Os custos da desconfiança

Escrevo essas linhas depois do primeiro debate eleitoral entre os presidenciáveis no segundo turno. O confronto dos dois postulantes ao Planalto foi encarado pelos analistas mais como um festival de ataques do que como uma discussão programática e de governo. Pergunto: seria possível esperar algo diferente das posturas de Dilma e Aécio? A meu ver, não.

Dilma começou o segundo turno acuada. Primeiro por conta da instabilidade econômica, com o pico de inflação e a cada vez mais acentuada queda nas previsões de crescimento do PIB. Depois, por conta do fantasma da corrupção no núcleo petista, mais vivo do que nunca com o dito “petrolão” – o suposto esquema baseado nas denúncias do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Mesmo que, até agora, esse caso esteja somente no campo das denúncias, sem qualquer comprovação publicada, o arranhão na reputação de Dilma é profundo, e o sangramento custa a estancar. A candidata do PT é o sparring perfeito para Aécio, que vê nesses dois temas excelentes oportunidades para sobressair ao eleitor.

O candidato do PSDB, por sua vez, abriu um flanco perigoso à sua imagem ao exaltar, na campanha do primeiro turno, a sua gestão como governador de Minas Gerais. Agora, a campanha do PT tem fôlego e tempo de propaganda para apontar erros, abrir feridas e colocar em xeque a imagem de bom gestor que Aécio buscou construir. Esse cenário é favorecido pelo fraco desempenho de Aécio no seu estado de origem (perdeu para Dilma em Minas) e pela derrota do PSDB na disputa pelo governo do estado. Fernando Pimentel, do PT, foi eleito ainda no primeiro turno.

Mesmo a tímida agenda positiva dos candidatos é passível de bombardeio. Aécio busca oxigenar sua campanha com os apoios recebidos de correntes adversárias na primeira rodada de votações. Dilma vê nas alianças construídas para o segundo turno uma inconsistência de discurso por parte dos rivais. E mais: aproveita para dizer que são mínimas as chances de ser coesa uma aliança composta por Marina Silva, Eduardo Jorge e Pastor Everaldo, e endossada ao mesmo tempo por Silas Malafaia, Renata Campos e Roberto Freire.

Dilma tenta jogar a seu favor com os números dos programas de inclusão social – do Bolsa Família ao ProUni – o reconhecimento internacional da superação da fome e o impacto positivo do Mais Médicos. Aécio contrapõe mostrando falhas nos programas, sugerindo oportunidades de aperfeiçoamento e cutucando a petista sobre a tortuosa estratégia de remuneração dos médicos cubanos que estão trabalhando por aqui.

Propostas de consenso, cristalizadas nas duas campanhas, como a reforma política e o ajuste fiscal, ficaram em segundo plano nas agendas. Não é novidade. Afinal de contas, esses temas estão em propagandas eleitorais desde 1994. Ambos os pólos de poder partidário que hoje pelejam pelo Planalto já tiveram chance de levá-los a cabo. Não houve disposição política em nenhum dois para tocar essa empreitada.

A campanha está aberta. A carcaça moral dos dois partidos-capitães das coligações também. Estamos diante de um cenário de menos esperança e mais desconfiança, de parte a parte. Em 26 de outubro, o eleitor irá às urnas movido pelo ódio ou pela certeza? Vai votar no mais preparado ou no menos incoerente?

Uma eleição decidida sob esse clima custa caro ao país e à política. E quem vai pagar essa conta?

 

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