Tempus fugit

* Artigo publicado na Folha de Valinhos de 27/07/2014

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Morreu Rubem Alves. Um literato completo, cronista repleto de inspiração; um pensador loquaz, com a capacidade de captar a sutileza na complexa cadeia de relações em que o homem se envolve; um leitor perspicaz da mente, que está constantemente afetada pela dor e pelo prazer; um contemplativo da transcendência revelada, com uma genuína percepção sobre a presença divina na vida humana e na natureza ao seu redor.

Ao saber da sua morte, me lembrei de imediato de um dos seus livros de crônicas: “Tempus Fugit” (‘o tempo foge’ – ou, no popular português, ’o tempo voa’). Li-o quando me preparava para o vestibular. Com doçura e intimidade, Rubem Alves foi capaz, nesta obra, de consagrar o cotidiano à doce e, ao mesmo tempo, pesada condição da frugalidade. E me peguei pensando sobre o papel do tempo na vida humana.

Apesar da concretude dos relógios e da mecanicidade inconteste das engrenagens que fazem os ponteiros se moverem sincronicamente, o tempo medido pelos instrumentos é, antes de qualquer coisa, uma categoria humana – e, por isso, passível de subjetivação.  Afinal de contas, é possível se afirmar que alguém “perde tempo”? Qual a amarração mental que se pode fazer para definir se um tempo é bem usado ou desperdiçado? Diante dessa angústia do homem em relação à lida com o tempo, me lembro do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, um existencialista que cunhou o conceito de intencionalidade: ao decidir por uma atitude, um caminho, uma postura, o ser humano, ainda que de modo arbitrário ou inconsciente, renuncia a todas as demais infinitas possibilidades que a vida lhe oferece – inclusive a de pôr fim à própria vida.

Nosso contexto de vida pós-industrial nos coloca diante se suportes tecnológicos que, na rapidez de um clique, nos colocam em contato com pessoas que, sem essa preciosa ajuda, demoraríamos muito tempo para conseguir encontrar.  E, talvez iludidos pela armadilha da conectividade hodierna, estejamos perdendo chances preciosas de manifestar aos outros a frugalidade e a beleza de compartilhar o tempo. Sinto falta de participar de uma sociedade em que pessoas estejam dispostas a unir um segundo seu com um segundo de outros para terem, juntas, um segundo mais feliz – parafraseando a música que um dia foi tema de novela.  Mas, diante dessa corrida tresloucada pela sobrevivência, pelo sustento de cada dia, pela satisfação das necessidades que a ideologia consumista cria em nos, o que fazer?

Rubem Alves nos ajuda a responder: “Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será”. E, no fim das contas, ainda que a duras penas, a gente se convence de que o tempo, esse garoto serelepe, joga a nosso favor.

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