Os nomes da elite

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Artigo publicado na Folha de Valinhos de 17/05/2014.

Nos últimos dez dias, li pelo menos quatro artigos sobre a elite brasileira – dois na Folha de S. Paulo, um na Carta Capital e um no blog do meu amigo Mauricio Savarese, jornalista especializado em falar do Brasil para os estrangeiros. Os textos, apesar das distintas linhas de abordagem, tratam de desenhar perfis da elite nacional – sua formação, sua índole, seu caráter, suas predileções, sua (não) politização, sua contribuição (ou desserviço) para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Enfim, fui rodeado de pareceres sobre essa elite e me coloquei a pensar sobre qual a influência dela sobre o contexto que vivemos.

Se pensarmos em economia, é inegável o papel da elite na produção de bens e no agronegócio. Na especulação financeira, no entanto, o papel da elite é muito mais pujante. Se a fatia dos mais abastados na produção e na circulação de capitais é uma realidade, ainda falta muito no que se refere à participação dos milionários – e não das empresas bilionárias – na composição da carga tributária brasileira. Num dos artigos que li, de autoria do filósofo Vladimir Safatle, ele lembra que jatinhos, iates e helicópteros são livres de uma tributação anual (semelhante ao IPVA que todo dono de carro, pobre ou rico, tem que pagar). O Brasil ainda reluta para aprovar uma legislação que tribute as heranças que passem dos sete dígitos (as milionárias, não a casinha que um pai de família deixa para os filhos). O lucro dos bancos nunca foi tão expressivo. O imposto sobre o pro labore patronal está na mesma faixa de um salário de R$ 6 mil mensais (em 27,5%).  E os “muito muito” ricos pagam o mesmo que um sujeito de classe média. A elite sai ganhando.

Se analisarmos pela matriz social, a elite brasileira pouco tem ajudado. Na verdade, faz a desigualdade até aumentar. Afinal de contas, a elite paga – e caro – pata ter qualidade nos serviços, terceiriza a infraestrutura que precisa ter (nos condomínios, clubes exclusivos e praias privativas, por exemplo) e não liga muito para a situação dos direitos fundamentais de qualquer cidadão: educação, saúde, transporte, moradia. A elite tem isso tudo porque pode bancar. Lembrava com propriedade o Mauricio Savarese: a elite brasileira faz questão de usar transporte público quando viaja para a Europa, mas não move uma palha para modernizar o nosso sistema. No Brasil das elites, ônibus e trem é para pobre. A elite também desdenha das mazelas sociais. Fala-se muito em redução da maioridade penal, por exemplo. Mas não se levanta uma voz para denunciar os esquemas de corrupção no sistema prisional e a evidente falência do modelo de reclusão hoje em vigor.

Essa mesma elite segue atravancando a vida social ao politizar seu discurso com a defesa de propostas como a flexibilização da CLT – legislação que protege o trabalhador e que custa caro a quem quer ter alguém trabalhando para si. Quem quer ser patrão precisa ter custos também. É a lei da selva do capitalismo. Por outro lado, estão fora da pauta política das elites uma ampla reforma tributária, que onere mais os que consomem mais; uma reforma política, que acabe com a promíscua relação entre milionários doadores de verba e políticos-marionetes; a gestação de um verdadeiro pacto desenvolvimentista, que supere os gargalos de infraestrutura e, ao mesmo tempo, acabe com as condições sub-humanas de trabalho, moradia e serviço público.

Mas afinal: quem é a elite? Ela não é composta somente por aqueles que herdaram os lugares mais altos da priâmide social num país desigualmente constituído desde a sua origem, e que usufruem dos privilégios senhoriais desde o tempo das capitanias hereditárias. Ser parte da elite não é apenas uma questão de conta bancária. É, antes, um modo de pensar a vida em sociedade. Quem pensa em viver sua brasilidade olhando só para o próprio umbigo tem também um pouco de elite dentro de si.

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