As cicatrizes de Arapiraca
Foi-se o tempo em que Arapiraca era apenas a cidade do ASA, time que eliminou o Palmeiras da Copa do Brasil uns anos atrás. As denúncias envolvendo sacerdotes de lá trocaram a fama da cidade: de “terra do ASA” para terra do “Arrasa”. Esse é o verbo mais adequado pra descrever a amplidão do efeito que a reportagem do Conexão Repórter causou em mim e e muitos irmãos de caminhada, seminaristas ou não, cristãos ou não.
Assisti ao programa no Youtube (tenho vergonha de postar os linsk aqui) na segunda-feira à tarde. Dormi mal. Acordei com o estômago embrulhado. Na faculdade, evitei conversas. Estava interiormente desbaratinado. Minha vontade era de me prostrar no chão e esperar o mundo terminar. Perdi o norte, ainda que por alguns minutos.
Num rompante, deixei o prédio da Faculdade e fui para um jardim, perto do estacionamento. Ali encontrei uma árvore com uma sombra agradável. Sentei-me. E meu mundo desabou em lágrimas, num misto de penitência, raiva e pedido de perdão. Vinte minutos em que pude imaginar uma milésima parte da agona de Jesus naquela madrugada no Monte das Oliveiras.
A consolação de Deus se revelou na brisa suave, como um afago. O céu azul e a revoada de passarinhos tentavam mostrar que o Sol nasce pra todos, como verdadeiro sinal do Amor Maior.
Como cristão católico, estou envergonhado. Bato no peito e me penitencio pelas faltas cometidas por ministros da Igreja e pelos incontáveis danos causados por eles em tantas vidas, famílias e comunidades.
No entanto, incentivado pela fé na Verdade e amparado pelos amigos, tento tirar desse episódio uma oportunidade de fortalecimento. Passo a viver ainda mais desafiado a dar testemunho de vida e de humanidade, confiando em Deus como infinitamente Misericordioso, como aquele que nos consola em todas as nossas aflições.
PS: Segue aqui uma entrevista importante do monsenhor Charles J. Scicluna, promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, fiscal do Tribunal da Santa Sé, que ajuda a investigar os delitos que a Igreja considera mais graves, entre eles a pedofilia.


