Os sentidos da renúncia de Bento XVI

A renúncia do Papa Bento XVI, anunciada na última segunda-feira, e amplamente reverberada por especialistas, cronistas (entre eles o sempre incisivo e competente Matheus Pichonelli), analistas (entre os quais o amigo Leandro Beguoci) – e vários oportunistas, como em todo grande fato jornalístico – chama atenção pelo “ineditismo” (o último pontífice a entregar o cargo fora Gregório XII, em 1415) e pela amplitude de reverberações. É inegável que, como fato noticioso, um evento que se manifesta depois de quase seiscentos anos vai gerar um grande alvoroço. O que se estranha é o súbito interesse de setores da mídia que já davam como emudecida a voz da Igreja e que há algum tempo decretavam o triunfo do secularismo e da indiferença religiosa no seio da sociedade hipermoderna.

13fev2013---papa-bento-16-celebra-missa-da-quarta-feira-de-cinzas-na-basilica-de-sao-pedro-no-vaticano-1360773204698_956x500

Dois grandes focos dos comentários disponíveis aí afora merecem uma discussão mais aprofundada: a avidez dos analistas em descobrir os reais motivos da renúncia e, de outro lado, a roda de especulações sobre a sucessão do pontífice e os rumos da Igreja Católica.  Não se pode ser leviano, ou historicamente desonesto, a ponto de desconsiderar que, nos sete anos de papado, Bento XVI enfrentou celeumas espinhosas – pedofilia, camisinha na África, as suspeitas sobre o patrimônio financeiro do Vaticano. Isso mexeria com o estômago e o coração do presidente de qualquer empresa. Ao lermos humanamente o percurso histórico da Igreja, não faltaram, pelos séculos a fio, pessoas (inclusive papas) que colocaram o pecado da vaidade e da ganância acima dos valores do Evangelho e da pregação cristã. Desse modo, é plausível que Bento XVI tenha perdido as forças por conta de ter visto o que não queria ver, ou ter se deparado com um caminho político que destoou da linha-mestra de demandas que o levaram a conquistar a eleição no conclave de 2005. No entanto, poucos analistas se debruçaram em refletir a possibilidade de que a renúncia de Bento XVI tenha sido meramente um ato de um homem cansado – por mais improvável que isso possa parecer. Se, na visão secularista, a Igreja Católica é uma corporação que disputa as migalhas do mercado religioso que ainda subsiste, nada mais natural que o afastamento do CEO para reoxigenar a política de trabalho.

Como teólogo, Ratzinger – e, depois, Bento XVI – deu um precioso contributo à racionalidade do discurso católico, fundamentando com primazia as teses e conferindo ainda mais autoridade à doutrina. Como pontífice, assumiu na carne o espinho  de suceder o carismático João Paulo II e trouxe para si o encargo de  firmar as bases de um catolicismo mais ortodoxo depois da conturbada recepção do Concílio Vaticano II em alguns setores da Igreja. Esse duplo desafio esgotou suas energias físicas e espirituais, como o ele mesmo destacou na sua carta de renúncia.

Outro aspecto pra se pensar é sobre o futuro da Igreja.  Há um ditado, comum nos tempos de sucessão pontifícia: “Aquele que entra papa no conclave, deixa-o como cardeal”. Joseph Ratzinger entrou na Capela Sisitina como papa – favoritíssimo – em 2005. E assim saiu. Hoje, se especulam quais seriam os papabile. As conjecturas sobre a idade do novo papa e simbologia da origem geográfica do pontífice aparecem voluptuosamente. As demandas pastorais da Igreja, o relacionamento com a sociedade de hoje, os entraves para a fixação do catolicismo como dado cultural no século XXI – tudo isso surge nos comentários como a pauta das conversas entre os cardeais antes do fechamento das portas.

Esse volume grande de informações, especulações, comentários – ora importantes, ora inoportunos – parece gerar pelo menos três reações muio claras: aos católicos engajados no seguimento às orientações do magistério de Bento XVI, a  gratidão pelo trabalho realizado e, no momento seguinte, a revolta contra os críticos pela politização barata de um assunto que perpassa o dado da fé; aos católicos de tradição, os ditos não-praticantes, a curiosidade em saber porque o papa renunciou e o desejo de ver o dia em que  a Igreja vai ser mais aberta, especialmente no campo da moral sexual; e, entre os não-crentes, a natural reação de tratar o momento como fato histórico e político, buscando entender as motivações e impulsos que levarão à escolha do sucessor de Ratzinger.

Como cristão católico, eu pecaria gravemente se não acreditasse com firmeza que a Igreja é uma instituição condizida pelo Espírito de Deus, e que erra na história por conta do pecado dos seus membros. Como jornalista, acompanho com atenção os comentários e procuro filtrar aquilo que soa mais coerente, e menos espetaculoso. Por fim, eis o que me resta: rezar pela Igreja e pelos seus membros, e esperar que seja frutuoso o ensinamento que o cristianismo pode oferecer, desapegando-se do poder temporal e servindo na caridade.

 

 

 

 

De repente

E eis que, de repente, o riso perde espaço
O brilho do olhar se esvai
As palavras graciosas viram ofensa
E alegria de partilhar a vida vira medo de errar outra vez

E eis que, de repente, o afeto padece
O carinho se engessa com o temor
Um muro se ergue, a distância se agiganta
E as boas histórias do passado vão pro rol do esquecimento

E eis que, de repente, o receio invade as almas
E o que era natural perde o encanto
Olhos tristes, coração tenso
Ansioso pelo passar dos dias

E eis que, de repente, o dia nasce
O sol se impõe e traz com ele a esperança
De que o anteontem volte ao hoje
Que, de repente, tudo seja como antes

Ser completo x estar inteiro

Esses dias tive uma série de boas conversas, com muitas pessoas especiais. Pareço meio destinado a revisões periódicas de rota, a momentos de alinhamento de projetos, a paradas sistemáticas para reflexão…

E, numa dessas várias conversas, fui surpreendido com uma pergunta intrigante: “o que te completa?”. Confesso que, por alguns instantes, fiquei paralisado. Sem resposta. Demorou um bom tempo pra processar esse questionamento. Imagino que você, agora, lendo isso, dê risada. Ou também fique um tanto incomodado. E essa pergunta me fez pensar um bocado.

Será que é possível, aqui, nesse mundo, encontrar algo (ou alguém, ou um projeto ou uma via de vida) que, de fato, te complete? Que te faça 100% repleto, sem necessidades, sem angústias, sem impulsos por algo mais?

A resposta que me veio à cabeça surgiu com a Teologia, com o suporte da fé. Eu disse à pessoa que me perguntou: “olha, acho que, nessa existência, eu jamais vou me ver completo. Porque esse é o mundo da parcialidade, da imperfeição, é o espaço do imponderável. Penso que a completude está naquilo que me move nesta vida, que é a contemplação da Eternidade”. Lá – divago agora – teremos a oportunidade de ver tudo face a face, como lembra o apóstolo Paulo aos coríntios.

Então, se aqui não podemos ser completos, o que nos atrai às pessoas, aos projetos, às propostas de vida? Aqui entra a questão fundamental desse post. Parece que aquilo que nos move é a compreensão de que ali, naquele caminho, naquela proposta de vida, junto àquela pessoa, teremos mais condição de estar inteiros, dedicando tudo o que temos construído em nossa vivência humana.

E, inteiros neste mundo, antevemos a completude que. um dia, com a graça divina, contemplaremos.

Silêncio x Palavra: O Papa e a Revelação de Deus

A mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2012 traz como título “Silêncio e palavra: caminho de evangelização”. Após três anos consecutivos abordando as novas tecnologias, o papel dos sacerdotes no universo digital, e a importância da autenticidade de vida e de testemunho na esfera virtual, o Papa mergulha mais fortemente na Teologia da Revelação para falar de comunicação.

E é justamente para recolocar a primazia da Palavra de Deus no universo da Revelação que o Papa articula a mensagem deste ano. É pela Palavra que Deus criou o universo; a Palavra manifestada pelos patriarcas e profetas guiou o povo de Israel; e Cristo é a Palavra encarnada entre nós.

Todavia, recorda o pontífice, O Deus da revelação bíblica fala também sem palavras: “Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu silêncio. O silêncio de Deus, a experiência da distância do Omnipotente e Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra Encarnada. (…) O silêncio de Deus prolonga as suas palavras anteriores. Nestes momentos obscuros, Ele fala no mistério do seu silêncio” (Verbum Domini, 21).

Usar do contraste entre silêncio e palavra para reafirmar a importância da comunicação é, numa perspectiva contextual, algo inusitado. Afinal de contas, a palavra vem perdendo espaço numa sociedade que pode ser considerada pós-imagética, na qual a combinação de signos no menor espaço de tempo possível é o grande motor das relações, do mercado, da vida contemporânea. Isso pode gerar, como lembra Bento XVI, um estado de euforia, de inquietação exacerbada, que impede o homem de centrar-se, de avaliar seus atos com a profundidade necessária, de desenvolver relações verdadeiramente sólidas.

O Papa faz menção aos modos pelos quais Deus fala à humanidade justamente para chamar os homens a reencontrarem com a fonte da Vida, a Origem, o Princípio Fundamental que deve reger e orientar os corações e as atitudes daqueles que professam a fé e, em última análise, de todos os homens e mulheres de boa vontade. Ao reafirmar as modalidades da revelação divina,Bento XVI exorta todos a se manterem fieis à referência ética para o bom uso da mídia, que vive em constante dinamismo.

Sobre a volta do diploma

No meu último post, falei de nostalgia, dos sonhos frequentes em relação a voltar ao trabalho nas redações, e tudo o mais. Teria sido um presságio? Acabo de ler que o Senado Federal aprovou a PEC 033, que inclui na Carta Magna a obrigatoriedade do diploma de ensino superior em Comunicação Social para o exercício da profissão de jornalista.

Nos idos de 2009, quando o diploma caiu, escrevi dizendo que a não-obrigatoriedade do diploma não iria fazer grande diferença, no frigir dos ovos. Dois anos e meio, praticamente, se passaram. Pelo visto, o impacto da queda do diploma não foi tão sentido – com algumas exceções. Cito duas. No campo do esporte, a porteira abriu pros ex-atletas virarem comentaristas, se infiltrarem nos meandros do mundo da bola e passarem a veicular especulação de bastidores como notícia (OK, tem jornalista diplomado que faz pior… ) A outra, mais complicada, surge com a confusão que o modelo CQC trouxe, estabelecendo um terreno pantanoso entre jornalismo e humor.

É claro que a decisão vai ser contestada e deverá levantar muitas questões, especialmente no meio digital. Como definir o que é produção jornalística dentro da blogosfera ou na pulverizada gama de informações disponíveis nas redes sociais? Temos muito a avançar, é fato. No entanto, fica assegurado que os cargos de chefia, coordenação e organização de conteúdo nos veículos de mídia estejam nas mãos de gente que se capacitou para tal.

Isso tudo pra dizer o seguinte: o ofício de jornalista, historicamente associado ao submundo, boemia, fumo compulsivo e desestabilidades psíquicas diversas, ganha um alicerce importante com a regulamentação constitucional. Ponto pra nós!

Ainda assim, penso que as entidades de classe deveriam ser mais contundentes, tanto na defesa dos direitos dos trabalhadores quanto na atenção ao exercício da profissão – os abusos, tanto na mídia quanto nas assessorias de imprensa, ainda são diários e difíceis de coibir.

Foi dado um passo importante. O meio dos jornalistas, agora, precisa entrar em consenso para fortalecer a categoria e dar um caráter mais sólido ao perfil da profissão. Inclusive no que se refere à qualidade no ensino das faculdades. Por que não, por exemplo, a Fenaj ranquear as insitiuições, como faz a OAB? É só uma sugestão para um jornalismo mais organizado, sem perder a ousadia esperada de todo bom jornalista.

Nostalgia

Sei que é vergonhoso manter um blog e ficar quase três meses sem escrever. Mas peço desculpas. Justifico esse lapso pela correria com os estudos e a vida como um todo, mas especialmente pela falta de um assunto que me desse o ânimo necessário pra postar aqui. E retomo esse espaço com uma reflexão particular.

Acho que essa preguiça de batucar palavras por aqui tem a ver com o seguinte: estou bem enferrujado como jornalista. Faz tempo que não lido com o ofício diário de garimpar a notícia, de editar conteúdo, de sentir a adrenalina da matéria sair da ilha de edição e ir pro ar em menos de um minuto, de entrevistar ao vivo, de passar um domingo dentro de um estádio de futebol pra uma transmissão, enfim…

Tenho sonhado sistematicamente com o trabalho de jornalista. Na noite de segunda pra terça-feira, tive mais uma dessas viagens oníricas. Sonhei que estava chegando à redação da TV. Era o primeiro dia de um freelance, não sei de quanto tempo. O esquema do sonho, como o último, é sempre recorrente: chegar na redação, cumprimentar a todos (amigos de ontem e de hoje, que entraram no meu caminho graças à profissão), ver a alegria no rosto de todos ao me verem de volta. Aí, na hora de pegar a primeira pauta pra destrinchar… o despertador ou meu próprio corpo fazem questão de interromper o caminho.

Esses sonhos recorrentes poderiam me levar a considerar algo do tipo: “meu inconsciente pede a adrenalina da profissão”. Ou ainda: “é bom ver se esse negócio de seminário está me fazendo bem”…

Ainda que não seja capaz de compreender o real apelo que esses sonhos trazem, posso perceber claramente o que eles me fazem sentir: que sou um sujeito realizado pelo que fiz como jornalista. Fiz grandes amizades, aprendi a ser mais humano, passei por excelentes escolas (as redações contuam sendo os melhores lugares pra aprender) e sou infinitamente grato a Deus por tantos projetos que pude acompanhar, ajudar a produzir e, agora, como espectador/leitor/ouvinte, posso constatar que continuam dando belos frutos.

Depois dessas linhas de tom nostálgico, alguém pode ficar com a impressão de que estou arrependido por ter deixado a vida de redação e procurado outros caminhos. Acho que não é por aí. É só saudade. E, com ela, uma deliciosa incerteza: como seria se as coisas não tivessem mudado?

Ainda bem que a vida se move e nos move com ela.

Dom Bruno, muito obrigado!

Escrevo essas linhas com a cabeça ainda dolorida, com o corpo ainda cansado. Afinal de contas, foram pelo menos dez dias de agonia, de sofrimento, de oração profunda e de preocupação ininterrupta. Dom Bruno Gamberini, nosso pai, nos deixava apreensivos por conta do agravamento do seu estado de saúde. E, desde a tarde de domingo, quando soubemos de seu falecimento, entramos no trabalho de colaboração entre todos os que congregam conosco na Arquidiocese de Campinas.

No domingo, dia 28 – memória de Santo Agostinho, um dos seus autores prediletos – o Senhor da Messe, que chamara Bruno ainda menino para o serviço da Vinha da Igreja do Brasil, o trazia para Si. Trabalho incansável como padre em São Carlos, como Bispo em Bragança Paulista e, desde 2004, como Arcebispo em Campinas.

Para Deus, a hora havia chegado.  A recompensa estava preparada. Para nós, ficou o sentimento de vazio. Foram “só” sete anos de convívio. Coloco entre aspas porque foi um tempo breve cronologicamente, mas de uma intensidade digna dos incansáveis operários que Deus providencia em favor da humanidade. Dom Bruno foi pai, conselheiro, amigo. Dono de um otimismo sem par, de uma percepção aguçada, de um sorriso divino, Dom Bruno soube lidar, como poucos, com as “disparidades de temperamento”, como lembrava Dom Pedro Carlos Cipolini, Bispo de Amparo, na homilia de uma das missas exequiais.

As conversas com Dom Bruno eram sempre acalentadoras. Por mais que o cansaço físico e mental dele fosse visível, sempre vinha um sorriso e uma frase de otimismo. Mesmo quando o contexto da Igreja era desfavorável, ele trazia de novo a esperança imperecível do Cristo.

Tive a alegria de partilhar diversos momentos muito especiais na presença de Dom Bruno. Cito um, em particular: certo domingo, na paróquia em que eu trabalhava em Sumaré, Dom Bruno presidiu uma celebração de Crisma e, depois, foi almoçar na casa paroquial. O cardápio era galinha caipira ensopada com polenta. Vendo que o almoço tardava, ele não teve dúvidas. Arregaçou as mangas da camisa e foi pro fogão, mexer a polenta, enquanto prozeava com a gente.

Além disso, lembro com carinho de tantas reuniões que tivemos ao longo de 2009 na preparação do 7° Plano de Pastoral da Arquidiocese. Praticamente toda terça-feira, nos reuníamos com a equipe de planejamento no centro de pastoral. E Dom Bruno, depois de uma tarde inteira de atendimento, sempre fazia questão de ir até a sala, cumprimentar a cada um. “E aí, meu filhote? Como andam as coisas?”, perguntava. E, ao final da resposta, sempre depois de uma palavra de incentivo, vinha o “muito obrigado”, que ele jamais esquecia de pronunciar.

Agora, contemplando essa vida de entrega e dedicação ao próximo, todos os que convivemos com Dom Bruno é que dizemos: “Muito obrigado”.

Conhecer para Evangelizar

Estive esta semana numa partilha de experiência sobre o 7° Plano de Pastoral Orgãnica da Arquidiocese de Campinas. Foi uma experência proveitosa de tomar contato com as comunidades, pastorais, numa realidade que já conhecia, mas estava distante de mim.

Num dos assuntos da nossa conversa, chegamos a um dilema: o que precisamos para anunciar com alegria a Boa Nova de Jesus? Que instumentos não são necessários para “convercer” nossos irmãos de que o caminho proposto por Cristo é uma boa proposta de vida?

Depois de muito conversarmos, chegamos às Exigências da Evangelização propostas pela CNBB. Ali, pela ordem, a propagação da boa notícia deve se dar no Serviço, no Diálogo, no Anúncio e no Testemunho de Comunhão.

O que é serviço? É despojamento, disposição, vontade…. sem dúvidas. Mas é, especialmente, CONHECIMENTO e INSERÇÃO. O Serviço se traduz no conhecer, no ganhar confiança, no fazer-se próximo, no estar junto, no caminhar ao lado, como fez o Cristo com os que iam a Emaús.

‘Primeiro se escuta, para depois falar”, lembra minha querida Vó Carmem, no alto dos seus 83 anos. Isso é Diálogo, e Anúncio. Fala-se a partir do que se ouve. Se não ouvimos, nosso anúncio é vazio…

Testemunho é o mais importante. Notadamente. Mas de nada vale propagarmos uma vida ilibada e “sem defeito” se não somos capazes de nos fazer conhecer, esforçar-nos para caminharmos juntos. Como lembra o papa Bento XVI, numa pregação aos sacerdotes da diocese de Aosta, realizada em 2005: “É o ser que convence; e o fazer só convence quando é fruto e expressão do ser”.

Deus nos ajude! Amém.

Eros, Ágape, Deus e a vida espiritual

Tive a oportunidade de receber hoje uma excelente indicação de leitura: trata-se das preleções quaresmais que a cúria de Roma (inclusive o papa Bento XVI) está ouvindo. As reflexões são propostas pelo padre Raniero Cantalamessa, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.

Ao ler a primeira preleção, do dia 25 de março, tomei um grande chacoalhão de fé. Quantas brigas, discussões, desencontros eu protagonizei por conta de um “ágape sem eros”; por defender uma adesão fria, que não teve – e, muitas vezes, ainda não tem – o respaldo afetivo ao Cristo…

Parece-me que a reflexão do frei Cantalamessa merece ganhar ressonância no cotidiano, na intimidade da vida espiritual, mas também na Academia. De que forma a produção teológica de hoje se deixa afetar por essa intimidade com o Salvador? Estamos produzindo uma teologia que revela-nos como  testemunhas íntimas da Ressurreição? Nossa esperança tem se deixado abastecer por esse amor de entranhas?

Isso me faz pensar na urgente dimensão dialogal do fazer teológico. Será que o proselitismo, o doutrinalismo, a apologia não estão tomando o espaço de uma teologia cristã que seja capaz de trazer de novo a conexão inquebrantável entre Eros e Ágape na vida de fé? Penso que se faz necessária uma reflexão profunda sobre o lugar e a dimensão da teologia cristã na sociedade. Não somente como expressão de um culto religioso, mas também como fermento capaz de refletir com propriedade e sem recalques os dilemas e as dores que o mundo contemporâneo nos revela.

Na segunda preleção, do último dia 1° de abril, a certeza apregoada por João, “Deus é amor” (1Jo 4,10), é explicitada. A Trindade é Amor. O Pai tem no Filho o Amor-Espírito. E este mútuo amor intrínseco da Trindade se reflete na criação, o espaço no qual a aliança de Deus com o homem se manifesta.

O convite do frei, para crermos no amor de Deus, é algo que o mundo nos faz esquecer. Tantas relações feridas, tantas notícias de gente que não se entende, tantos complexos interiores, tanta falsidade comigo mesmo… Como é difícil manter-se firme nessa crença!

Que essas palavras tão inspiradas possam ajudar-nos a perceber que Deus nos ama primeiro. como nos lembra Cantalamessa, com misericórdia e com desejo: com ágape e eros.

Projeto de vida: caminho ou armadilha?

Faz tempo que venho refletindo sobre a fertilidade de um projeto de vida. Afinal de contas, o ser humano traça uma meta, planeja um itinerário de vida, se dispõe a um caminho. E para quê? Para ter o orgulho particular de, ao final da jornada – por mais desventuras, humilhações, gastrites e noites mal dormidas – dizer que cruzou a linha final? Que venceu?

Se for só pra isso, é pouco.

Estamos num tempo de muitas dúvidas. E poucas respostas. Um cenário desolador para quem pauta sua existência numa série tresloucada de eventos. Gente que precisa de uma vitória particular por dia para se julgar bem-sucedido.

Às vezes me pego pensando assim e, obviamente, sofro.

Tenho aprendido e experimentado que a vida não é sequência de eventos. É processo. E, por isso, tem intercorrências, contradições, fendas… que não são nossas. São contingentes.

Tomada essa consciência, são dois os caminhos. O primeiro consiste em compreender a diferença, tolerar, agir com a amabilidade que vem do Céu, expor-se com franqueza, com esperança, sem recalque. O segundo leva a elevar-se sobre o outro, usá-lo como atalho para mais uma vitória particular, garantir mais um sucesso momentâneo na falsidade, no engano, na treva, na dissimulação.

Deus nos ajude a escolher a melhor parte.

Página 2 de 2312345...1020...Última »