Varejão eleitoral

*artigo publicado na Folha de Valinhos de 27/09/2014

urna

Falta uma semana para as eleições 2014: hora de escolher presidente, governador, senador e deputados para a Câmara e para a Assembleia Legislativa. Muito se tem falado e escrito sobre as eleições majoritárias, o nível das campanhas e os prognósticos para o Planalto e o Palácio dos Bandeirantes, aqui em São Paulo. No entanto, pouco se pergunta e quase nada se escreve sobre as eleições proporcionais, para deputado federal e estadual.

Semana passada li um artigo na Folha de S. Paulo, de autoria do Hélio Schwartsman, que chamou minha atenção sobre a imensa quantidade de candidatos aos cargos legislativos. Você sabe quantos nomes estão à disposição, em São Paulo, para representar o estado na Câmara Federal? São 1.486 pessoas para 70 vagas. Para a Assembleia estadual, os números são igualmente assustadores: 2.128 candidatos disputando 94 vagas. Esse verdadeiro varejão eleitoral atesta, claramente, a falência do atual sistema político-partidário brasileiro. Entre tantos motivos, chamo atenção para três deles.

Primeiro: a amplitude das listas de candidatos tira dos partidos a responsabilidade de oferecer o que têm de melhor aos eleitores. Com a possibilidade de poderem inscrever até três vezes o número de vagas disponíveis na eleição, os partidos se eximem de fazer um filtro ético eficaz e abrem espaço para dois tipos moralmente questionáveis de candidato: o “puxador de votos”, que é conhecido do eleitorado, mas politicamente nada agrega; e o polpudo financiador, que engorda o caixa das campanhas e coloca em dúvidas a retidão de conduta nas agremiações.

A farra das coligações partidárias é outro vilão a ser combatido. Partidos rivais nacionalmente são aliados nos estados, e vice versa. Some-se o fenômeno dos partidos nanicos, muitos deles verdadeiros balcões de negócio, que são usados como meio de vida de suas lideranças para lucrarem com a locação de tempo no rádio e na TV. Temos diante de nós um sistema de alianças incoerente desde a raiz, que fragiliza qualquer construção de identidades ideológicas e transforma os acordos partidários em luxuosas casas de câmbio político.

Por fim, está escancarada a fragilidade de um sistema que permite uma votação tão ampla, que acaba por favorecer candidatos com maior potencial financeiro e dificulta a proximidade com o eleitorado. Como o candidato tem um estado inteiro de votos ao seu dispor, trabalhar por uma demanda clara ou focar em uma comunidade específica pode ser uma saída, mas tal estratégia é facilmente minada pelos candidatos que abusam da exposição midiática e investem pesado na propaganda. Há um jargão entre os marqueteiros que afirma: eleição se vence com uma trinca, composta por carisma, dinheiro e propostas. Os dois primeiros, no atual sistema, são os mais valiosos.

Voto distrital, voto em lista, financiamento público de campanhas, verticalização das coligações, cláusula de barreira… Esses termos passam pelos ouvidos da opinião pública a cada quatro anos, perto das eleições, como bandeiras dos candidatos (muitos deles postulantes à reeleição) que se dizem “contra tudo o que está aí”. O problema é que eles continuam aí. E nós, do lado de cá, permanecemos achando que só a urna basta pra que as reformas aconteçam. Consciência pra votar é fundamental. Disposição pra acompanhar os mandatos é mais importante ainda.

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