, animais que parecem estar o tempo todo de olhos fechados, eles nadam insones, G., quase que nos levam em seu movimento, são rápidos e brutos, e de seus dentes, cada vez maiores e mais saltados, eu e Rubia não podemos mais desviar, esses golfinhos, mais parecidos com tubarões pré-históricos, nos fatiam de pouco em pouco com esse roçar incessante, parecem não se dar conta do que estão fazendo, e então olho para Rubia, mas ela ainda sorri, com o rosto desfigurado e sem seus grandes seios, no lugar deles há rodelas de carne avermelhada, e olho para trás e vejo que estamos deixando um rastro de partes dos nossos corpos, há braços e pernas e orelhas e dedos por todo o fundo do mar, e que alguns dos animais se alimentam deles, como bois comem capim, e esse piso de partes de nós mesmos, que de alguma maneira continuamos inteiros, não demora a subir, a se tornar o próprio mar, a substituir nossa água, a limpa água, e súbito me vejo nadando não exatamente em sangue e em vísceras, nada disso, e sim em um mar de bundas, peitos e pêlos pubianos, é engraçado, engraçadíssimo, não sinto nojo, nada disso, quero tocar cada uma dessas bundas e peitos, sentir a maciez dos pêlos, olho para baixo e vejo que estou tendo a maior e mais intensa ereção que me lembro ter tido em toda a minha vidaDomingo, 4h20

Domingo, 4h20

PERÚ/PARQUE NACIONAL HUASCARÁN/LAGOA DE LLANGANUCO

G., ainda não me perdôo por ter dormido no ônibus que trouxe Juan e eu. Creio ter sido a desorientação motivada pela mudança, minha incapacidade de dormir por mais de duas horas nos últimos dois dias, durante toda a viagem de trem, na qual o patrão não cessou de falar sobre a origem de sua cicatriz na testa e sobre as montanhas de dinheiro que nos aguardam em Z., uma fala cansativa e repetitiva, francamente hipnótica. Creio que ele confia em minha capacidade de convencer os outros a comprarem, qualidade que, sabemos, eu de fato não tenho. Mas, por enquanto, não abro a boca. Apenas ouço, e alimento nele essa expectativa de excelência, cuja causa, para mim, é um mistério. Escrevo no quarto que ele me reservou, não mais do que um buraco no fundo da loja. Tenho uma cama, um aparelho de ar-condicionado e quatro pacotes de bolachas sabor pizza, mas não uma porta. Deitado, envolto num cheiro indefinível de coisa marítima, posso ver, pela abertura que deveria ser fechada com uma porta, o corredor de pedra avermelhada e duas samambaias penduradas na parede, e entre elas há uma lamparina, sim, uma lamparina talvez. Estou feliz, G., faltava espaço e fui obrigado a colocar minha mala sobre a cama, e a deitar me roçando nela, e ainda assim estou feliz. É madrugada, acho que continuei meu sono logo que chegamos, e acordei por volta das três horas. Fantasio ouvir o ruído de água, de cachoeiras e corredeiras, do lago que ainda não vi, sei não ser verdadeiro e ainda assim isso me satisfaz. Tenho alguns laivos da imagem da estação de trem e do micrônibus que nos trouxe aqui, ou ao menos eu creio que essas imagens são lembranças. Tenho a suposta lembrança de um papagaio falando sozinho em uma gaiola, de um velho gordo abotoando a camisa e de uma pequena multidão de adolescentes, todos vestindo camisetas pretas e virados contra as paredes da estação, como se preparados para serem fuzilados, mas não tivessem a coragem de encarar o executor. Escrevendo, neste momento, penso que as camisetas todas tinham uma palavra em inglês, escrita em branco, Disappear, e que eles conversavam e davam risadas e talvez até flertassem assim, nessa fila peculiar, virados para um muro de alvenaria pintado de azul-escuro, posição em que, acho, não poderiam observar um ao outro, nem quem passava por eles. Não tenho a mínima idéia do que esperavam, se é que esperavam algo. Havia uma mulher também, ela tinha grandes peitos e me sorriu, mas eu só conseguia olhar para o seu decote, para sua carne macia e inchada, e agora percebo o ridículo que não devo ter passado, olhando para os seios dessa desconhecida, que não estava na estação, mas aqui na loja, e que não era uma mulher qualquer, mas uma fêmea perfeita, com a boca grande e os olhos amendoados, marrons, o formato do rosto triangular, dedos proporcionais e uma cintura fina, esguia, uma indiazinha linda, pouco menor do que eu, que não parava de sorrir, e agora sei que foi ela que me trouxe até o quarto, que mostrou os aposentos a mim reservados, talvez tenha até puxado esses lencóis velhos, me acolhendo perante o desaparecimento de Juan, que neste momento já devia dormir, como todos de Zápara. Seu nome é Rubia e  ela me leva até uma piscina, do lado de fora de uma loja que é muito maior do que esta. Estamos de mãos dadas e mergulhamos os dois juntos na piscina, nus. Olho para seu corpo e tenho a impressão de que o conheço em detalhes. Nadamos nus e debaixo d’água durante tempo demais, sorrimos e fazemos amor debaixo dessa água azulada e limpa, higienizada, algo que é nosso, e não do mundo exterior. Estamos nadando em um nosso próprio líquido, penso, um líquido sem qualquer impureza ou agente estranho, penso, produzido por nossos corpos, uma água fisiológica, algo assim, e, durante nosso longo mergulho, em que aparece o que creio ser um golfinho, de pele lisa e brilhante, achamos um túnel, e ela me chama abanando a mão e entramos nesse túnel, feito de vidro ou plástico transparente, um longo aquário tubular, penso, ao fim do qual chegamos a um oceano, ao fim do qual descobrimos que aquela piscina estava ligada a um mar da água fisiológica, tal a minha água e a água de Rubia tivessem a mesma origem e nos dois fôssemos a mesma pessoa, compartilhássemos do mesmo corpo, percebe? E nosso líquido, tão nosso como o corpo de alguém é desse alguém, uma propriedade definitiva, da qual não há nenhum rastro possível de vergonha, se quebra em ondas e se movimenta em marés. É um oceano, G., sozinho uma definição de tamanho e extensão, e Rubia me diz, sob essa água, que podemos, se quisermos, controlarmos cada instante do mar com nossos pensamentos, assim como mandamos em nossos corpos, e entendo que descobrimos sermos gigantes, felizes monstros marinhos. Ela me estende uma vela acesa e diz para segui-la, o que obedeço, nadando como sereias sob nossa água, que aos poucos ou de maneira súbita se torna mais fria e mais turva, acinzentada, e passamos por grupos de grandes peixes, que não são mais como o primeiro golfinho, digo, que são golfinhos, mas que já não podem esconder as fileiras de dentes pontudos que protuberam de seus corpos cilíndricos, animais que parecem estar o tempo todo de olhos fechados. Eles nadam insones, G., quase que nos levam em seu movimento, são rápidos e brutos, e de seus dentes, cada vez maiores e mais saltados e afiados, eu e Rubia não podemos desviar, os golfinhos, mais parecidos com tubarões pré-históricos, nos fatiam de pouco em pouco com essas trombadas incessantes. Parecem não se dar conta do que estão fazendo, e então olho para Rubia, que ainda sorri, com o rosto desfigurado e sem seus grandes seios, no lugar deles há rodelas de carne avermelhada, e olho para trás e vejo que estamos deixando um rastro de partes dos nossos corpos, há braços e pernas e orelhas e dedos por todo o fundo do mar, e que alguns dos animais se alimentam deles, como bois comem capim, e esse piso de partes de nós mesmos, que de alguma maneira continuamos inteiros, não demora a subir, a se tornar o próprio mar, a substituir nossa água, a limpa água, e súbito me vejo nadando não exatamente em sangue e em vísceras, nada disso, não é um rio tingido de vermelho, e sim em um mar de bundas, peitos, coxas, mãos, cabeças e antebraços. É engraçado, engraçadíssimo, não sinto nojo, nada disso, quero tocar cada pedaço dessa carne, sentir seu gosto e maciez, olho para baixo e vejo que estou tendo a maior e mais intensa ereção de minha vida.

E é isso o que restou da minha chegada, G., creio que compreende as falhas e exageros, minha memória tem andado péssima.

Abraços aos nossos.

Este é um capítulo de Zápara. Leia o que já foi escrito até aqui, na ordem correta.

Zápara 2

Sexta-feira, 8h56
G., no trem conheci um homem que se diz um empreendedor. Como a maior parte dos que nos acompanhavam, estava na capital
fazendo compras, e tive que dividir a pequena cabine com seus sacos plásticos. Olhei durante alguns segundos para aquilo e
ele se apressou em dizer, envergonhado, que um ou dois homens haviam ajudado-no a carregá-los. Tinha os cabelos engomados do
que achei ser gordura natural e usava um terno de ombreiras muito grandes para seu tórax estreito. Havia também uma gravata
borboleta. Fumava de uma maneira doentia, me pareceu, agarrando os cigarros pela metade, apertando-os e exalando a fumaça
enquanto falava, polidamente, sobre o que havia adquirido. Abrimos a janela embaçada de pó. Disse ter gasto muito dinheiro em
equipamentos de som, e que o que eu via era só o mais urgente, o que ele poderia trazer pessoalmente. Uma embarcação, uma
balsa, chegaria em Zápara dali a alguns dias, levando o resto. Juan me explicou que seu primeiro ato como o homem rico que se
tornou vendendo instrumentos musicais na cidade foi comprar a roupa que eu via. Tinha sido um pescador durante toda a vida,
pelo menos até uns oito meses atrás, e nada o deixava mais insatisfeito em sua antiga profissão do que ser obrigado a vestir
trapos. É subumano, afirmou, é subumano, repetiu, todos precisamos de luxo. Juan falou sobre o que acontecia em Zápara, sobre
um movimento de bandas, sobre como essas bandas, surgidas do dia para a noite, eram como uma doença medieval, uma peste nos
corpos juvenis, em sua expressão, se espalhando a partir de uma banda maior, que ele a todo momento se referiu apenas como
Banda, e não com o nome próprio que ela deveria ter, ao passo que todas as outras eram chamadas pelos seus nomes reais,
normalmente duplos, numa mistura entre castelhano e inglês, coisas como Drifting Perros e Las Tender Gónodas, o esperado,
você sabe, nada de surpreendente, o que me obrigou a perguntar qual era o nome da Banda, que, ele disse, se chamava mesmo e
simplesmente Banda. Fiquei um pouco desapontado. Tirou então de uma das sacolas uma guitarra de plástico rosa, bem menor do
que qualquer guitarra que eu já havia visto. Tinha teclas no lugar das cordas. Em silêncio, pôs oito pilhas grandes em um
compartimento, a ligou e apertou duas notas, que reconheci serem um dó e um lá, segurando longamente cada uma delas, fechando
os olhos e imitando um cantor mudo. Tentei disfarçar meu sorriso e amenizar o ridículo da cena. Juan olhou para mim sem
alterar sua expressão e disse: Isso é dinheiro, hombre. Toda a molecada só quer saber da Banda. Têm doze ou quinze anos, e
querem ser como Lucho. Mas não há paciência para aprender a tocar. Ninguém quer tocar música, como antigamente, me disse
Juan, dono de uma cicatriz fibrosa no meio da testa. Eles só querem largar a vida deles e ser como Lucho, Pierre e Sebástian,
encarnarem nesses outros, afirmou sobre quem eu intui serem os integrantes da tal Banda. Olhei para fora, e vi que passávamos
por um povoado de pequenos andinos que não se incomodavam com o serpentear barulhento do trem, tal fôssemos parte da paisagem
natural. Vestiam aqueles chápeus engraçados e ponchos com motivos turísticos e carregavam rádios, sacolas e pastas de
negócios. Acho que vi também uma lhama. Continuavam andando, e me pareceu que eles nunca faziam nada além de se movimentar,
que esse movimento não tinha sentido que não si mesmo. Ao me virar, perguntei a Juan o que havia para se fazer em Zápara, que
cidade é essa, como posso ganhar algum chegando lá. No que ele disse: O comércio, o comércio emprega muito, as possibilidades
são enormes, e acendeu mais um cigarro. É claro, há também a pesca, tudo que temos vem do lago ou do trem, mas a pesca eu não
recomendo, disse e voltou a dizer essa frase de novo. Terminado o assunto, nos calamos e, olhando as plantas, casebres e
animais que deixávamos para trás rapidamente, adormeci e sonhei que era o maquinista do trem. Ao acordar, já era noite e o
fedor do cigarro havia se misturado ao cheiro do couro velho que forrava o banco em que eu apoiara a cabeça e o estranho
comerciante, Juan, me olhava com muita curiosidade. Depois de balançar o corpo como um alienado, provavelmente concordando
com os planos que haviam habitado-no durante meu sono, disse que eu era um rapaz bem apessoado, saudável, instruído e
multilíngue, o que não entendi perfeitamente. Disse que tinha se afeiçoado a mim assim que percebeu que dividiríamos a cabine
e que eu parecia alguém que tinha os olhos virados para a frente, para o futuro, e não para o passado, e que isso era bom,
indicava vontade, integridade e força moral, afirmou. Por isso, disse, quero lhe oferecer uma vaga em nossa loja, uma pequena
loja com grandes ideais. Ergui minha coluna, esfreguei meus olhos e disse sim. Aceitei de pronto, sem dúvidas ou tempo para
pensar, inundado pela simples sensação de que não havia nada a perder, pelo poder da pergunta por que não. Agora serei um
funcionário de uma pequena loja de instrumentos musicais e afins, G., e com chances de ascender nessa curta hierarquia. Sinto
que as coisas vão bem para mim, intuo isso. Quem diria, ahn? Depois, meu novo patrão pegou-me pela mão e levou-me até o
vagão-bar, que tinha as cadeiras descoladas do piso, cadeiras que dançavam conforme o trem sacolejava, feitas de metal velho
e esverdeado. Juan pediu duas doses de aguardente, da bebida mais cara que o garçom de jeans e camiseta regata poderia
vender, e brindamos, observados pelo o que me pareceu ser  uma velha prostituta e seu neto, brindamos em uma das doze mesas
apertadas do vagão-bar, e depois ele passou o tempo todo tentando me falar sobre seus negócios, mas não vale a pena lhe
contar sobre isso, G., eu mal me lembro de suas lições. De fato, estava no lago, chamemos esse lago de Maracaibo, e nadava
entre as pequenas plantas que povoam seu fundo, afastando-as com as pontas dos dedos, sei lá porque me pensei entre essas
plantas, só me pareceram algo interessante de se pensar, poético e bobo, ideais para compor o momento, imaginava o
verde-escuro distante da água, o arco de pedrinhas que estilhaçam a superfície lá em cima, em aves barulhentas vistas como
borrões agitados, pensava nesse meu Maracaibo, de onde sairíamos para chegar a Z. Os fatos se desenrolam rápidos aqui, irmão.
Abraços aos nossos.

Sexta-feira, 8h56

G., no trem conheci um homem que se diz um empreendedor. Como a maior parte dos que nos acompanhavam, estava na capital fazendo compras, e tive que dividir a pequena cabine com seus sacos plásticos. Olhei durante alguns segundos para aquilo e ele se apressou em dizer, envergonhado, que um ou dois homens haviam ajudado-no a carregá-los. Tinha os cabelos engomados do que achei ser gordura natural e usava um terno de ombreiras muito grandes para seu tórax estreito. Havia também uma gravata borboleta. Fumava de uma maneira doentia, me pareceu, agarrando os cigarros pela metade, apertando-os e exalando a fumaça enquanto falava, polidamente, sobre o que havia adquirido. Abrimos a janela embaçada de pó. Disse ter gasto muito dinheiro em equipamentos de som, e que o que eu via era só o mais urgente, o que ele poderia trazer pessoalmente. Uma embarcação, uma balsa, chegaria em Zápara dali a alguns dias, levando o resto. Juan me explicou que seu primeiro ato como o homem rico que se tornou vendendo instrumentos musicais na cidade foi comprar a roupa que eu via. Tinha sido um pescador durante toda a vida, pelo menos até uns oito meses atrás, e nada o deixava mais insatisfeito em sua antiga profissão do que ser obrigado a vestir trapos. É subumano, afirmou, é subumano, repetiu, todos precisamos de luxo. Juan falou sobre o que acontecia em Zápara, sobre um movimento de bandas, sobre como essas bandas, surgidas do dia para a noite, eram como uma doença medieval, uma peste nos corpos juvenis, em sua expressão, se espalhando a partir de uma banda maior, que ele a todo momento se referiu apenas como Banda, e não com o nome próprio que ela deveria ter, ao passo que todas as outras eram chamadas pelos seus nomes reais, normalmente duplos, numa mistura entre castelhano e inglês, coisas como Drifting Perros e Las Tender Gónodas, o esperado, você sabe, nada de surpreendente, o que me obrigou a perguntar qual era o nome da Banda, que, ele disse, se chamava mesmo e simplesmente Banda. Fiquei um pouco desapontado. Tirou então de uma das sacolas uma guitarra de plástico rosa, bem menor do que qualquer guitarra que eu já havia visto. Tinha teclas no lugar das cordas. Em silêncio, pôs oito pilhas grandes em um compartimento, a ligou e apertou duas notas, que reconheci serem um dó e um lá, segurando longamente cada uma delas, fechando os olhos e imitando um cantor mudo. Tentei disfarçar meu sorriso e amenizar o ridículo da cena. Juan olhou para mim sem alterar sua expressão e disse: Isso é dinheiro, hombre. Toda a molecada só quer saber da Banda. Têm doze ou quinze anos, e querem ser como Lucho. Mas não há paciência para aprender a tocar. Ninguém quer tocar música, como antigamente, me disse Juan, dono de uma cicatriz fibrosa no meio da testa. Eles só querem largar a vida deles e ser como Lucho, Pierre e Sebástian, encarnarem nesses outros, afirmou sobre quem eu intui serem os integrantes da tal Banda. Olhei para fora, e vi que passávamos por um povoado de pequenos andinos que não se incomodavam com o serpentear barulhento do trem, tal fôssemos parte da paisagem natural. Vestiam aqueles chápeus engraçados e ponchos com motivos turísticos e carregavam rádios, sacolas e pastas de negócios. Acho que vi também uma lhama. Continuavam andando, e me pareceu que eles nunca faziam nada além de se movimentar, que esse movimento não tinha sentido que não si mesmo. Ao me virar, perguntei a Juan o que havia para se fazer em Zápara, que cidade é essa, como posso ganhar algum chegando lá. No que ele disse: O comércio, o comércio emprega muito, as possibilidades são enormes, e acendeu mais um cigarro. É claro, há também a pesca, tudo que temos vem do lago ou do trem, mas a pesca eu não recomendo, disse e voltou a dizer essa frase de novo. Terminado o assunto, nos calamos e, olhando as plantas, casebres e animais que deixávamos para trás rapidamente, adormeci e sonhei que era o maquinista do trem. Ao acordar, já era noite e o fedor do cigarro havia se misturado ao cheiro do couro velho que forrava o banco em que eu apoiara a cabeça e o estranho comerciante, Juan, me olhava com muita curiosidade. Depois de balançar o corpo como um alienado, provavelmente concordando com os planos que haviam habitado-no durante meu sono, disse que eu era um rapaz bem apessoado, saudável, instruído e multilíngue, o que não entendi perfeitamente. Disse que tinha se afeiçoado a mim assim que percebeu que dividiríamos a cabine e que eu parecia alguém que tinha os olhos virados para a frente, para o futuro, e não para o passado, e que isso era bom, indicava vontade, integridade e força moral, afirmou. Por isso, disse, quero lhe oferecer uma vaga em nossa loja, uma pequena loja com grandes ideais. Ergui minha coluna, esfreguei meus olhos e disse sim. Aceitei de pronto, sem dúvidas ou tempo para pensar, inundado pela simples sensação de que não havia nada a perder, pelo poder da pergunta por que não. Agora serei um funcionário de uma pequena loja de instrumentos musicais e afins, G., e com chances de ascender nessa curta hierarquia. Sinto que as coisas vão bem para mim, intuo isso. Quem diria, ahn? Depois, meu novo patrão pegou-me pela mão e levou-me até o vagão-bar, que tinha as cadeiras descoladas do piso, cadeiras que dançavam conforme o trem sacolejava, feitas de metal velho e esverdeado. Juan pediu duas doses de aguardente, da bebida mais cara que o garçom de jeans e camiseta regata poderia vender, e brindamos, observados pelo o que me pareceu ser  uma velha prostituta e seu neto, brindamos em uma das doze mesas apertadas do vagão-bar, e depois ele passou o tempo todo tentando me falar sobre seus negócios, mas não vale a pena lhe contar sobre isso, G., eu mal me lembro de suas lições. De fato, estava no lago, chamemos esse lago de Maracaibo, e nadava entre as pequenas plantas que povoam seu fundo, afastando-as com as pontas dos dedos, sei lá porque me pensei entre essas plantas, só me pareceram algo interessante de se pensar, poético e bobo, ideais para compor o momento, imaginava o verde-escuro distante da água, o arco de pedrinhas que estilhaçam a superfície lá em cima, em aves barulhentas vistas como borrões agitados, pensava nesse meu Maracaibo, de onde sairíamos para chegar a Z. Os fatos se desenrolam rápidos aqui, irmão.

Abraços aos nossos.

Leia o início de Zápara

Zápara 1

1
Desculpe a demora, G., mas é que só poderia lhe escrever quando estivesse a uma distância segura. O importante é que vou bem, digo, que minha saúde está ótima, que sinto estar no controle. Escrevo sentado em uma mesa da praça de alimentação e como um sanduíche. Cercado de irmãos, estranhos irmãos, gente pequena e amarelada, pessoas que nunca imaginei existir. Há muitas crianças, sentadas em caixotes ou em malas maiores do que elas. Tudo cheira a queijo e a fumaça automotiva, embora isso não seja uma rodoviária. Devo pegar o trem das seis e quarenta, vou para o lago, e de lá tentarei conseguir um ônibus que me leve até a cidade que escolhi viver. Digo apenas que seu nome é fabuloso, e que por esse nome eu me apaixonei. Digamos que se chama Zápara.

Quinta-feira, 15h25

Desculpe a demora, G., mas é que só poderia lhe escrever quando estivesse a uma distância segura. O importante é que vou bem, digo, que minha saúde está ótima, que depois de tanto tempo sinto estar no controle. Escrevo sentado em uma mesa da praça de alimentação e como um sanduíche. Cercado de irmãos, estranhos irmãos, gente pequena e amarelada, pessoas que nunca imaginei existir. Há muitas crianças, sentadas em caixotes ou em malas maiores do que elas. Tudo cheira a queijo e a fumaça automotiva, embora isso não seja uma rodoviária. Devo pegar o trem das seis e quarenta, vou para o lago, e de lá tentarei conseguir um ônibus que me leve até a cidade que escolhi viver. Digo apenas que seu nome é fabuloso, e que por esse nome eu me apaixonei. Digamos que se chama Zápara.

Abraços aos nossos.

EQUADOR/CUENCA

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